Índice de Capítulo

    Depois de almoçar no Restaurante da Tia Vera, onde o caldo de legumes e a descoberta da fonte das fofocas haviam deixado um gosto agridoce, Carlos voltou para a Prefeitura com um passo mais leve. O peso da guerra ainda estava lá, mas agora havia um projeto concreto para ocupar sua mente, algo que construía em vez de apenas remediar.

    Ao empurrar a porta de madeira maciça do prédio principal, o cheiro que o recebeu foi familiar, mas com uma nuance diferente. Sempre havia o aroma de cera de abelha nas madeiras, de tinta de carvão e do mofo sutil dos papéis antigos. Hoje, porém, dominava um cheiro mais fresco e amadeirado: o cheiro de papel novo. Não o papel fino e branco de seu século, mas o odor terroso, levemente adocicado e úmido do papel feito de araucária, que começava a chegar em pequenas pilhas de prova dos distritos industriais. Era um cheiro de progresso material, palpável.

    Mas ele não seguiu o corredor que levava ao seu próprio escritório, onde os relatórios de baixas o esperariam como abutres. Em vez disso, virou à esquerda, em direção à sala do Ministério do Trabalho.

    A porta estava entreaberta. Dentro, Fernanda estava inclinada sobre uma grande planilha manuscrita, os dedos marcando colunas de nomes e ofícios. A luz da tarde iluminava a poeira dançante ao redor dela. Ela ouviu os passos, ergueu os olhos e, ao reconhecer Carlos, soltou um suspiro longo e profundo que parecia vir dos calcanhares. Seu rosto, normalmente sereno e eficiente, trazia marcas de cansaço sob os olhos.

    “Lá vem”, pensou, abaixando a cabeça por um instante antes de compor um sorriso profissional. “Mais trabalho. Sempre mais trabalho. Mas é trabalho que importa, pelo menos.”

    Carlos entrou, puxou uma cadeira de madeira simples e sentou-se à sua frente, sem cerimônias.

    — Fernanda — começou ele, direto ao ponto. — Sabe a fábrica de papel? A que está começando a produzir aquela folha marrom-clara de cheiro de pinho?

    — Sim, Presidente — ela respondeu, colocando o lápis sobre a mesa. — Recebi o primeiro lote de amostras para os registros. É… mais áspero que o que vinha de fora, mas é nosso.

    — Pois é. Além dos livros escolares, ela vai produzir um novo produto. Algo que vai mudar como a República se comunica. Vamos fazer um jornal.

    Fernanda piscou. A palavra não significava nada para ela. Ela escondeu o cansaço com um interesse profissional, apoiando o queixo na mão.

    — E o que seria esse… ‘jornal’?

    — Basicamente — Carlos explicou, gesticulando enquanto formava as ideias em voz alta — é uma publicação. Folhas grandes de papel, dobradas, que serão lançadas, por enquanto, mensalmente. E dentro delas, vamos colocar informações. Todas as informações importantes sobre o que está acontecendo na República. E para isso vai precisar montar um equipe de pessoas com habilidades investigativas.

    Ele fez uma pausa, vendo que ela processava.

    — Por exemplo, essa primeira edição… poderia trazer um relato do que aconteceu na batalha contra Albuquerque. Um relato verdadeiro, controlado. Sem revelar nossos segredos táticos ou números exatos, claro. Mas a população merece saber mais do que só boatos de esquina. Merece saber que houve heróis. Merece ouvir os nomes daqueles que perderam a vida pela nossa liberdade. E também qual é a situação real da guerra, para acabar com esse medo cego.

    Os olhos de Fernanda, antes apenas cansados, se iluminaram com um entendimento imediato. Ela não era uma grande leitora — a vida não lhe dera esse luxo — mas a utilidade daquilo era cristalina.

    “Não sou muito de ler…”, ela pensou, os olhos perdidos por um segundo na planilha. “Mas eu leria isso. Para saber para onde meus impostos vão. Para saber se minha filha vai crescer num lugar seguro ou em guerra. Para saber em quem confiar.”

    — Isso… faz um sentido enorme — ela admitiu, a voz mais animada. — E não só sobre a guerra. Poderíamos colocar os editais de concursos para a prefeitura aqui dentro! As vagas abertas nas novas fábricas! Todo mundo que sabe ler correria para pegar uma cópia.

    — Exatamente! — Carlos animou-se, vendo que ela captava a essência. — E também podemos anunciar nossos avanços. O término da cisterna de água que vai levar água corrente para a Rua dos Fundadores. As medalhas de honra que vamos cunhar para os heróis de guerra. As novas leis aprovadas pelo Conselho. Tudo num só lugar, oficial, acessível.

