Capítulo 163 - Boa notícias
A luz da tarde, entrando pelas altas janelas do escritório de Carlos, iluminava partículas de poeira que dançavam lentamente. Quando o mensageiro entrou, ofegante, e entregou o relatório lacrado com o selo de Espectro, o silêncio do cômodo ficou ainda mais denso.
Carlos quebrou o lacre com um estalido seco. Seus olhos percorreram as linhas da caligrafia meticulosa, os números, os mapas esquemáticos anexados. A surpresa foi uma sensação física, um leve estiramento no diafragma, seguido por um suspiro lento e profundo que ele nem percebeu ter prendido. Ouro Branco tinha caído. E a leitura dos detalhes sugeria uma vitória não apenas completa, mas… fácil. Estranhamente fácil, se comparada à lembrança vívida e dolorosa do Riacho – o cheio de sangue e pólvora, os gritos, o custo terrível em vidas.
Ele deixou o papel cair suavemente sobre a mesa de carvalho, os dedos ainda tocando a superfície áspera do relatório. O som do mercado distante, do burburinho normal da República, parecia irreal diante daquela notícia.
“Apesar de que… faz sentido, quando paro para pensar”, o pensamento começou a se organizar, tentando domar a incredulidade. “No riacho, fomos nós os pegos de surpresa. Éramos menos, mal armados com aqueles mosquetes de pederneira que falhavam mais do que acertavam.” Seus olhos se fixaram em um mapa na parede, no pequeno “X” que marcava o local daquela carnificina.
“Mas desta vez… a história foi reescrita. Nós éramos o maior número. As armas – os fuzis de repetição, a artilharia – não eram apenas decentes, eram superiores. A surpresa foi nossa arma. A logística, nosso alicerce.” Ele franziu a testa, a parte prática de sua mente assumindo o controle. “Consome recursos, é claro. Cada tiro, cada bala de canhão, é aço, pólvora, horas de trabalho. Mas como a vitória foi rápida e decisiva… não consumiu tudo o que poderia ter consumido em um cerco prolongado. Foi eficiente. Economicamente eficiente.”
Ele pegou a segunda folha do relatório. Aqui, após o resumo tático, vinha o pedido de Espectro. Carlos leu, e depois leu novamente, seus olhos percorrendo as linhas que sugeriam uma pausa, um breve descanso para as tropas antes do próximo movimento.
“Descansarmos um pouco antes de seguir para Areia Branca…”, ele murmurou para si mesmo, levantando-se e caminhando até a janela. Lá fora, a República fervilhava em sua rotina pacífica, um contraste gritante com as palavras no papel. “Realmente, o caminho até a costa tem seus obstáculos. Cidades pequenas, alguns fortes de pedra…”
Ele imaginou aquelas estruturas, projetadas para deter ataques de tribos ou quilombolas, diante da fria matemática de seus canhões de cerco. Um frio percorreu sua espinha, mas não era medo; era uma compreensão quase desconcertante do poder que agora comandava.
“…para nossos canhões, eles não são um problema. Nem mesmo o Castelo Garcia, aquele velho forte na serra que todos dizem ser inexpugnável. Pedra contra pólvora em quantidade suficiente… a pedra sempre perde.”
Seu rosto se contraiu em uma expressão de dúvida. Havia outro plano em jogo, outra promessa. “Apesar de que… a Paula. Ela está se preparando, arriscando tudo, para nos abrir os portões da Cidade Sagrada por dentro. O plano original era convergir para lá depois de Ouro Branco.”
Ele esfregou a têmpora, sentindo o início de uma dor de cabeça. Os prós e contras se alinhavam em sua mente como peças de um jogo de xadrez complexo.
