Capítulo 152 - Aniversário I
O estresse dos acontecimentos recentes era um peso denso nos ombros de Carlos, como se ele carregasse uma capa de chumbo. O ato de escrever a carta falsa para a Igreja deixara um gosto amargo e metálico em sua boca, um sabor persistente de trapaça. Porém, como sempre, a vida da República não parava. Depois de selar o documento com um misto de alívio e culpa, ele saiu do escritório para o almoço, buscando na rotina um pouco de normalidade.
O corredor da prefeitura estava fresco. Foi então que, ao sair para a rua principal, ele as viu. Quixotina, com seu vestido simples de trabalho, mas com os cabelos cuidadosamente trançados, segurava a mão de Dulcinéia. A menina, de vestido azul-céu e um laço enorme no cabelo, irradiava uma alegria que parecia limpar o ar pesado.
— Bom dia, Quixotina! — cumprimentou Carlos, forçando um sorriso mais leve do que se sentia. Ele se abaixou, ficando na altura da garota. — E bom dia para a aniversariante! Quantos aninhos você está fazendo hoje, hein?
Dulcinéia soltou a mão da mãe e fez uma pequena reverência, os olhos brilhantes.
— Bom dia, tio Carlos! Estou fazendo doze anos!
— Doze?! Nossa, já está grandinha! — ele exclamou, genuinamente surpreso. — Uma jovem senhora, então.
— Pois é! — confirmou Dulcinéia, inflando o peito com orgulho.
Os três começaram a caminhar juntos em direção ao refeitório comum, seus passos ecoando em uníssono. O cheiro de comida — um robusto cozido de feijão com carne-seca — já começava a invadir os corredores, misturando-se ao aroma de sabão e madeira.
— Tio Carlos — começou Dulcinéia, com a inocência devastadora característica de sua idade —, é verdade o que todo mundo está falando? Que o senhor traiu minha mãe e ela deu uma surra no senhor?
Carlos engasgou com o próprio ar. Sentiu um calor subir do pescoço até as orelhas. Ao seu lado, Quixotina emitiu um som entre um suspiro e um grunhido abafado. Quando Carlos arriscou um olhar, viu que seu rosto estava da cor de um pimentão maduro.
— Trair? Não, não, nada disso! — ele disse, recuperando a fala com dificuldade. — Para trair alguém, Dulcinéia, primeiro a gente tem que namorar, ficar só com aquela pessoa, entende? E o tio aqui está solteirão. Sozinho e abandonado.
Ele fez uma cara de cachorro sarnento, tentando desviar o assunto para o humor. Dulcinéia franziu a testinha, processando a informação.
— Então, mãe… por que você bateu no tio?
Quixotina parou de caminhar por uma fração de segundo. Quando respondeu, sua voz era deliberadamente calma, mas seus olhos, ao encontrarem os de Carlos, eram faróis de aviso.
— Eu dei uns leves chutes no tio Carlos porque ele estava falando coisas sem graça pelas minhas costas — explicou ela, mantendo o olhar fixo nele, como se transmitisse uma mensagem cifrada: “Nada de falar que quero presentes. Nem do que falou mal de mim” — E falar mal dos outros pelas costas é muito, muito feio. Não é, Carlos?
— É… exatamente isso, Dulcinéia — Carlos confirmou rapidamente, sentindo um suor frio na nuca. — Aprendi a lição. Foi só um mal-entendido.
A menina pareceu aceitar, mas sua mente inquisitiva não parou por aí.
— Então… quer dizer que o Jornal Jabuticaba mentiu?
Carlos balançou a cabeça, escolhendo as palavras com o cuidado de quem manuseia pólvora.
— O jornal não mentiu de propósito, flor. A tia Matilda, que escreveu, só se enganou. Ela ouviu um pedaço de conversa, viu uma coisa e achou que era outra. Acontece. Não foi maldade, só… confusão.
— Ah, entendi! — disse Dulcinéia, e seu rosto se iluminou com um novo pensamento. — Sabe, na escola, a professora levou o jornal para a gente tentar ler! Ela disse que aprender a ler é muito importante para a gente se informar direito e não acreditar em qualquer coisa.
“Que ironia perfeita”, pensou Carlos, sentindo um misto de orgulho pela educação e de exasperação pela fonte do exemplo. “O escândalo falso sobre mim virando material didático.”
Eles entraram no refeitório, um salão amplo com mesas longas e bancos, agora cheio do murmúrio das conversas e do tilintar de talheres. O cheiro do cozido era agora intenso e convidativo. Enquanto se serviam e sentavam a uma mesa perto da janela, Carlos não pôde deixar de notar as olhadelas e os cochichos dirigidos a eles. As vozes, embora baixas, carregavam-se na acústica do lugar.