    Fernanda pegou o lápis e começou a rabiscar a borda da planilha, pensativa. Mas uma dúvida a atingiu.

    — Uma pergunta, Carlos. Tudo isso que você falou — guerras, editais, obras — seria informação que a própria prefeitura forneceria. Por que, então, você disse que precisa contratar pessoas com ‘habilidades investigativas’? Soa como… espionagem.

    Carlos sorriu. Era a pergunta certa.

    — Porque o jornal não vai ter apenas assuntos oficiais — ele explicou, baixando a voz um pouco, como se compartilhasse um segredo. — Queremos que as pessoas queiram ler. Então, pode ter uma seção contando a história de um dos heróis que morreu. Quem ele era, de onde veio, o que deixou para trás. Uma pequena homenagem. Pode ter um relato sobre um crime importante que aconteceu no mocambo — um roubo, uma fraude — e como foi resolvido. Para mostrar que a justiça funciona. — Ele fez uma pausa dramática. — E… pode ter até as fofocas mais inofensivas. Quem abriu uma nova oficina, quem se casou, quem ganhou o concurso de melhor pão.

    A ideia, que antes parecia apenas uma ferramenta de governo, agora ganhava cores, vida, sabor. Fernanda quase podia ver as pessoas reunidas em torno de uma das folhas, alguém lendo em voz alta para os outros, comentando, rindo, discutindo.

    — Receitas! — ela exclamou, um lampejo de inspiração. — A Tia Vera vive criando novos pratos com os ingredientes que temos. Poderia ter uma receita por edição! Ou… poemas? Contos? Algo para divertir.

    — Perfeito! — Carlos concordou, empolgado. — É isso. O jornal precisa ser útil, informativo, mas também um pouco… da comunidade. Por isso preciso de pessoas que saiam daqui, conversem com as pessoas, descubram essas histórias. Pessoas que investiguem a vida da República, não apenas suas leis.

    Fernanda mordeu a ponta do lápis, pensando rapidamente. Um nome surgiu em sua mente com tanta força que ela quase disse em voz alta. Ela olhou para Carlos, hesitante por um segundo, mas depois a confiança em seu próprio julgamento prevaleceu.

    — Se é de fofocas, histórias de vida e… investigação que precisamos — ela disse, colocando o lápis na mesa com um clique decisivo —, acho que tenho a pessoa perfeita em mente.

    Carlos ficou visivelmente satisfeito. “Fernanda é incrível”, ele pensou. “Sempre um passo à frente, sempre com a pessoa certa na manga.”

    — E quem seria? — perguntou, curioso.

    — A Matilda.

    A resposta caiu como uma pedra em um lago tranquilo. Carlos ficou paralisado por um segundo, seu cérebro processando a imagem da mulher de vestido azul, mesura perfeita e ar de nobreza.

    “A mulher nobre?” o pensamento disparou, carregado de incredulidade. “Aquela que parecia ter saído de um salão europeu? Ela, se misturando com o povo para ouvir fofocas?”

    — Matilda? — ele repetiu, incapaz de disfarçar o ceticismo. — Fernanda, você tem certeza? Pelo pouco que vi, ela parece… bem, parece ter dificuldade de se adaptar ao nosso ritmo. À nossa… simplicidade. O pessoal daqui pode estranhá-la.

    Um riso leve, quase divertido, escapou de Fernanda. Ela abanou a cabeça, como se soubesse de uma piada interna.

    — Realmente, ela parece uma nobre europeia perdida no mato, não é? Toda aquela postura, aqueles modos. — Seu tom ficou mais confidencial. — Mas devo te contar um segredo, Carlos. Ela era minha amiga, lá em Areia Branca. Mesmo quando eu era só uma costureira sem eira nem beira. E, apesar das aparências… ela é uma nobre falida. Tudo que tinha na cidade era fachada.

    Carlos arqueou uma sobrancelha.

    — Aqueles brincos… aquele vestido… pareciam caríssimos.

    — Ilusão — Fernanda retrucou, com um sorriso maroto. — Os brincos que parecem de ouro com gemas? São de uma liga barata. O vestido de linho azul? O corte é bom — fui eu quem costurei, se me der uma máquina decente faço vestidos para uma rainha — mas o tecido é comum. O truque está na gema.

    — Gema? — Carlos perguntou, seu interesse técnico despertando instantaneamente.

    — A gema da Pintura — Fernanda explicou. — É uma gema rara, que parece um arco-íris opaco. Matilda é uma Adepta fraca, mas constante. Ela usa o poder dela nos brincos, nos vestidos, para dar aquele brilho, aquela cor vibrante que não desbota… por um dia. Ela tem que renovar a ‘pintura’ magicamente todo santo dia, senão tudo fica desbotado e comum.

