Capítulo 173 - Ataque ao Castelo Garcia I
O ar no topo da muralha cheirava a medo. O adepto encarregado da gema da visão pressionava a luneta de bronze contra o rosto, seus dedos suados deixando marcas úmidas no metal. Ao seu lado, os adeptos do fogo ajustavam nervosamente as alavancas de seus lançadores, as gemas embutidas pulsando com um calor que distorcia o ar.
— Senhor Garcia! — a voz do mensageiro ecoou pela escada em espiral, precedendo o homem que surgiu ofegante. — O exército de Carlos está se aproximando! A vanguarda já entra no vale!
Garcia não se virou. Seus olhos percorriam a linha de defensores, parando por um instante nos grupos de adeptos da terra que se aglomeravam em torno dos trabucos maciços. As armas de cerco pareciam bestas gigantes adormecidas, suas fundas carregadas com pedras do tamanho de barris, prontas para despertar.
— Me avise quando estiverem ao alcance dos trabucos — ordenou Garcia, sua voz um rugido baixo que carregava sobre o vento.
— Sim, senhor! — O mensageiro levou uma pequena gema do som ao ouvido, seus olhos se fechando em concentração. — Eles marcham em formação… disciplinados. Agora param! Estabelecendo posição!
Um murmúrio percorreu as muralhas. Garcia apertou as ameias de pedra, sentindo sua aspereza fria mesmo através das manoplas.
— Estão no alcance? — perguntou ele, cada palavra medida.
— Não, senhor — o mensageiro balançou a cabeça, confuso. — Estão muito além do alcance de qualquer arma que conhecemos. Estão… trazendo as carroças de ferro para a frente.
“Devem ser as armas de que Peixoto falou”, pensou Garcia, observando as manchas metálicas distantes se organizarem. “Dizem que quebram pedra. Mas nenhuma pedra comum ergueu estas muralhas. Meu bisavô trouxe os melhores engenheiros e adeptos da terra de Portugal. Cada bloco foi fundido com magia, reforçado com vontade.”
— Estão mexendo nas carroças — o mensageiro relatou, sua voz ganhando um tom de urgência. — Parecem estar carregando algo… bolas de ferro…
O mundo explodiu.
Primeiro veio o som — um trovão que não vinha do céu, mas da terra, profundo e raivoso, seguido por um agudo silvo no ar. Depois, o impacto.
A muralha tremeu como um animal ferido. Pedras que estiveram firmes por um século saltaram de suas juntas. Uma nuvem de poeira e estilhaços explodiu a vinte passos à direita de Garcia, revelando uma cratera do tamanho de uma carroça onde antes havia pedra sólida. O choque fez um defensor mais próximo perder o equilíbrio — seus braços giraram no ar por um instante eterno antes de desaparecerem do parapeito. O baque úmido que seguiu ecoou mais alto que o estrondo inicial.
Silêncio. Depois, gritos.
— O que foi isso?! — alguém berrou.
— Fogo divino! — chorou outro.
Garcia sentiu o gosto de poeira e pólvora na boca. Seu coração batia contra as costelas como um animal enjaulado. “Por todos os santos… eles atacam a essa distância?”
Os trovões não esperaram por sua resposta. Outro silvo, outro impacto — desta vez mais abaixo, sacudindo as fundações. Depois outro, e mais outro. Cada explosão era um martelo celestial batendo na fortaleza, cada cratera uma ferida aberta na carne da montanha.
No topo da muralha leste, Peixoto se agarrou a uma ameia, seus dedos brancos de pressão. Através da fumaça, ele via os clarões laranja distantes antes de cada impacto. “A matemática deles é perfeita”, pensou, seu intelecto calculando trajetórias e velocidades apesar do terror. “Estão ajustando o tiro. A próxima série será ainda mais precisa.”
Garcia observou impotente enquanto seu castelo era esculpido à distância. A raiva subiu em sua garganta, amarga e quente.
— Lancem os trabucos! — ele rugiu, virando-se para os artilheiros que encolhiam-se junto às suas armas. — Bolas de fogo também! Não vamos ficar parados como patos em um lago!
O capitão dos trabucos hesitou, seu rosto pálido sob o elmo.
— Senhor, eles estão a mais de dois mil passos! Nossas armas não chegam nem à metade…
— E tem ideia melhor?! — Garcia avançou, agarrando o homem pelo peitoral. Seus olhos queimavam com uma fúria que fez o capitão recuar. — Vamos deixá-los demolir pedra por pedra até não sobrar nada além de poeira?
O capitão balançou a cabeça, derrotado. — Lançar!
As ordens ecoaram. Homens giraram manivelas, cordas de cânhamo estalaram sob tensão, contra-pesos pesados caíram com baques surdos. Os trabucos lançaram suas cargas — pedras enormes que subiram em arcos graciosos contra o céu, seguidas por bolas de fogo que deixavam rastros de fumaça negra.
Todos os olhos seguiram os projéteis. Por um momento, pareceu que poderiam chegar… mas então começaram a cair, muito antes da linha inimiga, levantando nuvens de terra inofensivas no campo vazio.
