Índice de Capítulo

    O barulho ainda ecoava nos ouvidos de Nzambi quando o instinto de sobrevivência falou mais alto que qualquer ordem. Ele se virou no mesmo segundo em que a fumaça do seu próprio mosquete ainda subia, os olhos arregalados buscando a única direção que importava: a brecha. Lá na frente, no meio da poeira amarela e da neblina artificial, a silhueta de Pedro desaparecia. O caminho a oeste.

    “Corre. Só corre”, martelou em seu cérebro, um mantra primitivo que abafou o ruído da batalha.

    Ele era o último da linha dos Regulares a se mover. Os outros já tinham virado as costas e disparado em direção à fuga, descarregando suas armas em um ato final de cobertura antes de correrem. Nzambi empurrou o homem à sua frente, um garoto novo que parecia congelado, e se lançou para fora do domo desmoronado.

    O mundo lá fora era um pesadelo de sensações contraditórias. O ar, antes abafado, agora era cortante e carregado de poeira, fazendo-o tossir instantaneamente. A luz cinzenta do amanhecer, filtrada pelas nuvens de sujeira, criava sombras longas e traiçoeiras. E o frio… um frio antinatural emanava do caminho à frente.

    Ele entendeu por quê. Enquanto corria, esbarrando em galhos baixos e tropeçando em raízes, via as bordas do caminho sendo delineadas por gelo. Pedro e o rapaz das luvas estavam moldando a rota de fuga, erguendo paredes baixas e irregulares de gelo azulado que serviam tanto para marcar o caminho quanto para atrapalhar perseguidores. O chão sob seus pés estava escorregadio e frio, mesmo através das solas gastas de suas botas.

    À sua direita, um clarão laranja violento iluminou a névoca, seguido por um BOOM profundo e gutural que fez o próprio chão tremer. Léo, o adepto do fogo, estava cumprindo sua parte. Ele não arremessava frascos improvisados, mas granadas. Bolas de ferro rugosas, do tamanho de uma laranja grande, que ele segurava com um misto de cuidado e familiaridade. A República, com os conhecimentos “de outro mundo” de Carlos, havia conseguido forjar essas armas terríveis: casulas de ferro recheadas com pólvora sem fumaça e um núcleo de estilhaços. O truque estava na ativação. Léo, com seu dom sobre o fogo, ativa a gema do fogo contidas nas granadas e as jogava sobre a barreira de gelo. O resultado era uma explosão controlada, pontual e devastadora.

    Elas não explodiam com um simples estouro, mas com uma descompressão brutal que lançava fragmentos de ferro em um raio mortal. O som da explosão abafado era seguido pelo zunido agudo dos estilhaços cortando o ar e pelo baque seco deles, madeira, terra e, ocasionalmente, carne. Uma das granadas detonou perto de um aglomerado de bandeirantes que tentavam flanquear o grupo; os gritos que se seguiram não eram mais de ordem, mas de agonia pura. Outra explodiu no alto, sobre a névoa, e sua chuva de metal forçou os atacantes a se abaixarem e procurarem cobertura, quebrando seu avanço organizado. O cheiro no ar agora mudava, acrescentando o odor metálico e acre do ferro quente e da carne queimada ao já denso cocktail de pólvora, terra e medo.

    Nzambi correu, seu coração batendo como um tambor de pânico contra as costelas. Ele passou como um vulto pelas adeptas da terra. As cinco mulheres, agora fantasmas pálidos e trêmulos cobertos de sujeira, realizavam seu último ato. Com gestos exaustos e que pareciam custar uma dor imensa, elas desestabilizaram os últimos pilares do que fora seu domo. Não com a força de antes, mas com um colapso controlado. Seções de terra desabaram atrás deles, bloqueando parcialmente o caminho e levantando mais uma cortina de poeira, cortando a visão de perseguidores imediatos e acrescentando mais caos ao déjà vu dos bandeirantes.

