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    Após a conversa com Nzambi, Carlos sentou-se à sua pesada mesa de jacarandá, os dedos tamborilando na superfície lustrosa. Ele respirou fundo, organizando os pensamentos, antes de pedir à secretária:

    — Márcia, por favor, chame a ministra Tassi. Preciso falar com ela.

    Não demorou muito até que a porta de madeira maciça se abrisse e Tassi entrou, com seu cabelo curto, porém agora maior que antes e as mãos ainda levemente manchadas de terra – sinal de que vinha diretamente dos campos experimentais.

    — Precisando de mim, Carlos? — perguntou ela, erguendo uma sobrancelha. — Tem algo a ver com o Ministério da Agricultura? Descobri uma combinação de plantas com inhame com a gema da grama está dando resultados impressionantes.

    — Preciso, sim, mas não está relacionado à agricultura — Carlos respondeu, gesticulando para que ela se sentasse na cadeira à sua frente. — Na verdade, descobri algo sobre como se invocar coisas do meu mundo para cá.

    Ele então explicou, com cuidado, tudo o que Nzambi lhe havia revelado. A sala ficou em silêncio, exceto pelo som distante de uma carroça passando na rua. Tassi escutou com atenção, seus olhos verdes refletindo a luz suave das gemas de iluminação embutidas na parede. Ela ficou surpresa, mas não chocada – afinal, já estava acostumada com poderosos sacrificando os mais fracos em prol de poder.

    “Apesar de que Carlos é diferente”, pensou ela, observando a expressão séria e um tanto angustiada em seu rosto. “Sei que ele não vai sacrificar ninguém… seu incômodo com a própria possibilidade já prova isso.”

    — O que eu gostaria de saber é o seguinte — Carlos inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados na mesa. — Quando eu vim para este mundo, você foi a primeira pessoa que vi. Mas lá não havia nada: nem sacrifícios, nem altar, nem gema do sacrifício. Você viu algo de diferente? Porque, pelo que Nzambi disse, para invocar uma pessoa, algo grande e complexo, seriam necessárias centenas ou até milhares de vidas.

    Tassi balançou a cabeça lentamente, fechando os olhos por um momento, como quem tenta pescar uma memória à luz fraca do amanhecer.

    — Estava muito escuro, Carlos. Só as estrelas do céu iluminavam a  noite? Só te vi quando já estava quase passando ao seu lado.

    — E não notou nada mais estranho? — perguntou Carlos, tentando não deixar transparecer muita expectativa.

    Tassi ficou em silêncio por alguns segundos, o rosto contraído em concentração. O som de passos apressados ecoou no corredor, mas não foi suficiente para quebrar sua linha de pensamento.

    — Na verdade… — começou ela, pausando como se duvidasse da própria memória.

    Só de ouvir essas palavras, o ânimo de Carlos se levantou. Ele prendeu a respiração.

    — Antes de você aparecer — continuou Tassi, olhando para um ponto distante na parede —, eu vi um raio naquela direção. Mas não era um raio qualquer. Era roxo e escuro… Quer dizer, é normal raios terem diversas cores, já que são feitos de mana. Alguns são até atraídos por gemas mágicas. Mas aquele tinha uma cor que nunca tinha visto. Era um roxo profundo, quase negro, que parecia rasgar o céu e depois se dissipar sem fazer barulho.

    “Normal só se for nesse mundo aqui…”, pensou Carlos, reprimindo um suspiro. Em seu mundo, raios eram amarelos ou brancos, e sempre vinham com trovões.

    — Eu não sabia disso sobre os raios — admitiu ele. — Por acaso, há algum risco de um desses atingir uma casa ou uma máquina que use uma gema?

    Tassi balançou a cabeça negativamente.

    — Só se houver uma gema do tamanho de um burro exposta ao ar livre. E mesmo assim, seria raro. As pedras menores, como as que usamos nas lamparinas ou nas ferramentas, não costumam atrair essa atenção.

    — Entendo — Carlos anotou mentalmente a informação. — Obrigado, Tassi. Era só isso que eu queria perguntar.

    Após a saída da ministra, o som da porta se fechando ecoou no escritório. Carlos levantou-se e foi até um grande armário de mapas. Selecionou um, pesado e envelhecido nas bordas, e desenrolou-o sobre a mesa, prendendo as pontas com um peso de bronze em forma de tartaruga e seu próprio porta-canetas de cerâmica. O mapa detalhava a Capitania de Pernambuco, com seus rios serpenteando como veias azuis, vilas marcadas com pontos e regiões de mata densa hachuradas em verde.

    “O engenho do Jorge, onde eu apareci, era bem aqui”, pensou ele, tocando o local com a ponta do dedo, entre Ouro Branco e Areia Branca. “Quando capturarmos essa região de vez, vou mandar algum adepto da gema da visão analisar bem o local. Deve haver uma explicação de como vim parar aqui… e talvez de como posso trazer mais coisas do meu mundo, sem sacrificar ninguém.”

