Capítulo 160 - Ataque a Casa-Grande
Dentro da casa-grande, o tempo parecia ter se condensado em uma substância espessa e pesada, um melaço de ansiedade que grudava na pele. O ar, antes impregnado pelo odor de cera envelhecida e mofo de madeira nobre, agora carregava o cheiro ácido do suor frio e o perfume metálico do medo.
– Senhor Albuquerque! Os quilombolas estão se movendo! – A voz de Henrique irrompeu no quarto antes mesmo dele, um sopro rouco de alarme. Ele surgiu na porta, ofegante, o rosto pálido como nata sob a crosta de sujeira e pólvora. O uniforme, puído nas bordas, estava manchado de lama e algo mais escuro.
Albuquerque não se virou imediatamente. Seus dedos, longos e nodosos, já haviam encontrado a curva familiar do arco de madeira escura sobre a cama. O tato reconheceu cada imperfeição, cada entalhe, como se lesse uma página em braille de memória e morte. Só então ele ergueu os olhos.
– Finalmente. Conte-me. O que fazem, Henrique?
– Cerca de trezentos homens, senhor – o subordinado falava rápido, as palavras se amontoando na boca seca. – Todos com mosquetes, descendo em formação pela encosta leste, como uma cobra verde. Mas… – ele engoliu, o pomo-de-adão subindo e descendo com dificuldade. – No meio deles, há um grupo separado. Vinte, talvez vinte e cinco. Uniformes mais escuros, quase negros. Eles são liderados por… por aquela mulher, senhor. A que escapou do nosso cerco no mês passado.
O ar no quarto pareceu esfriar vários graus, sugando o pouco calor que restava. Um dos guardas postados ao canto moveu os pés no assoalho de tábuas rangentes, um ruído áspero que cortou o silêncio.
– Os Adeptos da Terra – completou Albuquerque, a voz baixa, os dentes cerrados de um modo que fez as palavras saírem sibilantes. A madeira do arco rangia sob sua pressão.
– Sim, senhor. Adeptos. E atrás deles… – Henrique fez uma nova pausa, os olhos arregalados pela visão que ainda retinha. – Mais cem homens. Com aqueles mosquetes malditos, os que não param de cuspir balas.
A notícia teve o efeito de um balde de água gelada. O guarda no canto engoliu em seco, um glup audível e úmido. Albuquerque sentiu o próprio estômago se contrair, um nó frio e pesado se formando na garganta. A memória foi um golpe físico: o riacho, ele pode ver tudo, a cacofonia infernal de disparos que nunca cessavam, seus homens caindo como trigo ceifado antes mesmo de virem o inimigo. E a visão daquele último momento, transmitida pela flecha – a formação compacta, a disciplina férrea, a morte chegando em ondas regulares e implacáveis.
– Eles pararam! – A voz de Henrique, agora vinda da janela lateral, cortou o devaneio sombrio. Ele empunhava a luneta de visão especial, aquela que permitia espiar através das paredes de taipa e os rochedos. – Os homens com mosquetes comuns… estão recarregando! A formação deles se abriu. Parece que vão…
Um grito distante, agudo e cheio de agonia, cortou o ar lá fora, seguido não por um, mas pelo estalido seco e simultâneo de dezenas, talvez centenas, de disparos. Um rugido uníssono, depois uma avalanche de tiros isolados.
– Que diabos…? – Henrique encostou o rosto na luneta, a voz abafada pelo vidro. – Um de nossos capitães-do-mato… atacou sozinho! Cavalgou direto para eles em um acesso de fúria! – Seu corpo ficou tenso. – Foi alvejado por… por uma nuvem de chumbo, senhor. Não havia lacuna. O corpo dele… ficou como um queijo de cabra velho, todo esburacado. Não sobrou nada em pé, nem homem, nem cavalo.
A imagem surgiu nítida e grotesca na mente de todos no quarto. Albuquerque fechou os olhos por um segundo, a raiva fervendo em seu peito, mas sua voz, quando saiu, estava controlada, áspera apenas pela tensão.
– E nossos Adeptos? Onde estão? Por que não contra-atacam?
– Estão tentando, senhor, juro! Mas… – Henrique balançou a cabeça, confuso e frustrado. – É um vai e vem. Os Adeptos da Terra inimigos, os de uniforme escuro… quando os atiradores param para recarregar, eles erguem o braço com a gema. E a terra à frente deles sobe, senhor! Como uma muralha baixa e súbita, feita de pedra e raízes. Protege toda a linha de frente por alguns segundos. Mal nossos homens se aproximam, a muralha baixa e… tum! Outra enxurrada de tiros! A saraivada varreu a frente. Mataram pelo menos três dos nossos Adeptos do Fogo que tentavam avançar com labaredas.
Ele se virou da janela, o suor escorrendo em fios limpos pelas têmporas sujas. Seus olhos encontram os de Albuquerque, cheios de uma incredulidade amarga.
