Capítulo 157 - Reunião Secreta II
— Sabe, olhando para mim… — a voz de Francisco saiu rouca, ele evitando seu olhar fixando-se no grão da madeira da mesa, — …nem dá para perceber, não é?
Ele fez uma pausa, engolindo em seco. Quando continuou, cada palavra parecia ser arrancada com um custo.
— Eu tenho sangue indígena nas veias. Minha mãe era de uma tribo. Meu pai… um capitão-do-mato português. Ele a estuprou durante uma ‘pacificação’. Eu fui o fruto indesejado dessa violência.
O silêncio que se seguiu não era mais apenas de expectativa, mas de um choque reverente. A revelação era um golpe baixo na imagem pública do mercador mais próspero da cidade sagrada. Paula nem pestanejou, mas seu coração acelerou. Aquela não era apenas a chave para o segredo dos artefatos; era a chave para o próprio homem à sua frente.
Francisco respirou fundo, o peito estufando contra o gibão fino, como se estivesse se preparando para mergulhar em águas profundas e traiçoeiras de memória.
— Nasci na tribo. Cresci aprendendo um pouco dos costumes, da língua… até meus sete anos. Meu pai descobriu minha existência. E como eu… bem, puxei mais a ele, com esta pele e este rosto, ele não me matou. Em vez disso, matou minha mãe para ‘cortar vínculos’ e me levou. Tornou-me seu ‘herdeiro’, já que a maldição ou a idade o impediam de ter outros filhos.
O silêncio que se seguiu não era mais apenas de expectativa, mas de um choque reverente. A revelação era um golpe baixo na imagem pública do mercador mais próspero da cidade sagrada. Paula nem pestanejou, mas seu coração acelerou. Aquela não era apenas a chave para o segredo dos artefatos; era a chave para o próprio homem à sua frente.
Francisco respirou fundo, o peito estufando contra o gibão fino, como se estivesse se preparando para mergulhar em águas profundas e traiçoeiras de memória.
— Vivi sob seu jugo por anos — Francisco continuou, a voz rouca. — Até que um dia, em uma emboscada, um quilombola o matou. E eu… eu não senti nada. Só alívio. Vendi todas as armas mágicas, as gemas sujas que ele acumulou, comprei uma carroça e um burro velho e me tornei o que sou: um mercador. Mas nunca esqueci minhas origens. Sempre que posso, volto para o que restou da tribo. Levo armas para que possam se defender, comida quando a caça é pouca. Ferramentas.
Ele ergueu os olhos, finalmente encarando a sombra onde estava o rosto de Paula.
— Eles se sentiam em dívida. Não usam dinheiro, mas entendem o mundo dos brancos. Na tribo, há muito tempo, eles descobriram como trabalhar um tipo especial de gema. Eles não a chamam de gema do sacrifício. Para eles, é a ‘gema da invocação. É roxa, quase negra. O ritual… é diferente. Não há morte. Há paciência. Eles depositam mana, a energia da vida e da terra, em um altar de pedra antigo com a gema. Todos os dias. Por dois luas completas. Só então, a pedra ativa e algo é… ‘chamado’. O que vem, eles me dão. Em troca da minha ajuda. É um acordo de honra, não de comércio.
Paula sentiu uma emoção complexa apertar seu peito: compaixão pela história, alívio pela revelação, mas também uma ponta de mágoa.
— Por que nunca me contou? — perguntou, sua voz mais suave. — Eu poderia ter enviado ajuda, proteção…
Francisco balançou a cabeça com veemência, uma centelha de dor antiga em seus olhos.
— Ajuda? — ele repetiu, amargamente. — Ou catequização? Conversão forçada? Escravidão disfarçada? Você, Paula, talvez não. Eu acredito que não. Mas quem garante que alguém abaixo de você, com uma cruz em uma mão e uma espada na outra, não faria? — Ele apontou em volta, para a taverna miserável, para a cidade além. — E nem venha me dizer que você tem poder absoluto aqui. Você não tem. Quem manda, no fim, é a Igreja de Alba. E a prova está bem aqui: a Papisa, escondida como uma criminosa para falar com um amigo.