    A possibilidade o agitou por dentro. Respirou fundo, sentindo o cheiro do papel envelhecido e da tinta do mapa. Depois, com um esforço consciente, redirecionou seus pensamentos para uma preocupação mais imediata: o ataque a Albuquerque e Ouro Branco.

    “Nia está dia e noite melhorando as armas de repetição”, lembrou, com uma ponta de admiração. “E ajudando na produção para que o exército tenha mais soldados equipados. Mais alguns dias e conseguimos a meta de cem para o ataque – um feito em tempo recorde. Apesar de que isso só é possível graças a ela. A fábrica, por si só, não conseguiria, mesmo tendo os melhores ferreiros da República… os mesmos que trabalharam sob sua orientação.”

    Carlos passou o resto do dia imerso nessas questões, alternando entre relatórios, mapas táticos e cálculos de logística. Só deixou o escritório quando a noite já estava escura, o ar frio da serra enchendo os corredores vazios. O caminho de volta para casa foi silencioso, pontuado apenas pelo canto noturno de grilos e pelo distante murmúrio do rio. Ele dormiu um sono pesado, mas inquieto.

    Na manhã seguinte, já de volta à sua mesa no escritório, com a luz do sol entrando pela janela e iluminando partículas de poeira que dançavam no ar, ele se lembrou de algo importante.

    “Ah, é mesmo! Matilda tinha me passado o protótipo do jornal. Disse que, se eu quisesse alterar algo, deveria falar com ela antes da impressão… Como não falei, o jornal já deve ter sido impresso e está sendo distribuído.”

    Abrindo a gaveta superior direita da mesa, Carlos encontrou o maço de folhas cuidadosamente dobradas. Puxou-o para fora e colocou-o sob a luz clara da manhã.

    “Vejamos o que ela preparou…”

    A primeira página do Jornal Jabuticaba era bem diagramada, exatamente como ele havia sugerido em suas longas conversas com Matilda. Ela aprendia rápido, de fato.

    “VITÓRIA CONTRA ALBUQUERQUE!”

    O título era em letras grandes e firmes. Carlos começou a ler, saboreando o chá de ervas que Márcia trouxera – amargo e reconfortante.

    “Pedro e seus companheiros lutaram bravamente contra as forças de Albuquerque, que invadiam nossas terras. Os novos recrutas e os cabos mais novos tinham ficado encarregados de guardar as guarnições na fronteira quando foram vilmente atacados por centenas de bandeirantes em uma jogada suja durante a madrugada…

    Pedro, apesar de ter chegado junto com Carlos ao quilombo, foi colocado no comando, pois era o cabo mais antigo presente na situação – mesmo Tainá, que lutará bravamente, sendo tecnicamente mais velha, sua promoção era recente. No momento em que deliberavam os próximos passos, foram surpreendidos. Mesmo assim, escaparam sem perder um único soldado, graças ao plano rápido e astuto de Pedro. Não demorou muito para que se refugiassem num riacho, onde se reorganizaram e esperaram pelo resgate, lutando valentemente até a chegada do tenente Henrique, que liderava o contingente de socorro equipado com as novas armas fabricadas aqui mesmo na República. O contingente perseguiu…”

    Carlos suspirou, sentindo um alívio pesado e quente se espalhar pelo peito.

    — Ela apenas citou nomes, mas nada de poderes ou detalhes das armas… — murmurou para si mesmo, tomando um gole de chá. — Isso é bom. Muito bom.

    A reportagem continuava, e o tom se tornava mais solene.

    “FOI UMA VITÓRIA, MAS COM UM CUSTO”

    “Perdemos muitas vidas de soldados, heróis, principalmente na emboscada principal que antecedeu o confronto. Uma dessas heroínas foi Lívia, que deixou para trás quatro filhos e dois maridos. Era uma mãe batalhadora, conhecida por seu sorriso fácil e suas tortas de mandioca… Por sorte, o governo estará pagando uma pensão à família. Ela foi enterrada no cemitério do mocambo, com honras. Muitos soldados, companheiros de armas, e até mesmo o comandante-geral acompanharam o enterro sob uma chuva fina que parecia lavar a dor, mas não a memória…”

    “Mas ela não foi a única vítima. Mais de setenta e sete heróis morreram defendendo nosso chão. Seus nomes estão listados abaixo, para que nunca sejam esquecidos: João Gonçalves; Jasmim; Irene; Emerson…”

    Os nomes que se seguiam eram uma coluna longa e triste. Carlos leu cada um, e seu coração pareceu pesar mais a cada linha. “Quando todo o exército estiver equipado com as armas de repetição”, pensou, os dedos apertando a xícara de chá, “preciso pensar em mais defesas. Em armaduras melhores. Em algo que proteja mais vidas. O custo é alto demais.”

    “Porém, o inimigo pagou o preço em dobro: cento e cinquenta e oito baixas confirmadas, com muitos outros feridos. O restante fugiu com o rabo entre as pernas, levando consigo apenas o gosto amargo da derrota…”

    Virando a página, o papel emitiu um som seco. A próxima manchete o pegou de surpresa.

