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    Os três, Quixotina, Dulcinéia e Carlos começaram a caminhar de volta, lentamente, o cansaço nos membos, mas uma sensação agradável de camaradagem no ar. O cheiro da grama e da terra dava lugar gradualmente ao aroma de lenha queimada das primeiras fogueiras para o jantar, que começava a pairar sobre a República.

    O apartamento de Quixotina não era pequeno. Localizado em um dos prédios residenciais mais novos, construídos com madeira tratada e tijolos feitos na própria República, ele tinha uma sala ampla, que servia de área de convívio, dois quartos e uma pequena varanda com vista para parte da praça central. Para os padrões do Quilombo – e considerando sua origem nobre – era bastante modesto, mas era dela, conquistado com seu trabalho como ministra e professora, e isso lhe dava um orgulho silencioso.

    Naquela noite, porém, o apartamento estava transformado. Ao entrarem, Carlos, Quixotina e Dulcinéia foram recebidos por um coro surdo e mal contido de “Surpresa!” que explodiu no exato momento em que a porta se abriu.

    Dulcinéia parou no batente, os olhos arregalados como duas luas cheias, a boca aberta em um “o” perfeito de choque absoluto. A sala estava cheia de rostos familiares e queridos, iluminada não pelo usual fogo da lareira, mas pelas suaves e constantes luzes brancas de várias gemas de iluminação, que Quixotina sempre mantinha ativadas em suportes pela sala – um luxo que ela permitia a si mesma, uma pequena lembrança das luzes das mansões de seu passado, mas agora sem a opressão.

    — O-que… como… — a menina balbuciou, incapaz de formar uma frase completa.

    Foi quando ela notou a mesa. Não uma mesa de festa farta como nos contos de reis, mas uma mesa grande da sala, coberta com uma toalha de linho limpa, e sobre ela, uma verdadeira maravilha: pratos e mais pratos com salgadinhos dourados e pequenos, bolinhas de chocolate polvilhadas, docinhos brancos enrolados em coco… e no centro, um bolo simples, mas decorado com algumas frutas da época e doze velinhas feitas de cera de abelha.

    — Feliz aniversário, minha filha! — Quixotina disse, sua voz embargada pela emoção, abraçando Dulcinéia por trás e beijando seu cabelo.

    A menina ficou paralisada por um segundo, então um sorriso enorme tomou conta de seu rosto, e lágrimas de alegria bem nos olhos apareceram. Ela foi envolta em abraços, primeiro da mãe, depois dos amigos.

    A surpresa se dissolveu então em uma explosão de alegria. Dulcinéia correu para o meio da sala, sendo abraçada por todos. Pedro estava lá, um sorriso largo e um pouco desajeitado no rosto, ao lado da Tia Vera, a idosa negra de cabelos grisalhos e olhos cheios de doçura que era avó de Zézinho e uma figura materna para meio Quilombo. Fernanda, a Ministra do Trabalho, estava presente com sua filha Carlinha, uma menina de cabelos claros e sardas que era uma das melhores amigas de Dulcinéia, e o marido de Fernanda, Jorginho, um homem calado mas de sorriso fácil. Aqua, a Ministra da Economia e amiga próxima de Quixotina desde seus primeiros dias no Quilombo, estava em um canto, conversando baixo com Pedro, mas seu olhar era caloroso.

    Aqua também estava lá mais afastada dos outros. Ela é como uma avó para Dulcinéia, e uma mãe para Quixotina estando lá sempre quando elas mais precisavam.

    E, um pouco afastados, perto da varanda, estavam Silvana e Silvestre. Os dois irmãos órfãos, e devido a participarem de ataques no quilombo, mesmo que a maioria das pessoa não tivessem ciência, ainda pareciam um pouco deslocados, hesitantes. Silvestre, com seu jeito sério e protetor, observava a movimentação. Silvana, a menina de quatorze anos com orelhas pontudas e um rabo felpudo de cor preta de lobo tentava se fazer pequena atrás do irmão, suas orelhas sensíveis abaixadas contra a cabeça, captando todos os sons altos da festa.

    — Vem ver, vem ver! — Carlinha puxou Dulcinéia pela mão, levando-a direto para a mesa principal, o ponto focal da sala.

    Foi ali que ela viu as maravilhas: as mini coxinhas e pastéis dourados, as tigelas de brigadeiros brilhantes e beijinhos brancos enrolados em coco. O olhar dela, porém, foi inevitavelmente atraído para o centro. Sobre um suporte simples, estava um bolo de fubá coberto com um glacê branco. E nele, doze velinhas de cera de abelha, ainda não acesas, aguardavam.

    A festa fluiu por um tempo com as crianças brincando com os balões e os adultos saboreando os salgadinhos, até que Carlos, consultando o relógio de bolso (e estimando a hora como podia), decidiu que era o momento.

    — Pessoal! — ele chamou, batendo levemente em um copo. — Hora da parte mais importante!

    Todos se aproximaram, formando um semicírculo em volta da mesa. Carlos pegou um fósforo.

    — Primeiro, acendemos as velas — ele anunciou, como um mestre de cerimônias explicando um ritual novo. — Cada vela é um ano de vida. Doze velas, doze anos.

    Ele acendeu uma a uma, enquanto um silêncio respeitoso e curioso pairava no ar. As pequenas chamas tremeluziram, lançando um brilho dourado sobre o glacê branco e o rosto fascinado de Dulcinéia.

