Capítulo 141 - Fofocas
Carlos decidido, o peso da batalha dando lugar ao foco de um novo projeto, ele entrou na fábrica de papel. O ar lá dentro era úmido e quente, cheirava a pasta de madeira e a produtos químicos simples como lixívia de cinzas. Os trabalhadores, muitos deles novos, moviam-se com uma diligência concentrada, cuidando das caldeiras, das peneiras, das prensas a vapor que transformavam polpa em folhas contínuas. Era barulhento, mas era o som da produção.
O produto final não era um papel moderno, e sim um mais acinzentado, áspero, apesar da baixa qualidade ele ainda era um papel bom o suficiente para ser usado na produção de livros escolares e futuramente jornais.
Depois, seguiu para a fábrica de impressão, anexa. Aqui, o cheiro era de tinta, banha de porco, usada no lugar de óleo e papel novo. A grande prensa principal, um monstro de ferro fundido e engrenagens polidas, ainda estava parada, esperando seu batismo. A sala era grande, com mesas de trabalho vazias e prateleiras esperando por pilhas de livros.
E no centro da sala, agachada ao lado da prensa com uma chave inglesa na mão e um risnho de banha misturada com cinzas no rosto, estava Nia. A Ministra da Indústria parecia mais uma mecânica em seu elemento do que uma governante.
— Bom dia, Nia — Carlos cumprimentou, sua voz ecoando um pouco no espaço vazio. — Você sempre começa o dia mais cedo que todo mundo. Parece que vive aqui.
Nia ergueu a cabeça, limpou o suor da testa com o dorso do braço, deixando um leve traço de banha, e sorriu. Um sorriso verdadeiro, de quem está fazendo o que ama.
— Amo meu trabalho — ela disse, levantando-se e estalando as costas. — Pelo menos esta parte dele. Também venho aqui para fugir da montanha de papelada que me espera como Ministra. — Seu sorriso ganhou um tom de brincadeira afiada. — Aliás, isso me lembra… alguém me prometeu, tempos atrás, que me faria sua esposa quando virasse o Ganga. Mas sabe o que eu ganhei na realidade? Mais trabalho. Só mais trabalho. — Ela inclinou a cabeça, os olhos brilhando de provocação. — Aliás, sabia que as esposas de Zala não trabalhavam? A única coisa que faziam era… bem, “dar” para ele de vez em quando. Era um trabalho bem menos cansativo, diga-se de passagem.
Ao ouvir isso, Carlos não pôde deixar de notar a nuance. “Fazia tempo que ela não soltava uma dessas. Mas dessa vez, a provocação é diferente. Ela não disse que me faria seu marido. Disse que eu a faria minha esposa. O jogo mudou…”
Ele cruzou os braços, encarando o desafio com um sorriso próprio.
— Então tá — ele disse, com uma leveza que surpreendeu a ambos. — Lhe farei minha esposa. Combinado. Assim, você não irá mais trabalhar com máquinas, vai largar seus outros quatro esposos — ele fez um gesto vago em direção às ferramentas e às máquinas — e vai passar o dia decorando a casa e esperando eu chegar para… me dar. Parece um ótimo acordo para você.
Nia ficou boquiaberta. A chave inglesa quase escapou de sua mão. A expressão de choque absoluto durou apenas um segundo antes de ser varrida por uma onda de alegria pura e maliciosa que iluminou seu rosto como um sol.
— CARLOS! — ela exclamou, rindo, a voz um misto de incredulidade e deleite. — Quando você veio parar no quilombo você não era assim! Você ficava todo tímido, corava, gaguejava! — Apesar das palavras carregadas de uma raiva teatral, seu rosto não escondia a diversão.
— E eu tô com saudade de quando você reclamava menos! — Carlos retrucou no mesmo tom, mantendo a farsa por mais um instante.
Mas não durou. O absurdo da situação, o cansaço, o alívio de um momento leve depois de dias sombrios — tudo isso foi demais. Carlos soltou uma risada, genuína e um pouco rouca. Nia se juntou a ele, sua risada mais alta e estridente, ecoando na fábrica vazia, limpando por um momento a tensão dos últimos dias.
Quando as risadas cessaram, deixando um ar mais leve, Nia olhou para Carlos. Desta vez, seu olhar era direto, sério por baixo da diversão residual.
— Mas falando sério agora — ela disse, limpando um canto do olho. — Eu fiquei sabendo. Por fontes muito confiáveis. Que você anda distribuindo presentinhos. Presentinhos personalizados, caros, cheios de significado. E jantares. — Ela deu um passo à frente. — E eu, minha cara promessa de esposa, andei trabalhando muito recentemente. Muito mesmo. Então… eu também quero um. Um presente seu.
Carlos sentiu um calor subir por suas orelhas. “Mas que isso… metade do mocambo ficou sabendo do jantar com a Tassi? Eu não sabia que ela era fofoqueira! Ou será que…”
De forma relutante, mas sabendo que a derrota era inevitável, ele suspirou.
