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Dito isto, aproveitem o capítulo.
Capítulo 138 - Batalha Sob Pressão IV
A pressão era física, um peso no peito de cada republicano sobrevivente. O ar já não cheirava apenas a pólvora e terra molhada, mas ao odor agridoce do fim: suor de desespero, sangue que escorria livremente para a lama, e o fedor metálico do medo que impregnava a roupa e a garganta. Os gritos de dor dos feridos eram um coro constante, pontuado pelos rugidos de triunfo dos bandeirantes que sentiam o cerco se fechar. Pedro, com os braços pesados e dormentes de conjurar gelo até a exaustão, viu Isabela tombar ao seu lado, exausta, o guarda-chuva mágico escorregando de seus dedos inertes com um toc mudo na lama. Ele tentou erguer a adaga mais uma vez, mas seus músculos apenas tremiam em protesto, uma agonia latejante subindo do cotovelo até o ombro. O frio que ele comandava agora habitava seus próprios ossos, um gelo interno que nenhum sol dissiparia.
“É aqui. Vamos morrer no barranco deste riacho fedorento, com o cheiro de nossa própria derrota enchendo as narinas.”
Foi então que o som mudou. No meio do caos ensurdecedor – o CRACK! distante de Sussurro, os POW! esporádicos dos mosquetes, os gritos – um novo ritmo se impôs.
TATATATATATA!
Era mais rápido, mais agudo, mais mecânico. Soava como uma fúria controlada, uma serra elétrica cortando o ar em rajadas curtas e brutais. Vinha não de um ponto, mas de vários ao mesmo tempo: das bordas da mata mais densa atrás deles, dos flancos onde o inimigo tentava cercá-los, de lugares onde só deveria haver floresta.
Pedro, atordoado, forçou a cabeça a virar, seus olhos queimados pela fumaça procurando a fonte. A luz do fim de tarde, fraca e difusa, pareu em silhuetas que se moviam com uma precisão assustadora. Os bandeirantes mais próximos também hesitaram; seus rugidos de ataque morreram na garganta, substituídos por grunhidos de confusão.
E então, ele viu.
Das sombras dos jatobás à direita, figuras surgiram. Não em uma carga desordenada, mas em avanço tático, em pequenos grupos de três que se moviam como partes de uma mesma máquina. Eram verdes, um verde musgo profundo e fosco que os fazia quase desaparecer contra a folhagem úmida. E nas mãos, eles carregavam não mosquetes, mas fuzis. Armas de madeira de angelim escura e metal azulado, com canos mais longos e sinistros, e carregadores curvos sob o ferrolho que brilhavam com óleo.
As novas armas. As armas que Carlos, Nia e os engenheiros sujos de graxa do arsenal tinham prometido em reuniões que soavam como contos de fadas. A cavalaria, no sentido mais moderno e terrível da palavra, havia finalmente chegado.
A primeira leva de soldados verdes ajoelhou-se na borda da clareira, quase sem esconderijo. Não havia necessidade de barreira de terra, não havia névoa protetora. Havia apenas a nova ordem de batalha, fria e eficiente.
Um sargento, seu rosto impassível sob o elmo de couro reforçado com tiras de metal, levantou um punho fechado e depois apontou dois dedos para a frente. Sua voz cortou a distância, seca como o estalo de um graveto:
— Fogo de supressão. Linhas de avanço Alpha e Beta. Fogo.
O que se seguiu não foi um massacre. Foi uma colheita industrial.
O som TATATATATATA! tornou-se um rugido contínuo e intercalado, uma serração do próprio ar. Os fuzis de repetição não precisavam de trinta segundos para recarregar. Um soldado, com o rosto uma máscara de concentração absoluta, puxava o ferrolho para trás e para frente com um movimento rápido e treinado—clunck-clack—ejetando o cartucho de latão ainda fumegante e inserindo um novo em um piscar de olhos. O ciclo—tiro, recarga, tiro—era tão rápido que parecia não haver intervalo, apenas uma saraivada constante e letal.
