Capítulo 131 - A luta de um covarde II
A decisão de ficar e lutar não trouxe paz para Nzambi. Trouve um tremor diferente, um foco estreito e mortal. Sua mão, que antes tremia, fechou-se com força de aço no cabo de sua adaga. O mundo ao seu redor – o piromante, o aeromante, a névoa, a dor – desfocou. Tudo o que existia era o homem das luvas de fogo, que agora virava sua atenção totalmente para Tainá, levantando uma mão onde as chamas cresciam em um novelo.
Nzambi não correu. Ele agiu. Mas antes de agir contra o inimigo, ele teve que agir contra si mesmo. Seus olhos se fixaram no rosto sorridente do piromante, mas sua mão, que segurava a adaga, moveu-se primeiro para o próprio antebraço esquerdo. Com um movimento rápido e sem hesitação, ele pressionou a ponta da lâmina roxa contra sua pele, abaixo do cotovelo, e puxou.
Um ardor frio e agudo, diferente da dor quente da mordida do cão, cortou sua carne. Um filete de sangue vermelho-vivo brotou do corte raso, escorrendo pelo seu braço. A adaga, como se fosse uma criatura sedenta, pareceu vibrar sutilmente, e um brilho mais profundo e sinistro emanou dela. O sangue não pingou no chão; pareceu ser absorvido pela gema roxa.
Só então, com o preço pago e a lâmina ainda firmemente em sua mão direita, ele focou no alvo. Ele não fez nenhum movimento de ataque em direção ao inimigo. Apenas olhou. Seus olhos, agora nítidos como vidro e carregados da intenção que seu próprio sangue havia comprado, travaram no rosto do piromante, fixando-se em um ponto entre seus olhos, onde o chapéu de vaqueiro fazia sombra.
Ele pensou, com toda a clareza do ódio e do sacrifício: Suma.
Não houve raio de luz, não houve som de tecido sendo rasgado. Apenas uma ausência súbita e impossível.
A cabeça do piromante, da linha do maxilar para cima, simplesmente deixou de existir. Não houve jorro de sangue, não houve grito. O que restou foi um coto abrupto e impossivelmente liso no topo do pescoço, como se a parte superior do homem tivesse sido cuidadosamente apagada da realidade. O corpo, ainda em pé por um momento, perdeu toda a tensão. As chamas nas luvas morreram instantaneamente. Então, como um poste podre, o cadáver tombou para o lado e caiu no chão gelado com um baque mudo e surpreendentemente leve.
Zé Vento saltou para trás como se o chão estivesse em brasa, seus olhos esbugalhados fixos no corpo sem cabeça de seu companheiro e depois em Nzambi — no homem que não havia se movido, que ainda segurava a adaga gotejante de seu próprio sangue, e cujo único ato havia sido um olhar mortal.
— Mas que MERDA! — a palavra foi cuspida, carregada de um horror genuíno que substituiu toda a presunção. O medo agora era matemático: distância não importava. Apenas o alcance do olhar. E o preço em sangue.
Ele se afastou mais, mantendo uma distância de uns cinco metros, seus olhos vasculhando Nzambi da cabeça aos pés, buscando entender.
— Você… foi você que fez isso? — sua voz estava mais baixa agora, cautelosa, calculista.
Nzambi apenas o encarou, ofegante. A adaga em sua mão parecia pesar uma tonelada. A euforia do ataque bem-sucedido evaporou, substituída pelo frio cálculo do próximo movimento.
“Merda. Ele se afastou demais”, pensou, o pânico tentando voltar. “Daqui não consigo alcançá-lo com o efeito. Precisa de proximidade, de foco… Talvez se eu… não, ele é rápido. Ainda dá para fugir. A Tainá…”
Ele arriscou um olhar rápido para ela. Ela ainda estava de joelhos, mas agora olhava para ele com uma expressão indefinível – choque, esperança, desespero. O medo ainda estava lá, mas misturado com algo mais.
“Posso fugir. Deixá-la. Viver mais alguns minutos.” A opção covarde sussurrava, doce e lógica. Mas o gosto dela agora era de cinzas e vergonha.
“Prefiro morrer”, ele pensou, e a simplicidade final daquela ideia foi quase um alívio. “Pelo menos não vou morrer como um covarde que abandona quem lutou por ele.”
Ao pensar isso, sentiu um novo tipo de força, desesperada e sem volta, subir por suas pernas. Ele apertou a adaga até seus nós dos dedos ficarem brancos, e, com um grito rouco que era mais raiva do que coragem, correu em direção a Zé Vento.
