Índice de Capítulo

    A dor no pé era uma presença constante, latejante, mas Inês a transformava em combustível. Cada pontada aguda enquanto ela mancava pelo corredor fumegante era lembrada como um rosto: O rosto de Sussurro. A atiradora que a ferira. Cada gota de sangue que escorria e endurecia na barra de seu vestido era uma promessa.

    As gemas em seu colar — uma grande gema vermelha que parecia gotas de sangue petrificada — pulsavam suavemente contra sua pele. Elas não eram ferramentas, eram partes dela. Como dedos extras, como um sexto sentido que sentia a vida ao seu redor através do ritmo do sangue nos corpos.

    — Insetos — ela rosnava, dobrando uma esquina. — Insetos aparecendo por todos os corredores do castelo. Matando meus escravos. Tocando em minhas coisas.

    Ela parou diante de uma janela quebrada. Lá embaixo, no pátio interno, viu três figuras vestidas de verde — o verde folha dos uniformes republicanos. Estavam revirando os corpos, procurando por sobreviventes.

    Algo dentro de Inês estalou.

    As gemas do pesadelo, podiam ser ativadas de forma automaticá, mesmo a distância, eram armadilhas mentais perfeitas, e com ela perto ainda conseguia influenciá-los. Ela focou nos três soldados, sussurrando para as gemas. Depois que alguns deles, caiam sob a ilusão, a gema em seu pescoço pulsava, e ela sentia o sangue dentro deles.

    “Veem sombras”, ela projetou, sua mente tocando os cantos mais primitivos de suas consciências. “Sombras atrás daquela coluna. Sussurros vindos daquela porta. O cheiro de fumaça… não, de carne queimada. Sua carne.”

    Um dos soldados se virou bruscamente, rifle erguido, apontando para o companheiro.

    — Calma, Ribeiro! — o segundo disse, mas sua voz tinha uma nota de tensão.

    O terceiro, mais jovem, começou a coçar o braço freneticamente. — Tem algo andando na minha pele… algo…

    Inês sorriu. Era bom. Era fácil. Pessoas comuns eram barro nas mãos de alguém que entendia o medo. Mas então o primeiro soldado — Ribeiro — sacudiu a cabeça como um cachorro molhado.

    — Não é real — ele murmurou para si mesmo, um mantra. — É só a gema dela. Respira, foco.

    Ele se virou diretamente para a janela onde Inês estava. Não podia vê-la na escuridão, mas sabia.

    — Ali! Janela do segundo andar!

    Os três rifles se ergueram. Inês recuou um segundo antes que os estampidos enchessem o pátio e os estilhaços de vidro voassem sobre sua cabeça.

    “Merda!”, pensou ela, o coração batendo forte contra as costelas. “Esse grupo é mais resistente mentalmente!”

    A fúria deu lugar a um frio cálculo. Ela não podia ficar. Não podia lutar contra um exército inteiro sozinha. Mas não estava sozinha.

    “Fábio.”

    O nome do filho ainda vivo queimou em sua mente como um farol. Mas Fábio, de sete anos… onde ele estaria? Não nos aposentos — ela já olhara. Talvez nos estábulos? Ela havia o deixado com um serviçal de confiança.

    Ela se lembrou. O Salão das Colunas, onde Garcia mantinha os tesouros mais valiosos. Onde o dinheiro estava guardado. 

    Ela se moveu mais rápido, ignorando a dor. Sua gema de sangue trabalhava continuamente agora, coagulando o ferimento, mantendo-a em pé. O castelo era um labirinto de gritos e explosões distantes, mas ela conhecia cada atalho, cada passagem secreta que seus próprios servos ignoravam.

    Ao entrar no Salão das Colunas, o ar mudou. O cheiro não era de pólvora, mas de veludo e madeira polida. E de pânico.

    Fábio estava lá, sim. Seu rosto pálido, sujo de fuligem, iluminado por uma única lanterna. Em volta dele, agachados como animais acuados, estavam meia dúzia dos servos mais fiéis da casa — o mordomo velho Arlindo, duas das cozinheiras, o escravo pessoal de Garcia, um jovem chamado Lucas que tinha talento com números.

    E o cofre — o grande cofre de aço embutido na parede — estava aberto. Vazio.

    — Mãe! — Fábio correu até ela, seus olhos arregalados de terror.

    — Onde está? — a pergunta de Inês foi uma lâmina, cortando o ar.

    Arlindo, o mordomo, engoliu seco. Suas mãos tremiam. — Senhora… foi o Peixoto. Ele apareceu há menos de uma hora, com dois dos mercenários dele. Disse que tinha autorização do senhor Garcia para… para evacuar o tesouro.

    Inês sentiu o mundo girar. — Tudo?

