Capítulo 164 - Artesão Mágico
O escritório do prefeito de Ouro Branco cheirava a poeira velha, cera derretida das velas usadas a noite toda e um leve travo de mofo que subia das prateleiras de documentos. A luz do dia, mais forte agora, entrava pelas janelas de madeira trabalhada, iluminando o torvelinho de partículas suspensas no ar. Espectro estava sentado à grande mesa de carvalho, as costas rígidas contra o alto encosto da cadeira. Na sua mão, a resposta de Carlos, escrita em um papel mais grosso e de qualidade do que o usado nos relatórios de campo. Ele a lia pela segunda vez, seus olhos cinzas percorrendo cada linha com atenção cirúrgica.
Um leve aceno de concordância acompanhou a leitura. A aprovação à pausa estratégica, o aval para o próximo movimento. Tudo conforme o esperado. Mas então, seus olhos pousaram no parágrafo final, onde Carlos detalhava, com um certo entusiasmo contido, a ideia de vender o jornal fora da República. Espectro parou, ergueu ligeiramente a cabeça, um sopro quase inaudível escapando de seus lábios.
“Interessante”, pensou, os dedos batendo levemente no papel. “Usar a narrativa da vitória não apenas para levantar o moral interno, mas como uma arma psicológica de longo alcance. Disseminar o medo, a ideia de invencibilidade… e, como ele sugere, atrair talentos descontentes. O Carlos entende que a guerra também se vence na mente dos homens, não apenas nos campos.” Uma ponta de admiração genuína, rara, tocou seu espírito calculista. Era uma jogada mais sutil do que ele esperaria do presidente, focando em logística e produção.
Ele colocou a carta de lado, seu canto alinhado com a borda da mesa, e puxou para si uma pilha mais espessa de relatórios de campo, ainda impregnados do cheio de suor, pólvora e terra úmida. A expansão do controle republicano continuava, como as raízes de uma árvore se espalhando. As unidades móveis estavam terminando de “limpar” – um termo técnico e frio – os engenhos e fazendas fortificadas ao redor de Ouro Branco. A rendição geralmente vinha rápida após a demonstração de um canhão na porteira ou algumas salvas de fogo de supressão. A maioria dos senhores, ao contrário de Albuquerque, não tinha estômago para um cerco.
Mas o mapa mental em sua cabeça não parava aí. Seu olhar interno viajava pela estrada poeirenta que levava à costa, passando por vilarejos e cruzando o sopé da serra. E lá, dominando a passagem, estava o Castelo Garcia. Um osso muito mais duro de roer.
“O Castelo Garcia não será como esses engenhos de brinquedo”, sua análise foi fria e clara. “Relatórios confirmam que conseguiram reunir uma milícia considerável lá. Números provavelmente equivalentes aos que Albuquerque tinha em seu auge. E o terreno… o castelo foi construído em um desfiladeiro. Aproximação frontal é um funil de morte.”
Ele fechou os olhos por um momento, imaginando o assalto. A infantaria avançando sob fogo de flechas e ataques mágicos. Seus próprios canhões teriam que ser arrastados para posições expostas para ter linha de tira contra as altas paredes de pedra. Seria custoso. Muito custoso em vidas e tempo.
“Se ao menos os projéteis de canhão pudessem fazer mais do que esmagar a pedra… se explodissem no impacto, como as granadas de mão da Sussurro”, pensou, uma frustração rara tingindo sua lógica. Sua mão foi instintivamente ao bolso do peito, onde carregava uma pequena gema do Fogo, inerte, para estudo. “A gema do Fogo é poderosa, mas seu cristal é frágil. O impacto do disparo de um canhão a estilhaçaria antes de chegar ao alvo. Inútil.”
Ele abriu uma gaveta e tirou um pequeno caderno de anotações forrado de couro, folheando até uma página com diagramas ásperos. “Uma ideia: uma granada de artilharia. Um invólucro oco cheio de estilhaços e pólvora, com uma gema do Fogo ou do Raio como espoleta, configurada para detonar no impacto…”. Ele desenhou mentalmente o mecanismo. “Mas a gema do Raio, capaz de gerar a faísca instantânea e poderosa que precisaríamos, é raríssima. Cara demais. Impraticável em escala.”
Ele fechou o caderno com um baque suave. O peso do problema logístico sempre retornava. “No fim, terei que levar essa questão ao Carlos. Em nossas conversas noturnas, ele sempre aludiu a armas em seu mundo de origem… armas que fazem nossas mais avançadas parecerem arcos e flechas. ‘Artilharia de alto explosivo’, ‘projéteis explosivos’…”. Um suspiro, quase imperceptível, escapou-lhe. “Mas de que adianta sonhar com essas maravilhas se ficarmos sem o aço básico para fazer os canhões que as disparariam? O luxo da invenção vem depois da segurança do suprimento.”
