Capítulo 156 - Reunião Secreta I
O ar da noite na Cidade Sagrada de Santa Maria era diferente do interior da catedral. Mais frio, carregado do cheiro salgado do mar distante, da fumaça de lenha queimada das casas mais pobres e do odor doce e podre de peixe e lixo acumulado nos becos. Papisa Paula sentia essa diferença em cada fibra do seu corpo, e não apenas pelos aromas.
Ela não vestia os pesados e imponentes robes papais de brocado branco e dourado. Em vez disso, usava um vestido de lã simples, de cor cinza-escuro, quase marrom, desbotado pelos muitos lavar. Um capuz largo, do mesmo tecido, puxado bem para a frente, ocultava seu rosto e seus cabelos cuidadosamente presos. Nas mãos, luvas de algodão gasto escondiam a alvura de sua pele, que poderia denunciá-la. No rosto também usava um óculos feito com o cristal da visão que a permitia ver qualquer possível perseguidor. Caminhava com passos rápidos, mas não corria, tentando imitar a postura de uma servente ou uma viúva pobre voltando do mercado tardio.
“Ufa… acho que ninguém me seguiu até aqui”, pensou, seu coração batendo um ritmo acelerado contra as costelas. Ela se permitiu uma breve pausa na sombra profunda de uma arcada, os olhos escaneando a rua de paralelepípedos úmidos. Uma carroça vazia rangia ao passar, puxada por um cavalo magro. Duas mulheres com cestos na cabeça conversavam em voz baixa, indo para casa. “E pensar que tenho que me esconder como uma criminosa nas ruas da minha própria cidade. Que ironia amarga.”
Seu destino era um estabelecimento discreto, mais para a zona portuária. A placa de madeira rachada dizia apenas “A Taverna do Marujo”. Era um lugar de paredes sujas de fuligem, com janelas pequenas e opacas. Paula empurrou a porta pesada, que gemeu em protesto, e entrou.
O interior era escuro, iluminado apenas por algumas lamparinas a óleo de baleia, que deixavam um cheiro gorduroso e rançoso no ar. A fumaça de cachimbo de um único freguês formava espirais lentas no ar parado. Apenas uma mesa estava ocupada, por dois homens de aspecto rude, com roupas de marinheiro, que debatiam em voz alta, seus copos de cerâmica batendo na madeira.
— …e você viu aqueles monges que chegaram? — dizia um, um homem com uma barba ruiva desgrenhada. — Dizem que vieram para ‘purificar’ os costumes! Mas eu os vi na Rua das Flores, dando em cima das mulheres dos comerciantes como se fossem donos do mundo!
— É a mesma velha história — respondeu o outro, mais velho e cético. — Na Igreja só tem gente corrupta. Ainda me lembro do último Papa aqui, o Henrique… aquele era outro que não valia o chão que pisava. Um sanguessuga.
Paula sentiu um nó se formar no estômago. Mantendo a cabeça baixa, dirigiu-se a uma mesa no canto mais escuro, de costas para a parede, mas próxima o suficiente para ouvir a conversa. A madeira da mesa estava pegajosa de derramamentos antigos.
— Mas nem todo mundo da Igreja é assim, Heitor! — o mais velho retrucou, apontando um dedo sujo para o companheiro. — A Papisa é diferente! Ela baixou os impostos do porto, lembra? E aquele esquema de distribuir remédios e vacinas…
— Pois é, e quem me dera ter ouvido isso da sua boca antes! — o ruivo, Heitor, riu, um som rouco. — Eu me lembro bem! Você vivia indignado, dizendo que uma mulher não podia ser Papisa, muito menos uma que… bem, que já foi um homem!
O mais velho baixou a voz, envergonhado. — É… é verdade. Fui um idoso tolo. Mas eu vi com meus próprios olhos o bem que ela faz. Meu neto estava com a febre-do-pântano, e foi no dispensário dela que salvaram o menino. De graça! Isso conta.
Paula, sob o capuz, fechou os olhos por um segundo. Um misto de gratidão e uma tristeza imensa a invadiu. “O povo vê. Eles sabem. Mas será que sabem o preço que essa ‘diferença’ está prestes a cobrar?”
Foi interrompida pela aproximação de passos. O garçom, um homem magro e cansado com um avental imundo, veio até sua mesa. Seus olhos, adaptados à penumbra, tentaram espiar sob seu capuz. Instintivamente, Paula puxou o tecido ainda mais para baixo, sentindo o pano áspero contra sua testa.
“Quem diria que me tornar uma figura pública me traria tanto anonimato forçado…”, pensou, com amargura.
— Boa tarde… ou já é boa noite, dona — disse o garçom, sua voz rouca pelo fumo e pelo álcool. — A senhora deseja algo?
Paula não falou. Em vez disso, colocou sobre a mesa um pequeno saco de couro que produziu um som sólido e metálico. Empurrou-o em direção ao homem.
— Uma cerveja comum. E pode ficar com o troco.
O garçom pegou o saco, sentiu seu peso e seus olhos se arregalaram. Ele abriu a boca para dizer algo, mas um olhar firme (que ele mal pôde ver) sob o capuz o fez engolir em seco. Ele apenas anuiu, rapidamente.
— No mesmo instante, dona.
Ele sumiu e voltou com um caneco de estanho, cheio de uma cerveja turva e morna, que colocou na mesa com cuidado reverencial antes de se afastar, escondendo o saco de moedas como se fosse um tesouro roubado. Paula nem olhou para a bebida; não tinha intenção de tocá-la.
