Índice de Capítulo

    O ar dentro do domo de terra ficou gelado e elétrico. A ordem de Pedro pairou sobre todos como uma lâmina suspensa. Um minuto. Sessenta segundos que pareciam se arrastar e voar ao mesmo tempo. O cheiro dominante agora era o suor frio do medo misturado ao odor terroso e úmido das paredes que os protegiam – e que em breve se tornariam sua prisão ou seu túmulo.

    Os soldados regulares, com dedos que tremiam levemente, executavam os movimentos automáticos de carregar seus mosquetetes. O tilintar dos frascos de madeira com pólvora, o ruído seco da bala de chumbo sendo enfiada no cano com a haste de metal, o clique dos cães sendo engatilhados. Cada som era amplificado, um ritual macabro na semi-escuridão. Pedro via os olhos deles, focados em suas armas, evitando olhar para os companheiros ao lado, evitando pensar no que estava do outro lado da terra.

    Do outro lado, Tainá e suas quatro irmãs de terra formavam um círculo apertado. As mãos delas, nodosas e firmes, ainda apertavam os cajados cravados no chão. Suas respirações eram sincronizadas, profundas e controladas, mas o suor que escorria por suas têmporas e a tensão visível em seus pescoços falavam do esforço colossal de manter o escudo. Tainá mantinha os olhos fechados, seu rosto uma máscara de concentração absoluta.

    “Cento e vinte… talvez cento e cinquenta passos pesados a leste”, ela sussurrou, sua voz um fio de som que só Pedro, ao seu lado, conseguiu ouvir. “Homens com botas. E… algo arrastando. Metal? Armas pesadas? Não consigo distinguir bem. A oeste… o terreno é mais irregular, há raízes grossas, o riacho barra um pouco. Menos passos. Mas ainda há. Uma linha. Como uma cerca viva.”

    Pedro assentiu, sua mente processando a informação tátil. A linha a oeste era sua única esperança. Uma cerca poderia ser rompida.

    — Mantenha a conexão — ele pediu em voz igualmente baixa. — No momento que abrir, preciso que você sinta qualquer movimento no caminho que vamos tomar. Um tropeço, uma pedra solta, um buraco… qualquer coisa que possa nos atrasar.

    Tainá abriu os olhos por um instante. Eles eram de um marrom escuro, quase da cor da terra que ela comandava.

    — Vou tentar. Mas não prometo clareza. Quando a barreira cair, vai ser… barulhento. Para todos os sentidos.

    Ele entendeu. O domo não era apenas uma proteção física; era um abafador. No momento em que caísse, eles seriam inundados pelo som do mundo exterior: os gritos dos bandeirantes, o latido dos cães, o estalo de tochas. O choque sensorial seria parte do perigo.

    Os adeptos – um homem jovem com uma gema de fogo enfiada em um anel de ferro no polegar, uma mulher mais velha que segurava uma garrafa de cantil onde a água dentro brilhava com uma luz azulada suave, e um rapaz magricela com luvas cujas pontas dos dedos eram feitas de cristal gelado – se agruparam perto de Pedro. Seus rostos eram pálidos, mas determinados.

    — Lembrem-se — Pedro disse para eles, sua voz firme cortando a tensão. — Não é sobre derrotá-los. É sobre confundi-los. Fogo: crie uma cortina de fumaça e labaredas baixas no flanco leste após a salva dos mosquetes. Água: no momento em que atacarmos a oeste, lance um jato forte no chão à nossa frente, transforme-o em lama. Gelo… — ele olhou para o rapaz das luvas e depois para sua própria adaga. — …você e eu cuidamos do chão e de qualquer coisa que tente se aproximar rápido demais. Congele. Travem. Atrasem.

    O adepto do fogo, um garoto que não devia ter mais de dezessete anos, chamado Léo, engoliu em seco.

    — E se eles tiverem… daqueles que se transformar em monstros? Como os que atacaram o Mocambo da vez passada? — sua voz saiu um pouco estridente.

    Pedro colocou uma mão no ombro do rapaz. Era gelada, mas firme.

    — Então nós corremos mais rápido. Mas hoje, Léo, eles não estão esperando por um contra-ataque. Estão esperando por presas assustadas saindo de uma toca. Vamos dar a eles uma surpresa. E por falar nisso, você como adepto do fogo tem granadas?

