Capítulo 166 - Reunião Sobre o Futuro da República I
A luz da manhã entrava pelas janelas do escritório de Carlos, iluminando o torvelinho de partículas de poeira que dançavam no ar quente e pesado. Em suas mãos, o exemplar semanal do Jornal Jabuticaba emitia o odor característico da tinta de carvão e do papel áspero. Seus olhos percorreram as notícias até pousarem, mais uma vez, no nome oficial da cidade: “Mocambo do Tatu”.
Um leve desconforto, familiar há semanas, apertou seu peito.
“Tatu”, o pensamento surgiu, ácido e claro. “Que nome horrível. Soa a coisa pequena, rasteira, que se esconde. E nós não somos mais isso.” Seus olhos percorreram o texto abaixo, que narrava mais chegadas de famílias do interior, atraídas pelos anúncios de trabalho e livres graças às descobertas de Tassi com a gema da grama. “Graças à propaganda do jornal e às descobertas da Tassi… o fluxo não para. Pessoas de todas as cores, saindo dos engenhos, das roças, das senzalas. A população já beira os trinta mil.”
Ele fez uma pausa mental, comparando. “Isso supera em muito várias cidades coloniais. Ouro Branco tem vinte e cinco mil, e nossos agentes dizem que milhares deles só esperam uma chance para vir para cá. Estamos nos tornando uma cidade, não um refúgio.”
Seu dedo bateu no jornal, naquele nome que o incomodava. “Mas não é só o nome que está defasado. Precisamos de símbolos. Uma identidade. Essa bandeira verde simples que hasteamos… é só um pedaço de pano. Precisamos de algo que una todo mundo. Brancos, negros, indígenas, mestiços… todos que estão construindo isso conosco. Precisamos criar patriotismo. Uma sensação real de pertencimento, de que isso aqui é nosso, de todos nós, não apenas ex-escravos. Precisamos de algo que una todos.”
Um suspiro longo e carregado escapou de seus lábios. Ele deixou o jornal de lado, o papel fazendo um ruído seco sobre a mesa. Em vez disso, sua mão foi até a gaveta superior, onde guardava a correspondência mais sensível. O papel que tirou de lá era diferente – mais fino, de linho, com um selo de cera quebrado. A carta da Papisa.
Ao segurá-la, um peso diferente, mais complexo, tomou conta dele. “Ela realmente escolheu nosso lado. Arriscou tudo. E ainda estou processando o segredo do Francisco…” A imagem do homem reservado, revelando sua origem violenta, surgiu em sua mente. “Já pedi à tribo dele, por meio dele, que tentem invocar um livro sobre química avançada. É uma área que mal domino. Precisamos entender melhor os fundamentos se quisermos ir além da pólvora sem fumaça.”
Seu olhar ficou sombrio. “Mas destruíram o laboratório dela. Tudo o que ela construiu em segredo, reduzido a cinzas e vidro quebrado por aquele porco do Orsini.” Uma onda de raiva impotente o percorreu. “Queria ajudá-la de alguma forma. Mas um ataque frontal à Cidade Sagrada agora… iria precisar que eu movesse todo o exército para cá.”
No entanto, a outra parte de sua mente, a estratégica, já trabalhava em um paradoxo. “Apesar de que… precisaremos atacá-la de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde. E com a Paula por dentro, com seus aliados… talvez não precise ser um cerco monumental. Os ‘Guerreiros Divinos’ da Igreja devem ser formidáveis, mas quantos são leais a ela, e não a Henrique ou a Orsini?”
Foi então que as peças começaram a se encaixar. De repente, não como um clarão, mas como uma série de engrenagens encontrando seu lugar. Navios. Minério. Canhões. Um ataque não do exterior, mas a partir do coração.
Sem dizer uma palavra, Carlos puxou uma folha de papel em branco e uma caneta-tinteiro. Seus movimentos eram rápidos, quase febris. Linhas foram traçadas – um esboço grosseiro de um navio, com plataformas laterais. Outro de um forte costeiro visto do mar. Diagramas de ângulos de tiro, cálculos rudimentares de distância. Ele não era um engenheiro naval, mas tinha memórias, imagens de livros, documentários. A ideia tomava forma concreta no papel, manchado de tinta e suor dos dedos.
Horas se passaram. A luz da manhã deu lugar ao sol alto do meio-dia. Quando finalmente ergueu a cabeça, os músculos do pescoço estavam rígidos, mas seus olhos brilhavam com uma determinação focada.
– Márcia! – chamou, sua voz soando um pouco rouca pelo silêncio prolongado.
Sua secretária apareceu na porta quase imediatamente.
– Sim, presidente?
– Marque uma reunião com todos os ministros. Para esta tarde, depois do almoço. É urgente e confidencial.
– Será feito – ela assentiu, anotando em sua prancheta antes de sair.