Não muito tempo depois, a porta da taverna rangeu novamente. Entrou um homem de estatura média, mas com uma barriga proeminente que esticava o tecido fino e caro de seu gibão escuro. Seu rosto era redondo, de bochechas rosadas e bem barbeadas, e seus olhos pequenos e vivos percorreram o ambiente com a velocidade de um comerciante avaliando um novo mercado. Ele viu a figura encapuzada no canto e foi direto até ela, sem hesitar.
Sem cerimônia, puxou a cadeira de madeira e sentou-se pesadamente à frente de Paula. Seu olhar caiu no caneco intocado.
— Vai me fazer mesmo tomar essa cerveja quente e parada? — perguntou Francisco, com um suspiro de resignação teatral.
A voz de Paula saiu baixa, mas firme de sob o capuz. — Apenas sente-se e pare de reclamar, Francisco. Não é por falta de opções melhores que estou aqui.
Francisco obedeceu, pegando o caneco e dando um gole experimental. Fez uma careta. — Pior do que parecia. Então, para que tanto segredo? Um bilhete cifrado, um local imundo… Não é seu estilo, Santidade.
— Não ficou sabendo? — ela sussurrou, inclinando-se um pouco para frente. — Os enviados do Papa estão por toda parte. Temos um visitante ‘ilustre’ de Alba e mais estão a caminho. Não sou mais livre para receber quem quero, onde quero. Minhas próprias paredes têm ouvidos.
Francisco olhou para ela com uma expressão que misturava pena e compreensão. Ele deu outro gole, engolindo com dificuldade.
— Então, no que posso ajudar? — perguntou, direto ao ponto.
Paula ficou ligeiramente surpresa. — Quem disse que preciso de ajuda?
Francisco riu, um som abafado e rouco. — Você, Paula, não se esconde em tavernas fedorentas para tomar chá. Ou é ajuda, ou é um assunto que os ouvidos piedosos da Cúria não podem ouvir. E sobre nossos… acordos comerciais, eles já desconfiam. Orsini farejou algo.
— Você quase acertou — ela admitiu, os dedos enluvados traçando um círculo na mesa pegajosa. — Há algo que eles ainda não sabem. Algo que nem eu sabia, até pouco tempo. Francisco, como você consegue tantos artefatos divinos? A verdadeira fonte.
O rosto redondo de Francisco perdeu um pouco da cor. Ele colocou o caneco com cuidado, como se fosse frágil.
— Isso… é segredo mercantil, Paula. Se eu te contar, estou expondo minha única vantagem real, minha fonte de renda mais lucrativa. E colocando em risco… outras partes.
Paula ergueu a cabeça o suficiente para que ele visse seus olhos faiscando na sombra do capuz. Sua voz, antes sussurrada, ganhou uma lâmina de aço.
— Fonte de renda? Você é, sem sombra de dúvida, o homem mais rico desta cidade, Francisco. Tudo graças ao comércio exclusivo com a República, aos impostos simbólicos que eu autorizei, aos contratos que eu direcionei para suas mãos. — Ela fez uma pausa, deixando as palavras pesarem. — Saiba que, se não me responder, esse tratamento especial acaba. E não serei eu a acabá-lo. Orsini está revisando cada transação, cada tributo. Ele já viu as isenções que concedi. Tudo vai mudar. Suas taxas vão triplicar. Suas licenças, revistas.
Francisco engoliu seco, a garganta movendo-se com dificuldade. A gorjeta gorda do garçom parecia agora uma piada de mau gosto. Ele olhou para a cerveja ruim como se buscasse coragem.
— Eu entendo, Paula. De verdade. E vim aqui disposto a ajudá-la. Você me deu uma chance quando ninguém mais dava. Não sou mesquinho a ponto de não retribuir… — Ele hesitou, seus dedos gorduchosos tamborilando na mesa. — Mas tenho motivos… pessoais, muito profundos, para guardar esse segredo. E, francamente, não vejo como saber a origem poderia ajudá-la agora.
A irritação de Paula cresceu, mas ela a conteve com um esforço visível. Respirou fundo, o ar mofado da taverna enchendo seus pulmões.
— Carlos descobriu como os artefatos são invocados — ela disse, a voz caindo para um sussurro quase imperceptível. Ela olhou para os lados, mas os dois marinheiros agora discutiam preços de tecido. Mesmo assim, ela se inclinou mais. — É através de uma gema. A gema do sacrifício. Mas ela precisa… se alimentar de vidas humanas.
Francisco empalideceu de verdade. Seus olhos pequenos se arregalaram. — Paula, pelos céus… eu juro, eu jamais, em tempo algum, compraria algo banhado em sangue inocente! Você acredita em mim?
— Eu acredito em você, Francisco — ela respondeu, sua voz suavizando um grau. — Mas não acredito necessariamente em sua fonte. E não é só isso. Carlos descobriu que, com a gema certa e o conhecimento adequado, é possível invocar coisas específicas. Livros. Manuais. Conhecimento que poderia salvar milhares de vidas, acelerar nossas pesquisas, fortalecer a República contra o que está por vir. Preciso saber se sua fonte é limpa. E se pode ser direcionada.
Francisco ficou em silêncio por um longo momento, contemplando o fundo turvo de seu caneco. A luz fraca das lamparinas acentuava as sombras sob seus olhos e a rigidez súbita de sua mandíbula. O ar na taverna, antes carregado apenas de fumaça e murmúrios, parecia ter ficado mais pesado, como se a própria confissão que estava por vir já pressionasse o espaço entre eles. Quando ele finalmente ergueu os olhos, sua voz estava diferente. Todo o tom mercantil, a lábia do negociante, desaparecera. Sobrou algo mais grave, mais antigo, e carregado de uma dor que ele normalmente enterrava sob camadas de ouro e sorrisos.
Ele abriu a boca para começar, e Paula, sob seu capuz, prendeu a respiração.

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