— …é o que eu tô dizendo, Iolanda! O presidente é que nem o tal Ganga Zala, só que mais esperto. Tem seu harém! — sussurrava uma senhora de idade duas mesas atrás, sua voz áspera como lixa. — Num dia aparece com a ministra da Agricultura, no outro com a da Educação, dando presente pra uma e pra outra! Pelo menos ele presenteia, né? Mais fino que o Zala…
“Graças ao jornal de Matilda”, pensou Carlos, espetando um pedaço de mandioca cozida com mais força que o necessário, “minha reputação está no esgoto. Não beijei ninguém desde que cheguei nesse mundo, muito menos… e já sou pintado como um sultão libertino. A história é uma farsa contada pelos vencedores, e as fofocas, uma comédia escrita pelos desocupados.”
Enquanto ele ruminava a injustiça, notou que Quixotina, à sua frente, estava com os ombros tremendo levemente. Ela encarava o prato com uma concentração suspeita, mas os cantos de sua boca subiam de forma incontrolável. Um riso abafado escapou-lhe em um fungada.
Carlos ergueu os olhos e lançou-lhe um olhar que pretendia ser assassino. O tipo de olhar que dizia “Se você soltar uma única risada, não vai ganhar presente nenhum.”
Quixotina apertou os lábios, tentando conter a onda de humor. Seu rosto ficou vermelho de novo, mas agora por um esforço hercúleo. Por sorte, Dulcinéia estava completamente absorta em sua refeição, atacando com entusiasmo os “nuggets de dinossauro” — mais uma das comidas do mundo de Carlos —, e não percebeu a troca de olhares silenciosa e carregada entre os adultos.
Quando Quixotina finalmente conseguiu controlar a crise de riso interno, limpando os olhos com a ponta do guardanapo, Carlos falou em um tom mais sério, baixando a voz.
— Falando em notícias… já te contaram sobre o que foi decidido na reunião ministerial desta manhã? Você estava… ocupada com as explorações com Silvestre e Silvana, imagino que não tenha ouvido.
O humor desapareceu instantaneamente do rosto de Quixotina. Ela colocou o guardanapo ao lado do prato e suspirou, um som que carregava o peso de suas responsabilidades.
— Fiquei sabendo, sim. O Sombra me informou. — Seus dedos brincaram com o cabo da faca. — É uma pena não ter estado lá, mas… concordo com a decisão final. Foi a única jogada possível.
Carlos sentiu uma ponta de alívio genuíno diluir um pouco da tensão em suas costas.
— Que bom. Foi uma decisão difícil, pesada… mas acho que foi a escolha menos ruim. Bom, desde que ela cumpra sua parte do acordo. — Ele manteve os termos vagos, consciente dos ouvidos à volta. A referência à Papisa e ao acordo secreto era para ser entendida apenas por Quixotina.
— Sim… — ela murmurou, olhando pela janela para as crianças brincando lá fora. — Eu reclamo do tanto de trabalho, dos treinos, das aulas… mas estar no comando, tomar essas decisões que pesam na vida de milhares… isso não é para qualquer um.
Carlos sorriu, um sorriso cansado mas real.
— Talvez fosse mais fácil se eu realmente tivesse esse tal harém que o povo inventou — brincou, em um tom leve. — Aí, pelo menos, teria algumas distrações agradáveis para compensar a dor de cabeça.
Quixotina voltou a atenção para ele, e seus olhos estreitaram em um olhar de reprovação cavalheiresca.
— Isso não foi nada cavalheiresco da sua parte, presidente. E para sua informação, eu jamais participaria de algo do tipo.
— Eu sei, eu sei — ele levantou as mãos em sinal de paz, um sorriso irônico nos lábios. — Só estou brincando. No fim das contas, eu sou um homem de uma mulher só. Quando encontrar a certa, pretendo ficar só com ela.
— E essa tal “certa”… quem tende a s— Quixotina começou a perguntar, com um misto de curiosidade e cautela, mas foi interrompida pela voz aguda de Dulcinéia, que havia finalmente desviado a atenção dos nuggets.
— Mãe! O que é exatamente um harém?
Quixotina piscou, surpresa pela pergunta vir justamente no meio daquela conversa. Ela se virou para a filha, e seu rosto se suavizou. Sorriu, um sorriso maternal e didático.
— Um harém, minha flor, é uma coisa que homens muito covardes — ou muito vaidosos — costumam fazer. Em vez de ter coragem de amar e se dedicar a uma mulher só, eles cercam-se de várias, como se fossem troféus. É algo ruim. Jamais, em hipótese alguma, você deve se sujeitar a um homem assim. Entendido?
— Tá bom! — assentiu Dulcinéia, solene. — Mas… e se for o contrário? Uma mulher pode ter mais de um marido? Porque a Luizinha tem dois pais, e a Joana tem três!
Quixotina bebeu um gole de água, dando-se um segundo para formular a resposta.