A porta do escritório abriu-se com um rangido, interrompendo sua cadeia de pensamentos. Pedro, entrou. O rosto do homem estava sujo da estrada, mas seus olhos estavam alertas.
– Senhor Espectro! Encontramos ele. O artesão mágico da cidade, o que conserta e fabrica pequenos artefatos com gemas. Mas ele… bem, não é bem como os relatórios antigos descreviam.
Espectro ergueu os olhos, seu rosto uma máscara impassível.
– Traga-o.
Pedro fez um sinal para o corredor. Os passos que entraram eram leves, jovens, não o arrastar pesado de um ancião. O homem que entrou no escritório era magro, talvez na casa dos vinte e cinco anos, com olhos claros e inteligentes que imediatamente vasculharam a sala, pousando por fim em Espectro. Seu cabelo era escuro e desalinhado, e ele usava um avental de couro manchado de graxa e substâncias mágicas que exalavam um odor adocicado e metálico. Espectro entendeu na hora o comentário de Pedro. Os relatórios da Sombra e da Sussurro, de anos atrás, mencionavam um velho artesão, um homem recluso a serviço da elite da cidade.
O jovem artífice manteve os ombros erguidos, um desdém claro em seu olhar ao examinar Espectro, o comandante negro à sua frente.
– Então é você o ‘libertador’ que me procura? – sua voz tinha um sotaque local carregado, e o tom era desafiador. – Pois saiba que eu não trabalho de graça, e nunca tive escravos. Minhas mãos só trabalham para quem paga. Então não têm motivo para me prenderem ou me punirem, não é? – Ele cruzou os braços. – Dizem por aí que essa tal República trata todos como iguais. Se for verdade, espero poder voltar para minha oficina em paz.
Os dois soldados que haviam acompanhado o artesão ficaram rígidos, suas mãos indo instintivamente às coronhas de seus mosquetes. A insolência naquela sala de comando era como um choque no ar estático. Espectro, porém, simplesmente ergueu a mão em um gesto calmo e definitivo, acalmando-os. Seus olhos nunca deixaram os do jovem.
Sem dizer uma palavra, ele se inclinou, abriu uma gaveta da mesa e tirou de dentro um pequeno saco de couro, que emitiu um som pesado e metálico ao ser colocado sobre a madeira polida. O som era inconfundível para qualquer ouvido treinado: o tilintar de muitas moedas de ouro.
– A República tem necessidade de habilidades especiais – disse Espectro, sua voz plana, sem emoção, como se estivesse relatando o clima. – E tem recursos. Muitos recursos. Venha para o Mocambo de Tatu. Faça artefatos mágicos para nós. Seu talento será pago. Generosamente.
O desdém no rosto do artesão vacilou. Seus olhos foram puxados magneticamente para o saco. Hesitante, ele deu um passo à frente, pegou o saco e o abriu. O brilho âmbar e opulento do ouro refletiu em seus olhos. Ele tirou uma moeda, pesando-a na mão, examinando o cunho. Eram dobrões. Moedas de ouro maciço, cada uma valendo vinte mil réis. Uma fortuna para um artesão. Seu corpo inteiro tremeu, não de medo agora, mas de uma comoção avassaladora. Ele nunca tinha segurado tanto valor em sua vida.
Espectro nem esperou por uma resposta verbal. Já tinha visto a decisão nos olhos do homem, na forma como seus dedos se fecharam involuntariamente ao redor da moeda.
– Sua primeira tarefa – continuou Espectro, virando-se para pegar uma luneta de visão padrão da Igreja que estava sobre a mesa, – será adaptar e melhorar estas. Quero lunetas de visão estáveis, duráveis, que possam ser acopladas com precisão aos nossos rifles de precisão, como a do rifle da Sussurro. – Ele colocou a luneta de volta com um clique. – Eu mesmo supervisei tentativas de adaptação, mas o trabalho sempre fica aquém. A qualidade do encaixe, a calibração dos suportes… o artesão que servia à Igreja, fez um trabalho superior. Quero esse padrão. Em massa.
O jovem artesão engoliu em seco, o som audível no silêncio da sala. O saco de moedas parecia queimar em sua mão.
– Claro, senhor Comandante – a voz saiu rouca, toda a arrogência anterior substituída por um respeito temeroso e excitado. – Farei o melhor trabalho da minha vida. Você terá suas lunetas.
