Capítulo 151 - Preparações Finais
A luz da manhã, pálida e dourada, filtrada pelas janelas altas do escritório, iluminava a nuvem de poeira que dançava sobre a pilha de papéis. Carlos estava inclinado sobre a mesa, a testa franzida em uma expressão que, para qualquer observador externo, denotava profunda preocupação com questões de estado. Mas na realidade ele não estava pensando em nada disso.
“O que eu posso dar de presente para Quixotina?” o pensamento martelava, insistente, por baixo da fachada presidencial. “Uma granada de luz seria… prático. Mas não combina com uma cavaleira. Algo com a gema da força? Uma braçadeira reforçada? Parece muito utilitário, um equipamento, não um presente.”
Ele soltou um suspiro quase inaudível, o som se perdendo no vasto silêncio do cômodo, quebrado apenas pelo tic-tar distante de um relógio de parede. O cheiro do papel envelhecido e da tinta da caneta era familiar, mas hoje não conseguia prender sua atenção.
“Um livro, talvez? Uma história do meu mundo… mas esses livros não vêm para cá. Só chegam manuais técnicos, tratados de engenharia, coisas ‘úteis’.Faz sentido, quando paro para pensar. Ninguém invocaria um romance, um livro de poemas. Invocam o que dá poder, o que gera riqueza. O desejo molda a invocação. É triste, de certa forma.”
Seu olhar vagou para a janela, onde o movimento pacato da praça começava. Hoje era o aniversário de Dulcinéia, e ele tinha um bom presente para a menina, na verdade até mais de um.
“Para Quixotina, ainda não tenho um presente. E a Nia também quer algo. Merece mais que qualquer um. Do nascer ao pôr do sol, e muitas vezes além disso, está na fábrica. O ataque só é possível porque ela não dorme, fica apenas produzindo ou aperfeiçoando fuzis.” Uma ponta de culpa o perfurou. “Bom, isso terá que esperar. Depois de Ouro Branco. Agora, toda a força precisa estar concentrada nisso.”
A suave batida na porta o tirou da divagação.
— Presidente? — era a voz calma e profissional de Márcia. — O Espectro está aqui. Disse que precisa conversar com o senhor.
Carlos endireitou-se na cadeira, empurrando o pequeno projeto pessoal para uma gaveta. O rosto assumiu imediatamente a postura esperada.
— Pode deixá-lo entrar, Márcia.
“Por falar no que realmente tenho que pensar…”, refletiu, enquanto a porta se abria.
Espectro entrou com a discrição que seu nome sugeria. Seu uniforme verde-escuro parecia absorver a luz, e apenas os olhos, atentos e cansados sob a sombra do chapéu, denotavam sua presença. Ele fechou a porta com um clique suave antes de se sentar na cadeira à frente da mesa, dispensando saudações formais.
— Os números estão fechando — disse ele, tirando uma pasta de couro gasto. — Graças ao esforço da Nia e de todos na fábrica, vamos atingir a meta de cem fuzis de repetição a tempo. Faltam poucas unidades.
Carlos assentiu, sentindo o peso concreto daquela conquista.
— Só foi possível porque ordenei à Fernanda que desviasse todos os ferreiros qualificados — respondeu, esfregando os olhos. — Os projetos de panelas de pressão, ferramentas agrícolas, tudo ficou em segundo plano. Mandei todos para a fábrica, que agora trabalha de dia e noite, com turnos diferentes.
— Sou grato por isso — Espectro colocou os papéis sobre a mesa, alinhando-os com precisão militar. — Os números finais: cem fuzis de repetição, setecentos mosquetes confiáveis, duzentos adeptos mobilizados para combate. A artilharia tem seis canhões leves prontos, também há canhões pesados, mas eles ainda não serão necessários.
Ele fez uma pausa, o dedo indicador descendo por uma coluna de números.
