Capítulo 171 - Crise no castelo
O ar na grande sala de jantar do Castelo Garcia estava carregado de um silêncio opressivo, tão denso que parecia abafar até o crepitar das labaredas na lareira monumental. A luz do fim da tarde, outrora um espetáculo de cores através dos vitrais, agora parecia fraca e suja, projetando sombras longas e distorcidas sobre a mesa de jacarandá. O cheiro residual do jantar – carne assada, molho de vinho, pão quente – já havia se dissipado, substituído pelo odor frio da pedra úmida, da cera queimada e de algo mais agudo: o fedor do pânico contido.
No centro da imensa mesa, longe dos pratos vazios e das taças de cristal, um objeto profano repousava como uma cobra adormecida: um exemplar antigo do Jornal Jabuticaba. Suas páginas, ásperas e mal cheirosas de tinta barata, estavam abertas na manchete principal, cujas letras negras pareciam gritar: OURO BRANCO CONQUISTADA, ALBUQUERQUE MORTO.
Sentada rigidamente na cadeira da cabeceira, que por direito de sangue e casamento agora era sua, estava a Baronesa Inês de ou mais conhecida como Baronesa Sangue e Garcia. Seus dedos repousavam imóveis ao lado do jornal, as unhas pintadas de vermelho-sangue riscando levemente o veludo da cadeira. Seus olhos, da cor de um âmbar escuro e perigoso, não se desgrudavam das palavras, relendo cada sílaba com uma intensidade que faria tremer um homem comum. O colar pesado com a gema escarlate parecia pesar uma tonelada sobre seu peito, subindo e descendo com uma respiração controlada, mas visivelmente acelerada.
O texto era uma faca, torcida com prazer evidente:
“A vitória republicana foi consumada em meros dias. Na mesma semana em que o senhor Albuquerque e sua outrora ‘poderosa’ milícia pagaram o preço final pela arrogância demonstrada no riacho, sua cidade caiu. Após reduzir a pó o forte principal de Ouro Branco com demonstração de força avassaladora, a ocupação encontrou resistência mínima. Esta vitória confirma, de forma cabal, uma verdade que muitos teimam em ignorar: os senhores de engenho, em sua suposta glória, não passam de tigres de papel. Despedaçam-se com a água, consomem-se ao menor fogo, voam ao sabor da mais leve brisa. Agora, toda a capitania conhecerá o verdadeiro poder da República! A batalha, em sua essência, foi bem simples…”
Era mais do que um relato. Era um escárnio. Uma declaração de guerra não só aos corpos, mas ao próprio conceito que sustentava seus mundos. Inês sentiu o mesmo gosto metálico e doce do sangue que tantas vezes sentira em sua boca, mas agora era o gosto de sua própria raiva impotente.
O primeiro a romper o silêncio foi Garcia, sentado à sua direita. O mesmo Garcia que, em noites anteriores, ria com ela sobre “modelos frágeis” e “expressões sublimes de agonia”. Seu rosto, antes rubro e confiante, estava agora pálido sob a barba grisalha. Ele não bateu o punho, mas sua mão fechada tremia levemente sobre a mesa.
– Mas que desgraça absoluta! – sua voz saiu rouca, destilando uma fúria que não encontrava alvo. – Depois que aquele tolo do Albuquerque, por um golpe de sorte, limpou suas terras daquela praga quilombola, nós mobilizamos tudo! Nossos melhores homens, nosso ouro… tudo para esmagar o resto dos mocambos enquanto ele se recuperava! E agora? Agora ele não só perdeu tudo de volta, como foi abatido como um cão! O que os relatórios dizem? Que seus miolos estavam pelo chão.
Peixoto, à esquerda de Inês, parecia ter encolhido em sua cadeira. O intelectual, o calculista, o homem do monóculo e dos tratados de economia do castigo, parecia uma sombra de si mesmo. Ele olhava para o jornal não com raiva, mas com um horror racional, como um matemático diante de uma equação que previa sua própria ruína.
– Sorte nossa – murmurou, mais para si mesmo do que para os outros, ajustando o monóculo num gesto nervoso – que nossos batedores descobriram a derrota de Albuquerque. E com isso conseguimos rechaçar nossa milícia a tempo. Eles estavam quase no território do quilombo… teriam sido esmagados entre dois martelos.
– SORTE?! – O grito de Inês ecoou nas paredes de pedra, um som agudo e carregado de um veneno que fez até Garcia estremecer. Ela ergueu os olhos do jornal, e seu olhar era como o do animal encurralado que ela tanto adorava observar: feroz, imprevisível, mortal.
– Você chama isso de sorte, Peixoto? Você lê essa… essa blasfêmia impressa e vê sorte? Eles estão vindo, seu idiota! Engenho após engenho! O meu, nas planícies, e o seu, na serra, estão na lista! E foi seu plano pusilânime que nos colocou nessa! – Ela espetou o ar com o dedo indicador, a unha vermelha como uma gota de sangue. – “Deixemos que Albuquerque se desgaste contra os quilombolas. Colhamos os frutos depois.” Um plano de rato covarde! Não de senhores!
Ela respirou fundo, o corpete apertado parecia sufocá-la. A lembrança daquela noite, neste mesmo salão, quando riram do alerta de Peixoto, agora era um carvão em brasa em sua mente.