    “Está funcionando”, pensou Nzambi, um lampejo frágil de esperança aquecendo seu peito gelado. “Vamos conseguir. Só preciso—”

    A dor foi súbita, profunda e animal. Um peso se prendeu à sua perna esquerda, seguido por uma pressão esmagadora que fez seus ossos rangarem e um calor úmido que inundou sua calça. Um latido rouco e triunfante ecoou em seu ouvido.

    Ele olhou para baixo. Um dos cães de caça, um animal magro e musculoso com focinho manchado de sangue, tinha se esgueirado pela névoa e cravado suas presas no músculo da sua panturrilha. A dor era nítida, aguda, e trouxe consigo uma onda de náusea.

    — AHHH! MERDA!

    O grito saiu involuntário, carregado de mais pavor do que de dor. Sua mão disparou em direção à adaga na cintura, os dedos procurando o cabo familiar. Tudo se reduziu àquela lâmina, àquela única esperança de poder.

    Mas antes que seus dedos a tocassem, algo sibilou no ar ao seu lado.

    Thwack!

    Uma pedra do tamanho de um punho, arremessada com força e precisão surpreendentes, atingiu o focinho do cão com um baque seco. O animal soltou um ganido agudo de dor e surpresa, soltando a perna de Nzambi e recuando, sacudindo a cabeça.

    Nzambi, ofegante, virou-se. Tainá estava a alguns passos de distância, ainda de pé, mas parecendo feita de vidro prestes a quebrar. Seu cajado estava abaixado, um pouco de terra ainda grudada na ponta.

    — Obriga— ele começou a dizer, a palavra grudando em sua garganta seca.

    O movimento à sua esquerda foi um borrão. Um segundo cão, este maior, saltou da névoa diretamente em direção ao seu rosto. Os dentes amarelos brilharam à luz fraca.

    Nzambi congelou. O medo o prendeu no lugar, paralisando seus músculos. Ele só conseguia ver aquela boca aberta vindo em sua direção.

    Thwack!

    Outra pedra, desta vez vindo de um ângulo diferente, acertou o cão no flanco no meio do salto, desviando seu curso. O animal passou roçando no ombro de Nzambi e caiu rolando no chão gelado.

    A voz de Tainá cortou o ar, áspera e sem fôlego, mas implacável:

    — Só corre, idiota!

    Ela própria então se virou e começou a correr, seus passos pesados e instáveis, mas determinados, na direção do caminho de gelo.

    O comando, a ação, quebraram o feitiço do pânico. Nzambi engoliu o sangue e o medo, ignorou a dor latejante na perna que agora deixava um rastro úmido e quente atrás de si, e correu atrás dela. Os outros já estavam bem mais à frente, pequenas silhuetas desaparecendo na névoa entre as paredes de gelo que reluziam de forma fantasmagórica.

    Eles mal haviam dado vinte passos quando o plano desmoronou.

    A barreira de gelo à direita deles não rachou – explodiu. Estilhaços afiados de gelo voaram como cacos de vidro, sibilando pelo ar. Do buraco fumegante, saltou um homem.

    Ele era alto, vestia um gibão de couro surrado e um chapéu de abas largas de vaqueiro, desbotado pelo sol. Mas o que chamava a atenção eram suas mãos. Ou melhor, suas luvas. Elas eram de um couro negro e brilhavo com um padrão de fios de cobre costurados, e nas costas de cada uma, incrustadas como olhos malignos, pulsavam gemas de um alaranjadas. Delas, pequenas línguas de fogo dançavam e crepitavam, alimentadas não por lenha, mas por vontade.

    — Hehehe! — o riso do homem era um grasnado seco. — O velho Albuquerque tá pagando por cabeça, e bem! Pelo visto, vou faturar uma bolada aqui hoje!

    Seus olhos, pequenos e brilhantes, pousaram primeiro em Tainá, depois em Nzambi, avaliando, precificando.

