Capítulo 158 - A Escolha da Papisa
O retorno à catedral, após o encontro clandestino com Francisco, deveria ter sido um alívio. Em vez disso, cada passo de Paula pelos corredores frios e silenciosos parecia ecoar com um presságio ruim. O cheiro familiar de incenso e cera deu lugar, à medida que ela se aproximava da ala reservada, a um odor estranho e penetrante: um cheiro acre de queima, misturado a algo docemente pútrido, como frutas podres e químicos.
“O que é isso?”, pensou, acelerando o passo, sua ansiedade crescendo com a fumaça que começava a pairar no fim do corredor.
Ao chegar à porta de seu laboratório secreto – ou o que outrora fora secreto –, ela parou, petrificada. A porta estava escancarada. De dentro, vinham sons de destruição: o estalo seco de vidro quebrando, o baque surdo de móveis sendo arrastados, vozes masculinas dando ordens secas.
Ela entrou numa cena de caos. Homens vestidos com as túnicas simples de monges noviços, mas com a expressão dura de soldados, movimentavam-se com eficiência brutal. Um deles virava sua bancada de madeira, derrubando frascos e cadernos. Outro rasgava páginas de seus anotações meticulosas, jogando-as em um grande balde de metal onde chamas laranjas já consumiam outros papéis, lançando fagulhas e uma fumaça negra e fedorenta. Num canto, um terceiro homem jogava ao chão, um após o outro, seus preciosos cultivos em frascos de vidro. O líquido rosado dos neurônios escorria pelo piso de pedra, misturando-se aos pedaços de vidro e ao bolor verde-azulado dos fungos da penicilina, que era pisoteado sem cerimônia.
— O que pensam que estão fazendo? — a voz de Paula saiu como um grito estrangulado, mais alta do que ela pretendia. Correu para tentar agarrar o braço do homem que estava rasgando um de seus diários mais antigos. — Parem! Imediatamente!
O monge, um homem jovem com olhos gelados, simplesmente a empurrou para o lado com um ombro, sem sequer olhar para ela, voltando à sua tarefa de destruição.
— Eu sou a Papisa! — ela gritou, agora com toda a autoridade que podia reunir, plantando-se no meio da sala em ruínas. — Ordeno que todos cessem esta insanidade agora!
Ninguém parou. Ninguém sequer hesitou. Os olhares que recebeu eram vazios, obedientes a uma autoridade superior à dela. A impotência queimou em sua garganta, mais amarga que a fumaça.
Foi então que uma figura familiar preencheu a porta, cortando a pouca luz do corredor. Dom Orsini observava a cena com uma expressão de falsa penúria, as mãos entrelaçadas sobre seu vasto ventre.
— Ninguém vai parar, minha querida Santidade — disse ele, em um tom condescendente que ecoou na sala abafada. — Afinal, estão apenas limpando a casa de Deus, queimando material herege. Cumprindo o dever que, por apego terreno, você negligenciou.
Paula atravessou a sala devastada, passando por entre os monges como se eles fossem móveis, até ficar cara a cara com Orsini. O cheiro de suor e vinho barato dele era ofensivo tão de perto.
— Já relatei cada descoberta, cada observação, à Santa Sé! — ela argumentou, tentando manter a voz firme, mas um tremor de raiva pura a percorria. — Não há heresia aqui! São pesquisas sobre a vida, sobre a criação divina! São ferramentas para aliviar o sofrimento!
Orsini soltou uma risada curta e sem humor, balançando a cabeça lentamente.
— Nós dois sabemos que isso não é verdade, Paula. Você ocultou, reinterpretou, desviou. Eu vi seus relatórios, e vi o que realmente fazia aqui. — Ele fez um gesto vago para a destruição atrás dela. — E, olhe, não sinto prazer algum nisso. Sou um homem de intelecto, aprecio o progresso. Preferiria vê-la continuar suas… curiosidades. Mas o Papa Henrique, veja bem, ele nutre um desgosto pessoal por você. E seus enviados — ele inclinou a cabeça em direção aos monges — estão aqui, com olhos e ouvidos atentos. Eu preciso dar a eles um espetáculo. Um sacrifício de fumaça e vidro quebrado para apaziguar suas suspeitas. É política, minha cara. Política eclesiástica.