Paula abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram em seus lábios. Ele tinha razão. Uma razão dolorosa e incontestável. Ela baixou a cabeça, a vergonha e a frustração queimando seu rosto.
— Está bem — ela concedeu, após um momento de silêncio pesado. — Não me diga onde eles estão. Nem o nome. Mas… peça a eles ajuda. Se eu cair, se Orsini ou alguém pior assumir o controle aqui, a situação vai piorar para todos. Para a tribo, para a República, para o povo comum. E sobre os artefatos… pergunte se é possível ‘chamar’ algo específico. Um livro sobre doenças, sobre o corpo humano, sobre plantas… qualquer conhecimento que possa salvar vidas ou dar força aos que lutam pela própria.
— E por que quer tanto ajudar a República? — Francisco perguntou, genuinamente intrigado. — Eu entendo a luta deles. Acho justa. Mas… não é a sua luta. Você é a Santa Papisa.
Paula soltou um riso baixo e sem humor.
— Como você mesmo disse, Francisco, eu não mando aqui. Sou uma peça num tabuleiro muito maior. Uma peça valiosa, talvez, mas descartável. Eu quero ser livre. De verdade. Não apenas trocar uma gaiola dourada por outra. Carlos… ele me prometeu essa liberdade. E, contra toda a lógica e toda a minha desconfiança, eu acredito nele. Acredito no que ele está tentando construir.
Francisco observou-a por um longo momento, seus olhos de comerciante avaliando algo mais valioso que ouro: a sinceridade. Finalmente, ele tomou um último e grande gole da cerveja quente, fazendo outra careta.
— Tudo bem. Vou levá-los seu pedido. Mas farei eu mesmo. Jamais revelarei sua localização. E não posso garantir nada sobre a especificidade do ‘chamado’. Para eles, sempre foi algo aleatório, uma dádiva dos espíritos.
— Agradeço, Francisco — a voz de Paula saiu carregada de uma emoção rara, um alívio profundo que vinha das entranhas. — Isso… significa mais do que você imagina. Não apenas para mim, mas para tudo o que estamos tentando proteger aqui.
Ela fez uma pausa, seus dedos enluvados traçando um círculo concêntrico na superfície pegajosa da mesa, como se estivesse desenhando os possíveis caminhos futuros.
— Mas espere — continuou ela, erguendo a cabeça o suficiente para que ele visse a seriedade em seus olhos. — Ainda não adiante nada à sua gente. Não faça o pedido ainda. Preciso falar com Carlos primeiro. Temos que decidir juntos o que desejamos… o que precisamos que seja chamado primeiro. Seria um livro de medicina? Um tratado de engenharia? Um manual de guerra? A escolha tem que ser estratégica, tem que valer os dois meses de espera e o risco envolvido. — Ela respirou fundo. — Quando tivermos a resposta, eu mesma te procurarei. Do mesmo jeito.
Francisco anuiu, entendendo a lógica. Em um jogo com apostas tão altas, nenhum movimento poderia ser desperdiçado.
— Entendido. Meus ouvidos estarão abertos, e meus pés, prontos para voltar a este paraíso aromático — ele disse, com um sarcasmo seco, cutucando o caneco vazio. — Mas não demore muito, Paula. O vento está mudando, e até eu consigo sentir o cheio de tempestade no ar. Orsini não é paciente.
Francisco esvaziou o caneco. — Precisa de mais alguma coisa? Além de colocar meu pescoço na forca por contrabando de conhecimento proibido?
— Na verdade, sim — Paula disse, sua voz recuperando um tom mais prático. — Você tem muitos contatos. Fora da Igreja. Comerciantes independentes, capitães de navio menos escrupulosos… poderia começar a fazer contatos discretos? Criar rotas alternativas para escoar mercadorias?