Carlos então se virou lentamente em sua cadeira. O ar no canto mais escuro do gabinete, onde a luz da janela não chegava completamente, parecia mais denso, mais frio. Era uma sensação sutil, um arrepio na nuca, uma sombra que se estendia um centímetro a mais do que deveria.
– Sombra – disse Carlos, direcionando-se àquele canto, ele havia aprendido a sentir pelo menos um pouco a presença da Sombra. – Por favor, traga a Paula aqui. Em segredo absoluto. Diga a ela… que é sobre o futuro da Cidade Sagrada.
Nada respondeu. Nada se moveu. Mas a sensação de presença se dissipou, como uma névoa sugada por uma fresta. Carlos sabia que a mensagem havia sido recebida.
***
A tarde na sala de reuniões da prefeitura era abafada, apesar das janelas abertas. O ar carregava o cheiro do suor de reuniões anteriores, misturado ao aroma do chá recém-feito que uma assistente servia. À volta da longa mesa de madeira maciça, estavam todos os ministros. O clima era de expectativa tensa. E, em uma cadeira ligeiramente afastada, mas ainda à mesa, sentava-se Paula. Vestia um manto simples de viagem sobre seus hábitos, e seu rosto estava pálido sob a fadiga, mas seus olhos, por trás dos óculos de lentes finas, eram agudos como os de um falcão.
Foi ela quem quebrou o silêncio pesado, sua voz contida mas carregada de urgência.
– Carlos, da próxima vez que for me convocar, espero um aviso com mais antecedência. Orsini está com os sentidos à flor da pele. Tive que fingir uma enxaqueca repentina e me trancar em meus aposentos para oração e repouso. Não sei por quanto tempo essa desculpa cola. Espero, sinceramente, que valha a pena. Pelo que eu entendi, seu foco estratégico está em Areia Branca. Não vejo como poderia despachar tropas para um ataque à Cidade Sagrada agora.
Carlos inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados na mesa, um sorriso confiante nos lábios.
– É justamente sobre isso. Vamos tomar a Cidade Sagrada. Mas não vamos precisar do exército para isso. Pelo menos, não do grosso dele.
As sobrancelhas de Paula se ergueram. Os ministros trocaram olhares intrigados.
Carlos começou a expor seu plano, sua voz clara e metódica. Uma pequena equipe de elite. Infiltração. Sombra, com seus poderes de escuridão e movimento furtivo. Tassi, com sua nova arma, e seu incrível poder poderiam causar danos enormes. E o apoio crucial dos aliados de Paula dentro da cidade – clérigos, guardas, servidores fiéis a ela.
– Bem, finalmente! – Tassi exclamou, seus olhos castanhos brilhando de animação. Ela esticou os braços, como se soltando de uma postura incômoda. – Ando com saudade de algo mais emocionante do que debater a rotação de culturas de inhame. E aquele presente seu… – ela tocou na revólver especial que Carlos lhe dera, – está ansioso para ser usado, não é mesmo?
Paula não parecia tão eufórica. Ela franziu a testa, os dedos tamborilando no braço da cadeira.
– Talvez funcione. A logística é plausível. Mas por que a pressa? – ela perguntou, olhando fixamente para Carlos. – Podemos esperar. Consolide Areia Branca primeiro. Enquanto isso, eu trabalho nos bastidores, construindo contatos alternativos para escoar sua produção, canais fora da rede da Igreja. A pressa é inimiga da perfeição.
– Porque ferro, Paula – respondeu Carlos, seu tom tornando-se grave. – Tomar a Cidade Sagrada não é só um golpe político. É logístico. Significa acesso potencial a mais minério, a mais rotas comerciais, a mais aço.
Aqua, a Ministra da Economia, com olheiras profundas sob os olhos, interveio com uma voz que parecia arrastar o peso dos orçamentos.
– Mas de que adianta o acesso se não temos fornecedores? Os grandes vendedores de minério têm contratos com a Igreja ou com a Coroa. Mesmo que cheguemos a Gemas Gerais, não vão vender para nós. E nossos contatos na Europa são… praticamente inexistentes.
– Vocês se focam demais na Europa – contra-atacou Carlos, agitando a mão em um gesto de desdém. – O Califado de Marrocos está ali, logo ao sul de Portugal. Aposto que adorariam comprar nosso aço de qualidade. Para armas, para ferramentas. Em troca de minério de ferro. Seria um parceiro natural, inimigo de nossos inimigos.
Fernanda, a Ministra do Trabalho, ergueu as mãos em um gesto de frustração.
– Presidente, mesmo que essa negociação fosse viável – e é um grande ‘se’ – levaria meses. Temos semanas, não meses!
– Eu sei, Fernanda. Não é assim que resolveremos a crise imediata – Carlos admitiu, acalmando o tom. Então, virou-se para Nia, a Ministra da Indústria, com as mãos com suas velhas luvas e um olhar sempre prático. – Nia. Preciso que você faça mais canhões. Muito mais. Use o aço que temos em estoque, priorize isso acima de tudo.