Os bandeirantes na linha de frente, aqueles que há segundos avançavam com facões erguidos e olhos injetados, foram ceifados como trigo. Um homem de gibão de couro, que se lançava em carga, foi parado no ar por múltiplos impactos que fizeram seu corpo espasmodizar grotescamente antes de cair em um borrão informe. Outros, que se protegiam atrás de troncos, viram a madeira ao seu lado ser despedaçada em lascas, uma chuva de chumbo que não dava trégua perfurando seu refúgio. Um piromante mais ousado tentou erguer as mãos enluvadas para lançar uma bola de fogo contra a nova linha verde; uma rajada curta de três tiros perfurou seu peito em um triângulo quase perfeito antes que as chamas sequer bruxuleassem em seus dedos.
A vantagem numérica, tão esmagadora e arrogante momentos antes, dissolveu-se em pânico puro. Os gritos de ataque viraram guinados de terror animal. A linha de avanço inimiga, antes compacta e ameaçadora como uma maré, desintegrou-se em indivíduos aterrorizados. Homens se jogaram no chão, rolando na lama ensanguentada, buscando qualquer depressão, qualquer raiz saliente como cobertura. Outros, em um reflexo mais básico, simplesmente viraram as costas e correram, abandonando companheiros, armas e qualquer resquício de coragem. A disciplina férrea e silenciosa dos soldados verdes era, em contraste, aterradora. Eles avançavam em pequenos times, um time cobrindo o avanço do outro com fogo constante e coordenado, movendo-se para flanquear, para cercar os que ainda resistiam. Era uma coreografia de morte eficiente, onde a única voz era o estampido ritmado dos fuzis e o ocasional comando gutural.
Do outro lado, outros soldados verdes, carregando armas diferentes—escopetas de cano curto e coronha de pistola—avançavam pelos flancos como sombras, limpando os arbustos e touceiras onde arqueiros e adeptos com gemas menores se escondiam. O BOOM grave e oco dessas armas, seguido pelo som distinto de um cartucho sendo ejetado, ecoava, e depois vinha apenas o silêncio ou um gemido súbito e abafado.
Vendo a batalha virar de forma tão brutal, repentina e unilateral, os republicanos sobreviventes amontoados no leito do riacho ficaram primeiro paralisados. A esperança, uma chama tão fraca e distante minutos antes, chegou com a força de uma maré, inundando-os e quase os derrubando pelo choque.
— É… é o exército… — um soldado regular mais jovem, de nome Marcos, gaguejou ao lado de Pedro, a voz trêmula de incredulidade absoluta. Ele segurava um mosquete com a baioneta empenada, os dedos brancos ao redor do cano.
Outro soldado, um veterano chamado Benício com o braço ensanguentado atado num pedaço rasgado de sua própria camisa, simplesmente deixou seu mosquete cair na lama com um ploft e desabou sentado, o corpo todo tremendo convulsivamente. Não era mais tremor de medo, mas de um alívio tão intenso e súbito que se manifestava como uma nova dor, um colapso nervoso. Uma das adeptas da terra, Iara, com o ombro perfurado por estilhaço e o rosto pálido como cera, começou a chorar silenciosamente, grandes lágrimas limpas cortando trilhas na sujeira e no sangue ressecado de seu rosto. Outros se abraçaram, fracos, sem palavras, apenas olhando para aquela linha verde que agora era um muro impenetrável entre eles e o fim.
Pedro, por sua vez, não se jogou no chão. Não soltou um suspiro aliviado. Não chorou. A adrenalina feroz que sustentava cada músculo, cada decisão, cada ordem, esvaiu-se de uma vez, deixando para trás um vazio frio, pesado e… calculista. Ele baixou lentamente a adaga de gelo, a ponta afundando na lama com um som suave. Seus olhos, que há instantes buscavam freneticamente o próximo inimigo, o próximo ponto de pressão, começaram a percorrer o terreno ao seu redor com uma lentidão deliberada e terrível.
O alívio pelos vivos veio, sim. Um suspiro preso escapou de seus lábios rachados. Mas foi instantaneamente ofuscado, naufragado pela visão ampliada que a pausa trouxe: a visão dos mortos.