“Porém, para isso, teríamos que deslocar o exército de Ouro Branco, marchar de volta, cercar a cidade… são semanas, talvez meses. E enquanto isso…” Seu olhar voltou-se para a estante, onde um relatório de produção estava sempre visível. “…a cada dia que passa, estamos produzindo mais armas de repetição nas oficinas de Gemas Gerais. É verdade. Mas também, a cada dia que passa, nosso estoque de aço de qualidade – aço para ferramentas, para peças de reposição das máquinas, para novas fábricas – diminui. Produzir mais rifles não necessariamente nos torna mais fortes se não pudermos mantê-los disparando, se nossas ferramentas quebrarem e não tivermos como substituí-las.”
A voz de Espectro no relatório parecia ecoar em seus ouvidos. O comandante enfatizava a velocidade, o momentum, a fragilidade logística do inimigo comparada à deles.
“Hum… mas o inimigo, o governador-geral… ele está ficando mais forte a cada dia que damos a ele. Reúne tropas, contrata mercenários, fortifica outras cidades.” Carlos suspirou, o peso da decisão pressionando seus ombros. “Espectro entende de guerra cinética, de movimento e fogo, melhor do que eu. Muito melhor. Ele está lá, sente o cansaço dos homens, vê o terreno. Eu estou aqui, cercado por papéis e mapas.” Ele assentiu, quase imperceptivelmente, para si mesmo. “Vou confiar em seu julgamento. O momentum é uma arma tão crucial quanto os canhões.”
A decisão tomou forma clara em sua mente. Ele se sentou novamente, puxou uma folha de papel em branco e começou a escrever, sua pena raspando com determinação. A resposta para Espectro era uma autorização: “Aprovada a pausa estratégica. Mantenha-me informado. O próximo movimento é seu. Confio em sua visão.”
Assim que a tinta secou, ele dobrou o documento, selou-o e tocou um pequeno sino de latão sobre a mesa. Poucos instantes depois, sua secretária, uma mulher de meia-idade com óculos de aro fino, apareceu na porta.
– Teresa, por favor, peça à Senhorita Matilda que venha ao meu gabinete. É urgente.
Aguardando, Carlos organizou os papéis. O relatório completo de Espectro era detalhado demais para os olhos públicos, contendo números precisos de tropas, vulnerabilidades táticas, nomes de agentes. Ele separou uma versão resumida que havia preparado mentalmente – uma narrativa clara da vitória, com os feitos heroicos, a superioridade tecnológica, e o baixo custo em vidas republicanas.
Uma batida suave na porta anunciou sua chegada.
– Entre.
Matilda entrou, e por uma fração de segundo, Carlos ficou sem fôlego. Ela vestia um vestido de algodão simples, mas de um azul profundo que parecia ter sido roubado do céu do crepúsculo. E então ele notou, como se fosse a primeira vez – o que era absurdo –, que o azul do tecido combinava perfeitamente com o azul de seus olhos. Um azul claro, inteligente e inquisitivo.
“Espera… olhos azuis? Podia jurar que eram de outra cor”, o pensamento disparou, incongruente e desprevenido.
– Bom dia, Matilda. Obrigado por vir tão rápido. Sente-se, por favor.
Ela sentou-se na cadeira de frente para sua mesa, com sua postura habitual, ereta e atenta. Carlos empurrou o relatório resumido em sua direção.
– Acabamos de receber a confirmação. Ouro Branco foi tomada. Este é o relatório oficial da batalha. Eu já retirei as informações sensíveis – números exatos de tropas, posições secretas, esse tipo de coisa. O restante… – ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado, – é uma história que precisa ser contada. E quero que seja publicada no próximo número do Jornal Jabuticaba.
Matilda pegou as folhas, seus dedos finos passando sobre o papel. Seus olhos azuis, agora sérios, começaram a voar sobre as linhas. Carlos observou seu rosto, vendo as sobrancelhas se levantarem ligeiramente, os lábios se separarem em um pequeno “o” de espanto. Ela virou a página, depois voltou a anterior, como se checando os números.
– Isso… presidente… – ela começou, a voz um sussurro incrédulo. – Tudo isso é verdade? Foi… fácil assim? Apenas três mortos confirmados e dez feridos? Em uma batalha por uma cidade inteira?