– Nós deveríamos ter nos unido a ele! Desde o início! Como eu odeio ter razão só na derrota! Um dia, a mensagem desesperada dele, pedindo a aliança que recusamos… e no dia seguinte, isto! – Ela golpeou o jornal com tanta força que a ponta de seus dedos ficou branca. – E junto, a ‘cortesia’ deles! Um ultimato em papel barato, ‘sugerindo’ rendição! A audácia desses animais!
Peixoto encarou-a, seu rosto pálido. A resignação que mostrara naquela noite anterior havia se transformado em uma lucidez gelada e assustadora.
– E se tivéssemos mandado nossas tropas, Inês? O que acha que seria diferente? – sua voz era baixa, mas cada palavra era clara e cortante como o vidro de seu monóculo. – Em vez de quinhentos corpos em Ouro Branco, teríamos mil corpos em Ouro Branco. Nossos homens, nossos Adeptos caros, moídos junto com os dele. E talvez… – ele fez uma pausa, engolindo seco, – talvez a rendição seja a única matemática que resta. Os que baixaram as armas… viveram. É um dado. Um fato. Podemos negociar a manutenção de parte das terras, dos bens…
– ABAIXAR A CABEÇA PARA ESSA ESCÓRIA?! – O grito de Inês foi um uivo de pura fúria ancestral. Ela levantou-se tão bruscamente que a cadeira tombou para trás com um estrondo que pareceu um tiro no salão silencioso. – NUNCA! Sobre o cadáver de minha linhagem! Sobre os corpos de meus filhos! Nunca!
Garcia, vendo a sanção total se desfazer, tentou inflamar as brasas da bravata. Ergueu-se também, batendo a palma da mão na mesa.
– E não vamos render! Não precisamos! – ele bradou, espalhando os braços como se abraçasse as paredes à sua volta. – Temos o castelo! Temos estoques, poços, mana! Podemos aguentar um cerco de meses! Eles não tomarão estas pedras! Albuquerque tinha uma casa de brinquedo. Nós temos uma fortaleza!
— Tem razão — disse Inês — mesmo que percamos nossos engenhos, nossas família, nosso dinheiro está aqui, podemos recomeçar!
Peixoto soltou um suspiro que vinha das profundezas de seus ossos cansados. Era o mesmo suspiro resignado da noite da aliança, mas agora carregado do peso de um “eu avisei” que não ousava pronunciar.
– E eu ouvi, de fontes que não são panfletos, que as armas deles… – ele começou, sua voz quase um sussurro, – não respeitam pedra. O forte de Ouro Branco era de alvenaria. Dizem que foi desintegrado de uma distância onde nossos atiradores nem mesmo viam o inimigo. ‘Artilharia’, chamam.
– E nós temos poder! – rugiu Garcia, apontando para Peixoto com acusação. – Foi sua ideia, lembra? “Qualidade, não quantidade.” Contratamos os melhores Adeptos! Terra, Gelo, Fogo! Eles podem erguer barreiras, congelar ataques, lançar fogo sobre qualquer um que se aproximar! Nós podemos revidar!
– E não esqueçam de quem somos! – Inês cortou o ar com a mão. A gema escarlate em seu peito brilhou com uma luz interna súbita e sinistra. Uma geada fina e mortal começou a se formar na superfície de sua taça de vinho vazia, estalando o cristal. O ar ao seu redor esfriou vários graus. – Nós três somos herdeiros de sangue puro e gemas puras. Eu não sou uma velha indefesa. Sou uma Baronesa de Sangue. Eles virão, e encontrarão um inverno de dor.
Peixoto olhou para o gelo se espalhando no cristal, para a fúria bestial de Garcia, para o jornal que narrava o destino de um homem tão arrogante quanto eles. Sua racionalidade, seu mundo de cálculos e tratados, desmoronava ante aquele tsunami de emoção bruta.
– A escolha de vocês é insana – disse ele, sua voz finalmente quebrada, mostrando a rachadura do medo. – E depois? Se, por um milagre, sobrevivermos aqui, encurralados? O que faremos? Comprar escravos que não poderemos controlar? Vender açúcar para os ratos? Viveremos como fantasmas em nossa própria fortaleza, até a última migalha! Isto é um suicídio com honra!
– O governador-geral! – bradou Garcia, como um homem se agarrando a um tronco em um rio furioso. – Ele virá! Tem um exército real em Areia Branca! Tropas, canhões, ouro! Ele não permitirá que essa república de pretos se espalhe!
– E quanto tempo levará para esse salvador cavalgar até nós? – perguntou Peixoto, sua voz agora plana, morta. – Semanas? Meses? Temos esse tempo? Os suprimentos de Albuquerque eram maiores que os nossos. E onde ele está agora?
A discussão espiralava, um vórtice de medo, orgulho ferido e bravata desesperada. Era um eco grotesco da conversa confiante que tiveram naquele mesmo salão, quando o maior perigo parecia ser perder alguns escravos para um quilombo.
Foi então que a pesada porta de carvalho do salão foi arrombada com violência, batendo contra a parede de pedra com um baque que fez todos se virarem, seus corações parando por um instante. Na entrada, o mesmo jovem capitão da guarda que outrora anunciara visitas, agora estava irreconhecível. Sua armadura estava enlameada, um corte fresco sangrava em sua têmpora, e seu rosto era a própria máscara do pavor.
– Minha Senhora Baronesa! Senhores! – ele gritou, a voz falhando, rouca da poeira e do terror. – As sentinelas… os batedores… é confirmado! O grosso do exército da República… Estão vindo… diretamente para cá! As colunas de poeira já são visíveis no vale! Eles estarão aos pés do castelo… antes do último raio de sol!

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