— Pode, sim, minha filha. Desde que sejam todos bons maridos, que a tratem com respeito e que todos concordem com essa escolha. O importante é o respeito e a felicidade de todos.
Carlos ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Ei, ei! Dois pesos e duas medidas, é? Se for mulher, pode ter um ‘harém’, mas se for homem, é covarde?
Quixotina terminou sua sobremesa — uma gelatina de jabuticaba — e começou a arrumar os cabelos de Dulcinéia, que haviam se soltado durante a refeição.
— A maioria dos homens por aí — disse ela, sem olhar para Carlos, em um tom deliberadamente casual — só vale por meio homem. Então, para compensar, uma mulher pode ficar com dois. Mas tem uns que não valem nem um quarto, ficam indecisos, sem atitude… — Ela finalmente olhou para ele, e seu olhar tinha uma centelha de provocação. — Mas não se preocupe. Eu, particularmente, pretendo ficar com um homem só. E ficarei com ele pelo resto da vida. Também não me importo se ele não for adepto. Até gosto da ideia de ser a cavaleira que tem que resgatá-lo de vez em quando.
Carlos sentiu o desafio no ar. Sorriu, decidindo aceitar o jogo.
— Bom, se os homens daqui valem por meio, eu não sei. Só sei de uma coisa: eu valho por dois!
A reação foi instantânea. O olhar de Quixotina, que antes era provocante, transformou-se em fúria pura e silenciosa. Seus olhos se arregalaram, suas narinas vibraram. Carlos recuou mentalmente, perplexo. “O que foi que eu disse? Foi uma piada! Ela que começou com a provocação!”
Um silêncio tenso pairou por um segundo, quebrado apenas pelo barulho do refeitório ao fundo. Dulcinéia, felizmente alheia à repentina guerra fria entre os adultos, já terminava sua gelatina.
A tensão só se dissipou quando os três saíram do refeitório, a caminho da parte lúdica do dia. Havia resolvido os problemas mais urgentes mais cedo, afinal aquela era uma data sagrada: o primeiro aniversário de Dulcinéia a ser oficialmente comemorado na República, e a primeira festa de aniversário que organizavam. Enquanto os ajudantes — liderados por Pedro — terminavam os preparativos surpresa na praça central, seu trabalho era distrair a aniversariante.
Por isso, o destino era o campo de futebol. Dulcinéia ainda não entendia completamente por que sua mãe e o presidente tinham a tarde livre, mas a perspectiva de jogar bola a fez pular de alegria, esquecendo qualquer questionamento.
O campo, no ano passado, era um terreno irregular à beira do quilombo, agora era um retângulo amplo e bem cuidado de grama (graças a Tassi), com traves de madeira sólida nas extremidades. O cheiro de terra molhada e grama cortada invadia o ar, e o sol da tarde aquecia a pele de forma agradável.
— Quixotina, isso me lembra da primeira vez que jogamos — comentou Carlos, esticando os braços. — Claro, naquela época o ‘campo’ era um pedaço de terra batida cheio de tocos. Não era nem de longe tão bonito quanto esse aqui.
— Eu lembro também! — gritou Dulcinéia, pulando no lugar. — No fim, deu empate!
Quixotina, já recuperada do breve surto de fúria (embora ainda lançando olhares cortantes ocasionais para Carlos), apontou um dedo acusador na direção dele.
— E eu lembro que você ficou me alertando, como se eu fosse um animal solto: ‘Quixotina, por favor, não saia chutando as crianças!’ — ela imitou sua voz, exageradamente séria.
Carlos riu, o som genuíno pela primeira vez naquele dia.
— Ha ha ha! Realmente, eu disse isso! Mas na minha defesa, eu não esperava que você fosse se apaixonar pelo esporte a ponto de desafiar metade do quilombo para partidas semanais. E o mesmo vale para você, Dulcinéia! Você corre círculos em volta dos meninos. Realmente, tal mãe, tal filha.
Ao se aproximarem do centro do campo, viram que já havia uma partida em andamento. Cerca de vinte crianças corriam para lá e para cá, gritando, suadas e felizes, perseguindo uma bola de couro remendado. Ao verem Quixotina e Dulcinéia se aproximando, várias delas acenaram e gritaram convites. A fama das duas como jogadoras formidáveis as precedia.
— Realmente — disse Quixotina, colocando as mãos na cintura e avaliando os times com um olhar estratégico. — Nós damos uma surra nesses meninos molengas! Aliás, todas nós, meninas, damos! — ela anunciou, projetando a voz. — Então que tal: meninos contra meninas? Quem topa?
A proposta foi recebida com um alvoroço imediato. Gritos de “Bora!” e “Combinado!” surgiram de todos os lados. As meninas se agruparam em torno de Quixotina e Dulcinéia como uma guarda de honra, enquanto os meninos se reuniam no lado oposto com Carlos, discutindo táticas com seriedade exagerada.

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