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    O ar dentro do grande galpão do quartel militar estava denso, carregado de uma eletricidade diferente daquela da batalha. Era uma mistura de suor limpo de uniformes lavados à pressa, do cheiro de cera de madeira queimada nas tochas, e da tensão excitada de centenas de pessoas comprimidas em um só espaço. O burburinho era constante, um mar de vozes baixas e risos contidos. A euforia pela vitória contra Albuquerque ainda era fresca, um sabor doce e incrível na boca de todos, mas havia também o peso solene do que viria a seguir.

    O motivo da aglomeração era duplo: o Presidente Carlos e o Comandante Geral Espectro iriam distribuir medalhas e anunciar promoções. A maioria ali nunca tinha visto uma medalha que não fosse um amuleto religioso ou um adorno de nobre. A ideia de receber uma condecoração do próprio líder da República, por atos de bravura, era algo novo e poderoso. Os olhos brilhavam de expectativa, mesmo entre os veteranos mais calejados.

    Nem todos os que lutaram no riacho estavam presentes. Uma parte significativa da tropa já estava posicionada na fronteira avançada, nos engenhos recapturados, mantendo a pressão sobre as terras de Albuquerque enquanto aguardavam o próximo movimento. A espera, no entanto, era ansiosa. O avanço estava condicionado à chegada de mais regimentos, e esses regimentos, por sua vez, esperavam por armas. A linha de suprimentos da República dependia de um único, crucial e lento fluxo: a produção dos fuzis de repetição na fábrica.

    A memória da batalha no riacho já estava sendo mitificada. Nos corredores do quartel e nas mesas de bar, contava-se que uma centena de fuzis havia chegado como um milagre, dizimando os bandeirantes. A realidade era mais prosaica e mais frágil. Chegaram vinte. Vinte fuzis, transportados à frente da coluna de reforços por uma equipe que correra dia e noite. E mesmo esses vinte só funcionaram porque Nia, com seu poder para moldar metal, passara a semana desmontando, limpando, ajustando e até persuadindo com seu poder as peças mais teimosas. Mesmo assim, sob a chuva, o stress e a pressão, vários falharam. Um cano entupiu, outro teve o ferrolho travado, uma mola quebrou. A vantagem fora decisiva, mas fina como uma lâmina.

    Aquela vantagem, porém, somada à defesa desesperada e inteligente organizada por Pedro, e ao choque psicológico de ver uma cavalaria carregando não com lanças, mas com aquelas armas de fogo rápido, fora suficiente. Criou um ponto de ruptura. Muitos capitães do mato, homens endurecidos pela violência, recuaram naquele dia não por covardia, mas por um instinto de preservação diante de algo novo e incompreensivelmente letal.

    O ritmo de produção daquela maravilha e desse pesadelo era uma das serpentes que mantinham Carlos acordado à noite. Os cálculos rodavam em sua cabeça: matéria-prima, homens treinados, falhas, o tempo implacável. Eles não podiam esperar. O cerco externo apertava. O embargo de ferro era total. Em breve, a Igreja, pressionada pela Cidade Sagrada de Alba, cortaria oficialmente todo e qualquer comércio com a “república de hereges e rebeldes”. E os rumores, trazidos por mercadores cautelosos e espiões caros, eram unânimes: o Governador da Capitania de Pernambuco não via mais aquele quilombo como um incômodo local, mas como uma ameaça política. Ele estava reunindo tropas regulares, contratando mercenários europeus acostumados a guerra de cerco. O próximo exército que marchasse contra eles teria o triplo do tamanho do último.

    Conquistar Ouro Branco rapidamente não era mais apenas um objetivo estratégico; era uma mensagem escrita com pólvora e aço. Era dizer ao Governador, à Igreja, a todos: “Não somos um problema a ser resolvido com uma patrulha. Somos um poder. Enfrentar-nos terá um custo que talvez vocês não queiram pagar.” Talvez, só talvez, isso mantivesse a Igreja em sua frágil neutralidade, dividida entre o dever com a ordem colonial e o horror de uma guerra longa e sangrenta contra um inimigo que inexplicavelmente possuía tecnologia avançada.

    “Problemas e mais problemas”, o pensamento era um refrão cansado na mente de Carlos enquanto ele subia os degraus de madeira que levavam ao palco improvisado no centro do galpão.

    O palco era simples: algumas tábuas sobre barris. Nele já estavam Espectro, imponente em seu uniforme verde escuro, e um jovem adepto segurando com cuidado um objeto estranho: uma gema do som, incrustada em um suporte de latão com padrões circulares gravados. O artefato lembrava um megafone primitivo.

    Carlos posicionou-se no centro, sentindo o peso do silêncio repentino que caiu sobre a multidão. Centenas de rostos, alguns marcados por cicatrizes recentes, outros ainda com a feição arredia de quem não estava acostumado a cerimônias, voltaram-se para ele. Na primeira fila, entre os convidados, ele viu Matilda. A mulher não estava mais no vestido azul. Usava uma túnica prática de linho cru, mas seus dedos, finos e ágeis, já seguravam um bloco de papel e um lápis afiado. Seus olhos cinza, longe de serem sonhadores, eram duas pontas de lança focadas nele, prontas para capturar cada palavra.