    Léo apenas concordou com a cabeça. — Consegui algumas antes de escapar.

    — Então as use para limpar ao leste, e depois a oeste para limpar o caminho.

    Pedro então se afastou e ergueu a adaga. A geada agora cobria não apenas sua mão, mas subia por seu pulso, formando padrões cristalinos sob a pele. A luz azulada da gema iluminava seu rosto por baixo, dando-lhe uma aparência espectral.

    — TRINTA SEGUNDOS! — sua voz ecoou contra o domo de terra.

    Nzambi, que tinha ficado ao lado de Arlindo com os regulares, pegou seu mosquete e deu um passo à frente.

    — Pedro! — ele chamou. — Quando sairmos… a flecha. A flecha do Albuquerque. Ela pode estar lá fora.

    O silêncio que se seguiu foi mais gelado que a magia de Pedro. A lembrança daquela morte silenciosa e precisa, da flecha que se movia como uma vontade própria, pairou sobre todos.

    Pedro mordeu o interior da boca. Esse era um risco que não podia ser mitigado.

    — Se ela aparecer… — ele disse, olhando para Nzambi e depois para Tainá. — …é sinal de que Albuquerque acha este ponto importante demais. Nesse caso, Tainá, no meu grito, feche a saída oeste novamente, não importa quem já tiver saído. E todos aqui dentro… — seu olhar varreu os soldados. — …vocês atiram nela. Atiram em tudo que voar. Não dá para mirar direito, mas uma parede de chumbo pode ter sorte. Entendido?

    Os assentimentos foram mudos, carregados do peso daquela possibilidade.

    — DEZ SEGUNDOS!

    Pedro se posicionou à frente do grupo de especiais, de frente para onde seria a abertura oeste. Atrás dele, os regulares se agacharam, formando uma linha irregular, os canos dos mosquetes apontando para a direção oposta, o leste. O ar estava tão carregado que parecia prestes a trincar.

    — TAINÁ! — Pedro gritou. — ABERTURA OESTE, AGORA!

    Tainá soltou um grunhido gutural. Ela e suas companheiras torceram os cajados.

    O comando de Pedro não foi um pedido. Foi um gatilho.

    Tainá e suas quatro irmãs-de-terra, já no limite da exaustão, não simplesmente “abaixaram” a parede. Elas expeliram aquele pedaço do domo. Com um esforço conjunto e gutural, elas torceram seus cajados como se fossem arrancar a própria alma do chão. A parede curva de terra e raízes, voltada para o oeste, não se abriu. Ela explodiu.

    Um bloco colossal do tamanho de uma carroça se desprendeu com um rugido profundo e seco, como um trovão nascendo do solo. Ele não caiu; foi arremessado com força bruta e mágica na direção dos atacantes que se aglomeravam a oeste. A terra compactada, misturada a pedras e raízes, transformou-se em uma salva de artilharia primitiva e brutal.

    O impacto foi horrível e eficiente. Homens que avançavam, confiantes, com facões e lanças erguidas, foram colhidos pela avalanche súbita. Gritos de alerta viraram gritos de agonia pura. O som de corpos sendo atingidos pelo bloco principal era um baque surdo e úmido. O de outros atingidos pelos estilhaços e pedregulhos que voavam como metralha era uma mistura de estalos secos e gritos cortados. Uma nuvem espessa e amarelada de poeira levantou-se no ponto do impacto, engolindo os atacantes e misturando-se ao cheiro imediato de sangue, terra revolvida e suor repentino transformado em medo.

    Por uma fração de segundo, houve um vácuo de som no lado oeste, preenchido apenas pelos gemidos dos feridos e o farfalhar da poeira assentando sobre a folhagem. O ataque coordenado dos bandeirantes, que parecia uma engrenagem bem azeitada, emperrou com violência.

    Mas apenas por um instante.

    Da névoa poeirenta e dos flancos, os gritos voltaram, agora carregados de raiva e não mais apenas de caça.

    — Eles tão saindo! Fechem o cerco!

    — Cachorros! Vai, pega! Pega!

    — À esquerda! À esquerda!

