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    A luz da tarde, filtrada pela copa densa das árvores, pintava o chão da floresta com manchas de ouro pálido e sombras alongadas. O ar, antes fresco da manhã, agora era pesado e úmido, carregado do cheiro adocicado de folhas em decomposição e da terra quente. Cada passo de Nzambi, Tainá e Sussurro era mais lento e arrastado que o anterior, um ritmo fúnebre ditado pela exaustão.

    Nzambi sentia cada músculo como um nó de dor. A perna ferida pela mordida do cão latejava em uníssono com seu coração. O corte na mão, feito horas antes para ativar a adaga, ardia sob a crosta de sangue seco e sujeira. A adaga em si, agora embainhada, parecia pesar uma âncora em seu cinto. Tainá, ao seu lado, estava pálida e silenciosa, usando seu cajado não mais como arma, mas como uma terceira perna trêmula. A concentração profunda que ela mantivera por horas para sentir as vibrações da terra a deixara com um olhar vidrado e distante.

    Apenas Sussurro parecia manter uma centelha de energia. Seus movimentos, embora não fossem os fluidos deslizes sombrios de antes, ainda eram precisos e alertas. Foi ela quem, subitamente, apertou o passo e se interpôs entre os dois, fazendo um gesto brusco com a mão para que parassem.

    — Esperem — ela sussurrou, sua voz um fio de som que mal perturbava o canto dos pássaros no dossel. Ela não olhava para eles; seus olhos, sempre atentos, varriam a parede verde de samambaias e cipós atrás deles.

    Nzambi e Tainá pararam, ofegantes. O silêncio, agora que o barulho de seus próprios passos cessara, parecia opressivo.

    — Estamos sendo seguidos — anunciou Sussurro, sem tirar os olhos da mata.

    Tainá fechou os olhos por um momento, apoiando a testa no cabo de seu cajado. Quando os abriu, havia um cansaço ainda maior neles, mas também confirmação.

    — É verdade — ela murmurou, sua voz rouca. — Eu também vinha sentindo… um tremor estranho. Não constante. Parava, recomeçava. Como se alguém estivesse pisando com cuidado, esperando a gente se afastar para dar o próximo passo. Não são muitos. Um pequeno grupo. Mas estão lá.

    Nzambi olhou de uma para a outra, uma sensação de inutilidade afundando em seu estômago vazio. “Pelo visto sou o único que não notou porra nenhuma”, ele pensou, amargamente. Enquanto elas sentiam a terra e ouviam o que ele não ouvia, ele só sentia a dor e o cansaço.

    — Mas… por que eles não atacam? — ele perguntou em voz baixa, confuso. — Se sabem onde estamos, se somos só três… por que não acabam logo com isso?

    Sussurro finalmente virou o rosto para ele. Seus olhos eram poços escuros de inteligência e cautela.

    — Porque nós somos mais úteis vivos — ela explicou, sua lógica era fria e clara como uma lâmina. — Eles devem estar esperando que nós os levemos direto para o resto do pessoal. Para o esconderijo principal. É uma tática de caça antiga: você não espanta a presa quando ela está sozinha; você a segue até o covil, onde está toda a família.

    A imagem que suas palavras pintaram fez um calafrio percorrer a espinha de Nzambi.

    — Então o que faremos? — Tainá perguntou, erguendo a cabeça com esforço. — Levar essa raiva direto para nossos companheiros, dar a eles mais uma batalha feroz… ou continuar andando até cairmos mortos no chão, dando a eles um passeio gratuito pela nossa retaguarda?

    A pergunta pairou no ar úmido. Ambas as opções eram terríveis.

    Foi então que Sussurro fez algo inesperado. Um sorriso lento, quase brincalhão, surgiu em seus lábios. Ela levou a mão à nuca, soltando o coque apertado que mantinha seu longo cabelo negro. Os fios caíram como uma cascata de escuridão sobre seus ombros, e ela os jogou para trás com um movimento que era, apesar de tudo, cheio de uma graça fatigada.

    — Nós faremos os dois — ela disse, e seu sorriso ganhou um toque de malícia. — Vamos dar voltas. Em círculos, em zigue-zague, subindo morros desnecessários. Vamos ganhar tempo. Cada minuto que eles passarem nos seguindo é um minuto a mais para a cavalaria chegar. E enquanto isso, claro, continuamos andando na direção geral do pessoal. E o melhor… — ela fez uma pausa para efeito. — …como eles precisam que a gente os leve até lá, podemos até dar uma paradinha estratégica para descansar. Eles não vão atacar. Eles vão esperar, pacientemente, pensando que estão no controle.

    A ideia era tão ousada, tão desafiadoramente esperta, que por um momento Nzambi esqueceu a dor. Era uma dança com a morte, onde o segredo era ditar o ritmo.

    — E se eles se cansarem da brincadeira? — Nzambi perguntou, cético.

    — Aí teremos que correr — Sussurro encolheu os ombros, o sorriso ainda lá. — Mas até lá, vamos fazer eles suarem um pouco também.

    ***

    O sol já se inclinava para o horizonte, tingindo as nuvens com tons de púrpura e laranja, quando Albuquerque despertou de seu sono da tarde. O ar em sua tenda, adornada com tecidos caros e móveis importados. Ele se espreguiçou, os ossos rangendo, e saiu para o acampamento, onde as fogueiras já começavam a ser acesas para uma refeição.