— Temos mais soldados recrutados, é verdade. Mas não temos armas de fogo para todos eles. E temos mais adeptos na República, mas…
— …Mas eles estão espalhados pelas fábricas — Carlos completou, antecipando o argumento. — O controle de temperatura na fábrica química, a laminação do metal na fundição, a purificação da água. Tirá-los seria cortar nossas próprias veias.
— Exatamente — Espectro confirmou. — Não pretendo remanejá-los. Nosso exército moderno depende tanto da munição que sai da fábrica química quanto das armas. Apesar de tudo, temos sorte. Mesmo com a população perto de vinte mil após… as perdas, temos uma densidade de adeptos acima da média. Muitos já estavam no exército antes da divisão com Ganga Zala.
Carlos pegou a folha de números, seus olhos percorrendo as cifras que pareciam tão pequenas contra a vastidão do desafio. Um frio familiar assomou em seu peito.
— Com isso… você realmente acha que conseguimos tomar Ouro Branco?
Espectro não respondeu imediatamente. Em vez disso, desenrolou um mapa sobre a mesa, sobrepondo os relatórios. Era um mapa detalhado da região, com marcas de carvão e tinta vermelha. O dedo dele, caloso e firme, apontou para o símbolo que representava a cidade.
— A inteligência é clara. O governador ainda está recrutando, desesperadamente. A cidade em si está vulnerável. A única defesa organizada é este forte, aqui, na estrada principal. — Sua unidade bateu em um pequeno quadrado fortificado. — Eles subestimam nossa ambição. A ideia de um exército de negros conquistando uma cidade ainda parece um delírio para eles.
Carlos estudou o mapa, sua mente calculando distâncias, linhas de suprimento.
— E Albuquerque? O engenho dele é um espinho no nosso flanco.
— É o nosso maior problema tático — admitiu Espectro. — Mesmo após a derrota, ele fugiu com o grosso de seus adeptos. Estão feridos, raivosos, e perigosos. Serão um inimigo móvel e vingativo durante nosso avanço.
O olhar de Carlos então pousou em outra marcação, mais ao leste: um castelo estilizado.
— E o Castelo Garcia? Os senhores de engenho da região não vão ficar de braços cruzados.
Espectro puxou outro papel, cheio de notas escritas à mão.
— O Castelo Garcia abriga senhores poderosos, sim. Mas nenhum tem o poder pessoal, a riqueza ou o número de adeptos de um Albuquerque. — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras. — Mas estou sendo cauteloso. Eles já estão se mexendo. Comerciantes… menos escrupulosos me informaram que começaram a contratar mercenários. Ainda são poucos, não chegam nem perto do que Albuquerque reuniu, mas é um sinal.
Carlos deixou escapar um longo suspiro, e pela primeira vez naquela manhã, um fio de alívio verdadeiro pareceu surgir. Os ombros, que estavam tensionados, abaixaram um centímetro.
— Então… está tudo dentro do planejado. As peças estão se movendo como esperávamos.
Foi exatamente nesse momento, quando a tensão parecia ceder um pouco, que a porta do escritório se abriu abruptamente. Um guarda, com o rosto pálido sob o elmo, estava na soleira, segurando um cilindro de couro.
— Presidente! Uma carta. Da Santa Papisa. O mensageiro… ele estava coberto de sujeira da estrada, disse que era urgente. Vida ou morte.
O ar, que um segundo antes parecia respirável, solidificou-se. Carlos estendeu a mão, os dedos repentinamente frios. Ele reconheceu o selo de cera púrpura antes mesmo de quebrá-lo. Ao desenrolar o pergaminho, sua visão focou nas linhas formais, e então no conteúdo por trás delas.
Suas mãos começaram a tremer. Um tremor fino, incontrolável, que fez o papel sussurrar. A cor drenou de seu rosto.
— O tempo acabou — sua voz saiu rouca, um sussurro carregado de um peso que esmagou o alívio momentâneo. — A Igreja… vai cortar todo comércio. A menos que entreguemos o método de fabricação do aço. Incondicionalmente.
— Mas já?! — A exclamação de Espectro não foi um grito, mas um golpe seco de incredulidade, ecoando na sala silenciosa.