— Nada… — o mensageiro sussurrou na gema. — Nada chegou perto. Eles… riem de nós, senhor. Continuam carregando as armas.
“Como se vence um inimigo que não se pode tocar?” A pergunta martelou na mente de Garcia enquanto outra salva de tiros sacudia as muralhas. “Como se luta contra trovões que vêm do nada?”
A fúria que o consumia encontrou uma saída. Um rugido saiu de sua garganta — não de medo, mas de desafio puro. As gemas em suas manoplas acenderam-se, primeiro com um brilho âmbar, depois com uma luz tão intensa que os homens ao redor tiveram que proteger os olhos.
— Se não alcançam com máquinas — Garcia gritou, a voz distorcida pelo poder que fluía através dele —, alcançaremos com vontade!
Ele ajoelhou-se, colocando ambas as mãos na pedra da muralha. Os blocos gemeram, tremeram, então começaram a se desprender. A terra aos seus pés inchou como maré viva. Com um esforço que fez os vasos em seu pescoço saltarem, Garcia arrancou do chão uma pedra que pesava mais que três carroças juntas — não a levantou, mas a comandou.
Os adeptos da terra ficaram paralisados. Era uma demonstração de poder que desafiava tudo o que conheciam sobre sua arte. Não era técnica, era força bruta canalizada através de pura vontade.
— VAI! — Garcia gritou, e lançou o maciço projétil.
A pedra não seguiu um arco — voou quase reta, como se lançada por uma mão divina, cortando o ar com um assobio profundo que abafou até mesmo o som dos canhões.
No campo, o Exército da República viu a sombra crescer no céu. Homens que momentos antes riam agora gritaram, rompendo a formação. Adeptos da terra correram para a frente, enterrando seus cajados no solo, levantando barreiras de terra compactada com velocidade desesperada.
O impacto foi como um pequeno terremoto. A barreira de terra estilhaçou-se, mas segurou — a pedra explodiu em mil estilhaços que choviam sobre as linhas dianteiras como metralha.
No topo da muralha, o mensageiro escutava o relatório, seu rosto uma máscara de esperança.
— Atingiu? — perguntou Garcia, ofegante, o suor escorrendo-lhe pelo rosto. As gemas em suas manoplas agora brilhavam fracamente, quase esgotadas.
— Quase, senhor! — o mensageiro disse, voz trêmula de excitação. — Destruiu a barreira deles! Os homens estão em pânico! Se pudermos lançar mais…
Mas Garcia já sentia o esgotamento. Cada pedra daquele tamanho custava uma fortuna em mana — logo teria que abandoar seu posto e ir até a Gema-Rosa no coração do castelo.
Mesmo assim, ele se preparou para outro lançamento. “Se é isso que querem”, pensou, os dentes cerrados, “vou dar-lhes montanhas.”
***
No campo, atrás das linhas republicanas, Espectro observava através de sua própria luneta. Seus olhos impassíveis registraram o poder descomunal do defensor.
“Interessante”, pensou ele, os números fluindo em sua mente. “Potencial de força bruta: equivalente a dez adeptos de elite, se dependessemos apenas das armas mágicas, seria uma luta dura… porém agora temos armas de fogo.”
Ele fez um gesto discreto. Uma figura de longos cabelos negros aproximou-se silenciosamente.
— Sussurro — disse Espectro sem tirar os olhos da luneta. — O adepto da terra. Prioridade máxima.
A figura apenas inclinou a cabeça e desapareceu entre as sombras do acampamento.
***
Dentro do castelo, em uma sala abobadada longe das muralhas externas, Inês apertava seus dois filhos contra o peito. O mais novo, Luís, chorava silenciosamente, seus soluços abafados contra o vestido dela. Fabio, de sete anos, fazia cara de bravo, mas seus pequenos dedos agarravam a manga da mãe com força de adulto.
— Vai ficar tudo bem — Inês sussurrou, passando a mão pelos cabelos de Luís. — Garcia não vai deixar ninguém entrar. Este castelo já enfrentou exércitos muito piores.
Outro impacto sacudiu a sala, fazendo poeira cair das vigas. Fabio soltou um pequeno grito.
— O que é isso, mãe? — ela perguntou, os olhos arregalados.
— Apenas… trovão — Inês mentiu, sorrindo com força. — Trovão muito bravo. Mas nós somos mais fortes.
A porta se abriu e o capitão entrou, seu rosto sujo de fuligem mas iluminado por um sorriso triunfante.
— Senhora Baronesa! Você deveria ter visto! O senhor Garcia — ele engasgou de admiração — ele arrancou uma pedra do tamanho de uma casa e a lançou! Quase atingiu os canhões deles! Os covardes pararam de atirar!
Inês sentiu uma faísca de esperança. “Ele fez isso? Com as próprias mãos?” Mas algo na exclamação do capitão soou falso. Muito triunfante, muito rápido.
