Capítulo 137 - Batalha Sob Pressão III
O campo de batalha era um pandemônio de sons e sensações que atacavam todos os sentidos. O cheiro predominante agora não era mais de terra molhada, mas de pólvora queimada, carne carbonizada por ataques de fogo e o odor metálico e doce do sangue que começava a manchar a lama. Gritos de dor, ordens gritadas e o sibilo de projéteis mágicos preenchiam o ar, abafando até o som da chuva que caía implacável. A visão era de caos absoluto: vultos se chocando, labaredas laranjas contra paredes de terra que surgiam e desabavam, raios de gelo azulado cruzando o espaço.
No centro dessa tempestade, com a camisa ensopada e o rosto manchado de fuligem e suor, Pedro sentiu o plano original desintegrar-se junto com a linha defensiva. Eles estavam sendo esmagados pela força bruta dos números.
Pedro encheu os pulmões do ar acre e gelado e rugiu com uma força que surpreendeu a si mesmo, uma voz de trovão cortando o barulho:
— PLANO B! AGORA! RETIRADA CONTROLADA!
O pânico cego que começava a tomar conta de alguns foi momentaneamente contido por um instinto de obediência.
O que se seguiu não foi uma fuga. Foi uma dança macabra e perfeitamente coreografada, onde cada passo errado era morte.
Os homens e mulheres com mosquetes, muitos agora com os braços queimados ou cortados, executaram a primeira parte. Em vez de recarregar, eles ergueram as armas uma última vez. Uma descarga final, menos coordenada, mais desesperada, explodiu da linha republicana.
POW! POW! POW!
Os tiros não foram tão eficazes quanto antes, mas fizeram os atacantes da frente se atirar no chão ou buscar cobertura, criando um breve respiro.
— RECUEM! TRÊS A TRÊS! — o cabo Arlindo gritou, sua voz rouca.
Eles começaram a se mover. Não uma correria, mas um retrocesso em grupos pequenos, um cobrindo o outro, arrastando os feridos mais graves. Era lento. Era agonizante.
Enquanto isso, Tainá e as outras adeptas da terra, Iara e Joana, com os rostos contraídos pelo esforço e pela dor de ver Lívia ser levada, realizaram seu papel. Com gemidos de exaustão, elas bateram cajados no chão. Não para erguer uma grande muralha, mas para criar obstáculos. Pequenas paredes de um metro de altura surgiam atrás dos grupos que recuavam, buracos súbitos se abriam no caminho dos perseguidores mais ansiosos. Não era para parar o avanço, era para atrasá-lo, para canalizá-lo.
Mas o preço era alto. Enquanto concentravam sua magia no solo atrás dos companheiros, elas ficavam expostas. Uma flecha cravou-se na perna de Joana, fazendo-a cair com um grito. Iara foi atingida no ombro por um estilhaço de gelo que não conseguiu desviar. Tainá, ajudando a arrastar uma jovem soldada com o braço carbonizado, viu uma bola de fogo vindo em sua direção. Ela ergueu uma última placa de terra para se proteger, mas o impacto a lançou para trás, arrancando o cajado de suas mãos.
O recuo era uma sangria constante. Cada metro conquistado em direção a Pedro, que permanecia firme em sua posição na pedra maior perto do riacho, era pago com suor, sangue e dor.
Pedro observava, seu rosto uma máscara de gelo mais fria que sua magia. Ele calculava, esperava. Quando viu que a maioria dos sobreviventes – talvez dois terços do que começaram – estava dentro de um perímetro de vinte metros ao seu redor, e que a onda de atacantes, embora lenta, estava prestes a engolir os últimos retardatários, ele agiu.
— PARA MIM! — ele gritou, erguendo a adaga de gelo que já pulsava com uma luz azul ofegante.
Ele então se ajoelhou, e com um movimento que parecia custar uma parte de sua alma, cravou a lâmina profundamente no solo encharcado a seus pés.
Não foi um simples golpe. Foi uma injeção.