Carlos, sem forças para responder, apenas estendeu a carta. Enquanto Espectro a agarrava, seus olhos escaneando o texto com velocidade assassina, Carlos afundou na cadeira. Levou as mãos à cabeça, os dedos enterrando-se nos cabelos. O cheiro do papel, da tinta, da cera da papisa – tudo cheirava a fim.
— Márcia! — sua voz soou abafada contra as mãos. Ele ergueu o rosto, pálido e decidido. — Chame todos os ministros. Para a sala de reuniões. Agora. É uma emergência nacional.
***
O clima na sala de reuniões era tão denso quanto a fumaça de um incêndio. A grande mesa de madeira maciça, que normalmente testemunhava debates animados, agora parecia um caixão polido. A luz da tarde, que entrava pelas janelas, iluminava os rostos sombrios ao redor. Carlos havia acabado de ler a carta em voz alta, e as palavras ainda parecia pender no ar, como um odor pútrido que ninguém queria admitir estar cheirando.
Fernanda parecia ter sido fisicamente atingida, os olhos marejados fixos na mesa. Guaíra, o ministro da Construção, tinha os punhos cerrados, os músculos da mandíbula salientes. Davi, o jovem ministro da Química, parecia tentar processar a equação impossível que lhes fora apresentada. O silêncio era quebrado apenas pelo respirar ofegante de Aqua, a ministra da Economia, cuja mente devia estar calculando o colapso com a velocidade de uma máquina.
Foi Tassi quem quebrou o gelo, sua voz surpreendentemente calma, mas com uma frieza de aço temperado.
— Então, Carlos. É hora do plano B, não é? Conquistar a Cidade Sagrada.
As palavras, ditas tão diretamente, fizeram vários presentes estremecerem. Espectro, de pé perto do mapa mural, assentiu lentamente.
— A logística seria monstruosa, mas não impossível. O ataque a Ouro Branco ainda não começou. Podemos redirecionar as tropas, fazer uma marcha forçada para o sul antes que eles esperem…
— Isso seria uma traição! — a voz de Fernanda cortou o ar, carregada de angústia. — Uma traição à Santa Papisa! Ela nos acolheu, nos ajudou… é uma santa!
— E nós somos santos? — Aqua interveio, sua voz prática e dura como pedra. — Você, como Ministra do Trabalho, sabe da folha de pagamento. Eu, como Ministra da Economia, lhe digo: já estamos sangrando com o embargo parcial ao aço. Sem nenhum comércio? Nem sal, nem tecido, nem gemas básicas? O Tesouro não dura um mês. O caos virá antes dos soldados portugueses.
Guaíra bateu o punho na mesa, não com raiva, mas com uma frustração antiga.
— E antes? Antes do comércio, antes dos salários, o que éramos? Lutávamos pela sobrevivência com as unhas e os dentes! Podemos voltar a isso! A população entenderá! É pela nossa liberdade final!
Davi, o mais jovem à mesa, ergueu a voz, não em desafio, mas com uma lucidez dolorosa.
— Ministro Guaíra, com todo respeito… você realmente acha que todos voltarão de bom grado a trabalhar só por comida e teto? Depois que se prova o sabor do salário, do comércio, de escolher o que comprar… não se volta ao “básico”. É como a liberdade — seus olhos encontraram os de Carlos por um instante. — Depois que a experimenta, ninguém aceita voltar a ser escravo. Mesmo que o senhor de engenho chame de “proteção” e ofereça um prato cheio.
A discussão explodiu então, vozes se sobrepondo, argumentos de necessidade contra moralidade, realpolitik contra lealdade. Até que uma voz, rouca pela fumaça das forjas e pela falta de sono, silenciou a todos.
— Vocês estão discutindo como se só houvessem duas portas nesta sala.
Era Nia. Ela estava encostada na moldura da porta, seus braços cruzados sobre o avental de couro manchado de fuligem. Todos se viraram para ela.
— Ou declaramos guerra à Igreja, ou aceitamos morrer em silêncio. Esquecem a terceira opção: entregar o segredo.