– Bom. Pedro, providencie sua realocação e segurança. – Espectro fez um gesto de despedida.
Assim que o artesão, ainda atordoado, foi conduzido para fora, Pedro permaneceu na porta.
– Há mais uma coisa, senhor. Tem um grupo… um grupo de civis pedindo para falar com o senhor comandante. Insistem.
– Um grupo? Que tipo de grupo? – perguntou Espectro, sua impassibilidade testada pela curiosidade.
– É… uma trupe de teatro, senhor. Itinerante. Dizem que estão na cidade há algumas semanas.
Espectro precisou de um esforço consciente para manter sua expressão completamente neutra. Um tremor minúsculo no músculo da mandíbula foi a única concessão. “Um grupo de teatro. Em meio a uma ocupação militar. Curioso.”
– Está bem. Deixe-os entrar.
A sala encheu-se com um turbilhão de cores, tecidos e um cheiro distinto de maquiagem envelhecida, poeira de estrada e uma ânsia palpável. Eram cerca de oito pessoas, homens e mulheres de idades variadas, com roupas remendadas mas com um certo estilo desbotado. À frente deles, uma mulher ruiva, talvez na casa dos quarenta, com olhos verdes vívidos e uma postura que misturava cansaço e dignidade. Ela fez uma pequena reverência, não subserviente, mas respeitosa.
– Boa tarde, Senhor Comandante. Meu nome é Rosa. Sou a líder da Trupe Teatral Itinerante ‘Bela Manhã’. Gostaríamos, humildemente, de pedir um favor a Vossa Excelência.
Espectro a observou atentamente. “Hmmm… que raro. Uma mulher branca, claramente livre, demonstrando respeito formal por um comandante negro. O mundo está mesmo virado de cabeça para baixo.”
– Pode falar, Senhora Rosa.
Ela respirou fundo, como se ensaiando mentalmente seu discurso.
– Nós… ouvimos falar da Cidade da República. De Tatu. Dizem que lá as pessoas valorizam o conhecimento. Que leem livros, apreciam música, debatem ideias… – Seus olhos brilharam com um fervor súbito. – Gostaríamos de ir até lá. Para fazer nossas apresentações. Temos peças, comédias, dramas… histórias que falam do povo. Tenho certeza de que seríamos apreciados. Precisamos de uma autorização segura para viajar com suas tropas de suprimento.
Espectro não riu alto, mas um som baixo, quase um suspiro divertido, escapou de seus lábios. A ideia era tão absurda quanto fascinante. Teatro. Ele sabia, de forma abstrata, o que era. Um entretenimento para ricos e nobres em salões fechados. Na economia arrasada de Pernambuco, viver disso devia ser um ato de pura teimosia. O que significava que eles deviam ser bons. Muito bons.
Ele pessoalmente não via valor tático naquilo. Mas sua mente, treinada para ver conexões, lembrou-se instantaneamente de Quixotina. Sua paixão por histórias, por narrativas grandiosas. E de Carlos… Carlos, que em momentos raros de descontração, mencionava coisas chamadas “filmes”, narrativas visuais que, na descrição, soavam como um teatro incrivelmente avançado.
– Admiro sua coragem, Rosa. E sua fé na cultura em tempos como estes – disse Espectro, sua voz ganhando um tom mais pensativo. – A República valoriza todas as formas de expressão que elevem o espírito humano. – Ele pegou uma nova folha de papel. – Vocês terão autorização para acompanhar o próximo comboio de suprimentos que vai para a República. E, para garantir que sejam bem recebidos… – ele começou a escrever com sua caligrafia firme e angular, – escreverei uma carta de recomendação pessoal para o Presidente Carlos. Ele, tenho certeza, ficará muito interessado no trabalho de sua trupe.
O rosto de Rosa iluminou-se como se o sol tivesse irrompido na sala sombria. Os membros da trupe atrás dela sussurraram entre si, aliviados e eufóricos.
– Oh, Senhor Comandante! Muito obrigada! Não sabe o que isso significa para nós!
– Apenas façam bom uso da oportunidade – disse Espectro, selando a carta com cera derretida de uma vela próxima. – A República pode precisar de boas histórias tanto quanto precisa de bons soldados. Agora, se me dão licença.
Eles saíram, deixando para trás um rastro de esperança renovada e um cheio levemente mais doce no ar. Espectro ficou sozinho novamente, olhando para a porta fechada. De artesãos mágicos a trupes de teatro. A guerra, afinal, era também sobre reconstruir um mundo. E talvez, apenas talvez, valesse a pena reconstruir um mundo que tivesse espaço para um pouco mais do que apenas aço e pólvora.

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