– Os poucos nossos que sobreviveram à primeira salva e chegaram mais perto… depararam-se com os mosquetes que não param de atirar! É como se brincassem conosco, senhor. Como um gato com um rato. Erguem uma parede, atiram, abaixam a parede. Nossos homens ficam expostos, os deles, nunca.
“Estratégia. Coordenação. Isso não é uma guerrilha de quilombolas”, o pensamento ecoou, frio e lúcido, na mente de Albuquerque. “É tática militar pura!.”
– Merda! Inúteis! – A fúria transbordou, finalmente. Albuquerque bateu o punho fechado na parede de madeira sólida, fazendo o retrato em miniatura de um antepassado pular no prego e cair de cara no chão com um baque mudo. – Diga a todos! A todos, Henrique! Recuam para dentro dos limites da propriedade, agora! Que ergam as barreiras defensivas! Não esperem por ordens, não esperem por ninguém! Salvem-se!
Mas a ordem, gritada no quarto abafado, já era um eco de uma realidade que se desenrolava lá fora. Pelas janelas abertas, os gritos, os gemidos e o tropel desesperado já entravam, formando uma sinfonia do pânico. Viam-se bandeirantes e capitães-do-mato correndo em desordem completa em direção à casa-grande, seus rostos antes arrogantes agora contorcidos por uma máscara primitiva de terror. Alguns tropeçavam nas raízes expostas do jardim arrasado, caindo com um grunhido. Outros, num ato de desespero silencioso, abandonavam armas mágicas pesadas e até cantis, qualquer coisa que atrapalhasse a corrida por vida. O cheio de pólvora queimada e poeira levantada começava a pairar no ar, trazido pelo vento como um prenúncio da própria derrota.
Albuquerque observou aquela debandada, a mão ainda apertando o arco com força branca. O plano meticuloso, a armadilha, a arrogância de achá-los caçadores… tudo desmoronava ao som dos mosquetes dos quilombolas. Restava apenas a fortaleza da casa-grande. E um cerco.
— Tá na hora de eu lutar também! — Gritou Alobuquerque e colocou a flecha no arco e atirou pela janela. Sem perder tempo se conectou à flecha.
Do lado de fora, os adeptos do gelo e da terra começaram seu trabalho.
Primeiro, um sussurro baixo, como o farfalhar de folhas secas. Depois, o ar começou a esfriar — não o frio natural da tarde, mas um frio cortante, úmido, que fazia os dentes tremerem. Do solo úmido ao redor da casa-grande, cristais de gelo brotaram como flores mortais, entrelaçando-se, crescendo, formando uma muralha translúcida que refratava a luz do sol em arco-íris pálidos.
Simultaneamente, a terra começou a mover-se. Não um tremor, mas um fluxo lento e deliberado, como se o solo se lembrasse de ser líquido. A terra elevou-se, compactando-se, misturando-se com pedras e raízes, formando uma segunda barreira atrás da de gelo — sólida, escura, impenetrável ao olhar.
Alguns desafortunados que não conseguiram alcançar a segurança a tempo viraram-se, seus olhos arregalados de terror um segundo antes de serem atingidos por uma saraivada de tiros. Seus corpos caíam, espasmodicos, na terra agora manchada de vermelho.
Por um longo momento, Albuquerque sentiu um fio de alívio. A casa-grande estava envolvida em defesas que resistiram a ataques indígenas, a assaltos de quilombolas, até a armas mágicas poderosas dos holandeses.
“Vão subestimar as barreiras”, pensou, os dedos acariciando o arco, enquanto sua flecha se aproximava do inimigo, ele passou por quem atacava, ele iria atrás da cabeça de tudo. “Acharão que são frágeis, temporárias. Mas estão enganados.”
Seus olhos pousaram na gema no centro do quarto — rosa, do tamanho de um cachorro médio, pulsando com uma luz interna suave. Normalmente ficava na sala do tesouro, mas ele a trouxera para cá.
“Essa é a gema do estoque”, recordou, quase sorrindo. “Décadas de mana acumulada dos adeptos da gema do estoque de sua família. Qualquer um que toque nela recupera suas reservas instantaneamente.” Normalmente inútil em batalha campal — qualquer movimento brusco fazia-a liberar energia descontroladamente —, mas em uma fortificação estática? Era uma fonte inesgotável.
E havia mais.
“Graças às descobertas da Papisa sobre a gema da grama… meus capatazes podem fazer alimentos crescerem na horta interna em dias. Dizem que foram esses quilombolas que descobriram isso, normalmente eu acharia isso um absurdo, mas agora desejo que isso seja a verdade, que eles nós deram o conhecimento para sua própria derrota!” Seu sorriso alargou-se. “Podem nos cercar o quanto quiserem. Aguentaremos meses.”
Enquanto pensava isso, achou um bom alvo corredenando tudo por trás, perto das carroças de metal que Henrique comentou, mas ele notou algo estranho, estavam colocando bolas de ferro nessas carroças de metal. “Não importa, só preciso matar o líder” pensou Albuquerque.
Mas seu pensamento de segurança foi interrompido por um som. Assim como sua conexão com a flecha.
