Capítulo 168 - Trupe Bela Manhã II
As semanas que se seguiram à chegada da trupe foram um turbilhão de atividade em Tatu, marcadas por um ritmo frenético que parecia pulsar nas próprias fundações da cidade. O ar, sempre impregnado do leve odor químico das fábricas, agora também carregava, em certos cantos, o aroma de madeira serrada, tinta fresca e a poeira fina do concreto que secava.
Nos campos de batalha distantes, a estratégia republicana se desenrolava com uma precisão glacial. O controle da região ao redor de Ouro Branco foi consolidado, engolho por engolho, fazenda por fazenda. A exceção óbvia e ameaçadora era o Castelo Garcia, um caroço duro a ser triturado, mas Espectro não se moveria antes de garantir suas costas.
A Papisa Paula se preparava para o ataque a sua própria cidade enquanto Nia fazia mais canhões.
Carlos acompanhava os relatórios em seu gabinete, o peso das decisões marcando olheiras mais profundas a cada manhã. “Um ataque direto a Areia Branca agora seria um risco colossal”, ele refletia, traçando linhas no mapa. “Se os senhores de engenho remanescentes, aqueles que ainda não se renderam, resolvessem se unir e cortar nossas linhas de suprimento… o exército avançaria direto para uma armadilha. Fome e falta de munição são generais mais cruéis que qualquer adepto. Temos que assegurar cada quilômetro atrás de nós primeiro.”
Para aliviar a tensão constante, ele mergulhou em dois projetos. O primeiro era ajudar a Trupe Bela Manhã a dar vida a Quixotina de La Mancha, revisando roteiros, sugerindo cortes, maravilhando-se com a criatividade de Rosa e seus atores. O segundo projeto ocupava as madrugadas silenciosas: esboços de novas armas. “Dominar Pernambuco é só o primeiro passo”, ele pensava, os dedos manchados de carvão sobre papéis cheios de diagramas de mecanismos de disparo, formas de projéteis. “Depois virá a Igreja, com sua influência continental. Outras capitanias, com exércitos maiores. Precisamos estar sempre um passo à frente.” Mas as preocupações eram um peso constante, uma pilha de papéis invisível que ameaçava afundá-lo.
Mas hoje era domingo. Dia de folga. Dia de estreia.
Carlos estava em casa, lutando com os cadarços intricados de seus sapatos de couro macio, quando batidas animadas e rítmicas ecoaram na porta.
Ao abri-la, a cena o fez parar. Quixotina estava na soleira, e era uma visão deslumbrante. Seus longos cabelos loiros, de um tom como palha madura ao sol, estavam presos em tranças elaboradas que coroavam sua cabeça, entrelaçadas com fios de seda vermelha. Seu vestido era de um veludo escarlate profundo, um corte que combinava a estrutura portuguesa com uma leveza nos drapeados que falava de influências tropicais. No pescoço, seu colar de ouro com a gema vermelha da Força pulsava suavemente, como um coração de brasa. Seus olhos, de um rubi vibrante e inteligente, brilhavam com uma animação contida. Na mão, segurava a de Dulcinéia.
A menina era um raio de sol. Seus cachos loiros mais claros, quase dourados, escapavam de um ojá de algodão vermelho e branco amarrado com estilo na cabeça – um adereço claramente de inspiração africana, adotado e adaptado pela moda local. Seu vestido era simples, de linho cor de laranja, mas o corte era solto e confortável, permitindo correr e brincar. Seus olhos, herdados da mãe, tinham um vermelho mais suave, como um âmbar melado.
– Tio Carlos, anda! A peça não vai esperar! – Dulcinéia puxou a mão da mãe, impaciente.
Carlos sorriu, aliviando a tensão do momento. Ele deu uma última olhada em si mesmo. Vestia uma casaquinha de linho aberta na frente, de um azul índigo intenso, sobre uma camisa de algodão branco com bordados geométricos nos punhos e gola – um padrão que homenageava tradições têxteis africanas. As calças eram largas, de um tecido leve, e ele completava o visual com um cordão de couro trançado no pescoço, pendurado um pequeno símbolo da República. A moda masculina de Tatu era uma fusão orgânica: a estrutura básica portuguesa inundada por cores vivas, padrões ousados, cortes mais soltos e adornos inspirados nas culturas africanas e indígenas que formavam o povo da cidade. Ele se sentia vestido pela própria identidade da República. Apesar de ainda não estar acostumado com esse estilo de roupas masculinas que é bem diferente das do seu mundo, ele se sentia como um pavão.
– Prontíssimo, minhas rainhas – disse, fazendo uma reverência que fez Dulcinéia rir.
