Capítulo 135 - Batalha Sob Pressão I
O silêncio que se seguiu ao desaparecimento da ponta da flecha foi profundo, quebrado apenas pelo som da chuva caindo sobre as folhas e pelo respiração ofegante deles. Tainá ficou parada, olhando para o buraco limpo e impossível na barreira de terra, onde um instante antes havia uma arma mortal. Lentamente, ela virou o rosto para Nzambi, seus olhos escuros refletindo a pouca luz do fim de tarde chuvoso.
— Essa sua adaga… — ela começou, a voz um misto de admiração e incredulidade. — …é realmente algo de outro mundo. Não sei por que você tava escondendo um poder desses, deve ser útil pra c—
Ela mesma interrompeu a frase no meio, seus sentidos de guerreira despertando de repente. Seus dedos se apertaram em volta do cajado, e seus olhos se estreitaram, como se estivesse escutando algo além da chuva.
— Tem mais gente vindo — ela falou, a voz ficando tensa e urgente. — Muitos. São os capitães do mato, os que estavam nos seguindo. Eles não estão mais se escondendo. Estão vindo direto, rápido. O que faremos?
Seu olhar se voltou para Sussurro, que a respondeu.
— Você consegue sentir, Tainá? Se o Pedro e os outros estão perto? Em que direção?
Tainá bateu a ponta do seu cajado no chão molhado com um toc suave, fechando os olhos por um segundo. A terra falou com ela, transmitindo o eco de dezenas de passos pesados se aproximando em ritmo de corrida, vindos do oeste. E também, mais fraco, como um sussurro vindo de bem mais longe, o padrão de muitos pés parados, agachados, esperando… ao norte, seguindo o curso do riacho.
— Sim — ela confirmou, abrindo os olhos. — Se continuarmos nossa rota normal, chegamos a eles em menos de meia hora. Mas… nós vamos levar o inimigo direto para o colo deles? Vamos entregar a localização?
Foi Sussurro quem respondeu, seu cérebro conectando os pontos enquanto ainda sentia o cansaço do consumo da mana.
— Eles já devem ter sido descobertos — ela disse, apontando para o buraco na barreira. — Você viu a ponta daquela flecha? Não era só ferro. Era um cristal. Transparente, liso. Não faz sentido colocar um cristal na ponta de uma flecha… a menos que não seja a ponta de verdade, mas uma lente. Uma gema da Visão. Deve ser por isso que aquela porcaria sabia em quem mirar, sabia onde a gente estava.
A compreensão atingiu Nzambi como um choque. “Ele estava nos vendo o tempo todo. Ainda bem que consegui fazer ela desaparecer inteira. Gema e tudo.”
Sussurro, recuperando um pouco o fôlego, endireitou-se. Seu rosto estava pálido, mas seus olhos estavam determinados.
— Não temos escolha — ela disse, a voz firme. — Aqui, somos três cansados e cercados. Lá, estamos com o grupo todo. Me deem as mãos. E, Tainá, derruba essa terra. Ainda tenho forças suficientes na sombra para nos levar até o Pedro. É nossa única chance.
Tainá olhou para ela, depois para a floresta de onde os sons de perseguição vinham cada vez mais altos. Ela assentiu, uma decisão tomada. Sem dizer mais nada, ela bateu o cajado no chão uma última vez e deu um pisão forte com o pé direito.
A terra obedeceu. As paredes finas do escudo que os protegera desabaram para dentro, não com um estrondo, mas com um colapso suave e controlado, como uma estrutura de areia molhada sendo desfeita. A terra solta e as raízes rolaram para os lados, expondo-os novamente à chuva. No centro do pequeno círculo, uma pedra maior ficou exposta, sua sombra alongada pela luz oblíqua.
— Agora! — Sussurro ordenou, estendendo as mãos.
Nzambi e Tainá a agarraram. No instante em que os dedos deles se entrelaçaram com os dela, a sombra profunda sob a pedra pareceu se liquefazer e subir, envolvendo-os em um manto de frescor e silêncio. Eles foram engolidos, e a última coisa que Nzambi viu antes da escuridão total foram as primeiras silhuetas de homens armados surgindo entre as árvores a cinquenta metros de distância.
A viagem através das sombras foi um pesadelo de desorientação. Sussurro os puxava com uma força desesperada, cada salto de uma mancha de escuridão para a seguinte mais curto e mais trêmulo que o anterior. Ela estava no limite, usando as últimas reservas de sua força e mana. Nzambi sentia a umidade do musgo, a aspereza da casca de árvore, o frio da água parada, tudo filtrado pela estranha sensação não-tátil da passagem sombria. O cheiro era de ozônio e terra velha.
Após o que pareceu uma eternidade, mas provavelmente foram apenas alguns minutos, eles emergiram.
A escuridão das sombras foi substituída por uma escuridão diferente: um nevoeiro denso, leitoso e úmido que grudava na pele e reduzia a visibilidade a poucos metros. O ar estava frio e pesado, e cheirava a água parada, folhas molhadas e o suor concentrado de muitas pessoas.
