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    O capitão irrompeu na sala do conselho como um vendaval humano, sua armadura rangendo com o movimento abrupto. O cheiro de poeira e terror vinha dele como um manto visível.

    – Meu Senhor! – sua voz falhou, rouca da poeira inalada durante a corrida desesperada. – As sentinelas… os batedores… é confirmado! O grosso do exército da República… Estão vindo… diretamente para cá!

    Seus olhos, esbugalhados, percorreram os rostos diante dele. Inês sentiu o ar sair de seus pulmões. O capitão continuou, engolindo seco:

    – As colunas de poeira já são visíveis no vale! Eles estarão aos pés do castelo… antes do último raio de sol!

    A palavra ainda ecoava na pedra fria quando o silêncio desceu sobre a sala. “Antes do último raio de sol”, pensou Inês, sentindo o gelo de sua própria geada se formar ao redor do coração. Suas mãos, sob a mesa, tremeram levemente antes que ela as controlasse com força de vontade.

    Peixoto olhou primeiro para Garcia, depois para Inês, depois novamente para Garcia. O verdadeiro senhor do castelo, dono das muralhas, das terras e da maior parte dos mercenários, permanecia imóvel. A decisão final sempre seria dele, todos sabiam.

    Garcia não se moveu por longos segundos. Sua mão direita segurava o cabo da faca cravada na mesa, os nós dos dedos brancos de pressão. Seus olhos, pequenos e profundos sob as sobrancelhas grossas, não piscaram. Ele olhava para o vazio além da mesa de carvalho, mas todos no salão podiam sentir o peso físico da fortaleza em seus ombros. As pedras pareciam falar com ele, eram extensão de seu sangue, de sua linhagem.

    O som do fogo crepitando na lareira enchia o silêncio. Inês podia sentir o cheiro da madeira queimada misturado ao odor úmido da pedra e à fragrância leve do vinho derramado antes da interrupção.

    – Uma hora – disse Garcia, por fim.

    Sua voz era um rosnado baixo, como o arrastar de uma pedra sobre pedra. Todos se inclinaram ligeiramente para ouvir.

    – Acham mesmo que podem invadir minhas terras? – continuou ele, as palavras saindo medidas, pesadas. – Sob as minhas muralhas.

    Ele arrancou a faca da madeira com um movimento brusco. O thunk final pareceu marcar o início de uma contagem regressiva que todos sentiram nos ossos.

    – Peixoto.

    O intelectual estremeceu visivelmente, seu monóculo quase caindo do olho. Ele o ajustou com dedos que tremiam ligeiramente.

    – Garcia, ouça a razão… – começou Peixoto, sua voz mais aguda que o normal. – A matemática é clara, as probabilidades…

    – Calcule isto para mim, então – cortou Garcia, erguendo-se.

    Sua estatura, antes parecendo apenas robusta, agora se impunha no salão. A luz das tochas projetava sua sombra enorme contra a parede de pedra. Ele era o senhor de guerra em sua própria fortaleza, e cada linha de seu corpo gritava essa verdade.

    – Trezentos e doze Adeptos mercenários – enumerou Garcia, contando nos dedos como se listasse tesouros. – Alimentados pela Gema-Rosa que meu avô enterrou no coração deste castelo. Muralhas que seguraram por um século contra tribos bárbaras, contra quilombolas, contra a própria corrosão do tempo.

    Ele deu um passo à frente, e Peixoto recuou instintivamente.

    – E eu, Garcia – continuou o senhor do castelo, batendo no próprio peito com a mão fechada. – Cuja mão nunca tremeu para lançar a pedra que esmaga. Você calcula as probabilidades. Eu vou te dar o resultado: sangue no vale e silêncio dessas armas barulhentas deles antes da lua cheia.

    Peixoto engoliu seco, seu pomo de adão subindo e descendo convulsivamente. A bravata de Garcia não era vazia – era o orgulho granítico de um homem que conhecia cada pedra de seu domínio, cada fissura, cada ponto forte. Um homem que acreditava, com fé absoluta, que aquelas muralhas não cairiam enquanto ele respirasse.

    – E se as armas deles… – tentou Peixoto, sua voz fraca. – Se aquelas carroças de ferro, os canhões que relataram…

    – Quebram pedra – Garcia completou, seus olhos brilhando com uma luz perigosa, como brasas sob cinzas. – Eu sei. Ouvi os relatos de Ouro Branco. Vi os desenhos que você mesmo mostrou.

    Ele se aproximou da janela, suas botas pesadas ecoando no piso de pedra.

    – Mas aqui não há forte frágil – continuou, apontando para as muralhas visíveis através do vitral. – Aqui há uma montanha esculpida. Eles vão gastar a munição preciosa deles tentando fazer uma dentada. E cada minuto que gastam…

    Garcia virou-se de repente, seu manto girando com ele.