Ao saírem, a luz da tarde dourava a cidade adormecida. Era domingo, o burburinho industrial silenciado, deixando espaço para os sons da vida: risos distantes, o chilrear de pássaros nos ipês. E os ipês… Carlos sentiu um nó de orgulho no peito. As árvores que ele insistira em plantar ao longo da avenida principal estavam em plena explosão roxa. Um túnel de flores lilases contra o céu, com um tapete de pétalas no chão de concreto.
Quixotina parou, seu olhar percorrendo a alameda florida. Um sorriso maroto surgiu em seus lábios.
– Então essa foi a grande batalha – ela brincou, virando-se para Carlos. – Lembro-me do conselho. Você, teimoso, falando em ‘beleza urbana’ e ‘pouca manutenção’. Eu só queria mangueiras. A fruta é uma dádiva.
– Ah, a fruta é uma dádiva, concordo – Carlos retrucou, os olhos também no espetáculo lilás. – Mas a mangueira é uma diva caprichosa. Folhas minúsculas que entopem tudo, flores que caem como uma chuva grudenta, e os frutos… os frutos maduros são um banquete. Os podres, um festival para insetos. Imagina uma cidade com centenas delas? Seria um pesadelo. Os ipês… são resilientes. Dão esta beleza e pedem pouco em troca.
– Eu quero ver os amarelos florescerem depois, tio! – disse Dulcinéia, correndo para tentar pegar uma pétala ao vento.
Continuaram, mas à medida que se aproximavam do novo distrito cultural, o cenário mudou. As ruas tranquilas começaram a se encher de um fluxo constante de gente. Famílias, casais, grupos de amigos, todos em sua melhor roupa de domingo – um desfile vibrante da moda de Tatu: mulheres com turbantes coloridos e panos da costa sobre vestidos, homens com casaquinhas abertas sobre camisas estampadas, crianças com roupas cheias de vida. Era uma afirmação visual de pertencimento.
Quixotina observou, seus olhos rubros refletindo a cena multicolorida.
– O jornal… funcionou mesmo – ela comentou em voz baixa para Carlos. – Na vida que eu tinha, tanta gente comum querendo ver uma peça seria impensável. O povo tinha seu lugar, e não era no caminho do teatro.
– É porque, naquela vida, o teatro não era para o povo – Carlos respondeu, suavemente. – Era um luxo de uma casta. E mesmo se as portas estivessem abertas, o preço de um ingresso muitas vezes era o preço de uma semana de comida. A escolha é cruel, mas óbvia.
Quixotina ficou em silêncio, observando uma mãe jovem ajustando o ojá de sua filha antes de entrarem na fila.
– Sim… – ela admitiu, a voz um fio. – Eu vivia em uma bolha. Eu não via. Ou não queria ver.
– Você era uma criança numa gaiola de ouro com regras de aço – disse Carlos, sua voz era compreensiva, sem julgamento. – Sobreviver dentro dela já era uma batalha diária.
O Teatro Alvorecer surgiu à frente, uma estrutura elegante e moderna de concreto, com grandes janelas e uma marquise de madeira sustentada por colunas simples. A fila serpenteava pela calçada. Guiados por um assistente, eles entraram por uma porta lateral e subiram até o camarote principal, que dividiam com outros membros do governo. O ar dentro era fresco, circulado por aberturas estratégicas, e carregava o cheiro da madeira nova do cenário e da expectativa palpável da plateia.
Depois que todos entraram, as luzes se apagaram. Um silêncio denso caiu. Então, com um sussurro quase mágico, várias esferas de luz suave e branca flutuaram para o alto do palco, banhando o cenário em uma claridade perfeita. Carlos sentiu um arrepio de prazer.
“Adeptos da Luz”, ele pensou, maravilhado. “Usando magia para isso. Para criar atmosfera, emoção… é genial.”
A história ganhou vida. Kátia, como Quixotina, era cativante e trágica. Sua loucura tinha dignidade, sua tristeza, profundidade. Toco, como Sancho, era o contraponto terrenal e hilário, sua lealdade tola e sábia arrancando risadas sinceras da plateia. A adaptação de Rosa era ágil, misturando o texto clássico com situações locais – os moinhos de vento viraram monstruosos engenhos de açúcar, os bandidos, capitães-do-mato arrogantes. O público reagia com uma entrega total: gargalhadas coletivas nos momentos de humor, suspiros comovidos nos de drama.
Carlos observava aquela conexão mágica entre palco e plateia. “Eles estão amando. Estão se vendo, talvez, na loucura nobre de Quixotina ou no bom senso de Sancho”. Uma ideia iluminou sua mente. “Se adoraram a comédia shakespeariana-cervantina… o Auto da Compadecida vai ser um furacão. O humor nordestino, a sátira social… vai criar raízes aqui. Depois tenho que falar com a trupe sobre essa obra.”