O aeromante não esperou. Ele pulou para trás novamente, uma reação quase instintiva, mantendo a distância com uma agilidade frustrantemente fácil.
— Já percebi seu truque! — Zé Vento gritou, sua voz recuperando um fio de confiança. — Você precisa estar perto, não é? Afinal minha cabeça ainda tá no lugar. Uma coisa que aprendi nessa vida de caçador de escravos e mercenário: não existem gemas onipotentes. Todas têm suas regras, seus limites. A sua… é a distância.
Nzambi correu, sua perna ferida queimando a cada passo, mas o homem simplesmente recuava, flutuando quase, impulsionado por rajadas de vento controladas que saíam de suas botas.
— Mas eu já cansei desse pega-pega infantil — disse Zé Vento, e parou de recuar.
Em vez disso, ele se agachou levemente e deu um salto colossal para o alto, impulsionado por uma explosão de vento concentrada sob seus pés. Ele subiu três, quatro metros no ar, pairando por um instante contra o céu cinza. Então, ele caiu. Não apenas caiu; ele se atirou para baixo, os pés à frente, e ao tocar o solo com força total, uma explosão de energia eólica foi liberada.
VOOOOOOM!
Não foi uma ventania. Foi um muro de ar concussivo que se expandiu a partir dele em todas as direções. O impacto atingiu Nzambi como um pontapé de mula no peito, arrancando-lhe o fôlego e arremessando-o para trás. Seu corpo girou no ar antes de bater com força contra o solo gelado, a cabeça batendo em uma raiz exposta com um baque surdo e profundo que ecoou dentro de seu próprio crânio.
O mundo desapareceu em uma explosão de estrelas brancas e dor cegante.
Por alguns segundos que pareceram uma eternidade, não houve nada. Apenas um zumbido agudo nos ouvidos e uma escuridão densa e aconchegante que puxava ele para baixo. A consciência esvaía-se como água entre os dedos.
Mas algo o puxou de volta. Um instinto primitivo, mais forte que a concussão. A sobrevivência.
Ele abriu os olhos. A visão veio turva, dupla, pulsando em sintonia com a dor latejante em sua têmpora. O mundo girava lentamente. Ele estava de costas, olhando para o céu cinza que começava a clarear. O cheiro de terra molhada, pólvora e sangue enchia suas narinas.
E então, os sons voltaram, primeiro abafados, depois mais claros: gritos, ordens, o latido frenético dos cães.
Ele virou a cabeça, uma tarefa agonizante. A cena que se revelou foi um pesadelo em câmera lenta.
O vento de Zé Vento havia varrido a névoa e a poeira. A clareira agora estava exposta, iluminada pela luz crua do amanhecer. E nela, pelo menos dez, quinze bandeirantes que haviam conseguido atravessar a barreira de terra desmoronada agora avançavam, seus olhos famintos fixos em dois alvos: ele, caído no chão, e Tainá, que estava a uns vinte metros, tentando se levantar com dificuldade, apoiada em seu cajado como um náufrago em uma tábua.
O mais próximo estava a apenas três passos de Nzambi, um homem barbado com um facão largo erguido acima da cabeça, os olhos brilhando com a antecipação de um golpe fácil.
O tempo parou.
Nzambi não pensou. Agiu.
Com um movimento que foi puro reflexo, ele rolou para o lado, sentindo o facão cortar o ar onde seu pescoço estivera um instante antes, enterrando-se na terra com um som úmido. No mesmo movimento contínuo, sua mão direita, que ainda mantinha um punho de ferro em torno da adaga, moveu-se. Não contra o atacante. Contra si mesmo.
Ele pressionou a ponta da lâmina roxa contra a palma de sua mão esquerda e puxou.
A dor foi um clarão branco e quente, diferente da dor fria e surda da cabeça. Um corte limpo e profundo se abriu em sua palma, e o sangue jorrou, quente e vivo. A gema da adaga vibrou em sua mão, um pulso quase imperceptível que ele sentiu nos ossos, e o sangue pareceu ser sugado pela lâmina, desaparecendo em um instante.
Só então ele olhou para o homem do facão, que já se recuperava do golpe falho e se preparava para outro.
Nzambi focou. Não no corpo, não no facão. Nos olhos do homem, cheios de uma fúria agora manchada de dúvida.
“Suma”
A cabeça do bandeirante simplesmente deixou de existir. O corpo permaneceu em pé por uma fração de segundo, ainda na postura de ataque, antes de desmoronar para o lado, o facão escapando de dedos inertes.
Nzambi não esperou. Ele se levantou, o mundo balançando perigosamente ao seu redor. A dor na cabeça era uma batida constante, e a palma da mão latejava. Mas a adrenalina era um fogo em suas veias.
“Tainá.”
Seu olhar varreu a clareira até encontrá-la. Ela estava cercada. Dois homens se aproximavam por um lado, um terceiro pelo outro. Zé Vento, ele notou de relance, estava parado um pouco mais longe, observando, calculando, um sorriso curioso em seus lábios, como um espectador apreciando um espetáculo sangrento.
Nzambi correu. Não em uma linha reta, mas em zigue-zague, um alvo em movimento. Enquanto corria em direção a Tainá, seu cérebro trabalhava com uma clareza febril. Cada passo, cada respiração, era contabilizado.
O primeiro homem a seu caminho ergueu uma lança. Nzambi não diminuiu a velocidade. Ele levou a adaga ao corte já aberto em seu antebraço, raspando a lâmina contra a ferida. Um novo jorro de sangue. “Suma”. A cabeça dele sumiu. O corpo junto com a lança caíram de lado.
Nzambi passou por ele.
Dois mais à frente, avançando em uníssono. Ele sentiu a fraqueza chegando, uma névoa na borda de sua consciência. “Não. Ainda não.” Ele pressionou a adaga contra o corte da palma novamente, reabrindo-o. A dor foi nauseante. “Sum, sumam!”. Duas cabeças evaporaram-se simultaneamente, os corpos colidindo um com o outro antes de caírem.
Ele estava a sete metros de Tainá. Ela o viu chegando, seus olhos exaustos acendendo com um último lampejo de esperança. Ela tentou levantar o cajado, mas não tinha força.
Foi então que Zé Vento, o espectador, decidiu entrar no jogo.
Ele não correu. Ele pulsou.
Com um movimento que parecia desafiara física, ele deu um salto curto e impossivelmente rápido, impulsionado por uma explosão concentrada de vento sob seus pés. Não foi um salto alto, mas um salto preciso. Ele cobriu os últimos metros que o separavam de Tainá em um arco baixo e aterrissou exatamente ao lado dela, seu movimento tão suave que mal perturbou o ar.
Nzambi viu, mas estava a um passo de distância. Um passo que parecia um abismo.
— Chega de brincadeira — disse Zé Vento, sua voz um sussurro carregado que chegou aos ouvidos de Nzambi com clareza diabólica.
O aeromante não desferiu um golpe. Apenas se abaixou, envolveu Tainá com um braço em torno de sua cintura e a puxou para si. Ela tentou reagir, mas seus movimentos eram lentos, pesados, como se estivesse se movendo sob água. Suas mãos bateram fracamente contra o braço de Zé Vento.
— Você vai ser minha — ele sussurrou, desta vez diretamente no ouvido dela, seu hálito quente contra seu rosto pálido. — Vou me divertir muito com você antes de entregá-la ao Albuquerque. Um prêmio dentro do prêmio.
A expressão de Tainá foi de puro horror e nojo. Ela lutou com renovada força, um último surto de dignidade, mas Zé Vento apenas riu, apertando-a com mais força.
— NÃO! — O grito de Nzambi rasgou sua garganta, carregado de um desespero tão profundo que ofuscou a dor.
Ele se lançou para frente, a adaga erguida, disposto a cortar seu próprio braço inteiro se necessário para fazer aquele homem desaparecer.
Mas seus pés não se moveram.
Ele olhou para baixo. Do solo, vinhas grossas, escuras e nodosas haviam brotado como serpentes, envolvendo seus tornozelos e canelas com uma força implacável. Elas apertavam, puxando-o para baixo, arraigando-o ao chão. Ele tentou puxar, mas era como tentar arrancar uma árvore com as mãos nuas.
Olhou em volta, e viu seu autor: um homem mais atrás, ajoelhado, com as mãos pressionadas contra o chão. Um adepto das plantas, escondido entre os bandeirantes. Seus olhos se encontraram com os de Nzambi, e neles havia um brilho de satisfação perversa.
Zé Vento, vendo Nzambi preso e impotente, deu uma risadinha baixa.
— Boa, Matinho — ele disse, sem tirar os olhos de Nzambi. — Mantém o herói aí quietinho. Acho que ele já fez show o suficiente por hoje.
Ele começou a recuar, arrastando Tainá com ele, que agora lutava em silêncio, suas lágrimas cortando trilhas limpas na sujeira de seu rosto.
Nzambi puxou, lutou, rasgou sua própria pele contra as gavinhas, mas elas não cediam. Ele até se cortava e faziam parte das vinham desaparecerem, mas mais cresciam no lugar.
Ele assistiu, imobilizado não apenas pelas plantas, mas pela horrível sensação de impotência, enquanto Zé Vento levava Tainá para longe, para as sombras da floresta onde os outros bandeirantes já se reagrupavam, seu prêmio garantido.
Tudo estava perdido. Ele tinha falhado.
Foi então que um novo som cortou o ar. Diferente do estampido de mosquetes, do sibilo de flechas, do rugido do vento.
CRAC!
Era um estalo seco, limpo, preciso. O som de um tiro de uma arma muito mais moderna que um mosquete.
No meio do salto de Zé Vento, uma coisa impossível aconteceu. O lado esquerdo de sua cabeça simplesmente… desapareceu, substituído por uma névoa vermelha e uma massa irreconhecível. O corpo, ainda impulsionado pelo salto, perdeu toda a direção e caiu pesadamente no chão, a uns vinte metros de distância. Tainá rolou para longe do corpo inerte, parando em um arbusto baixo. Ela se moveu, tentando se levantar, atordoada mas viva.
Nzambi parou de lutar contra as vinhas, sua mente processando o que vira. “O tiro veio de… de onde? Do nada. Das árvores? Do céu?”
Antes que qualquer um pudesse reagir, outro estalo seco.
CRAC!
Um bandeirante que corria em direção a Tainá, vendo a oportunidade, foi atingido no peito. Ele foi arremessado para trás, o impacto tão brutal que era claro: não era bala de mosquete. Era algo mais.
— O que tá acontecendo!? — gritou alguém.
Enquanto os bandeirantes restantes, confusos e aterrorizados pelo assassinato súbito de seu aliado aeromante e pelo atirador fantasma, começavam a olhar freneticamente para todos os lados, buscando a origem dos tiros, a morte veio de um lugar que nenhum deles esperava.
Da própria sombra de um capitão do mato que vasculhava o mato com os olhos, algo se moveu. Não foi um vulto – foi uma pessoa inteira que parecia se desprender da escuridão como se saísse de detrás de uma cortina. Sussurro.
Ela surgiu em um movimento fluido, já em posição de tiro. Em suas mãos, ela segurava não uma adaga ou uma faca, mas um revólver de cano curto e coronha de madeira clara. Antes que o capitão do mato pudesse sequer girar a cabeça, ela apertou o gatilho.
CRAC!
A uma distância tão curta, não houve erro. O homem caiu.
Sussurro não hesitou. Ela correu em três passadas, ela estava ao lado de Tainá. Ela não tentou carregá-la. Apenas a agarrou pelo braço e, com um passo para o lado, as duas mulheres pareceram afundar na sombra mais profunda do arbusto onde Tainá havia caído. Uma sombra que de repente ficou preta como breu, engoliu-as por completo, e depois se dissipou, deixando para trás apenas o chão vazio e as folhas levemente amassadas.
Para os bandeirantes que olhavam, foi como se o chão as tivesse devorado.
Nzambi, ainda preso pelas vinhas, sentiu um alívio tão intenso que suas pernas quase cederam.
— Pelo menos… ela vai sobreviver — ele murmurou para si mesmo, uma lágrima quente cortando a sujeira em seu rosto. O dever estava cumprido. O sacrifício não tinha sido em vão.
Ele ergueu o olhar. Não havia mais necessidade de lutar. A fadiga, a dor e a perda de sangue o atingiram de uma vez. Ele viu um dos bandeirantes mais brutos, um homem com um machado, apontando para ele e gritando ordens. Viu outro, mais atrás, com as mãos no chão – o adepto das plantas, provavelmente. Viu um grupo se reorganizar, a raiva substituindo o medo inicial, agora focada nele, o último alvo visível.
E então, viu o movimento no topo da pequena elevação atrás deles. Dois homens, suando e resmungando, rolavam uma pedra enorme, do tamanho de um barril, para a beirada. Seus olhos se encontraram com os de Nzambi, e um sorriso cruel se abriu no rosto de um deles.
Nzambi olhou para as vinhas que o prendiam. Olhou para a pedra que começava a rolar morro abaixo, ganhando velocidade, seu rastro mortal claro como o dia.
Com metade de seu corpo preso, não havia para onde ir. Não havia o que fazer.
Ele soltou um último suspiro, fechou os olhos e esperou pelo impacto.

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