    “VIDA SOB GANGA ZALA”

    “Conversamos com comerciantes que negociaram com aqueles que decidiram fugir da República – que, na época, ainda era conhecida como Quilombo da Jabuticaba. Segundo relatos, o grupo se estabeleceu perto de Areia Branca, em um terreno plano cercado por senhores de engenho. Eles tiveram todas as suas armas, gemas mágicas e economias confiscadas, e foram forçados a jurar lealdade à Coroa Portuguesa, convertendo-se ao cristianismo sob coerção. Dizem que a vida lá é precária, mas tolerável. No próximo mês, tentaremos conseguir um relato direto de quem mora no local. Mas pelo que descobrimos a vida lá…”

    — Isso… é muito interessante — Carlos falou baixo, seus olhos percorrendo o texto. — Eu estava com tanta coisa na cabeça que nem tive tempo de investigar a situação deles. Ganga Zala… O que terá acontecido com aquela gente?

    A terceira chamada principal trazia um tom mais esperançoso.

    “GEMA DA GRAMA, OU MELHOR AINDA, GEMA DA COMIDA, DA ABUNDÂNCIA!”

    “Graças à pesquisa da ministra da Agricultura, Tassi, em conjunto com o presidente Carlos, descobrimos como, através de conceitos da agrofloresta, é possível fazer plantas crescerem e darem frutos comestíveis com uma gema antes considerada útil apenas para ataques pontuais. A pesquisa foi feita a partir de…

    “Carlos repassou a informação à Papisa, que a declarou válida para todo o mundo. No entanto, a adoção do método tem sido lenta lá fora – com a notável exceção da própria Santa Papisa, que já ordenou a preparação de campos experimentais na Cidade Sagrada de Santa Maria…

    “Enquanto muitos de nossos irmãos, sob o domínio dos senhores de engenho, ainda passam fome devido à monocultura da cana, nós, aqui na República, descobrimos um caminho para erradicar a escassez. Enquanto a Santa Papisa, também conhecida por sua genialidade, inicia suas pesquisas nesse ramo que mistura ciência e gemas mágicas, nós já estamos aplicando o conhecimento em nossas hortas!”

    — Dá para ver que ela conversou bastante com a Tassi — Carlos comentou consigo mesmo, um leve sorriso nos lábios. — E que a Fernanda a ajudou a reunir as informações. Tem um certo toque de quem conhece a realidade daqui, deve ter vindo da equipe dela… Fernanda é mesmo incrível, montou uma equipe competente em tempo recorde.

    As páginas internas traziam notícias sobre o comércio interno da República, pequenas melhorias nas estradas, término da construção da cisterna, vagas de emprego, a chegada de um carregamento de sal, e breves notas sobre acontecimentos na Cidade Sagrada e em outras capitanias. Carlos lia enquanto tomava seu chá, agora já morno. A leitura era fluida, o texto bem escrito. Até que ele virou uma página e deparou-se com um título que o fez engasgar. O chá quase voltou.

    “ROMANCE DENTRO DA PREFEITURA!”

    “O presidente Carlos proporcionou um jantar especial para a ministra da Agricultura e lhe ofereceu um presente sob a luz romântica das gemas! O jantar teve comidas do mundo do Presiudente Carlos…

    Testemunhas afirmam que quando a ministra da Educação, Quixotina descobriu isso, ficou ‘vermelha de inveja’ e desferiu diversos chutes amigáveis (mas vigorosos) nas nádegas do chefe de estado. O episódio, ocorrido no meio da rua, levanta questões: seria traição? Ciúmes? Um triângulo amoroso se forma no coração da República?”

    Carlos ficou paralisado por um segundo. Então, uma onda de calor subiu do pescoço até sua testa. Com um movimento brusco, ele se levantou, pegou o jornal com força – amassando parte da página – e saiu do escritório quase correndo. Seus passos ecoaram pelos corredores de maneira atípica, atraindo olhares curiosos de funcionários.

    Ele irrompeu no Ministério do Trabalho. Fernanda estava em pé, perto de um quadro de avisos repleto de papiros, conferindo uma lista. Ela se virou, surpresa com a entrada abrupta.

    — Fernanda! — a voz de Carlos saiu mais alta do que pretendia. — Cadê a Matilda?

    Fernanda piscou, recuperando a compostura. Seus olhos percorreram rapidamente o jornal amassado na mão de Carlos, e um entendimento – misturado com um leve e contido humor – brilhou em seu olhar.

    — Ela está na praça central, Carlos — respondeu, mantendo a voz calma. — Onde os primeiros exemplares estão sendo vendidos. Disse que queria ver a reação dos leitores em primeira mão. Acredito que esteja coletando… impressões.

    Carlos já se virava para sair novamente, mas parou na porta. Voltou-se para Fernanda, apontando o dedo indicador para ela, com a seriedade de uma ordem de combate.

    — E fica registrado: nada de colocar fofocas da minha vida pessoal no jornal oficial da República! Isso é uma ordem!

    Antes que Fernanda pudesse responder – um leve sorriso já se formando em seus lábios –, Carlos desapareceu pelo corredor, seus passos apressados se afastando em direção à praça, onde uma certa jornalista estava prestes a receber um feedback muito, muito direto do chefe da sua chefe.

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