Francisco quase se engasgou com o ar. Ele olhou rapidamente para os lados, seu rosto expressando puro pânico.
— Está me pedindo para… planejar contrabando fora da rede da Igreja? — sussurrou ele, chocado. — Paula, todos os navios que saem do porto são revistados pelos guardas da sua igreja! As rotas são controladas!
Um leve sorriso tocou os lábios ocultos de Paula.
— Estou usando meus óculos da gema da visão — ela sussurrou de volta. — Estou de olho em todos aqui. Ninguém está prestando atenção em nós. Pode falar. E sim, estou pedindo para você começar a tecer uma rede paralela. Discreta. Lenta.
Isso acalmou um pouco Francisco, mas não totalmente. A ideia era monumentalmente perigosa.
— Mas… por quê? Para que criar isso agora? — ele insistiu.
— Porque — Paula explicou, com uma calma que era assustadora — talvez, no futuro próximo, Santa Maria não esteja mais sob o controle direto da Igreja Romana.
Francisco ficou petrificado. — Está pensando em… se rebelar? Declarar independência? Isso é loucura!
— Não é uma rebelião que eu planejo — ela respondeu, enigmática. — Mas uma… libertação. E quando isso acontecer, uma cidade portuária rica, cheia de produtos, será um alvo enorme. E estará de mãos atadas se depender apenas das rotas que Alba controla. Precisamos de opções. Canais secretos. Amigos no mar que devam favores a nós, não a Alba.
— Como assim ‘libertação’? Não me diga que… que Carlos planeja tomar a cidade? — a voz de Francisco era um fio de incredulidade. — Isso é impossível! As muralhas, os guardas, os adeptos da Igreja…
Paula permitiu que seu leve sorriso se tornasse um pouco mais visível.
— Você já viu o poder de uma arma de fogo em primeira mão. Eu vi o poder de armas que fazem aquela parecer um brinquedo. Sem um exército para defendê-la… bem, nada é totalmente impossível. Carlos precisa de um porto. Ele precisa de Santa Maria ou de Areia Branca. E qual você acha que é mais fortificada, mais simbólica e, paradoxalmente, mais vulnerável a uma mudança rápida? — Ela fez uma pausa, seus olhos brilhando na sombra. — Talvez eu esteja enganada. Mas há um tempo, Carlos me disse para eu ‘escolher um lado’. Acho que é isso que ele quis dizer.
Francisco quis protestar, argumentar sobre a insanidade da ideia. Mas então lembrou-se. Lembrou-se do dia no engenho, do estampido seco, do corpo do Jorge caindo antes que qualquer um pudesse piscar, de seus escudos sendo destruídos. Lembrou-se dos olhos frios e calculistas de Carlos naquele momento. Aquele não era um homem que fazia promessas vazias.
Ele ficou em silêncio, processando a enormidade do que estava sendo proposto. A taverna, com seu cheiro e sua sujeira, parecia de repente o centro do mundo.
— Tudo bem — ele disse finalmente, a voz surpreendentemente estável. — Eu não confio plenamente em Carlos. Suas ambições são grandes demais. Mas confio em você, Paula. Confio no seu julgamento e no seu coração. Então… farei o possível. Tecerei minhas teias de mercador. Farei os pedidos à tribo. Mas faça-me um favor.
— Qual?
— Quando a tempestade chegar… — Francisco olhou diretamente para a sombra do seu capuz, — …me avise com antecedência. Gosto de meu pescoço do jeito que está.
Paula assentiu, um único e firme movimento de cabeça.
— Será a primeira coisa que farei.
Francisco se levantou, a cadeira rangendo no piso de terra batida. Deu um último olhar para ela, uma figura solitária e enigmática na mesa escura, e depois se virou e saiu da taverna, mergulhando de volta na noite da cidade que, talvez, não fosse mais sagrada por muito tempo.

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