A fúria que invadiu Paula então era de um calor branco e cego. Era uma raiva que vinha das cinzas de seus fungos, do líquido perdido de seus neurônios, de anos de trabalho meticuloso reduzido a lixo e fumaça negra. Mas, por trás da fúria, uma claridade glacial se formou. Ela não disse mais nada. Virou-se e saiu do que fora seu santuário, seus passos ecoando com determinação súbita no corredor.
“Antes, eu temia abandonar a Igreja”, o pensamento martelava em sua mente, nítido e cortante como vidro quebrado. “Temia a instabilidade, o escândalo, o poder desconhecido de Carlos. Mas agora… agora espero que ele use todas aquelas armas de fogo que ajudou a criar. Espero que ele venha e tome esta cidade podre até os alicerces. Esta não é a casa de Deus. É um covil de abutres vestidos de púrpura. Eles não entendem os desejos de Deus, só entendem poder e controle.”
Sem olhar para trás, ela foi direto para seu escritório, a sala imponente que sempre sentira como uma gaiola dourada. Orsini, com sua respiração ofegante, a seguiu, fechando a porta pesada atrás de si com um clique final.
Paula não se sentou em sua cadeira papal. Ficou em pé atrás da mesa, as mãos apoiadas na madeira polida, os dedos brancos de tanta pressão.
— Por acaso deseja me queimar na fogueira também, Dom Orsini? — sua voz saiu gelada, cada palavra uma lasca de gelo. — Para que me seguir até aqui? Já destruiu o que tinha de valor para mim.
Orsini suspirou, um som teatral de homem sobrecarregado.
— Entendo sua fúria, Paula, realmente entendo. Mas você insiste em me ver como inimigo. Eu não quero isso. Lembre-se da nossa conversa: preciso de sua ajuda. E, falando nisso… você já me conseguiu uma ajuda e tanto. — Um sorriso reptiliano surgiu em seus lábios. — Carlos respondeu. O bom presidente nos enviou, por meio de um mensageiro… confidencial, o segredo para a fabricação do aço de qualidade da República. Está tudo aqui.
Ele tirou um rolo de pergaminho de dentro de seu hábito e colocou-o sobre a mesa, com um gesto de triunfo.
O chão pareceu desaparecer sob os pés de Paula. Um frio percorreu sua espinha. “Mas o quê? Por que ele faria isso… a menos que…” A conclusão foi um alívio instantâneo e perigoso. “…a menos que seja falso. Claro. Só pode ser.”
— Foi fácil demais, não acha? — Orsini continuou, como se lesse seus pensamentos. Sua voz era suave, insinuante. — Fácil até para levantar suspeitas. Paula, uma mulher da sua inteligência… deve saber que o que temos aqui — ele bateu o dedo indicador gordo no pergaminho — é uma farsa. Uma mentira bem-embrulhada.
Ele inclinou-se para frente, seu hálito pesado de vinho chegando até ela.
— Por isso proponho uma viagem. Nós dois. Uma visita surpresa, mas diplomática, à República. Uma inspeção in loco. Carlos não poderá nos negar a ver o processo em prática, afinal — ele deu um tapinha no pergaminho —, ele já nos passou a ‘fórmula’. Seria uma grave afronta à Santa Sé recusar a verificação de seu próprio presente. Se o método for verdadeiro, ótimo! A Igreja celebra e nosso comércio floresce. Se for mentira… — os olhos de Orsini estreitaram, brilhando com antecipação, — bem, aí teremos em mãos a prova definitiva da duplicidade dele. E, mais importante, a justificativa perfeita para ações muito mais… decisivas, primeiramente o término das relações comerciais. Contra a República, e contra quaisquer aliados que ela tenha por aqui.
É pior. Ele quer a justificativa. Se forem lá e descobrirem a farsa, não será apenas uma questão de eu parecer tola perante Alba…” O pensamento correu a mil por hora. “Será o pretexto de ouro para Orsini. Ele cortará o comércio imediatamente, com o aplauso de Alba. A República ficará isolada, sem sal, sem ferramentas, sem tecido, sem medicamentos… Estrangulada economicamente em questão de semanas. Será uma sentença de morte lenta, e a culpa recairá sobre mim por ter ‘acreditado’ em Carlos. Orsini ganha dois coelhos: desacredita-me e asfixia o inimigo, tudo com as mãos limpas.”
A palidez que tomou seu rosto não era de pânico, mas de horror estratégico. Ela viu o fim do sonho da República, não por fogo ou magia, mas por falta de suprimentos básicos.