    O latido frenético dos cães de caça, que tinha ficado abafado, tornou-se estridente e próximo, um coro de fúria animal guiada. Vultos começaram a se mover nas bordas da poeira, silhuetas agachadas se reorganizando rapidamente. A surpresa tinha custado caro, mas não quebrado a espinha dorsal do ataque. A janela de oportunidade que Pedro criara estava se fechando rapidamente.

    Foi então que ele gritou, aproveitando o foco ainda voltado para o caos a oeste:

    — TAINÁ! — sua voz era um corte no ar, uma ordem impossível. — ABERTURA LESTE, AGORA! REGULARES, PREPAREM-SE!

    Dentro do domo, Tainá quase caiu. Seu nariz escorria sangue, um filete vermelho-vivo contrastando com a fuligem e o pó em seu rosto. Manter o resto da estrutura já era um milagre. Criar outra abertura era pedir o colapso total. Mas ela viu a lógica, a finta dentro da finta. Ela trocou um olhar com suas companheiras. Nos olhos exaustos delas, viu a mesma resignação feroz.

    Com um último suspiro que parecia arrancar algo vital de dentro dela, Tainá e as outras agiram de novo. Desta vez, não houve força para um projétil. A seção leste do domo simplesmente se desintegrou. Não voou; desmoronou para frente, como uma porta de areia sendo derrubada. Uma cortina de terra solta, cascalho e fragmentos menores despejou-se sobre os bandeirantes que já se preparavam para investir contra a abertura oeste, criando mais confusão e uma nuvem de poeira irmã à primeira.

    Naquele caos momentâneo de duas frentes atacadas, a voz de Arlindo rugiu de dentro da névoa de pólvora que já impregnava o domo:

    — FOGO PARA O LESTE!

    POW! POW! POW! POW!

    A descarga coordenada não foi de quinze, mas de vinte mosquetes que ainda conseguiam funcionar. O trovão foi ainda mais ensurdecedor dentro do espaço que agora estava sendo desmantelado. Labaredas laranjas e amarelas cuspiram dos canos, iluminando cenas breves e fantasmagóricas dentro da fumaça: um soldado com os olhos esbugalhados de concentração, outro tapando um ouvido com o ombro, um terceiro recuando com o impacto do couce da arma. A fumaça densa, acre e quente da pólvora queimada explodiu para trás, mas também jorrou pelas aberturas, misturando-se às nuvens de poeira. O ar tornou-se irrespirável, um miasma de enxofre, suor, pó e medo.

    Depois da rajada de balas ouviu se uma explosão de duas granadas lançadas por Léo, adicionando mais caos e morte.

    Foi o caos perfeito. Planejado, brutal e efêmero.

    — AGORA! — Pedro não gritou. Ele rosnou a palavra, um som gutural que vinha do fundo de seu ser, carregado de toda a urgência e frieza de sua magia.

    E então, ele se jogou.

    Não foi um salto elegante, mas um arremesso de todo o seu corpo para a frente, através da fenda original a oeste, para o mundo lá fora que era feito de gritos, poeira, latidos e a luz cinzenta e traiçoeira do amanhecer.

    O tempo, lá fora, parecia ter se dissolvido no caos. Cada ação — a explosão do domo a oeste, o desmoronamento a leste, a descarga dos mosquetes — havia acontecido em uma sucessão tão vertiginosa que se fundiam em um único rugido de violência e confusão. Para os atacantes, que segundos antes viam uma fortaleza de terra inexpugnável, a súbita erupção por dois lados ao mesmo tempo foi um choque que cortou sua certeza.

    O pensamento linear dos bandeirantes, acostumados a perseguir e cercar, travou. “Por qual lado?” A dúvida, rápida e venenosa, infestou o comando por um instante crucial. Os homens que avançavam para o oeste hesitaram, olhando para trás, para o barulho dos tiros a leste. Os que estavam a leste se agacharam instintivamente contra a saraivada de terra e depois de chumbo, perdendo a visão do alvo principal.

    Foi um segundo. Apenas um. Mas no ritmo desesperado da fuga, um segundo era uma eternidade, uma brecha na armadura do cerco.

    E Pedro, com a frieza de quem já tinha planejado o caos, usou aquele vazio de certeza inimiga não para correr, mas para criar sua própria saída.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota