Capítulo 132 - Rastro de Sombras e Sangue
Nzambi já havia aceitado a morte. O frio do desespero solidificara-se em seu peito, e o cansaço pesava seus membros como chumbo. Ele sentiu seu corpo afundar, não na água, mas na própria sombra onde se agachava – uma sensação de vácuo gelado e sem atrito. A escuridão que o engoliu era absoluta, um breu que não apenas cegava, mas parecia absorver o som e o próprio ar. No entanto, no meio desse nada, uma mão firme agarrou a sua. A pele era áspera, callosa, mas o puxão era decisivo. Ele foi arrancado do local, num movimento vertiginoso de transição entre manchas de escuridão. O mundo passava em lampejos desconexos: o cheiro úmido da terra, o gosto de ferrugem no ar, a súbita mudança de temperatura de um ponto para outro. Ele não via o rosto de quem o conduzia, mas conhecia o jeito daquele toque, a presença silenciosa e eficiente. Era Sussurro.
Sussuro não falou nada, apenas o puxava de uma sombra a outra. Depois de uma eternidade – ou talvez apenas alguns minutos – de deslizar pelo reino das sombras, eles emergiram. A luz da manhã, dourada e poeirenta, atingiu os olhos de Nzambi como uma agressão. Eles estavam atrás do tronco nodoso de uma árvore grande, no alto de um pequeno morro. O ar aqui era mais limpo, carregado com o perfume agridoce de flores do campo e o mofo das folhas secas. Ao seu lado, sobre a relva macia, estava uma arma longa e avançada – uma sniper de metal escuro que parecia beber a luz. E, deitada ao lado dela, ofegante, estava Tainá.
Sussurro deslizou para o chão ao lado da cabo, seu peito subindo e descendo rapidamente. O rosto dele estava banhado em suor, e a respiração saía em pequenos sopros controlados, mas forçados.
“Ainda bem que Tainá está viva”, pensou Nzambi, uma onda de alívio tão intensa que fez seus joelhos tremerem. Ele apoiou-se na árvore, a casca áspera contra suas costas.
– Obrigado por me salvarem – disse ele, a voz ainda rouca da adrenalina e da quase-asfixia nas sombras.
Sussurro virou a cabeça para ele, um fio de suor escorrendo da têmpora. Um sorriso cansado, mas genuíno, apareceu em seus lábios.
– Só hoje, já foram duas vezes, hein? Vai ter que me pagar duas caipirinhas bem geladas para compensar o serviço… e o susto.
Tainá, ao ouvir a voz, gemeu baixo e forçou os cotovelos a erguê-la. O movimento foi lento, cheio de dor. Seu rosto estava pálido, a pele sob os olhos marcada por olheiras escuras. A ânsia de vômito subia em sua garganta em ondas, e uma dor latejante, como uma bigorna de calor pressionando seus ossos, martelava suas têmporas. O uso excessivo de mana deixara sua essência esgotada, seu corpo um farrapo nervoso. O fato de não ter desmaiado ou morrido no meio do campo de batalha era um testamento à sua resistência feroz. Ela lembrou, vagamente, das técnicas de emergência que Carlos ensinara – métodos para reanimar um corpo, trazer de volta um espírito à beira da partida. Mas não eram garantias. Voltar “100%”, como ele dizia, não era algo que sempre acontecia. E desmaiar em combate… era uma sentença de morte assinada e entregue.
Ela fitou Nzambi, seus olhos focando com dificuldade.
– Seu nome é? – a pergunta saiu mais áspera do que ela pretendia.
Nzambi endireitou-se, instinto militar falando mais alto.
– Senhora, sou o soldado Nzambi!
Tainá assentiu lentamente, engolindo em seco para conter a náusea.
– Pois bem, soldado. Fica o aprendizado: em meio ao caos, a visão de túnel é um convite ao caixão. É preciso ter olhos nas costas e ouvidos no chão. – Ela fez uma pausa, respirando fundo. – Dito isto… obrigada por ter ficado. Por ter me salvo. Você podia ter virado as costas, sumido na confusão. Ninguém teria descoberto que fui abandonada. Mas você plantou seus pés e lutou. Mesmo diante da morte certa. – Um brilho de respeito, misturado com exaustão, surgiu em seu olhar. – Devo minha vida a você. E, sabe de uma coisa? Gostei da ideia do Sussurro. Você vai ter que me pagar uma caipirinha também, e eu pago uma pra você. Quando a gente voltar.
Nzambi ficou sem jeito com a proposta, a surpresa limpando por um instante a névoa de fadiga de sua mente. “Ela está me chamando para beber com ela? Sozinha? Acho que nunca uma mulher… uma cabo me chamou para algo assim. Devo aceitar na hora? Agradecer? O que será que respondo?”. O silêncio se esticou por um segundo a mais do que seria natural, enquanto ele buscava desesperadamente as palavras certas.
Percebendo a hesitação, ou talvez perdendo um pouco o foco, Tainá fez outra pausa, mais longa. Seu olhar desviou-se dele e perdeu-se por um momento no horizonte distante, onde colunas de fumaça suja e espessa ainda subiam, marcando o campo de batalha que haviam deixado para trás.
– Isso… se a gente voltar. Estamos muito próximos deles…
Seus olhos se voltaram para Sussurro, examinando-o com a percepção aguçada de quem conhece seus companheiros.
– Pelo visto você também está no limite, não é mesmo? Ir até o mocambo e voltar correndo para o resgate… não é uma caminhada no parque.
Sussurro soltou um suspiro profundo, que parecia vir dos seus ossos. Ela fechou os olhos por um segundo.
– É. Os pés parecem chumbo e a sombra está… pesada. Por isso não vamos poder descansar muito. – Ela abriu os olhos, alerta. – Logo os cachorros vão pegar nosso rastro. Os de quatro patas e os de duas.
Com um esforço visível, ela se levantou, estalando as articulações. Em seguida, estendeu a mão para Tainá. Ela hesitou por uma fração de segundo, então agarrou-a, deixando-se ser puxada para cima. Suas pernas vacilaram, mas ela se firmou.
– É isso – continuou Sussurro, sua voz recuperando um fio de urgência. – Por mais que doa, por mais que o corpo grite para parar, temos que nos mover. E você, Nzambi… – ele olhou para a adaga curiosa na cintura do soldado – não sei como funciona essa belezinha aí, mas tenho a sensação de que vamos depender muito dela para chegar vivos aos outros.
Sussurro olhava fixamente para a adaga, sua expressão uma mistura de curiosidade e avaliação profissional. A luz do amanhecer fazia as runas no cabo parecerem se contorcer lentamente, como vermes de sombra.
– E se a gente voltar vivo – ela disse, sem tirar os olhos do artefato –, você vai ter que dar umas boas explicações sobre como essa belezinha funciona para o Presidente Carlos.
Nzambi sentiu os músculos do estômago se apertarem. Sussurro finalmente levantou o olhar para ele, e seus olhos escuros eram penetrantes.
– Ele tá muito interessado nessa gema. – Ela fez uma pausa, deixando a informação pairar no ar úmido. – Claro, você não é obrigado a responder nada que vá contra seu juramento ou sua consciência… – acrescentou, com um tom que soava mais como um aviso do que uma garantia.
Nzambi engoliu seco, o som áspero quase audível. Mesmo sendo novo na República, ele já havia desenvolvido um respeito profundo – e, para ser franco, um temor basilar – pelo homem responsável por revolucionar tudo ao seu redor. Carlos parecia ser um bom líder, mas mesmo assim Nzambi tinha receito do que ele faria se soubesse dos segredos por trás da adaga.
“Será que vou voltar a ser um depósito ambulante de sangue novamente? Vivendo apenas para ser cortado, para ter meu sangue usado… Eu queria evitar a todo custo que soubessem dela…”
– Mas – Sussurro continuou, seu dedo indicador traçando um círculo no ar –, vou ter que mencionar o… potencial dela nos meus relatórios. Em detalhes. É procedimento.
– Sim, senhora – Nzambi conseguiu responder, a voz um pouco mais grave do que o normal.
“Realmente, não tenho mais como esconder… espero que Carlos seja tão bom quanto dizem.”
Sussurro balançou a cabeça, e um sorriso leve, quase de cumplicidade, apareceu em seu rosto.
– Esse “senhora” todo, essa formalidade… é coisa de vocês do exército. – Ela ergueu as mãos, como quem se entrega. – No meu caso, tô em outro setor. Um mais discreto. Digamos assim. – Seu sorriso se ampliou um pouco, mostrando cansaço, mas também um certo orgulho. – Mas, como podem ver, ainda me dou bem no campo de batalha. Mesmo que hoje as sombras tenham pesado mais do que o costume.
Todos estavam cansados até mesmo para continuarem a conversa, e também nem tinham tempo para isso. Os três trocaram um olhar silencioso. Não era um olhar de amigos, mas de aliados instantâneos, um pacto tácito forjado ali mesmo, na grama amassada e no ar carregado de poeira e tensão. Era um acordo de suor, sangue e sobrevivência pura.
No limite de suas forças, começaram a descer o morro. O caminho era íngreme, coberto de folhas secas que rangiam e escorregavam sob seus botões. Moviam-se entre os troncos das árvores como fantasmas feridos – arrastados, hesitantes, mas em movimento. Tainá liderava, seu corpo uma linha tensa de dor contida, cada passo medido para não cair. Sussurro vinha atrás, seus sentidos aparentemente ainda aguçados, os olhos varrendo a floresta em arcos constantes, mas o peso da sniper no ombro parecia aumentar a cada minuto.
Nzambi, na retaguarda, cambaleava. Apesar de suas reservas de mana ainda estarem altas, sua perna direita era um problema. A mordida que levara no início do caos – dentes que não conseguiu ver, de uma criatura que mal registrou – latejava com cada pisada. Era uma dor quente e penetrante, um incêndio localizado que tentava se espalhar pela sua perna a cada vez que ele a flexionava para dar um passo. O cheiro de seu próprio sangue seco, metálico e enjoativo, misturava-se ao odor acre do suor que encharcava seu uniforme e ao perfume terroso da floresta em decomposição. Era o cheiro de sua própria vulnerabilidade, e ele se esforçava para ignorá-lo, focando no som da respiração ofegante de Tainá à frente, no farfalhar das folhas, em qualquer coisa que não fosse a pulsação ardente em sua carne.
Alto acima, silenciosa como um pensamento, uma flecha de madeira escura e metal polido planava no ar. Ela não seguia as leis comuns do vento; pairando com uma leve vibração quase imperceptível. Em sua empunhadura, três pequenas gemas de um âmbar leitoso pulsavam suavemente. Tudo que seus “olhos” viam – os três sobreviventes se arrastando morro abaixo, a paisagem ao redor – era transmitido.
Na segurança do acampamento bandeirante, a algumas léguas dali, Albuquerque estava relaxado em uma cadeira de campanha. Na mão direita, uma caneca de cachaça não adulterada, cujo perfume forte e adocicado enchia o ar ao seu redor. A mão esquerda, porém, repousava com a palma sobre uma esfera que parecia de cristal puro, mas era fria ao toque e tinha um núcleo que se movia como névoa – a Gema da Visão.
Um sorriso satisfeito brincou em seus lábios ao ver as imagens.
– Pelo visto os dois pombinhos escaparam do galinheiro… – murmurou para si, tomando um gole. O líquido ardente desceu suavemente. – Mas isso… isso é perfeito. Aposto minhas melhores botas que vão nos levar direitinho ao ninho dos outros fugitivos. – Seus olhos estreitaram, analíticos. – Mas quem diria… Escapar daquela armadilha. Aquelas… laranjas explosivas que usaram. São mais potentes que os boatos nas tavernas sugeriam. Onde será que ratos de selva como esses conseguiram armas mágicas de tal calibre?
Ele tirou a mão da esfera, e a imagem dentro dela se dissolveu em névoa. A flecha lá fora, obediente, começou a voltar. Albuquerque levantou-se, esticando as costas, e virou-se para o homem encarregado da operação.
– Henrique!
O bandeirante em questão era um homem robusto, com ombros largos que tensionavam o couro de seu gibão. Seu rosto era um mapa de batalhas passadas, cruzado por cicatrizes profundas. Um chapéu de abas largas protegia seus olhos perscrutadores.
– Senhor? – a voz de Henrique era rouca, como pedras se arrastando.
– Mande cachorros seguirem o rastro de três negros que estão na colina a leste. Mas mantenha-os na coleira, entendido? Distância segura. Quero que sejam sombras, não cães de guarda latindo. Não podemos espantar a presa agora.
Henrique inclinou a cabeça, um movimento lento e cheio de certeza.
– Pode deixar, senhor Albuquerque. Vamos seguir eles mais quietos que cobra na grama. Até acharmos o covil onde o resto da matilha se esconde.
Satisfeito, Albuquerque acenou com a cabeça. Quando sua flecha especial chegou, silenciosa, ele a pegou no ar com um gesto hábil.
Dirigiu-se então a sua tenda, um refúgio de relativo conforto em meio ao acampamento espartano. Ao se deitar no catre, um pensamento amargo e ambicioso cruzou sua mente, enquanto a fadiga do uso prolongado da Gema pesava sobre sua própria energia:
“Esta flecha… é uma maravilha. Um olho que tudo vê. Mas usar três gemas diferentes, quatrro se eu considerar a esfera da visão ligada a flecha, drena o usuário. É como carregar o peso de três montanhas na mente. Se eu pudesse empunhá-la por horas a fio, sem desgaste… nem precisaria desses brutamontes úteis. Poderia matar todos eles um a um, tamanho é o poder dessa arma…”
Em meio a esses pensamentos Albuquerque adormeceu, mas seus capatazes continuaram a seguir o rastro.

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