Um padrão de geada iridescente e complexo, como uma teia de aranha feita de cristal, explodiu da lâmina e se espalhou pelo chão com velocidade assustadora. Ela não cobriu seus aliados. Ela contornou eles, passando entre seus pés, uma linha fria e inofensiva. Seu alvo era o chão à frente, o solo onde a primeira leva de bandeirantes e mercenários pisava triunfante.
O solo, já encharcado pela chuva e pela água do riacho próximo, transformou-se instantaneamente em uma armadilha. Uma fina camada de gelo negro, quase invisível, formou-se sobre poças e áreas lamacentas. Sob os pés dos atacantes, a terra aparentemente sólida tornou-se um escorregadouro mortal. Homens que corriam com facões erguidos derraparam e caíram com baques surdos, braços e pernas torcendo-se em ângulos não naturais. Outros, mais cautelosos, pararam em falso, criando um congestionamento de corpos e confusão na linha de frente inimiga.
Foi o sinal que Isabela, a Adepta da Água, esperava. Ela estava exausta, o domo contra a chuva havia falhado, seu guarda-chuva mágico pesava como uma âncora em suas mãos trêmulas. Mas ela ainda tinha um último truque. Um truque ensinado em conjunto com Pedro.
Respirando fundo, ela fechou os olhos e começou a girar o guarda-chuva aberto horizontalmente, como um pião gigante. A gema azul no cabo brilhou com uma luz intensa e ofegante. A água da chuva que caía ao seu redor, as poças no chão, até a umidade do ar, pareceu responder. Gotículas se aglutinaram, formando correntes. De repente, do riacho próximo, um jato espesso de água foi puxado como por um imã, unindo-se à chuva.
Ela não criou um simples jato. Criou um redemoinho. Uma coluna giratória e rugidora de água lamacenta, cheia de galhos e folhas arrancados, com cerca de dois metros de diâmetro. Com um último grito de esforço, ela direcionou o guarda-chuva para frente, lançando o redemoinho aquático contra o grupo de atacantes que tentava se reerguer no gelo escorregadio de Pedro.
O impacto não foi de força bruta, mas de cobertura. O redemoinho explodiu sobre eles como uma onda suja, encharcando dezenas de homens, encharcando suas roupas, suas armas, seus rostos.
E então, Pedro, ainda com a adaga cravada no chão, apertou o punho em torno do cabo.
O gelo que ele injetara no solo, que criara a armadilha escorregadia, reativou-se. Mas desta vez, não para congelar o chão. Para subir.
O frio intenso, contido e concentrado, pulou do solo encharcado para a água que agora cobria os atacantes. Um estalido seco e coletivo, como mil ossos quebrando ao mesmo tempo, ecoou pelo campo. Em menos de três segundos, onde havia homens encharcados e confusos, agora havia um campo de estátuas grotescas de gelo. Homens congelados em meio a passos, em gestos de ataque, em tentativas de se levantar. A luz do fim de tarde, refratada através do gelo sujo, criava um cenário surreal e horrivelmente belo de âmbar e sombras.
Um silêncio breve e profundo caiu sobre aquela parte do campo de batalha. O rugido da luta continuava nas laterais, mas no coração da investida, havia uma pausa. O fôlego preso nos pulmões dos republicanos, a incredulidade nos dos atacantes que vinham atrás.
Foi nesse silêncio carregado que a sombra projetada pela própria pedra onde Pedro se apoiava, alongada pelo sol baixo que furou as nuvens por um instante, pareceu se mover. Não um movimento de luz, mas da própria escuridão. Ela se espessou, ganhou volume. Uma forma humana começou a se desprender dela, silenciosa como a morte, uma faca curta e fosca surgindo primeiro, direcionada para os rins de Pedro, que estava de costas, ofegante e esgotado pelo duplo esforço de gelo.
Pedro não viu. Não sentiu.
Mas alguém viu.