Um murmúrio de choque percorreu a sala.
— Isso nos daria tempo — ela continuou, entrando e apoiando-se na mesa, seus olhos prateados percorrendo cada rosto. — Tempo para ficarmos mais fortes. Eu mesma construí o conversor Bessemer. Sei o trabalho que dá. Mesmo com minha afinidade, foi como domar um dragão de metal fundido.
— E o que garante que a Igreja manterá a palavra depois? — Davi perguntou, cético. — Que não vão pegar o aço e ainda assim nos estrangular?
— É isso, Nia. Você está certa. — a voz de Carlos soou, pela primeira vez desde o início da discussão. Todos se calaram. Ele estava de pé agora, olhando para Nia com um brilho estranho nos olhos.
— Presidente, perdão, mas discordo — Espectro interpôs, sua lealdade forçando-o a contestar. — Concordo com o Davi. Entregar nosso maior trunfo é um salto no escuro. Eles terão acesso ao mesmo aço de qualidade. Já é perigoso vender as armas, mesmo com lucro. Dar a receita é armar nosso próprio carrasco.
Carlos balançou a cabeça, um movimento lento e calculado.
— Podemos entregar um método de fabricação de aço. Mas eles irão demorar para dominar o método, assim como Nia demorou, além disso nós—
Aqua cortou sua fala, ela era a única que tinha coragem para fazer isso.
— Isso nos destruiria como potência econômica! Criaríamos um competidor direto, com muito mais recursos!
— Não criaríamos — Carlos disse, e agora um sorriso frio, quase ausente, tocava seus lábios. — Porque, como a Nia tão bem lembrou, ela demorou muito para fazer o conversor funcionar. Mesmo com poderes excepcionais. — Ele fez uma pausa, deixando a implicação pairar. — Eles vão gastar tempo. Ou melhor… perder tempo. Afinal, não precisamos mandar o método correto.
A compreensão atingiu a sala como uma onda. Olhares se entrecruzaram, alguns com um brilho súbito de esperança, outros com horror ante a duplicidade do plano. Nia foi a primeira a romper o silêncio que se seguiu.
— Mas eu não devo ser a única adepto de fogo e metal no mundo! No Velho Mundo, na própria Igreja, pode haver outros. Eles podem descobrir a farsa mais rápido.
— Talvez — Espectro admitiu, pegando o argumento. — Mas um adepto desse nível é raro. E entre a carta ser enviada, o método ser testado, falhar, eles investigarem o porquê, nos confrontarem… serão meses. Talvez um ano inteiro.
— E o que garante que não cortam o comércio enquanto verificam? — Davi insistiu, buscando a falha no plano.
Foi Tassi quem respondeu, com uma convicção surpreendente vinda de alguém de uma fé tão diferente.
— A Papisa vai garantir. Ela está do nosso lado. Eu a conheço. Vi isso em seus olhos.
Fernanda mordeu o lábio, o conflito moral estampado em seu rosto.
— E quando a Igreja descobrir a verdade? Quando perceberem que os enganamos? Aí sim, seremos inimigos mortais! A reação será dez vezes pior!
Carlos olhou para ela, e sua expressão era de uma resignação profunda e antiga.
— Fernanda, a Igreja Católica Apostólica Romana nunca foi nossa aliada. A Papisa, Paula, foi. Ela é uma mulher em um mar de tubarões. Era só uma questão de tempo até as mandíbulas se fecharem. — Ele ergueu a voz, projetando-a por toda a sala.
Ele olhou para cada um dos ministros, seu olhar exigindo não apenas obediência, mas compreensão do precipício à sua frente.
— Então, está decidido. — Sua mão bateu na mesa, um som seco e final que ecoou na sala silenciosa. — Espectro, continue os preparativos para Ouro Branco. A campanha segue. Eu escreverei a carta para a Papisa. Uma carta muito, muito cuidadosa.
O destino da República, mais uma vez, pendia no papel e na solidez de uma mentira.

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