    O adepto da gema do som acionou o dispositivo com um toque sutil. Um leve zumbido preencheu o ar.

    Carlos respirou fundo, e quando falou, sua voz não saiu amplificada de forma bruta. Saiu clara, nítida e perfeitamente audível até o fundo do galpão, como se ele estivesse falando a poucos centímetros de cada ouvido.

    — Bom dia a todos os soldados da República! — começou, e viu vários cabeças erguerem-se um pouco mais, surpresos pelo som.

    Ele fez uma pausa, deixando a saudação ecoar no silêncio tecnológico.

    — Estamos aqui hoje por uma razão simples, mas que carrega o peso de tudo que construímos. Estamos aqui para olhar para trás, para o riacho, para a escuridão daquela madrugada, e para reconhecer algo que não pode ser medido apenas em terreno ganho ou inimigos derrotados. Estamos aqui para reconhecer a coragem.

    Ele caminhou até a borda do palco, seus olhos percorrendo a plateia.

    — Coragem não é a ausência de medo. Eu vi o medo nos olhos de cada um de vocês que estavam lá. Eu o senti em meu próprio peito. Coragem é o que você faz apesar do medo. É o cabo Pedro erguendo uma parede de gelo com as últimas forças para proteger um companheiro caído. É a Adepta Isabela mantendo a chuva longe dos nossos mosquetes até o último instante, até cair. É a Tainá sentindo o chão tremer com a aproximação do inimigo e ainda assim fincar seu cajado e dizer: ‘Aqui não passam’.

    Vozes sussurraram concordâncias. Rostos se voltaram para localizar os heróis citados no meio da multidão.

    — Mas a coragem de uns poucos não sustenta uma nação. A coragem que nos trouxe até aqui, que nos tirou da senzala, do engenho, da invisibilidade, é uma coragem coletiva. É a coragem de acreditar que um futuro diferente é possível. E esse futuro — ele ergueu a mão, apontando simbolicamente para as paredes do galpão, para a cidade além — é construído com as mãos de cada trabalhador nas nossas fábricas, com o suor de cada agricultor nos nossos campos, e com o sangue sagrado de cada soldado que defende esse chão.

    Ele fez uma nova pausa, mais longa. O ar parecia carregado.

    — A batalha do Riacho não foi apenas uma vitória militar. Foi a prova de que esse futuro, por mais difícil que seja, vale a pena. Foi a prova de que quando nos organizamos, quando unimos nosso engenho à nossa bravura, somos capazes de enfrentar e vencer um dos poderes mais cruéis desta colônia. Mas não nos enganemos.

    O tom mudou, ficando mais grave, mais real.

    — Albuquerque recuou, mas não foi derrotado. Novos e maiores exércitos já estão sendo formados contra nós. O mundo lá fora nos vê com ódio e medo. Eles não entendem o que construímos aqui, e tentarão destruí-lo.

    Ele viu alguns semblantes se fecharem, outros franzirem a testa com determinação renovada. Matilda escrevia freneticamente.

    — Por isso, hoje, não celebramos apenas o passado. Reafirmamos nosso compromisso com o futuro. As medalhas que entregaremos não são enfeites. São um símbolo. Um símbolo de que a República vê, honra e nunca esquecerá o sacrifício de seus filhos e filhas. E as promoções são mais do que um novo título. São um voto de confiança. A confiança de que vocês, que já provaram seu valor no fogo, estão prontos para liderar outros, para ensinar, para construir a espinha dorsal do exército que protegerá nossa liberdade.

    Carlos recuou para o centro do palco, dando um aceno para Espectro.

    — Agora, quero que todos ouçam os nomes daqueles que se destacaram. Guardem esses nomes. Eles são a cara da nossa resistência.

    Espectro adiantou-se, segurando uma lista de pergaminho. Sua voz, naturalmente poderosa, mesclou-se ao efeito da gema, preenchendo o espaço com uma autoridade inquestionável.

    — Chamaremos agora os heróis do Riacho. Quando seu nome for chamado, suba ao palco.

    O primeiro nome ecoou:

    — Pedro, Cabo do CFE(Corpo de Forças Especiais).

    Um murmúrio de aprovação percorreu a multidão enquanto Pedro, vestindo seu uniforme mais limpo, subia os degraus com passos firmes, mas seu rosto era sério, ainda carregando a memória dos que não subiriam.

    Carlos pegou uma medalha de uma bandeja seguida por um ajudante. Era um disco simples de bronze, polido, pendurado em uma fita de tecido verde. No centro, gravado de forma rústica mas clara, estava o símbolo da República: uma engrenagem representando a indústria e dois mosquetes em sua frente formando um X, eles representavam poder e liberdade.