Mas anos de sobrevivência na corte papal a tinham ensinado a disfarçar o verdadeiro terror. Ela forçou os músculos faciais a se comporem, mas seu olhar ficou mais distante, calculista. A raiva anterior deu lugar a um gelo tático.
— Se é falso ou verdadeiro, a decisão de romper o comércio não pode ser tomada com base em uma simples viagem de verificação — respondeu, sua voz agora medida, tentando ganhar tempo e desviar a lógica dele. — Cabe à Santa Sé, aos nossos especialistas em Alba, analisarem o método por escrito primeiro. Uma viagem precipitada poderia ser vista como uma provocação, Orsini. E se o método for genuíno, mas complexo, e eles não conseguirem replicá-lo na hora? Seríamos nós os culpados por um rompimento desnecessário. — Ela fez uma pausa, erguendo o queixo. — Nosso compromisso é claro: mantemos o comércio enquanto Alba avalia. Foi essa a condição que preservei. Cortar os laços agora, sem o veredito formal de Alba, seria uma afronta à própria autoridade da Santa Sé que você diz defender.
Orsini riu, um som verdadeiramente divertido agora.
— Realmente! Imaginei que você diria algo assim. Nobre, leal… e tremendamente ingênua. — Ele se aproximou da mesa, apoiando as mãos na beirada. — Mas vamos fazer um trato, já que insiste na formalidade. Se acredita tanto na veracidade deste documento… escreva você mesma a carta para Alba. Dê seu voto de confiança total. Diga que manteve o comércio aberto, contra o meu conselho explícito, e que se opôs veementemente à minha proposta de verificação in loco. Assuma a responsabilidade completa por essa decisão.
A palidez no rosto de Paula não diminuiu, mas a névoa de pânico em sua mente se dissipou, substituída por um cálculo rápido. “Isso… é inesperado. Ele quer que eu me queime perante Alba. Que assuma a culpa por um possível fracasso. Se o método for falso, serei eu a bode expiatório, e ele, o vigilante perspicaz. Mas… eu já pretendo abandonar este barco furado. A opinião que têm de mim em Alba pouco importa agora. No entanto, não posso fazer esse movimento sem saber exatamente o que Carlos planeja. Preciso de uma comunicação direta, segura.”
Ela ergueu o queixo, encontrando o olhar de Orsini.
— Tudo bem. Escreverei a carta para Alba. Mas, antes, preciso enviar uma comunicação a Carlos. Para… confirmar os termos do acordo e a autenticidade das informações que ele nos passou. É a mínima cortesia diplomática.
Orsini estudou-a por um longo momento, seus olhos pequenos e brilhantes parecendo pesar cada sílaba. Finalmente, ele se afastou, abrindo as mãos em um gesto de concessão magnânima.
— Como desejar, Vossa Santidade. A cortesia, claro, deve ser mantida. — Ele fez uma reverência superficial, irônica. — Envie sua carta. Depois, traga-me a que será destinada a Alba. Estarei aguardando.
Ele saiu do escritório, fechando a porta com suavidade, deixando Paula sozinha com o silêncio opressivo e o pergaminho mentiroso sobre a mesa.
No corredor, enquanto se afastava, um sorriso largo e satisfeito esticou os lábios de Orsini. Seus passos pesados ecoavam na pedra.
“Eu não sei o que você tem na manga, Paula”, pensou ele, o humor excelente. “E, sinceramente, não me importa. Já falei com Henrique. Ele disse que, se eu conseguir desacreditá-la e removê-la do poder aqui, terá seu apoio incondicional para me tornar o próximo Papa Supremo. E se você, por milagre ou astúcia, escapar dessa armadilha… bem, ficará sem aliados, isolada. Será forçada a apoiar minha ascensão para sobreviver. De um jeito ou de outro, saio vitorioso.”
Ele passou por uma janela alta, onde a luz do fim da tarde entrava, pintando o chão de ouro.
“Mas saiba, Paula, que torço por você, em meu próprio e torto caminho. É inteligente demais para acabar seus dias neste fim de mundo. E é inocente e burra o suficiente quando se trata das verdadeiras regras do jogo… o que me permitiu descobrir quase todos os seus segredinhos em tempo recorde.”
O sorriso tornou-se ainda mais amplo, um gesto genuíno de prazer ante a complexidade do tabuleiro que ele mesmo montara. O jogo estava em andamento, e ele se sentia confortável de que, independentemente de quem movesse as peças, o xeque-mate levaria seu nome.

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