    — Agora — Carlos continuou, posicionando-se atrás da menina, com as mãos em seus ombros, — vem o coro. Todo mundo canta para a aniversariante, e ela faz seu pedido secreto.

    Ele começou a cantar, sozinho no primeiro instante. A melodia era simples, mas estranha para todos os outros.

    — “Parabéns pra você…”

    Com um gesto, ele convocou os outros. Quixotina se juntou, sua voz um pouco trêmula de emoção. Pedro, depois Fernanda, Aqua, Tia Vera. Logo, todas as vozes na sala se entrelaçaram, preenchendo o apartamento com a canção que, naquela noite, nascia como uma nova tradição na República.

    — “Nesta data querida… muitas felicidades… muitos anos de vida!”

    Dulcinéia ficou parada diante do bolo, inundada pelo som das vozes que cantavam só para ela, por ser meio tímida ficou vermelha como um pimentão. Seu coração batia forte. Ela olhou para as chamas, depois para sua mãe, cujos olhos também brilhavam. “Que a mamãe seja sempre feliz. Que a gente nunca se separe.” O pensamento foi rápido, um desejo puro. Ela encheu os pulmões e, com um sopro firme e decidido, apagou as doze velas de uma vez.

    Aplausos e vivas ecoaram. A luz das gemas, que fora suavizada, voltou ao normal.

    — E agora — Carlos disse, entregando a faca de cortar bolo para Dulcinéia, — a aniversariante tem a honra de servir o primeiro pedaço. O primeiro pedaço vai para a pessoa mais especial. Para quem você quiser.

    Carlos cortou o pedaço para ela. Dulcinéia sem hesitar, seus olhos percorreram os rostos à sua volta – seus amigos, os adultos que eram como família – e pousaram em Quixotina. Com cuidado, carregou o prato como se fosse um tesouro, ela deu dois passos e estendeu-o para a mãe.

    — Para você, mãe — disse Dulcinéia, sua voz clara e cheia de amor. — O primeiro pedaço é seu.

    Quixotina aceitou o prato. Suas mãozinhas tremiam levemente. As lágrimas que teimavam em ficar contidas finalmente rolaram, silenciosas, por suas faces. Ela não precisava dizer nada. O olhar que trocou com a filha dizia tudo: gratidão, amor incondicional, orgulho.

    — Obrigada, minha flor — conseguiu sussurrar, antes de dar uma pequena mordida no bolo. O sabor doce e familiar, carregado de significado, era a coisa mais deliciosa que ela já provara.

    Carlos foi cortando o bolo e a aniversariante foi entregado o pedaço para pessoas especiais para ela, só depois de todos terem um pedaço que ela pode pegar o seu. Então o ritual coletivo de alimentação começou.

    — Agora sim! — Carlos anunciou, alegre. — Todo mundo pode se servir! Pastéllzinho, coxinhas, brigadeiro e beijinho! A festa é de todos!

    Foi o sinal para uma alegre debandada. As crianças se aglomeraram em volta da mesa. Carlos e Tia Vera ajudaram a cortar e distribuir o resto do bolo. Os brigadeiros e beijinhos, que haviam sido apenas contemplados até então, começaram a desaparecer das tigelas, acompanhados de exclamações de prazer. A ordem estava correta: primeiro o ritual (surpresa, canto, sopro, servir o primeiro pedaço), depois a festa gastronômica geral.

    Enquanto saboreavam os doces, Pedro se aproximou de Carlos.

    — Esse negócio do primeiro pedaço… foi bonito — comentou ele, com sua simplicidade habitual. — Dá peso. Faz sentido.

    Carlos sorriu, pegando um brigadeiro. — É a ideia, Pedro. São os pequenos rituais que dão significado às coisas.

    O olhar de Carlos pousou nos salgadinhos e doces.

    — Tia Vera, isso aqui está com uma cara incrível — elogiou ele, cheirando o aroma convidativo de fritura fresca e cacau. — Os pastéis são de carne moída, né? Miniatura, perfeito.

    A velha senhora sorriu, mostrando alguns dentes faltando. — É sim, seu Carlos. Fiz do jeitinho que você me explicou. E esses doces diferentes que o senhor pediu… brigadeiro, beijinho… — ela franziu o nariz, brincalhona. — Nomes esquisitos, mas o gosto é bom! O do beijinho, então, é suave que só.

    Brigadeiro: Este doce onipresente em festas tem uma origem política e relativamente recente. Surgiu na década de 1940, durante a campanha eleitoral do Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato à presidência da República. Para angariar fundos e votos, suas apoiadoras criaram e venderam um doce novo, feito de leite condensado, chocolate em pó e manteiga, que rapidamente ficou conhecido como “o doce do brigadeiro”. No fim Eduardo não venceu as eleições, porém o doce ficou tão famoso que é bem mais lembrado do que ele.

    Beijinho (ou Branquinho): De origem mais antiga e menos documentada, o beijinho é feito com leite condensado, coco ralado e manteiga. Seu nome é puramente afetivo e descritivo. Acredita-se que venha da sua aparência: um docinho branco e arredondado, enrolado em coco ralado que se assemelha a flocos de neve ou a algo “puro”, suave e delicado – qualidades associadas a um beijo. A analogia com um beijo doce e suave é a explicação mais popular e poética para o nome. Em algumas regiões do Brasil, principalmente no Nordeste, ele também é chamado de “branquinho”, nome mais literal que descreve sua cor.

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