A dúvida nela era palpável, quase uma esperança cautelosa de que fosse um erro.
Carlos inclinou a cabeça em um aceno afirmativo, seus próprios sentimentos de surpresa inicial ecoando nas perguntas dela.
– É verdade. Cada número foi verificado. A estratégia do Comandante Espectro foi impecável. Nós conseguimos neutralizar as principais ameaças – os adeptos, as posições defensivas – a uma distância segura, com artilharia e atiradores de elite. Quando nossa infantaria finalmente se aproximou a ponto de poder sofrer retaliação direta… – ele fez uma pausa, a imagem do relatório vívida em sua mente, – o inimigo já estava quebrado. Sob graves ataques contínuos, com muitos mortos, feridos e os sobreviventes completamente desorientados. A resistência organizada havia desmoronado.
Ele ergueu um dedo, seu tom ficando mais enfático, visionário.
– E é exatamente nesse ponto que quero que você dê ênfase, Matilda. A narrativa. Destaque o poder esmagador de nossas novas armas – a precisão, a cadência de fogo. Fale sobre a velocidade do ataque, a coordenação entre as unidades. Quero que cada cidadão da República sinta orgulho, mas também quero que uma mensagem muito clara seja enviada para além de nossas fronteiras.
Ele se inclinou para frente sobre a mesa, seus olhos agora brilhando com uma ideia que amadurecia rapidamente.
– Estou pensando em algo… além da distribuição normal. Poderíamos vendê-la não só aqui, mas fazer com que ela circule por toda a capitania, por rotas comerciais, por… meios discretos. Quero que nossos inimigos – o governador, os senhores de engenho, a própria Igreja na Cidade Sagrada – saibam exatamente o poder que agora se opõe a eles. Que leiam sobre a facilidade com que Ouro Branco caiu. Medo pode ser um dissuasor tão eficiente quanto um exército.
Matilda ficou em silêncio por um momento, absorvendo. Então, seus olhos azuis se acenderam com uma compreensão súbita e mais profunda. Ela colocou o relatório de lado com um gesto quase reverente.
– Sim, presidente! Perfeito. E vai além disso, muito além – ela disse, a voz agora carregada de um entusiasmo contido. – Esse jornal, essa história de uma vitória tecnológica e inteligente… será imensamente útil para nosso recrutamento especializado. Se, nas páginas de classificados, ao lado da notícia, mencionarmos as vagas abertas – e os salários altíssimos – para ferreiros, para marceneiros que possam trabalhar com projetos complexos, para alquimistas, para qualquer pessoa que saiba ler, escrever e tenha vontade de aprender… – Ela abriu as mãos, como se apresentando a cena. – Nós atrairemos talentos. Talentos que estão escondidos em oficinas sujas ou servindo a senhores que não valorizam seu conhecimento. O senhor é mesmo genial em pensar nessa camada extra, no poder da narrativa para construir não só moral, mas o futuro!
Carlos ficou completamente sem jeito, um calor subindo pelo seu pescoço. Ele encolheu os ombros, um gesto desconcertado.
– Eu… bem, a verdade é que eu estava pensando mais na parte do dissuasor, do impacto psicológico nos inimigos – ele admitiu, com uma honestidade que soou estranha até para ele. – Mas seu ponto é excelente. Melhor do que excelente. É fundamental. A vitória na guerra depende da fábrica, da oficina, da mente que inventa. Então, sim, faça isso. Destaque os feitos, semeie o medo nos adversários… e faça o chamado para os construtores, para os inventores. Que venham para a República.
Matilda sorriu, um sorriso genuíno que fez seus olhos azuis brilharem. Ela pegou o relatório com um novo senso de propósito.
– Compreendido, presidente. Vou começar a redação ainda hoje. Teremos uma edição que abalará a capitania.
Ela saiu, deixando para trás o suave aroma de papel e tinta, e a sensação persistente em Carlos de que, às vezes, as melhores ideias eram aquelas que você não tinha percebido que estava tendo.

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