— Pararam de atirar? — ela perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— Recuaram! — o capitão disse, espalhando os braços. — Assustaram-se com o poder dele! A batalha está ganha!
No topo da muralha, Peixoto enxugou os óculos, tentando enxergar através da fumaça. Algo estava errado. O adepto da visão ao seu lado sussurrava freneticamente em sua gema, seu rosto pálido como leite coalhado.
— O que é? — Peixoto perguntou.
O adepto não respondeu diretamente, mas suas palavras foram transmitidas abaixo através da rede de comunicação.
Na torre de comando, o mensageiro recebeu a mensagem, seu rosto perdendo toda cor.
— Senhor Garcia… — ele engasgou.
— FALE! — Garcia ordenou, ainda recuperando o fôlego.
— Uma adepta… das escuridão. Avistada brevemente. Ela tinha uma arma estranha, de cano longo… e uma mochila. Com… com laranjas. Laranjas com gemas do fogo ativadas.
A frase caiu como uma lâmina.
Todos conheciam as histórias. “Laranjas de fogo” usadas contra o exército do governador em Ouro Branco. Pequenas, letais, que podiam ser lançadas à mão ou disparadas de engenhocas. Bombas de fragmentação primitivas, mas terrivelmente eficazes contra grupos compactos.
Garcia começou a girar, a boca aberta para dar uma ordem — qualquer ordem — quando o mundo explodiu novamente.
Mas desta vez, não foram os canhões.
Primeiro veio um único estampido seco — diferente de tudo que tinham ouvido antes. Um tiro de rifle, preciso, destinado a uma gema específica de comunicação na muralha.
Depois, as laranjas chegaram.
Elas não caíram do céu — pareciam surgir do ar em si, lançadas por mãos invisíveis. Uma na base da muralha oeste, onde adeptos do gelo se aglomeravam. Outra no pátio interno, perto dos barris de água. Uma terça no telhado da torre de comando.
E a última — a mais cruelmente calculada — caiu aos pés de Garcia.
Não houve tempo para pensar, apenas para reagir. As gemas em sua armadura, já fracas, acenderam-se em um último lampejo de desespero. Terra e pedra levantaram-se ao seu redor como um escudo vivo, envolvento-o em uma concha protetora no instante em que o mundo se tornou fogo e som.
O impacto físico foi horrível — um calor que queimou mesmo através da pedra, uma força que o jogou contra a parede. Mas pior foi a sensação que veio depois: uma súbita, terrível vacuidade. Como se algo vital tivesse sido arrancado de seu peito.
E então, através do zumbido em seus ouvidos, através dos gritos dos homens, através do estilhaçar de pedra e o crepitar de incêndios, Garcia ouviu outra coisa.
Um grito. Não de soldado, não de mercenário. Um grito agudo, feminino, carregado de um terror tão puro que atravessou pedra, fumaça e distância.
Inês.
Garcia levantou-se, tropeçando. A torre de comando estava em ruínas ao seu redor, homens feridos gemendo no chão. Mas ele não os viu. Seus olhos procuraram a direção do grito — vindo de dentro, das áreas residenciais.
— INÊS! — ele rugiu, começando a correr antes mesmo que seus pés estivessem firmes.
O capitão tentou detê-lo. — Senhor, as muralhas…
— AS MURALHAS JÁ CAÍRAM! — Garcia o empurrou, sua força ainda formidável mesmo sem as gemas. — É dentro que eles atacam agora!
Ele desceu as escadas em uma queda descontrolada, seus passos ecoando no corredor enfumaçado. O cheiro era diferente aqui — não pólvora, mas poeira de gesso, madeira queimada e algo mais doce, mais metálico.
Sangue.
O corredor que levava aos aposentos de Inês estava parcialmente desmoronado. Uma viga pesada atravessava a passagem como um osso quebrado saindo da carne da parede. E de trás dela, o grito continuava — não mais um grito de terror, mas um lamento, um uivo animal de dor.
Garcia agarrou a viga, os músculos de seus braços saltando sob a pele. Com um rugido que rasgou sua garganta, ele a empurrou — não com magia, mas com a força de um desespero maior que qualquer poder mágico.
A cena que se revelou parou seu coração.
Inês ajoelhava-se no meio dos escombros, seus vestidos rasgados e cobertos de poeira. Em seus braços, ela segurava Maria, que chorava, ilesa exceto por alguns arranhões. Mas seus olhos não estavam na filha.
Estavam fixos no pequeno corpo soterrado sob uma pilha de pedras e gesso. Apenas uma mão era visível — a mão pequena, perfeita, de Luís — saindo dos escombros, imóvel.
— Ele não responde — Inês sussurrou, sua voz quebrada como vidro. — Luís… ele não responde…
Garcia caiu de joelhos ao seu lado, suas mãos — tão poderosas momentos antes, capazes de arrancar pedras da terra — agora tremiam impotentes sobre os escombros.
Fora, os canhões republicanos começaram a troar novamente. Mas dentro daquela sala em ruínas, o único som que importava era o silêncio vindo da pequena mão entre as pedras.

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