Não um estrondo, mas algo diferente — um CRAC seco, metálico, que parecia vir do próprio ar. Seguido por outro. E outro.
Na barreira de gelo, um buraco apareceu como por milagre. Não uma rachadura, mas uma abertura limpa, circular, com bordas derretidas que pingavam água rapidamente congelante.
— Henrique! O que foi isso?! — Albuquerque gritou, instintivamente abaixando-se.
O capataz estava parado na janela, a boca aberta.
— Eu não… não sei, senhor. Apenou ouvi o som e…
CRAC-CRAC-CRAC
Três impactos quase simultâneos. Desta vez, não na barreira, mas na própria casa-grande. A ala oeste — a sala de jantar — simplesmente desintegrou-se. Madeira nobre, telhas, mobília, tudo virou uma nuvem de estilhaços e poeira. Os gritos dos que estavam lá dentro foram abafados pelo rugido da destruição.
“Mas que tipo de gema poderosa é essa?!” O pensamento atravessou a mente de todos no quarto, compartilhado, aterrorizado.
Os adeptos do gelo reagiram, erguendo novamente a barreira danificada. Mas não mais rápido que o próximo ataque.
CRAC
CRAC
CRAC
Cada impacto era precedido por um uivo breve, agudo — o som do projétil cortando o ar —, seguido pelo estampido seco da arma que o lançara. E as balas não eram detidas pelas barreiras. Atravessavam o gelo como se fosse papel molhado, perfuravam a terra compactada como se fosse areia solta, e continuavam até atingir a casa. Na verdade as barreira até pioraram a situação, geravam estilhaços que atingiam desafortunados que estavam próximas a barreira.
Albuquerque viu, então, a gema do estoque.
Ela tremia. Não um tremor leve, mas uma vibração violenta, como se algo dentro dela estivesse tentando escapar. A luz rosa intensificou-se, tornando-se quase branca, dolorosa de se olhar.
— Não — ele sussurrou. — Não, por favor…
A gema saltou do pedestal.
Não caiu — foi arremessada contra a parede oposta, onde estilhaçou-se em mil fragmentos cor de rosa. No mesmo instante, todos no quarto sentiram uma onda de energia percorrer seus corpos. Não era revitalizante — era violenta, excessiva, como beber oceano quando se tem sede. A mana acumulada por décadas libertou-se de uma vez, inundando a sala, fazendo as outras gemas piscarem descontroladamente, sobrecarregando os sentidos dos adeptos.
Mas isso era o menor dos problemas.
O caos reinava. Gritos vindos de outros cômodos, o cheiro de poeira e madeira queimada, o gosto metálico do medo na boca.
E então, nas sombras do pátio interno que ainda permanecia de pé, uma figura movimentou-se rápido demais para ser vista claramente. Sussurro, usando a poeira e a confusão como véu, apareceu por um instante. Em cada mão, segurava três granadas.
Ele jogou-as — não em um só lugar, mas em um padrão: duas nos estábulos, duas no depósito de armas, duas junto aos barris de água que os defensores usavam para combater incêndios.
Não houve tempo para reação.
As explosões não foram enormes, mas foram precisas. Os estábulos, cheios de palha seca, viraram uma fornalha instantânea. O depósito de armas detonou em uma bola de fogo que engoliu a ala norte. Os barris de água explodiram, não por combustão, mas pela expansão violenta do vapor, lançando estilhaços de madeira em todas as direções.
Do morro, Espectro observou o fogo consumir a casa-grande pelos flancos. Baixou a luneta e fez um sinal com a mão direita.
Atrás dele, um corneta tocou três notas curtas e agudas.
A infantaria da República, que aguardava em formação, começou a avançar. Não em corrida desordenada, mas em linhas organizadas, os mosquetes prontos, os fuzis de repetição à frente. A marcha era silenciosa, apenas o som ritmado de botas no solo e o ocasional estalido de um projétil remanescente encontrando seu alvo.
Dentro do que restava do quarto, Albuquerque ergueu-se entre os escombros. Seu arco ainda estava em suas mãos, as gemas piscando fracamente. Pelas janelas quebradas, via as silhuetas verdes avançando, implacáveis como a maré.
Seus olhos encontraram os de Henrique, que chorava silenciosamente encostado na parede.
— Senhor… — o capataz tentou falar, mas as palavras morreram.
Albuquerque não respondeu. Apenas notou, com uma clareza estranha, como a luz do sol poente refletia nos estilhaços de sua gema do estoque, espalhados pelo chão como pétalas de uma flor impossível.
Mas todo seu pensamento foi cortado por um tiro em sua cabeça, para o terror de Henrique. Sussuro que tinha voltado a sua posição inicial, atirou em uma sombra e lá apareceu, começou o ataque, atirando em Albuquerque. Ela não sabia se os adeptos da defesa havia erguido as defesas ou não, mas isso não importava, para uma arma daquele calibre uma defesa dessas não era capaz de parar sua bala.
Do lado de fora, o primeiro atirador da República alcançou a barreira de gelo derretida, colocou a bota sobre os cristais quebrados, e atravessou.

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