Capítulo 153 - Aniversário II
O campo de grama verde e bem cuidada era um convite ao jogo. O cheiro da terra úmida e da grama recém-cortada se misturava ao ar fresco da tarde. Carlos, agora trocando o suas roupas de trabalho por uma camiseta e um calção, sentia a energia pulsante do lugar.
— Então, é assim que vai ser? — ele perguntou, formando um time com os meninos. Zézinho, agora um garoto mais alto e ágil, postou-se ao seu lado como um tenente confiante. — Meninos contra meninas, com reforços especiais?
Do outro lado, Quixotina organizava as meninas com a eficiência de um general. Dulcinéia, de doze anos agora, estava ao seu lado, uma versão em miniatura da determinação da mãe, mas com um sorriso mais solto.
— Exatamente! — respondeu Quixotina, cruzando os braços. — E prepare-se para uma derrota humilhante. Minhas guerreiras e eu não estamos para brincadeira.
As cerca de vinte crianças nos dois times riram, animadas. Carlos sentiu aquele frio familiar na espinha ao ver o lampejo de competitividade feroz no olhar de Quixotina. Era mais do que um jogo para ela.
Ele se aproximou, baixando a voz para um sussurro que só ela pudesse ouvir, enquanto as crianças discutiam posições.
— Ei, lembra do combinado, hein? — disse ele, seu hálito quente próximo de sua orelha. — É diversão. Nada de ativar a gema da força e mandar a bola (ou alguém) para a estratosfera. Todo mundo sai inteiro, combinado?
A proximidade súbita fez Quixotina estremecer, suas orelhas ficando levemente rosadas. Ela revirou os olhos, mas um leve sorriso traiu sua seriedade.
— Pelos céus, Carlos, eu sei! Tenho uma filha no time, lembra? — sussurrou de volta. — Além do mais, elas não precisam de força sobre-humana. Elas têm técnica.
— Desculpa, não resisti te implicar sobre isso! — Disse Carlos, e então recuou, satisfeito, e voltou para seu time. Sem um juiz oficial, eles combinaram as regras básicas: gol é gol, falta é falta (sem exagero), e o jogo só acaba por volta das 16h.
O apito imaginário foi dado por Dulcinéia, e o caos organizado começou.
Diferente da partida original em terra batida, o jogo agora tinha fluidez. As crianças, muitas das quais já jogavam regularmente, entendiam de passes e posicionamento. A bola de couro bem confeccionada (outra melhoria) quicava de forma previsível na grama macia.
Carlos, tentando comandar seu time, gritava instruções:
— Zézinho, abre na direita! Passa pra trás! Segura a bola!
Mas suas vozes se perdiam no alegre alvoroço. Quixotina, surpreendentemente, não ficava só na defesa. Ela orientava as meninas com gestos curtos e ordens claras:
— Dulcinéia, cobre o Zézinho! Maria, sobe pela esquerda! Eu fecho o meio!
O jogo foi equilibrado, com lances de ambos os lados. Dulcinéia, herdando a agilidade da mãe, driblou dois meninos com facilidade antes de passar para uma colega. Zézinho, por sua vez, mostrava uma visão de jogo apurada, roubando a bola com um carrinho limpo que arrancou gritos de protesto (e admiração) das meninas.
Aos quinze minutos, Carlos viu sua chance. A bola sobrou de uma dividida e foi para seus pés. Ele avançou alguns metros, sentindo a grama sob seus sapatos. Viu Quixotina se posicionando à sua frente, um bloqueio humano com um olhar desafiador. Lembrando-se do passado, ele tentou o mesmo drible simples.
Desta vez, não funcionou.
Quixotina leu o movimento, roubou a bola com a lateral do pé com uma naturalidade que deixou Carlos pasmo, e partiu para o contra-ataque. Ela não corria com velocidade sobre-humana, mas com uma eficiência atlética impressionante. Antes que os meninos se recuperassem, ela chutou de fora da área. A bola descreveu uma curva perfeita e raspou a trave, entrando no canto.
Gol das meninas! 1×0.
A comemoração foi estrondosa. As meninas se aglomeraram em volta de Quixotina, pulando e gritando. Dulcinéia abraçou a mãe com força, seu rosto irradiando orgulho. Carlos, derrotado no lance, não pôde deixar de sorrir. O gol foi bonito.
— Viram só, meninos? — ela gritou, sorrindo agora abertamente. — Isso é que é futebol!
O gol, no entanto, acendeu a chama da competitividade nos meninos. Liderados por um Zézinho determinado e um Carlos agora focado, eles pressionaram. Aos vinte e cinco minutos, após uma sequência de passes rápidos entre Carlos e Zézinho, o garoto finalizou cruzado, empatando o jogo. 1×1.
O sol começava a declinar, pintando o céu de laranja, mas a energia no campo só aumentava. O jogo se transformou em uma troca de ataques emocionante. Carlos, agora se divertindo de verdade, se via constantemente marcado por Quixotina. Ela não o deixava respirar, usando seu físico e inteligência de jogo para anular seus passes.
— Você tá me perseguindo! — ele reclamou, ofegante, após ela interceptar mais uma bola.
— Estratégia! — ela respondeu, com um sorriso maroto, antes de sair jogando.
Aos trinta e oito minutos, veio a joia da coroa. Dulcinéia, recebendo um passe longo, controlou a bola no peito com uma habilidade que fez até a mãe suspirar de admiração. Ela driblou um menino, depois outro, entrou na área e, ao invés de chutar, deu um leve toque por cobertura, surpreendendo o goleiro. A bola entrou suave. 2×1 para as meninas.