    — Tudo, senhora — o velho confirmou, os olhos baixos. — As barras de ouro, as gemas não-ativadas, as joias da senhora… até as pratarias. Carregaram em três baús e desapareceram pela passagem sul.

    O riso que saiu de Inês não tinha humor. Era um som seco, quebrado, como ossos rangendo.

    — Então foi assim — ela sussurrou. — Enquanto meu filho morria soterrado, enquanto o castelo caia, o rato roubava o queijo.

    Fábio agarrou seu braço. — Mãe, temos que sair daqui! Estão em todos os lugares!

    Nesse momento, a porta do salão se abriu com violência. Quatro homens, seus rifles varrendo a sala.

    — Mãos ao alto! Todos no chão!

    O escravo Lucas, em um ato de pânico ou coragem surpreendente, se jogou para a frente, tentando fechar a porta. O primeiro tiro o acertou no peito, jogando-o contra a parede.

    Os gritos encheram a sala. As duas cozinheiras se agarravam uma à outra. Arlindo caiu de joelhos, suplicando.

    Inês não suplicou. Suas gema acendeu com uma luz vermelha profunda, sinistra. Ela não mirou nos soldados — não diretamente. Em vez disso, focou nos servos à sua volta.

    “Eles são armas”, pensou ela. “Armas descartáveis. Escolhi eles justamente por serem fracos mentalmente.”

    As gemas sussurraram. E os servos ouviram.

    Arlindo parou de suplicar. Seus olhos vidraram. Ele se levantou, não com a lentidão de seus setenta anos, mas com uma determinação robótica. Pegou um pesado castiçal de bronze.

    As cozinheiras se soltaram. Suas mãos, habituadas a segurar facas de cozinha, agora as seguravam com a mesma firmeza, mas com um propósito diferente. Seus rostos eram máscaras vazias.

    — O que… — um dos soldados começou, confuso.

    — ATACEM! — a ordem de Inês ecoou na mente dos controlados.

    Eles obedeceram. Não como guerreiros, mas como marionetes desesperadas. Arlindo avançou com o castiçal erguido. Uma das cozinheiras atirou sua faca, que passou raspando pelo ombro de um soldado.

    Os rifles cuspiram fogo.

    Arlindo levou três tiros no peito antes de cair. As cozinheiras foram cortadas por rajadas curtas e eficientes. Em segundos, todos estavam mortos, seus corpos formando uma barricada macabra entre Inês e os soldados.

    Mas ela não estava tentando vencê-los. Estava tentando distraí-los.

    Enquanto os servos atacavam, suas gemas já trabalhavam em outra frente, tentando tocar as mentes dos soldados. “Medo”, ela projetou. “O cheiro de queimado é do seu próprio uniforme. A sombra atrás de você se move. O homem ao seu lado não é seu camarada — é um deles, disfarçado.”

    Um dos soldados começou a respirar ofegante. Outro olhou para o companheiro com desconfiança.

    — Não caiam nisso! — o líder do esquadrão gritou. — É o poder dela! Foco no objetivo físico, ignore as alucinações!

    Ele mirou diretamente em Inês. — Baronesa! Renda-se ou…

    Ela nunca ouviu a opção. Em vez disso, fez a única coisa que restava. A gema em seu pescoço pulsou novamente.

    Os corpos dos servos mortos — Arlindo, as cozinheiras, Lucas — contorceram-se. Não reviveram, mas seus membros se moveram em espasmos controlados, como bonecos com fios cortados. Foi horripilante o suficiente para fazer até os soldados veteranos recuarem um passo.

    E nesse momento, Inês agarrou Fábio e se jogou pela porta traseira do salão, uma passagem de serviço que levava às cozinhas.

    — Mãe! — Fábio chorou, mas ela o puxou com força.

    — Corre! Não olhe para trás!

    Eles correram — ou tentaram. A perna ferida de Inês quase cedeu a cada passo. O corredor de serviço era estreito, escuro, cheio de cestos e barris. Ela podia ouvir os soldados atrás, recuperando-se do susto.

    — Por aqui! — um deles gritou.

    Um vulto verde apareceu na entrada do corredor atrás deles. Inês se virou, suas gemas já levantando uma última cortina de ilusão — a imagem de uma parede onde havia uma passagem, o som de muitos passos vindos da direção oposta.

    O soldado hesitou por um segundo. Apenas um.

    Foi o suficiente para outro — vindo de uma porta lateral que Inês não vira — aparecer e atirar.

    A bala pegou sua outra perna, a esquerda, um pouco acima do joelho. A dor foi tão aguda que ela soltou um grito que não soou humano. Caiu de joelhos, sentindo o osso rachar.

    — MÃE! — Fábio tentou ajudá-la, seus pequenos braços tentando levantá-la.