    – …é um minuto a mais para nós cavarmos mais fundo, para lançarmos mais pedras, para o pânico deles crescer no sopé da minha colina.

    Ele se fixou em Inês, seus olhos escuros perfurando-a.

    – Baronesa. Suas ilusões. Elas estão prontas?

    Inês assentiu lentamente, uma sombra de respeito genuíno em seu olhar. Garcia, na defensiva, era um animal diferente do homem que conhecera em tempos de paz. Mais perigoso, mais focado, mais… interessante.

    – Os preparativos finais estão sendo feitos – respondeu ela, sua voz um sussurro calculado que ainda assim enchia a sala. – Meus sussurros já permeiam os corredores dos criados, os quartéis dos mercenários. O terror pode ser uma âncora ou um vento. Eu o direcionarei.

    – Faça – ordenou Garcia, um sorriso quase imperceptível tocando seus lábios. – Envenene o ar que eles respiram. Faça com que vejam sombras onde não há, ouçam passos atrás de cada porta. Que sintam o frio da morte antes mesmo de verem uma lâmina.

    Ele então olhou de volta para Peixoto, e o sorriso desapareceu.

    – E você. O administrador. O calculista. Tem uma escolha.

    Peixoto sentiu o suor frio escorrer por suas costas, molhando a fina camisa sob o gibão. O cheiro de seu próprio medo, ácido e familiar, subiu às suas narinas.

    – Escolha? – sua voz soou estridente, quase infantil.

    – Sim – confirmou Garcia, apontando a faca para ele. A lâmina capturou um raio de luz e o lançou de volta como um olho cintilante. – Você pode ficar e usar seu cajado de fogo para mostrar a eles o que é o inferno. Ou morrer aqui e agora, por minha mão, como um traidor que não merece ver o nascer do sol.

    Não era uma escolha. Nunca fora.

    Peixoto olhou para a porta maciça de carvalho, depois para o rosto impassível de Garcia, depois para Inês, cujos olhos vermelhos prometiam pesadelos para qualquer um que vacilasse. Seu intelecto, seu instinto de sobrevivência, lutaram por um instante no vácuo de seu peito. A fuga era um risco incalculável, com sentinelas em cada torre, mercenários em cada corredor. Mas ficar… era assinar sua sentença de morte com tinta de seu próprio sangue.

    – Eu… eu vou lutar – ele disse, as palavras saindo como se fossem arrancadas. – Coordenarei os adeptos de fogo em cima da muralha. Mas…

    Ele fez uma pausa, engolindo novamente.

    – …peço que e… quando… a situação se tornar insustentável, terei passagem livre para tentar uma negociação. Minhas habilidades diplomáticas podem…

    Garcia soltou um grunhido que poderia ser um riso seco se houvesse qualquer humor no som.

    – Negocie com o Espectro se quiser – cortou ele. – Ele gosta de fazer estatísticas com traidores. Conta ossos, dizem. Mas sim. Se chegar a hora, você pode tentar sua sorte. Agora, vá.

    Garcia apontou a faca para a porta.

    Peixoto saiu quase correndo, suas roupas esvoaçando, aliviado e aterrorizado ao mesmo tempo. A porta fechou-se atrás dele com um baque final.

    Com ele fora, Garcia se voltou para o capitão, que permanecera imóvel durante toda a troca.

    – Status. Detalhado.

    O capitão, sentindo a mudança de comando para seu senhor legítimo, endireitou a postura, seus cotovelos encontrando o metal da armadura com um som metálico.

    – Mercenários em posição, senhor – começou ele, voz mais firme agora. – Os de Terra prontos para reforçar as muralhas sob sua ordem. Os de Fogo nas torres leste e oeste, mirando as abordagens. Os de Gelo, poucos mas experientes, posicionados nos portões e nas janelas das masmorras, para congelar qualquer brecha.

    Ele respirou fundo antes de continuar:

    – A Gema-Rosa está em 85% de capacidade. Os canalizadores reportam leve instabilidade nos fluxos do nível três, mas nada que comprometa.

    – Boa – murmurou Garcia, caminhando até a grande janela que dava para o vale.

    Lá embaixo, a poeira marrom da coluna republicana era uma mancha crescente contra o verde das colinas. Mesmo à distância, era possível discernir o movimento lento, implacável, como sangue escorrendo para uma ferida.

    – Eles vão tentar os portões primeiro – analisou Garcia, falando mais para si mesmo que para os outros. 

    Ele virou-se, seu rosto iluminado pela luz que entrava pela janela.

    – Nossa resposta será sempre a mesma: pedra e fogo. Nada de saídas heróicas. Nada de desperdício. Nós desgastamos. Até eles se cansarem de bater a cabeça nesta montanha.

    Seus olhos encontraram os do capitão.

    – Capitão, você fica comigo na defesa da muralha.

    Finalmente, ele olhou para Inês por cima do ombro, um gesto quase íntimo.