Eles haviam aparecido diretamente na sombra de uma pessoa – uma silhueta alta e alerta que estava de costas para eles. A pessoa sentiu o movimento, girou num reflexo de combate, e uma lâmina de gelo azulado surgiu no ar, apontada para a garganta de Sussurro.
— Alto! — a voz de Pedro cortou o nevoeiro, cheia de uma tensão pronta para explodir.
— Pedro, somos nós! — Tainá disse rapidamente, antes que a lâmina avançasse.
A lâmina de gelo hesitou. Pedro esquadrinhou suas faces enlameadas e exaustas através do véu de névoa. A postura dele relaxou um centímetro, mas sua expressão permaneceu grave.
— Os capitães do mato estão vindo — Sussurro falou — Vindo em força. E… conseguimos destruir a flecha assassina. Ela não vai mais nos encontrar.
A informação foi como um choque elétrico. Pedro a absorveu com um único aceno de cabeça, seu rosto mostrando um alívio rápido e profundo que foi imediatamente suplantado pela urgência do novo perigo.
— Quantos? — ele perguntou, sua voz baixa.
— Dezenas. Talvez mais. E eles sabem a direção geral — Tainá respondeu.
Sussurro, recuperando um pouco o fôlego, se afastou deles. Ela não olhou para trás.
— Sussurro! Para onde você vai? — Pedro perguntou, vendo ela se fundir com a névoa mais densa.
Quem respondeu foi Tainá, enquanto tirava a água do rosto.
— Ela tem uma arma. Uma arma muito poderosa, que o Carlos deu. Com ela, consegue matar a distância sem precisar se aproximar. Vai tentar atrapalhar a abordagem deles, ganhar tempo.
Nzambi ficou confuso, virando-se para ela.
— Como ela pode usar mais uma arma mágica? Ela mal tem mana sobrando depois de nos trazer até aqui!
Tainá olhou para ele, um cansaço infinito em seus olhos.
— E quem disse que é uma arma mágica? — ela perguntou, quase sussurrando. — É uma arma de fogo, Nzambi. Como o mosquete que você teve que abandonar lá atrás. Só que… melhor. Mais rápida, mais precisa. Não usa mana. Só pólvora e mira.
A explicação deixou Nzambi sem palavras. Uma arma que não dependia de gemas, apenas de habilidade? Soava quase como trapaça, mas ele se lembrou que supostamente o exército inteiro vai ser equipado com armas assim. Se todos tivessem armas assim agora não estariam enfrentando tanta dificuldade assim.
Pedro não participou da conversa. Ele se afastou deles, subindo em uma grande pedra lisa que emergia do nevoeiro como a carapaça de uma tartaruga gigante. De lá, ele conseguia enxergar um pouco além da névoa, vendo as formas borradas de seu povo agachado, esperando. Ele encheu os pulmões com o ar úmido e frio, e quando falou, sua voz ecoou com uma clareza surpreendente através do manto branco.
— Atenção, todos! — ele começou, e o sussurro de conversas e o ruído de armas sendo preparadas cessou. — A ajuda já está a caminho! Mas antes que ela chegue… temos mais uma batalha pela frente! Lembrem-se do plano! Mantenham as posições! Preparem-se!
Não foi um minuto depois que ele terminou de falar que o som veio. Não de tiros, mas de um berrante distante, seu som grave e ameaçador rompendo o silêncio. Era um toque único, longo, seguido por dois curtos. O sinal de ataque.
Eles haviam chegado.
A névoa era uma muralha defensiva formidável, escondendo seus números e posições. Mas tinha um preço: sem adeptos da Visão entre eles, eles também estavam cegos, enxergando pouco além de seus narizes. O primeiro sinal real de que a batalha começara não foi visual. Foi auditivo.
CRAC!
O som era seco, limpo, diferente do estouro mais grave e fumacento de um mosquete. Veio da frente, da direção do berrante. Um segundo depois, outro CRAC!. Sussurro estava trabalhando.
Na linha de frente da névoa, os homens e mulheres com mosquetes se ajoelharam em uma formação irregular. O ar estava carregado da tensão silenciosa que precede o derramamento de sangue, misturada ao cheiro úmido da terra e da vegetação apodrecida. A chuva fina e persistente caía, ameaçando transformar sua única vantagem tática em uma coleção de porretes inúteis.
Mas no centro da linha, uma figura se destacava. Era Isabela. Em vez de um mosquete, ela empunhava um objeto estranho para um campo de batalha: um guarda-chuva grande, de tecido preto de borracha reforçada. Porém, este não era comum. O cabo, feito de madeira escura, tinha incrustada na empunhadura uma gema azulada enorme, que pulsava com uma luz suave, como um coração de água pura.
Isabela fechou os olhos por um instante, seus lábios se movendo em um sussurro quase inaudível. A gema no cabo brilhou mais intensamente. Então, ela ergueu o guarda-chuva e o abriu com um movimento fluido.