    — Vai! — ela gritou, empurrando-o. — Segue o corredor, vira à direita, sai pela porta do jardim de inverno! VAI!

    — Não vou te deixar!

    Os soldados estavam se aproximando. Inês olhou para seu filho, para seus olhos cheios de lágrimas e terror. E fez a última coisa cruel que uma mãe poderia fazer.

    Suas gemas sussurraram para a mente dele. “Corra”, elas ordenaram, não com sua voz, mas com a voz do medo mais primitivo. “Ela já está morta. Fuja sozinho. É a única maneira.”

    Os olhos de Fábio se encheram de pânico puro, não mais de preocupação. Ele soltou-a e correu, desaparecendo na escuridão do corredor.

    Inês caiu de costas contra a parede, as duas pernas inúteis estendidas à sua frente. O sangue escorria, formando poças quentes no chão de pedra. As gemas em seu pescoço tentava estancar o fluxo, mas eram muitas feridas, muito sangue.

    Os dois soldados apareceram na sua frente, seus rifles apontados. O mais jovem respirava pesado, seus olhos escaneando as sombras, lutando contra as últimas ilusões que ainda sussurravam em sua mente.

    — É só ela — o mais velho disse. — Está acabada.

    Inês olhou para eles, e mesmo agora, seu sorriso era de desprezo. — Insetos— ela cuspiu, o sangue tingindo seus dentes de vermelho. — Seu presidente é um verme que se acha um deus. Seu exército é de insetos vestidos de verde.

    — Silêncio — o soldado mais velho ordenou, mas sua voz não era tão firme quanto antes.

    Ela riu. — Vou me encontrar com o governador. Ele vai entender. Vamos retomar tudo. E farei cada um de vocês pagar… lentamente.

    Ela fechou os olhos, concentrando-se nas gemas pela última vez. Não para atacar, mas para sentir. Lá fora, no jardim, sentiu o sangue de Fábio correndo rápido, vivo. Ele estava escapando. Era o que importava.

    — Rendição ou morte — o soldado disse, o protocolo final.

    Inês abriu os olhos. Olhou além deles, para a luz do final do corredor. Para a liberdade que não alcançaria.

    — Minha rendição — ela sussurrou, — está no mesmo lugar onde seu presidente guarda sua honra. Em lugar nenhum.

    O soldado mais jovem moveu o dedo no gatilho. Porém Inês usou toda a mana que lhe restava, para criar uma última ilusão, de que eles estavam do mesmo lado, que eles tinham que ajudá-la.

    Eles se prepararam para ajuda-lá a andar, mas isso não importou.

    Do jardim de inverno, de uma posição elevada, o atirador de elite que havia caçado fugitivos por uma hora viu a figura de vestido escuro caída no corredor através de sua luneta. Viu os dois soldados republicanos agindo de forma estranha. Viu uma oportunidade clara.

    A bala atravessou trinta metros de jardim, uma janela quebrada, e o corredor escuro.

    Acertou Inês na têmpora esquerda.

    As gema em seu pescoço piscou uma última vez — um brilho vermelho intenso, como um suspiro final.

    O soldado mais velho se virou, confuso. — Quem atirou?

    Do jardim, a resposta veio através da gema do som: — Alvo neutralizado. Baronesa de Sangue confirmada morta.

    Eles se aproximaram cautelosamente. O mais jovem virou o corpo com a ponta do rifle. O rosto de Inês, ainda contorcido em uma expressão de desprezo, agora tinha um pequeno buraco limpo de um lado, e do outro… bem, eles não olharam muito.

    — Prossigam com a varredura — o sargento ordenou, sua voz de volta ao profissionalismo. — O castelo ainda não está seguro.

    Eles saíram, deixando o corpo no corredor escuro. A gema de seu pescoço, agora apenas jóia cara em um cadáver, não tinham mais histórias para contar. Não falavam das crianças que ela criara desde pequenas para servirem, dos escravos cujos dentes ela arrancara, dos ossos enterrados atrás de suas propriedades.

    Também não falavam do filho que ainda corria, sozinho e aterrorizado, pelos jardins do castelo em chamas. Fábio, de sete anos, cuja mente ainda ecoava com a última ordem da mãe: “Fuja sozinho. É a única maneira.”

    Ele correu, as lágrimas cortando caminhos limpos em seu rosto sujo de fuligem. Não sabia que carregava consigo as únicas duas gemas que Inês escondera em seu casaco — pequenas, discretas, uma do sangue, outra do pesadelo. Presentes de aniversário que ela dissera que ele só entenderia quando fosse mais velho.

    Agora ele era mais velho. E as gemas, órfãs como ele, começavam a sussurrar em sua mente pela primeira vez.

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