    A mente de Carlos começou a voar. “Uma gema que altera a aparência de objetos? Mesmo que temporariamente… Poderíamos usar em livros ilustrados! Em documentos oficiais para evitar falsificações! Em sinalização! Até em disfarces!”

    — Isso é… incrível! — ele exclamou. — Fernanda, essa gema poderia ter mil usos! Para ilustrações, para—

    Ela interrompeu-o com um aceno de mão e um sorriso paciente.

    — Carlos, você realmente não é daqui, não é? — disse, com um afeto cansado. — A gema da Pintura é considerada… inútil. Uma curiosidade de rico. A ‘pintura’ só funciona em superfícies de objetos, não em pessoas ou no ar. E, como te disse, não é permanente. Requer mana constante para manter. É um passatempo caro, não uma ferramenta.

    O entusiasmo de Carlos não se abateu totalmente. — Toda gema útil um dia foi considerada inútil. Acho que vale a pena estudar, mais para frente. Mas, voltando à Matilda… se ela é uma nobre falida, veio para cá por pura necessidade, então?

    O rosto de Fernanda ficou mais sério.

    — Não só. Ela é viúva. Mesmo falida, tinha uma pensão que a mantinha. O problema era outro: ela não consegue parar de futricar. É mais forte que ela. Em Areia Branca, ela descobriu casos de traição, subornos, desvios… e os expunha, sem medo. Não só isso: descobriu casos horríveis de maus-tratos a escravos em casas ‘respeitáveis’ e os tornava públicos. — Fernanda baixou a voz. — Ela mesma, na adolescência, se apaixonou por um escravo da casa dela. Foram separados à força. Ela se casou depois com um homem que amava, mas se recusou a ter um único escravo sob seu teto. Essa raiva, essa curiosidade… ela trouxe para cá.

    Carlos ficou em silêncio, reprocessando a imagem da mulher. A fachada de nobreza dava lugar a um retrato muito mais complexo: uma mulher obstinada, ética até a raiva, e com um talento natural para desenterrar segredos.

    — Certo… — ele disse, lentamente. — Ainda não estou totalmente convencido de que ela vai se encaixar, mas… vou confiar no seu julgamento, Fernanda. Você sempre se mostrou uma funcionária excelente e sagaz. Se você diz que ela é a pessoa, eu acredito.

    — Obrigada, Carlos — respondeu Fernanda, um calor genuíno em seus olhos. — E não se preocupe. Para te provar, vou te contar mais: ela já é amiga da Tia Vera. Já está mergulhada nas fofocas da República. E acredite, ela não tem o menor problema em trocar aqueles vestidos por roupas comuns e sujas para se misturar e ouvir histórias no mercado, no porto, onde for. Teve uma vez que cortou o cabelo curto e se vestiu de homem por uma semana para infiltrar-se num esquema de contrabando de ouro. Não que ela se importasse com o crime em si, mas aquilo lhe deu acesso à esposa do antigo Governador da Capitania. — Fernanda fez uma pausa, seus olhos brilhando de cumplicidade. — E hoje, quando a viu, ela estava ‘vestida para impressionar’ porque sabia que você passaria por nós. Caiu direitinho no teatro dela.

    Carlos soltou uma risada baixa, de admiração e auto-depreciação.

    — E eu cai como um patinho, não é? Típico. — Ele ergueu as mãos em sinal de rendição. — Tudo bem. Está contratada. E ponha-a para trabalhar. Precisamos da primeira edição do jornal o quanto antes.

    — Entendido, Presidente — disse Fernanda, já pegando um novo formulário em branco.

    Carlos levantou-se e saiu da sala, deixando Fernanda com suas planilhas e seu novo projeto monumental. Enquanto a porta se fechava, Fernanda não olhou para os papéis imediatamente. Ficou olhando para a porta, um pensamento final, um último detalhe que deliberadamente omitira, passando por sua mente.

    “Ah, Carlos… tem mais um motivo, pequeno, pelo qual ela veio para cá”, pensou, um sorriso secreto tocando seus lábios. “Depois que ficou viúva… ela desenvolveu um certo… apetite por homens jovens independentemente da cor de pele. A elite de Areia Branca descobriu, escandalizou-se, e a colocou no gelo. Aqui… bem, aqui a República está cheia de homens jovens, fortes e cheios de histórias para contar. Carne nova para saborear, de todos os tipos. E investigar.”

    Ela abanou a cabeça, pegou o lápis e começou a escrever o nome “Matilda” no topo de uma nova lista, intitulada “Equipe do Jornal”. O trabalho, como sempre, estava só começando.

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