Não foi apenas um tecido se estendendo. Foi como se ela tivesse aberto um domo invisível de vontade. As gotas de chuva que caíam sobre a linha de soldados, num raio de cerca de cinco metros à sua frente e aos lados, desviaram. Não congelaram, não evaporaram – simplesmente curvaram-se no ar, escorrendo para os lados como se tivessem encontrado uma cúpula de vidro. O chão sob os soldados permaneceu relativamente seco, formando uma ilha surreal em meio ao solo encharcado. O som da chuva batendo no “telhado” invisível era um tamborilar suave e constante, um som protetor. Além disso todo a umidade que estava nele e na pólvora parecia ser expulsa do local.
— Firmeza, agora! — o cabo da linha sussurrou, aliviado. As mãos que antes tremiam mais pelo medo da arma falhar do que pelo inimigo, agora se firmaram em torno dos mosquetes. Os cães de fogo estavam protegidos. A pólvora nos frascos, seca.
Isabela não parou por aí. Enquanto mantinha a barreira contra a chuva com uma concentração imensa – seu rosto já mostrava o esforço, um suor diferente da umidade ambiental em sua testa –, ela fez um segundo movimento com a mão livre. Do topo do guarda-chuva, onde a gema estava, uma nova névoa começou a emanar. Não era a névoa densa e geral que já cobria o campo; era uma cortina localizada, mais fina e seletiva, que ela lançava para frente, sobre as cabeças dos soldados, para se misturar e engrossar a neblina existente bem à frente deles, obscurecendo ainda mais a visão dos atacantes.
Esta era a sua função, a razão pela qual ela, uma Adepta da Água – normalmente relegada a funções de apoio como tirar água do poço e regar plantações – estava na linha de frente. O Comandante Geral Espectro havia encomendado pessoalmente a arma para o Artesão Mágico da papisa, após testemunhar a escala monstruosa de sua reserva de mana. Ela tinha o poço de energia de três adeptas comuns. E hoje, esse poço estava sendo drenado para manter os mosquetes secos e a visão inimiga turva.
“Segura, Isabela, segura”, ela pensou, sentindo a drenagem como um peso frio nas suas entranhas. Cada gota desviada, cada véu de névoa criado, custava. Mas ela era o pilar tácito sobre o qual a primeira linha de defesa se sustentava.
Foi então que os latidos começaram. Frenéticos, guturais, vindo da parede branca à frente.
Uma das adeptas da terra, Lívia, ajoelhada atrás da linha com uma mão no chão com uma luva, murmurou:
— Esperem… eles vêm.
Os vultos dos cães surgiram primeiro, fantasmas escuros e úmidos materializando-se na névoa. Depois, as formas maiores e mais pesadas dos homens atrás deles.
— AGORA! — a voz de Lívia cortou o ar, vinda da pedra.
E a linha de mosquetes, graças ao domo seco de Isabela, funcionou como uma só.
POW! POW! POW! POW!
A descarga foi um rugido uníssono e saudável, não abafado pela pólvora molhada. Chamas laranjas cuspiram dos canos, iluminando rostos determinados por uma fração de segundo antes de serem engolidos pela fumaça acre e pela névoa. O efeito foi imediato e devastador. Vultos à frente foram arremessados para trás, borrifos escuros de sangue mancharam a névoa branca, e os latidos agressivos viraram ganidos de dor e pânico.
— RECARREGUEM! — o cabo ordenou, e os soldados começaram o ritual rápido – agora eficiente – de recarregar, suas mãos ágeis no espaço seco que Isabela mantinha a um custo cada vez maior.
Enquanto isso, do outro lado da névoa, a resposta veio. Uma bola de pedra irregular, do tamanho de uma cabaça, veio girando pelo ar por cima da linha de frente. Ela acertou um homem que se afastava para recarregar, esmagando seu ombro com um baque horrível. Flechas começaram a sibilar, vindas de ângulos altos, caindo no meio do grupo com de forma aleatória e ocasionalmente com gritos de dor.
— BARREIRA! — Tainá ordenou, sua voz encontrando força novamente.
Ela e as outras três adeptas da terra que restavam com alguma energia agiram em conjunto. Com um esforço sincronizado, elas fizeram o chão tremer e uma parede curva e baixa de terra compactada erguer-se diante da linha de mosquetes, protegendo-os do fogo de pedras e flechas.
O pelotão terminou de recarregar, suando e com o coração na boca.
— BAIXEM A PAREDE! — Pedro comandou.
As adeptas soltaram a concentração, e a seção central da barreira desmoronou.
— FOGO!
Outra saraivada de mosquetes disparou para a névoa, atingindo formas que tentavam se aproximar durante a pausa. Mais gritos. A barreira foi erguida novamente, um ciclo mortal e cansativo.
Foi então que o ataque mudou. Não veio pela frente.
Veio de cima, como um raio personificado. Caindo no chão, criando uma rajada de vento que afastou a névoa e derrubou vários soldados.

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