O campo inteiro pareceu vibrar com os gritos. Quixotina levantou Dulcinéia no colo, girando com ela, uma imagem de pura alegria que Carlos guardaria na memória.
Mas os meninos não desistiram. A três minutos do que Carlos decidiu ser o fim (suas pernas já queimavam), ele recebeu a bola no meio-campo. Viu Quixotina avançando para o marcá-lo. Em vez de driblar, ele deu um toque de primeira para Zézinho, que estava fazendo uma corrida inteligente pela lateral. O garoto pegou a bola em velocidade, entrou na área e chutou com força. A goleira até tocou, mas não segurou. 2×2.
Desta vez, foram os meninos que invadiram o campo para comemorar com Zézinho e Carlos.
Exausto, suado e com o coração batendo forte contra as costelas, Carlos arquejou para recuperar o fôlego. Um sorriso vitorioso – não pelo placar, mas pela pura alegria do jogo – estampava seu rosto. Ele ergueu os olhos para o céu, onde o sol já começava a se inclinar para o oeste,. Era uma visão linda, mas pouco precisa.
“Ugh, essa cidade precisa urgentemente de um relógio público!” pensou, frustrado, tentando estimar a hora pela posição do astro. “Um na praça central, pelo menos. Como vou organizar uma sociedade moderna sem saber as horas exatas? Reuniões, turnos de trabalho, horários de refeições… Tudo fica no ‘mais ou menos’.”
A necessidade prática, porém, teve que ceder ao momento. Ele limpou o suor da testa com o antebraço e se voltou para a turma ofegante e sorridente.
— É isso, pessoal! — anunciou, projetando a voz no ar fresco do fim de tarde. — Jogo terminado! Um empate heróico, digno de grandes campeões! Mas agora… tá na hora de ir pra casa descansar!
Um coro de “ahhhs” de desapontamento ecoou, mas a maioria das crianças, exausta e satisfeita, começou a se dispersar. No entanto, um menino mais novo, de cabelos enrolados e expressão teimosa, cruzou os braços.
— Mas eu quero jogar mais! — reclamou, o queixo tremendo de cansaço misturado à vontade.
Antes que Carlos pudesse formular uma resposta gentil mas firme, Zézinho agiu com a velocidade de um capitão de time que conhece o plano secreto. Ele e mais dois meninos se aproximaram do garoto num piscar de olhos. Zézinho colocou um braço amigável – mas firme – sobre seus ombros, enquanto um dos outros meninos, com um gesto rápido e discreto, tapou-lhe a boca por um segundo sussurrando algo rápido em seu ouvido.
O garoto arregalou os olhos, e a teimosia deu lugar a uma compreensão súbita e animada. Zézinho então sorriu para Carlos, dando um passo à frente.
— Tá bom, tio Carlos! — disse ele, com uma voz anormalmente contida e obediente. — A gente vai indo! Obrigado pelo jogo!
Vendo a rápida intervenção e a mudança de atitude, Carlos sentiu um alívio imenso. “Ufa! O Zézinho lembrou. As crianças têm que chegar em casa primeiro para ajudar a preparar a surpresa para a Dulcinéia.” Ele acenou com a cabeça, um sorriso de cumplicidade nos lábios.
— Isso aí, Zézinho. Vocês foram incríveis hoje. Agora, vá liderar a retirada, seu general.
A palavra “general” atingiu Zézinho como uma medalha reluzente. Seu peito, ainda ofegante da partida, inflou-se de um orgulho quente e profundo. Seus olhos, antes cansados, brilharam com uma nova luz. O elogio de Carlos era especial, mas aquele título em específico ecoava algo dentro dele. Ele também tinha ficado sabendo – pelos sussurros sérios dos adultos e pelos relatos cheios de respeito dos soldados mais velhos – do que seu pai, Pedro, havia feito na guerra. Das decisões difíceis, da coragem sob fogo, de como ele salvara companheiros.
Ouviram dizer que o chamavam de “herói”. E agora, Carlos o chamava de “general”.
Ele endireitou as costas, tentando imitar a postura firme que imaginava em seu pai. Um sorriso contido, mas intenso, tomou seu rosto sujo de terra e suor.
— Pode deixar, presidente! — respondeu, com uma voz que tentava soar mais grave. — A retirada tá sob controle!
Zézinho puxou o garoto reclamão pelo braço, e o grupo de meninos começou a se afastar, não mais arrastando os pés, mas com um propósito renovado e segredos compartilhados em sussurros excitados. Carlos observou-os ir, agradecendo mais uma vez pela lealdade e astúcia do garoto. A festa de aniversário surpresa estava salva.
Carlos caminhou até o centro do campo, onde Quixotina estava, desabando lentamente no chão, ofegante mas sorridente. Dulcinéia se aconchegou ao seu lado.
— Mãe, a senhora viu meu gol? — a menina perguntou, ainda eufórica.
— Vi, filha. Foi lindo — respondeu Quixotina, afagando seu cabelo suado. — Mais bonito que qualquer gol de cavaleiro em torneio.
Carlos se aproximou e estendeu a mão para ajudá-la a levantar.
— Você… jogou muito. De verdade. Sem magia, só habilidade. Fiquei impressionado.
Ela aceitou a mão dele, sua palma suada e quente na dele.
— Você também não fez feio… — ela respondeu, com um fôlego curto.
Ele riu, puxando-a de pé. Ela cambaleou por um segundo, o cansaço genuíno a atingindo. Era evidente que ela havia dado tudo de si, fisicamente, e aquele esforço puro, sem o auxílio das gemas, a deixara exausta, mas com um brilho de satisfação nos olhos.

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