Ele os viu. Um a um. O corpo do jovem soldado, talvez com dezessete anos, que tentara enfrentar o adepto do vento e fora jogado como um trapo por cima da barreira. Joana, a adepta da terra que sempre ria durante os treinos, agora deitada de costas, os olhos castanhos abertos e vidrados fixos no céu cinza, um lago vermelho-escuro e espesso crescendo sob seu pescoço onde uma lâmina a encontrara. Mais perto, o corpo carbonizado e contraído de Lucas, o carpinteiro que se alistara no mês passado e que tentara proteger Isabela com o próprio corpo, seus braços ainda em posição defensiva, agora negros e quebradiços. Mais adiante, perto da barreira de terra despedaçada, dois corpos jovens—Emanuel e Rafael—abraçados, como se tivessem tentado se proteger um ao contra o outro no último instante, o sangue de ambos misturado na mesma poça.
A clareira, que minutos antes era um campo de batalha onde ele dava ordens, agora era um charco de lama, sangue coagulado, metal retorcido e vidas interrompidas de forma abrupta e violenta. O cheiro doce e nauseante da morte começava a se sobrepor a todos os outros.
“Eu os trouxe até aqui.” O pensamento surgiu em sua mente não como um sussurro, mas como uma declaração clara, venenosa e inescapável como o gelo que ele conjurava. “Eu escolhi este lugar. O riacho para água, o terreno elevado para uma defesa de último recurso, a mata fechada nos flancos para dificultar o cerco… Parecia certo no mapa de pano que estudei com Matias. Parecia a opção inteligente, a decisão de um comandante. Eu os levei a morte, talvez muitos deles tenham um filho como eu… que agora perderam um pai, uma mãe…”
Seu olhar, pesado, pousou em Tainá. Ela estava sentada no chão, encostada em uma pedra lisa, segurando o próprio ombro deslocado com a mão boa. Seu rosto era uma mistura de dor física e um vazio profundo nos olhos, como se parte dela tivesse sido deixada para trás junto com Lívia. Ele viu Nzambi, alguns passos adiante, tentando com gestos cansados ajudar Isabela a se sentar. O rosto do soldado era uma máscara de exaustão tão profunda que beirava a inexpressão, mas nos cantos de seus olhos, Pedro pensou ver um reflexo de sua própria culpa. E então, seu olhar percorreu os outros rostos sujos, ensanguentados e assustados que, aos poucos, começavam a se voltar para ele. “Eles olhavam… esperando. Esperando o quê? Uma palavra de conforto? Um sorriso de vitória? Uma explicação?”
“Mas olha o preço”, a voz em sua cabeça sussurrou, mais cruel e persuasiva agora. “Eles confiaram na minha estratégia. Seguiram minhas ordens. E eu os posicionei aqui, neste barranco lamacento, para morrerem. Para segurar a linha. Para “ganhar tempo”. Cada barreira de terra que a Tainá ergueu, cada descarga de mosquete que o Arlindo ordenou, cada gota de mana que a Isabela gastou… foi porque eu decidi que aqui era o lugar. Se tivéssemos continuado a fugir… se tivéssemos abandonado os feridos mais graves, os mais lentos, para salvar o núcleo… uma lógica brutal de retirada total… talvez menos rostos estariam agora olhando para um céu que não veem. Talvez a Lívia ainda…”
A lógica da retirada total, impiedosa e friamente eficiente, que ele rejeitara no calor do momento por considerar covarde e desumana, agora se apresentava a ele na calma pós-tempestade com os traços sedutores de uma opção sensata. Um nó físico de culpa, dúvida e uma angústia profunda apertou sua garganta, tão forte que ele engasgou. O som dos fuzis dos soldados verdes, que era uma música de vitória e salvação para os outros, para ele soava como o martelar ritmado de um juiz implacável, marcando cada vida perdida, cada ferido grave, como um erro de cálculo em seu plano, uma falha em seu julgamento de comandante.
Ele fechou os olhos por um momento, buscando um instante de escuridão. Mas as imagens estavam gravadas por trás das pálpebras, mais vívidas que a realidade. O barulho dos fuzis parecia ecoar dentro de seu crânio. Quando os abriu, seu rosto não era o de um vitorioso, nem o de um líder aliviado. Era o rosto de um homem jovem que, pela primeira vez, contava o custo real de suas decisões em moeda humana, sangue e sonhos interrompidos. E, olhando para o campo de batalha que havia escolhido, ele se perguntou, com um frio que vinha das profundezas de sua alma, se o troco, por mais necessário que fosse, valera aquele preço específico. A dúvida instalou-se nele, profunda e silenciosa como uma rachadura no gelo.

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