Nia anotou algo em sua prancheta, sem questionar.
– Quantos?
– O máximo que sua oficina conseguir produzir sem comprometer a qualidade. – Ele fez uma pausa, deixando a informação seguinte pairar no ar. – Pelo que nossos espiões relatam, há uma frota de navios cargueiros em Areia Branca. Navios cheios de minério de ferro de alta qualidade. Parados. Esperando apenas… por alguém vir buscá-los.
A sala ficou em silêncio por um instante, enquanto a implicação daquelas palavras afundava. Então, Guaíra, o Ministro da Construção Civil, um homem indígena de cabelos pretos e expressão normalmente serena, foi o primeiro a conectar os pontos. Seus olhos se arregalaram.
– Você… você quer tomar Santa Maria primeiro… para usar os navios deles? Colocar nossos canhões a bordo e navegar direto para Areia Branca como se fossem a frota da Igreja?
Paula levou a mão ao queixo, sua expressão de ceticismo dando lugar a uma calculadora admiração.
– Há muitos navios no porto de Santa Maria. De guerra para defesa de piratas, mercantes… mas esses canhões… são mesmo tão decisivos? Funcionariam em um navio em movimento?
– Você leu a edição especial do jornal, não leu? – Carlos perguntou, um sorriso voltando a seu rosto. – Ouro Branco caiu em poucos dias, e o forte foi reduzido a entulho antes de nossa infantaria se aproximar. No meu mundo, navios e canhões formaram impérios. A combinação é devastadora. Mas depende do elemento surpresa. Tomamos Santa Maria rapidamente, adaptamos os navios mais rápidos com plataformas para os canhões, e partimos para Areia Branca antes que a notícia se espalhe por meios convencionais.
Ele fez uma pausa, sua voz baixando.
– Caetano Velho, pelo que sabemos, é inteligente. Astuto. Quando souber que Santa Maria caiu, ele esperará um ataque por terra, vindo de Ouro Branco. Ou talvez um cerco marítimo demorado. Ele não vai esperar que o golpe venha do mar, e venha com uma arma que ele não compreende totalmente.
Da penumbra ao lado da porta, uma voz suave e um tanto metálica completou o raciocínio:
– E quando o exército terrestre de Espectro avançar sobre Areia Branca, os navios poderão fornecer suporte de fogo da baía. Bombardear posições costeiras, confundir as defesas. – Sombra materializou-se como se sempre estivesse ali, seus lábios finos curvados em um raro e quase imperceptível sorriso de satisfação tática.
– Não só isso! – Davi, o jovem e entusiasta Ministro da Química, pulou em sua cadeira. – Podemos estabelecer um bloqueio! Estrangular o comércio dele por completo!
A voz calma de Paula cortou a animação dele como uma lâmina.
– Carlos, pelo que entendi, no seu mundo não há magia. E vocês, nascidos em terra, talvez não aprecie totalmente a dinâmica naval aqui. – Ela olhou para cada um ao redor da mesa. – Os navios da Igreja, e muitos mercantes importantes, carregam Adeptos especializados. Vento, para propulsão e manobras. Fogo e Gelo, para ataques a distância. Água, para sabotagem ou defesa. Confio no poder de seus canhões, mas um bloqueio prolongado nos colocaria em duelo constante com esses poderes. É um risco enorme. Mas… – ela concedeu, – um ataque surpresa, rápido, visando especificamente os cargueiros de minério e depois partindo? Isso é possível. Viável, até.
Nia acenou em concordância ao lado de Paula.
– A Senhora Papisa tem razão. E o minério desses navios nos daria um fôlego de meses. Tempo para estabelecermos uma fonte mais estável através de Santa Maria. Não faria sentido gastar todo esse minério precioso só para manter navios-canhões em um bloqueio incerto. Mas usar parte do aço para fabricar mais canhões e munições para o ataque terrestre a Areia Branca, coordenado com a frota? Isso é estratégia pura.
– Excelente – Carlos resumiu, batendo a palma da mão levemente na mesa. – Então temos um plano de ação. Nia, priorize a produção de canhões. Sombra, Paula, Tassi – vocês três trabalhem nos detalhes da tomada de Santa Maria. Infiltração, pontos de apoio, neutralização de chaves. Usem granadas, explosivos, qualquer recurso que temos. – Ele fez uma pausa e olhou para Paula. – Aliás, Vossa Santidade, pode se retirar se desejar. Agora discutiremos assuntos internos da República.
Sombra moveu-se silenciosamente para ficar atrás da cadeira de Paula, um gesto claro. Mas Paula não se moveu. Em vez disso, ela apoiou os braços na mesa, seus dedos entrelaçados.
– Ainda não – disse ela, sua voz firme e clara. – Vocês todos estão planejando tomar minha cidade, decidindo o futuro do meu povo. Onde eu fico nisso tudo?

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