    Henrique, seu capitão mais confiável (ou menos incompetente), estava por perto, examinando um mapa amarrotado à luz de uma lanterna.

    — Henrique — Albuquerque chamou, sua voz ainda grossa pelo sono. — Então? Já encontraram o esconderijo dos ratos?

    Henrique ergueu o olhar, e Albuquerque não gostou do que viu. O homem parecia constrangido.

    — Não, senhor… — Henrique começou, limpando a garganta. — Parece que o trio… eles fizeram várias paradas ao longo do dia. Descansaram à beira de uma árvore por quase uma hora. Agora estão andando de novo, mas… está demorando muito para chegarem a algum lugar que pareça um acampamento.

    Albuquerque ficou imóvel. Aos poucos, seu rosto foi ficando cada vez mais vermelho. Ele sentiu um impulso quase incontrolável de levar a própria mão ao rosto de Henrique, mas conteve-se, fechando os dedos em um punho tão apertado que as unhas cravaram-se em sua palma.

    — Várias… paradas? — ele repetiu, cada palavra saindo como um estalido de gelo. — Sendo que tem um esquadrão inteiro no encalço deles? Henrique, use o que tem dentro do crânio, pelo amor de Deus! Ou eles acham que isso é um passeio campestre, ou… — seus olhos se estreitaram. — …ou descobriram que estavam sendo seguidos. E estão brincando com vocês.

    Ele virou-se, dando as costas para o capitão, incapaz de olhar para tanta estupidez por mais um segundo.

    — São inúteis — ele cuspiu a palavra. — Muda de plano. Segui-los é perda de tempo. Pegue um cavalo, reúna os homens mais rápidos e mande-os atacar. Acabem com essa farsa. Enquanto isso… — ele olhou para dentro de sua tenda, onde seu arco e sua aljava repousavam em um suporte de madeira entalhada. — …enquanto isso, eu mesmo vou descobrir onde estão os ratos.

    Minutos depois, Albuquerque estava em uma clareira nos arredores do acampamento. Em suas mãos, ele segurava sua obra-prima: um arco composto de madeira negra e chifre, tão valioso quanto um título de nobreza. Ao longo de seu corpo, três gemas estavam incrustadas: uma escura e opaca como a noite sem estrelas (a do Assassino), uma transparente como gota de orvalho (a da Visão) e uma de um verde vibrante como folha nova (a do Vento). Da aljava, ele tirou sua flecha companheira, uma peça de artesania que espelhava o arco, com as mesmas três gemas.

    Sem cerimônia, ele colocou a flecha na linha, puxou a corda até a orelha sentindo a tensão perfeita do arco, e disparou para o céu.

    O som foi seco e poderoso. A flecha subiu como um raio invertido, com uma velocidade que desafiava os olhos. O céu, que estava carregado de nuvens cinzentas desde o meio da tarde, começou a liberar suas primeiras gotas de chuva. Gotículas que caíam em diagonal foram perfuradas pela flecha em seu caminho ascendente, como se ela estivesse costurando a chuva. Quando alcançou a base das nuvens, a flecha não caiu. Parou sua ascensão e, impulsionada pela última reserva do impulso inicial e pela gema do Vento, começou a planar em linha reta, cruzando o céu como um falcão mecânico.

    Albuquerque se acomodou em uma cadeira de campanha que um servo trouxera. Fechou os olhos e colocou a ponta dos dedos sobre a gema da Visão em seu arco. Instantaneamente, sua consciência se fundiu com a da flecha.

    Ele via. Não com seus olhos, mas através da gema na ponta da flecha. O mundo se apresentava em tons de cinza e azul, mas com uma clareza sobrenatural. Ele viu o chão se afastar, as árvores se tornarem um tapete verde-escuro. Ele passou por cima de Henrique, que galopava para reunir os homens, uma pequena figura insignificante. Passou sobre o esquadrão de perseguição, homens se movendo como formigas entre as árvores. A visão da flecha continuou, seguindo a direção geral que os perseguidores indicavam.

    Não demorou para encontrar um riacho serpenteando por um vale. A visão desceu, escaneando as margens. Nada. Apenas pedras, água espumante, samambaias balançando.

    “Nada…” pensou Albuquerque, uma frustração começando a ferver dentro dele. “A não ser…”

    Havia um nevoeiro. Não um nevoeiro natural, que se dissiparia com o vento. Este era estranhamente localizado, denso, pairando sobre uma seção específica do riacho e da mata ribeirinha, ignorando o vento que soprava.

    Um sorriso lento e predador se abriu nos lábios de Albuquerque, ali em sua cadeira, quilômetros de distância.

    “Aposto minhas melhores terras que os ratos estão nesse nevoeiro.”

    Concentrando-se, ele canalizou um fluxo de mana para a gema da Visão no arco, aumentando o poder da gema gêmea na flecha. A visão cinza-azulada mudou. Agora, ele via auras. Fracas, borradas pelo nevoeiro e pela distância, mas lá estavam elas. Pontos de luz colorida e trêmula escondidos sob o manto de umidade: o amarelo-terroso de um adepto da terra, o azul-esverdeado de um adepto da água (provavelmente criando o nevoeiro), e outras dezenas de assinaturas mais fracas, aglomeradas.

    “Achei vocês…”, o pensamento foi um suspiro de vitória.

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