    – Inês – disse ele, e pela primeira vez seu tom tinha um fio de algo que poderia ser respeito. – O castelo é seu para envenenar. Encha cada sombra com suspeita, cada suspiro do vento com um sussurro. Quero que os soldados deles avancem com o coração já apertado pela loucura que você vai soprar sobre o vale.

    Inês curvou-se levemente, um sorriso de lâmina nos lábios finos.

    – Com prazer – sussurrou ela. – Eles não terão um momento de paz, nem mesmo em seus próprios pensamentos. Prometo que seus pesadelos começarão antes mesmo do primeiro tiro de canhão.

    A transformação do Castelo Garcia sob o comando férreo de seu senhor foi diferente de qualquer preparação militar que Inês já testemunhara. Não era o frenesi de um forte prestes a cair, nem a resignação silenciosa dos condenados. Era a preparação metódica de uma fera dentro de sua toca, cada movimento calculado, cada recurso otimizado.

    As ordens eram curtas, claras, dadas em um tom que não admitia questionamento. O medo estava lá, sim – Inês sentia seu gosto amargo no ar, o fedor acre do suor frio nos estábulos, o silêncio tenso dos criados encolhidos na cozinha como animais acuados. Mas era um medo contido, dirigido, canalizado pela presença absoluta de Garcia.

    O próprio senhor do castelo foi para sua sala de armas sozinho. Inês o observou de longe, através de uma porta entreaberta. Ele vestiu uma armadura de prata embutida com a gema marrom da Terra – não uma armadura cerimonial, mas uma armadura de batalha, marcada por arranhões e amassados de conflitos passados. As maiores gemas estavam nas manoplas, pulsando com uma luz suave e constante. Por fim, desembainhou uma espada longa de uma bainha simples, testando o peso com um movimento fluido que falava de anos de prática. Sem uma palavra para ninguém, ele foi para a base das muralhas.

    Inês seguiu por um caminho diferente, descendo para os pátios inferiores. Enquanto Garcia assumia o comando visível da defesa, seu trabalho era nas sombras. Ela perambulava pelos corredores mais baixos, pelas cozinhas escuras, pelos depósitos úmidos onde o musgo crescia entre as pedras.

    Em cada local estratégico – um nicho escuro sob uma escada, uma junta de parede nas latrinas, um canto esquecido da adega – ela deixava pequenas gemas verde-escuras. Elas pareciam quase inertes ao toque, mas quando Inês sussurrava sobre elas, uma luz opaca pulsava em suas profundezas, como um olho abrindo no escuro.

    “Seu poder só poderia ser ativado quando eles entrassem no castelo”, pensou ela, acariciando uma gema antes de colocá-la em uma fresta. “A distância era inútil. Mas uma vez dentro… uma vez que respirassem o ar que ela havia preparado…”

    No topo das muralhas, uma defesa diferente se organizava. Peixoto, pálido mas funcional, coordenava os adeptos de Fogo com uma eficiência que surpreendia até Inês. Homens e mulheres vestindo insígnias flamejantes se posicionavam atrás das ameias, seus cajados já brilhando com calor potencial. O ar cheirava a ozônio e ansiedade contida.

    – Não disparem até meu comando! – gritava Peixoto, sua voz mais firme agora que tinha uma tarefa específica. – Lembrem-se da economia de energia! A Gema-Rosa alimenta vocês, mas não é infinita!

    Um adepto mais jovem, não mais que um adolescente, tremia visivelmente. Peixoto se aproximou, colocou uma mão em seu ombro.

    – Respire – disse ele, surpreendentemente gentil. – Calcule a trajetória. A velocidade do vento. O ponto mais fraco da armadura. A matemática não tem espaço para o medo.

    Enquanto isso, Garcia caminhava pelas muralhas como um fantasma prateado. Parava aqui e ali, colocava uma mão na pedra como se sentisse seu pulso, sussurrava ordens para capitães subordinados. Onde ele passava, os homens se endireitavam, o medo em seus olhos sendo substituído por uma determinação feroz.

    – Eles vão chegar pelo vale leste – Garcia disse a um grupo de adeptos da Terra. – Quando começarem a subir, quero que a colina trema sob os pés deles. Não para matar – não ainda – mas para cansar, para desequilibrar, para lembrá-los que estão pisando em solo que não lhes pertence.

    Os adeptos assentiam, suas mãos já pressionando as pedras das muralhas, sentindo suas vibrações, estabelecendo uma conexão que logo seria testada.

    Das muralhas, Inês podia ver a coluna de poeira se aproximando. Já não era uma mancha distante – agora era possível discernir formas dentro da poeira, o brilho ocasional de metal ao sol, o movimento rítmico de uma marcha organizada. O som chegava atrasado, mas logo ela podia ouvir o eco distante de tambores, o ruído metálico de equipamento sendo arrastado.

    “Vermes, acham que podem tomar o que é meu?”, pensou ela.

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