    Tainá, mesmo com o rosto pálido como cera e os braços tremendo, reagiu. Era puro instinto. Ela parou, fincou o pé no chão com toda a força que lhe restava e, girando o corpo, desferiu um golpe com o cajado no solo.

    TOOM.

    Uma pedra do tamanho de uma cabeça se desprendeu do chão e disparou em linha reta em direção ao peito do piromante.

    Mas ela nunca chegou.

    No meio do trajeto, um vento forte e repentino, que cheirava a poeira e orvalho, soprou lateralmente. Não era natural. Era preciso, cortante. A pedra desviou de curso como se tivesse sido atingida por um taco, passando a centímetros do homem do fogo e espatifando-se contra uma árvore atrás dele.

    Um segundo homem desceu suavemente do topo da barreira de gelo que ainda estava intacta. Ele usava botas altas e um colete surrado, e em seu pescoço, pendurado em um cordão de couro, brilhava uma gema de um azul claro e translúcido. A gema do vento. Seus sapatos, Nzambi notou, tinham solas estranhamente espessas e padrões similares.

    — Tudo bem aí, Foguinho? — o aeromante perguntou, sua voz era surpreendentemente suave, quase divertida. — Quase se tornou um com a terra.

    O piromante cuspiu no chão, onde a saliva evaporou com um pequeno tss.

    — Cuida da bruxa da terra, Zé Vento. A recompensa por ela viva deve ser diferente. — Seus olhos percorreram o corpo exausto de Tainá com uma cobiça que fez o estômago de Nzambi revirar.

    O chamado Zé Vento seguiu seu olhar e um sorriso lento e desagradável se abriu em seu rosto.

    — Uma mulher guerreira… e dessas fortes. — Ele deu um passo à frente, e o vento pareceu carregá-lo, suavizando seus movimentos. — Pelo visto não precisamos matar logo. Podemos… negociar um pouco antes de entregar. Se é que me entende.

    Tainá tentou levantar seu cajado para outra investida, mas o movimento foi trêmulo e lento. Seus braços fraquejaram. Não havia mais força, não havia mais conexão. O poço de energia dela, a “mana” como alguns chamavam, estava seco, raspado até o fundo pelo esforço sobre-humano de manter o domo. Em vez de um ataque, ela vacilou. O cajado, pesado como uma montanha, escorregou de seus dedos sem força. Ela caiu de joelhos no chão frio, ofegante, usando as próprias mãos no solo para não tombar completamente. Estava consciente, mas derrotada. O olhar dela, antes de ferro, agora era apenas de um cansaço profundo e de um medo que ela não conseguia mais esconder.

    O piromante riu, um som horrível. Zé Vento avançou, sua mão se estendendo para agarrar o cabelo de Tainá.

    “Foge”, sussurrou uma voz covarde dentro de Nzambi. “Ela já era. Você não pode fazer nada. Corre! É sua chance!” A dor na perna latejava em uníssono com esse pensamento. Ele olhou para o caminho de fuga. Estava tão perto. A névoa de Celina ainda escondia a reta final.

    Mas então ele olhou para Tainá. Para a mulher que tinha jogado pedras para salvá-lo de cachorros, duas vezes. Que estava ali porque tinha sustentado um escudo para todos eles. Que agora ajoelhava, indefesa, com aquele olhar de medo.

    Algo dentro dele estalou.

    Não era coragem. Era uma raiva surda contra si mesmo, contra sua própria história de olhar para baixo, de aceitar, de sobreviver a qualquer custo. Uma náusea moral tão forte quanto a física.

    “Viver… mas abandonar quem me salvou?” O pensamento veio claro e frio. “Não. Chega. Fui um covarde a vida inteira. Um escravo obediente, depois um soldado não porque eu queria, e sim porque essa é a opção que me deram. Mas se vou morrer aqui nesta mata fedorenta… pelo menos não quero morrer como o covarde que abandonou seus aliados. Pelo menos essa escolha vai ser minha.”

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