    — Por bravura excepcional, liderança sob fogo e pela defesa determinada da posição da República no Riacho — declarou Carlos, prendendo a medalha no peito de Pedro —, você é condecorado com a Medalha da Liberdade . E por demonstrares as qualidades de um comandante, é promovido a Sargento do Corpo de Forças Especializadas. A partir de hoje, tua responsabilidade não será apenas sobre cinco homens, mas sobre um pelotão de vinte e cinco. A República conta contigo, Sargento Pedro.

    Eles trocaram um olho firme, um aceno de cabeça. Pedro desceu do palco, o metal frio da medalha um peso novo e significativo sobre seu coração.

    — Tainá, Adepta da Terra do CFE.

    — Isabela, Adepta da Água do CFE.

    Elas subiram, uma após a outra. Tainá ainda parecia deslocada com a formalidade, mas seus olhos brilharam quando a medalha foi presa em seu uniforme. Além de também serem promovidas, ambas a Sargento.

    Espectro observava cada entrega, seus pensamentos trabalhando em um nível estratégico. “Nos relatórios”, ele refletia, observando a diversidade dos condecorados, “ficou claro: os bandeirantes, mesmo com adeptos poderosos como aquele do vento, agiam como lobos solitários. Cada um com sua gema, seu truque. Tinham números, mas nenhuma coordenação. Foi sua ruína.” Seus olhos pousaram em Carlos, que preparava a próxima medalha. “Finalmente entendo por que ele tanto insistia: ‘Formem equipes por afinidade. Padronizem as armas, mesmo que simples’. Um cajado que mal canaliza mana, nas mãos de vinte e cinco adeptos da terra treinados para agir juntos, é mais útil que um único prodígio como a Tassi em uma batalha campal. É uma força previsível, confiável, escalável. Não dependemos de encontrar raridades mágicas. Construímos nossa força com o que temos.”

    — Nzambi, Soldado do CFR(Corpo de Forças Regulares).

    Nzambi subiu, seus passos um pouco hesitantes. Quando a medalha foi presa em seu peito e sua promoção a Cabo anunciada, um rubor de orgulho e surpresa subiu por seu pescoço. Ele mal conseguia acreditar.

    Espectro observava-o descer. “Antes de conhcer Carlos, eu sempre liderara formando pequenos times táticos”, ponderou. “Um de água, um de gelo, um de terra, se complementando. É viável, claro. O próprio Pedro e Isabela mostraram isso. Mas e se, em vez de times de quatro, tivermos pelotões especializados que aprendam a cooperar? Um pelotão de terra para fortificação, um de água para apoio e neblina, um de gelo para contenção… A flexibilidade seria enorme…”

    Depois que a última medalha daquela leva foi entregue, Carlos retornou ao centro do palco. A atmosfera, antes de celebração contida, tornou-se solene e pesada. O adepto da gema do som pareceu ajustar algo, e a voz de Carlos saiu um tom mais suave, mas não menos clara.

    — Honrar os vivos é nosso dever. Honrar os mortos é nossa obrigação sagrada.

    Ele fechou os olhos por um breve segundo, como se reunisse forças.

    — Na última batalha, muitos não voltaram para receber suas medalhas. Eles as ganharam com o preço final. Heróis como João, o ferreiro, que largou a bigorna para pegar em um mosquete. Como Fernando, o jovem vigia que deu o alarme. Como Carla, a cozinheira que levou provisões para a frente e pegou em uma arma quando foi preciso.

    A cada nome, um soluço era abafado em algum lugar na multidão. Famílias, amigos, se apertavam.

    — Saibam todos — continuou Carlos, sua voz carregada de uma emoção genuína que cortava qualquer formalidade — que eles não serão esquecidos. Que cada um receberá um enterro digno, de acordo com sua fé. Seja na igreja, no terreiro, ou nas preces silenciosas de seus familiares. A República que eles ajudaram a defender lhes garante isso.

    Ele ergueu a mão, como para conter uma possível objeção que nem existia.

    — E a seus entes queridos, àqueles que perderam um pai, uma mãe, um filho, uma irmã… a República não os abandonará. Estabelecemos, a partir de hoje, uma pensão por morte em combate. Uma contribuição mensal, em dinheiro, para ajudar a família a seguir em frente. É o mínimo que podemos fazer. É uma promessa: quem dá sua vida pela República, tem a vida de sua família acolhida por ela.

    Um silêncio profundo, carregado de uma nova espécie de choque — o choque de um cuidado institucional que nenhum deles jamais experimentara — tomou conta do galpão. Para muitos ali, escravos libertos, pobres, deserdados, a ideia de que o “Estado” pudesse cuidar, e não apenas explorar ou exigir, era mais revolucionária que qualquer fuzil.

    Carlos não disse mais nada. Apenas inclinou a cabeça em um gesto de respeito coletivo. A cerimônia, em sua essência, tinha terminado. O que ficou no ar foi mais do que o cheiro de cera e suor. Ficou a sensação pesada e esperançosa de um pacto renovado, forjado na perda, honrado no metal simples de uma medalha, e sustentado pela frágil, mas determinada, promessa de um futuro que ainda precisaria ser conquistado com muito mais aço, suor e sangue.

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