— Tudo bem, tudo bem… você vai ganhar um presente. — Ele ergueu um dedo em sinal de alerta. — Mas antes… preciso que você faça umas adaptações aqui. Nesta fábrica. Para que ela não imprima apenas livros escolares.
O interesse imediato de Nia foi visível. Seus olhos, que brilhavam por um presente, agora brilharam por um desafio técnico.
— Mais trabalho? Claro, porque não? — ela disse, o cansaço na voz mas não nos olhos. — Então vai, me explica. O que seriam essas… adaptações? E para imprimir o quê?
— Jornais — Carlos disse, e viu a curiosidade explodir no rosto de Nia. Ele deu uma explicação breve: folhas grandes, impressão mais rápida e menos durável que livros, foco em notícias e anúncios, periodicidade. Falou sobre a necessidade de tipos móveis mais versáteis, talvez de uma prensa mais rápida ou de um sistema de alimentação de papel contínuo adaptado.
Nia ouvia, absorvendo, os dedos coçando para pegar um lápis e começar a esboçar. A promessa do presente parecia ter sido temporariamente esquecida, substituída pelo prazer de um novo problema para resolver.
— Hmm… tipos móveis maiores e mais fáceis de trocar… talvez um rolo alimentador… — ela murmurava para si mesma. — Vou dar um jeito. Me deixa trabalhar.
Carlos sorriu, satisfeito. Deixou Nia mergulhando em seus cálculos e rabiscos mentais e saiu para almoçar.
Seu destino era o Restaurante da Tia Vera, um dos corações sociais da cidade. Como era ainda cedo para o almoço principal, o lugar estava quase vazio. O cheiro era reconfortante: um caldo de legumes fumegante, o aroma do pão fresco da padaria ao lado. Havia apenas alguns trabalhadores sentados em cantos isolados, comendo rápido antes de voltar ao serviço.
Foi então que Carlos viu. Num canto mais reservado, perto da cozinha, a própria Tia Vera, com seu lenço colorido na cabeça e seu avental imaculado, estava conversando animadamente com uma cliente — uma jovem mulher que parecia ouvir com os olhos arregalados.
E Carlos, parado na entrada, conseguiu ouvir um fragmento, em voz baixa mas carregada da empolgação de quem conta um segredo delicioso:
— …e aí, menina, você nem imagina o que o Carlos aprontou como agradecimento para a Tassi! Só coisa fina! Jantar à luz de gemas, comida de outro mundo, e um presente… ah, meu bem, um presente que até eu fiquei com inveja! Dizem que a Tassi chorou que foi uma beleza!
Carlos ficou paralisado por um segundo. Então, um sorriso lento e resignado se abriu em seus lábios.
“Ah…”, ele pensou, o mistério se resolvendo. “Agora tudo faz sentido. A fonte das ‘fofocas muito confiáveis’ da Nia. Tassi é próxima da Tia Vera. E a Tia Vera… é o coração e a boca do mocambo. Ela é amiga de todo mundo. A notícia não vazou, ela foi regada a público com todo carinho.”
Ele entrou no restaurante, e o olhar de Tia Vera, ao vê-lo, foi de puro prazer e zero arrependimento. Ela apenas acenou, como se dissesse: “E aí, garoto? Boa história, né?”.
Carlos sentou-se, abanando a cabeça em silêncio, enquanto o cheiro do caldo e o rumor das primeiras fofocas oficiais da República o envolviam.
Carlos sentou-se, abanando a cabeça em silêncio, enquanto o cheiro do caldo e o rumor das primeiras fofocas oficiais da República o envolviam. A ideia do jornal, que antes parecia uma ferramenta de controle, agora ganhava outra dimensão. Ele percebeu que, em uma comunidade tão viva, a informação circularia de qualquer jeito — pelas fofocas da Tia Vera, pelos sussurros no mercado, pelas conversas nas oficinas. O jornal não seria para substituir isso, mas para dar-lhe um contraponto. Uma versão que fosse, se não totalmente objetiva, pelo menos reflexiva e responsável. Um antídoto contra os boatos mais destrutivos, mas também um canal para celebrar as conquistas.
Enquanto esperava seu caldo, olhou pela janela. Viu dois jovens aprendizes discutindo animadamente perto da nova loja de sorvetes sendo pintada, gesticulando. Provavelmente especulando sobre a batalha. “Sim”, pensou Carlos, tomado por uma determinação renovada. “Eles precisam ler sobre isso. Precisam ler a versão que une, não a que separa. Precisam ler sobre novas fábricas, sobre a cisterna, sobre os ipês floridos na Rua dos Fundadores. E talvez, um dia, até sobre como o presidente levou um chute da ministra da Educação.” Um sorriso involuntário surgiu em seu rosto. O projeto já não era apenas uma necessidade política. Era uma extensão natural daquela comunidade pulsante. Era a voz oficial de um povo que já tinha, há muito, uma voz própria e irrequieta.

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