O espetáculo chegou ao fim com a cena da morte de Quixotina, recobra da sanidade e despedida melancólica. Quando as cortinas se fecharam, uma onda de aplausos ensurdecedores e gritos de “outro!” tomou conta do teatro.
Ao seu lado, no camarote semi-escuro, Carlos viu Quixotina limpar uma lágrima teimosa que escorria por sua face pálida, iluminada apenas pela luz fraca que vinha do palco. Dulcinéia, após resistir bravamente, dormia profundamente, aninhada contra o veludo vermelho do vestido da mãe.
– Esse… – a voz de Quixotina saiu rouca, emocionada. – Esse presente foi seu, Carlos. Eu… não tenho palavras. Li este livro uma vez, apenas. Ele zombava do que eu acreditava, e de uma sanidade que me aterrorizava. Ver isso hoje… – ela abanou a cabeça, sem conseguir terminar.
– Não era um presente, era uma divida de gratidão – Carlos respondeu, suavemente. – E eu me senti tão perdido. O que se dá a uma cavaleira que já tem a melhor das espadas? O que se oferece a alguém que, em outra vida, poderia ter qualquer objeto mundano? Fiquei rodando em círculos.
Ela olhou para ele, e pela primeira vez, Carlos viu uma vulnerabilidade desarmante em seus olhos de rubi, sem a armadura da bravata ou da ironia.
– Eu posso ser uma cavaleira, Carlos, mas também sou apenas… uma mulher. Qualquer gesto seu teria valido. Eu é que sou ruim com isso. Com sentimentos. Com agradecimentos. Sou impulsiva e fechada. – Ela respirou fundo, como se fosse para uma carga. – Por isso, para tentar ser melhor… gostaria de lhe convidar para jantar. Em casa. Hoje. Se você quiser.
O convite foi feito com uma solenidade quase medieval, mas os olhos dela estavam cheios de uma ansiedade genuína. O coração de Carlos deu um salto. O susto inicial deu lugar a um calor que lhe aqueceu o peito.
– Aceito. Será uma honra.
***
Nos bastidores, a euforia era física, quase barulhenta. Kátia desabou no palco assim que a cortina tocou o chão, o fôlego saindo dela em um suspiro longo. O vestido de Quixotina, uma colcha de retalhos gloriosa, formava uma poça ao seu redor.
Toco, já sem o enchimento que simulava sua barriga, ajoelhou-se, oferecendo um pano de rosto.
– Nunca… nunca senti uma energia assim vindo da plateia – ele disse, maravilhado. – Eles entraram na história conosco. Além disso nunca achei que tanta gente iria querer ver uma peça de teatro. Quem diria?
Rosa se aproximou como uma tempestade de felicidade, carregando uma garrafa de água e copos.
– Quem diria? Eu direi! – ela anunciou, com um sorriso que iluminava o canto escuro do palco. – Foi isso que fez a diferença. – Ela sacudiu um exemplar do Jornal Jabuticaba. – Todos os dias, nas esquinas: “Notícia do front! E estreia exclusiva no Alvorecer: A Cavaleira da Triste Figura, pela aclamada Trupe Bela Manhã!” Aclamação a gente construiu hoje, mas o anúncio… o anúncio plantou a semente. Além de que, você já deve ter visto que o povo daqui ganha bem de verdade, a ponto de poder gastar em frivolidades.
Kátia sentou-se, bebendo água, um sorriso cansado mas vitorioso no rosto.
– A “aclamada” trupe que um dia trocava A Megera Domada por um prato de feijão e um canto no feno.
O iluminador, um homem mais velho com mãos calejadas e cheirando a óleo de lamparina e pó de mana, juntou-se ao grupo, abanando o rosto com um chapéu.
– Minha gente… a bilheteria. Nunca vi nada parecido. E o teatro? Lotado! Até em pé nos fundos. Esse jornal… é uma magia diferente. Uma magia que enche casas.
Rosa olhou para sua família de artistas, suados, com a maquiagem correndo, mas com os olhos limpos de uma alegria pura e rara. Ela ergueu seu copo improvisado.
– E sabem a quem devemos agradecer, além de nós mesmos? À Matilda, ela que está por trás do jornal. Quem diria que ela saiu de Areia Branca e veio para cá, deveríamos agradecer ela. Mas isso é para amanhã! – ela exclamou, a voz ecoando no palco vazio. – Hoje, a noite é nossa! Vamos comemorar! A cidade espera!

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