Num morro arborizado a cerca de cento e cinquenta metros de distância, do outro lado do riacho, Sussurro estava deitada de bruços sobre uma camuflagem de folhas e galhos. A chuva escorria por seu capuz de tecido encerado, mas seu mundo havia se reduzido ao círculo de visão da luneta acoplada ao cano longo de seu rifle. A arma, um monstro de madeira escura e metal azulado que ela carregara com tanto cuidado, não era um mosquete. Era uma sniper, uma das preciosidades compradas da Igreja e adaptada por Carlos com a ajuda da igreja. E na luneta, não continha vidro e sim gema da visão e de qualidade inferior à de Albuquerque, mas suficiente.
Seu olho estava colado na ocular. Ela não via apenas o campo de batalha ampliado. A gema, sintonizada com sua intenção, projetava linhas fantasmagóricas, trajetórias possíveis, cálculos de vento e queda que só seu cérebro treinado podia interpretar. Ela havia passado os últimos minutos não atirando à toa, mas rastreando. Procurando uma aura escura, misturada com verde, uma assinatura de movimento entre as sombras. E agora, vira. Sob a sombra de Pedro.
Seu dedo, envolvido por uma luva fina e remendada, já estava no gatilho. Ela não pensou. Ajustou um milímetro a mira, compensou a umidade no ar, sentiu o quase imperceptível sopro de vento lateral.
E puxou.
CRAC!
O som do disparo da sniper era diferente de tudo no campo de batalha. Um estalo seco, alto e autoritário, que pareceu rachar o próprio ar por uma fração de segundo.
Na pedra, a bala, uma lasca de chumbo pesada e precisa, não atingiu a forma que surgia da sombra. Acertou a própria sombra, no ponto exato onde o torso do assassino emergia. A gema da Visão permitira que ela visse não só o alvo, mas como a trajetória da bala.
Um grito de agonia, surpresa e raiva pura rasgou o silêncio – um grito masculino de dor. Tufão que provavelmente estava na sombra, logo fugiu de lá, pulando de sombra em sombra para fora do campo de batalha.
No morro, Sussurro ejetou o cartucho fumegante com um movimento automático. Um sorriso feroz e cansado surgiu em seus lábios.
— Toma, verme — ela murmurou para si mesma, a voz rouca pela tensão. — Achou mesmo que escaparia de mim? Sendo que hoje mesmo matei alguém no ar? Atirar em alguém voando foi um bom aquecimento. — Ela olhou para a luneta, quase com carinho. — Esses artefatos, são mesmo do diabo, me pergunto que tipo de guerras existem no mundo de Carlos. E essa lente com a gema da Visão… não é só ver longe. Ver para onde a bala vai, antes mesmo dela sair do cano.
Ela varreu o campo rapidamente, buscando outros alvos de oportunidade, mas sua visão já começava a turvar nas bordas. O esforço de manter a conexão com a gema, a concentração extrema… estava cobrando seu preço.
“Só é uma pena que não consegui mata-lo de vez”, pensou, uma frustração amarga mesclando-se ao alívio. “Mas pelo menos fugiu. E com isso… quase toda minha mana se foi.” Uma onda de náusea e fraqueza subiu por ela, e ela teve que se apoiar com mais força no solo para não desmaiar. Seu trabalho de precisão, por hoje, estava feito.
De volta ao campo de batalha, Pedro, que se virara ao som do grito e do disparo distante, respirou fundo. Um alívio intenso, quase vertiginoso, lavou-o por dentro. “Sussurro”. Ela estava lá. Ela os cobria.
Mas o alívio foi uma flor que murchou no instante em que desabrochou. O silêncio do campo de estátuas de gelo já estava sendo quebrado.
Com gritos de raiva renovada, novos bandeirantes, mais cautelosos, começavam a contornar o bloco de gelo, não por cima do chão escorregadio, mas pelas bordas. Entre eles, adeptos do fogo. Homens com luvas fumegantes e olhos ardentes avançaram. Eles não atacavam pessoas. Atacavam o gelo.
Jatos de chama concentrada, brancos e quentes, saíam de suas mãos, impedindo seus ataques com gelo e água.

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