Índice de Capítulo

    O silêncio que descera sobre o Castelo Garcia era mais assustador que o estrondo da batalha. Espectro permanecia no alto da colina onde estabelecera seu quartel-general, seus olhos cinzentos percorrendo a fortaleza agora dominada. A última rajada de tiros cessara há quinze minutos — o sinal final de que a resistência organizada acabara.

    O ar ainda carregava o cheiro acre de pólvora queimada, misturado ao odor mais doce e nauseante de madeira carbonizada e, por baixo de tudo, o cheiro metálico do sangue que impregna a terra quando é derramado em quantidade. Fumaças esparsas ainda subiam de pontos do castelo, manchando o céu da tarde com cinza.

    “Dominado”, pensou Espectro, observando as colunas de soldados republicanos entrando e saindo pelos buracos nas muralhas como formigas em um formigueiro violado. “Mas a que custo?”

    Seus dedos, calosos e marcados por cicatrizes antigas de chicote e corrente, apertaram levemente a luneta que segurava. O preço estava nos relatórios que já chegavam: vinte e três mortos, quarenta e sete feridos, alguns críticos. Entre eles, Diego, o jovem que se juntara ao pelotão de Nzambi há um mês. “Dezoito anos”, pensou Espectro. “Nunca conheceu um dia de verdadeira liberdade.”

    — Senhor Espectro?

    A voz veio de seu lado esquerdo. O general Almeida, um homem de cabelos grisalhos e rosto marcado por uma queimadura antiga que ia da testa até o queixo, aproximava-se. Seus passos eram pesados, cansados — a batalha durara menos que o planejado, mas consumira cada homem que a travara.

    — Relatório final? — perguntou Espectro sem se virar.

    — Ainda não, senhor — Almeida respondeu, limpando a fuligem do rosto com um lenço já sujo. — Mas temos uma… situação. Encontraram Peixoto.

    Espectro baixou lentamente a luneta. — Morto?

    — Vivo. E com uma escolta de seis mercenários. Estão a cerca de um quilômetro ao sul, na estrada velha. Ele pede para negociar com o senhor pessoalmente.

    “Me informaram que desaparecera no meio do caos”, pensou Espectro, seus dedos tamborilando levemente na coronha do revólver em seu coldre. “Parece que o rato não só sobreviveu como conseguiu fugir do castelo antes dele desmoronar.”

    — Mande-o vir — ordenou Espectro, sua voz neutra como a superfície de um lago noturno. — Mas os mercenários ficam a duzentos metros. Se algum se aproximar além desse limite, atirem primeiro.

    — Entendido, senhor.

    Almeida fez um gesto para um mensageiro, que correu para transmitir as ordens através das gemas de som. Espectro virou-se finalmente, seus olhos percorrendo o campo de batalha abaixo. Homens carregavam feridos em padiolas improvisadas. Outros reuniam prisioneiros — mercenários que se renderam, servos aterrorizados, alguns poucos adeptos que sobreviveram.

    Aproximadamente meia hora depois, Peixoto apareceu.

    Ele vinha caminhando com uma dignidade cuidadosamente ensaiada, seu monóculo ainda firmemente preso ao olho, apesar da poeira que cobria seu casaco antes impecável. Seus sapatos de couro fino estavam encharcados de lama e — Espectro notou — manchados de algo mais escuro em uma das pontas. Sangue, provavelmente.

    Os seis mercenários permaneceram à distância exigida, suas mãos visivelmente longe das armas, mas seus olhos escaneando constantemente as tropas republicanas que os cercavam.

    — Boa tarde, Senhor Espectro — Peixoto cumprimentou, fazendo uma pequena inclinação de cabeça que não era exatamente uma reverência, mas também não era um mero aceno. — Agradeço por receber-me. Vim em busca da paz.

    Espectro observou-o por um longo momento, deixando o silêncio crescer entre eles. O som dos trabalhos no castelo — ordens gritadas, pedras sendo movidas, ocasionais tiros isolados de execução — preenchia o vazio.

    — A paz — repetiu Espectro finalmente, a palavra saindo como algo amargo. — Depois de décadas lucrando com a tortura e escravização do meu povo, agora, com o fogo à sua porta, você vem falar de paz.

    Ele deu um passo à frente. Peixoto, instintivamente, recuou meio passo.

    — Aposto que se essa batalha não tivesse virado a nosso favor — continuou Espectro, seus olhos fixos nos de Peixoto —, se fossem suas tropas cercando nossa capital, você não estaria aqui hoje. Estaria contando os escravos que capturou, calculando quanto lucraria com a venda de suas famílias separadas.

    Peixoto engoliu seco, seu pomo de adão subindo e descendo convulsivamente. Ele ajustou o monóculo, um gesto nervoso que Espectro notou.

    — Pelo que tenho lido nos jornais republicanos — começou Peixoto, escolhendo as palavras com cuidado —, vocês não estão exterminando os brancos. Reconheço que o senhor pode não possuir o mesmo refinamento intelectual que nós, mas Carlos… Ele me parece estar em outro patamar. Até imagino — ele fez uma pausa calculada — que, embora sua pele seja negra, seu sangue seja branco. E ele ficaria furioso se o senhor matasse alguém que busca genuinamente a paz.

    Algo dentro de Espectro ferveu — um calor antigo e familiar, o mesmo que sentira quando, aos doze anos, vira o capataz chicotear sua irmã até ela não conseguir mais gritar. Mas ele não moveu um músculo. Porque, em sua frieza calculista, Peixoto acertara em algo.

    Carlos odiava mortes desnecessárias. A visão do presidente era clara: a República não seria um novo império de vingança, mas uma nação de leis. E Espectro, por mais que seu coração gritasse por justiça imediata, jurara seguir essa visão.

    “Porque ele está certo sobre outra coisa também”, pensou Espectro, lembrando-se do rosto da criança que encontraram enterrada atrás da mansão de Inês. “Meu coração pesa com cada morte, mesmo as necessárias. Especialmente as necessárias.”

    — Te garanto uma coisa — disse Espectro, sua voz tão baixa que Peixoto teve que se inclinar para ouvir. — O sangue de Carlos é vermelho. Assim como o meu. Assim como o seu. A diferença é que o nosso sangue nunca foi mercadoria em seus livros contábeis.

    Ele cruzou os braços.

    — Mas é bom que tenha lido o jornal. Espero que tenha lido a parte sobre as reparações. Você pagará por cada escravo que teve. Cada dia de trabalho não remunerado. Cada família separada por sua conveniência.

    Peixoto acenou, um gesto quase aliviado.

    — Não se preocupe, estudei bem os termos — respondeu ele, um fio de confiança voltando à sua voz. — Na verdade…

    Ele estalou os dedos. À distância, três de seus mercenários se moveram, carregando três baús pesados de madeira reforçada com ferro. Com esforço visível, eles os trouxeram e os depositaram diante de Espectro com baques surdos que levantaram pequenas nuvens de poeira.

    Espectro não olhou para os baús. Olhou para o adepto da visão ao seu lado — Marcos, o jovem que ainda carregava a palidez do que vira dentro do castelo. O rapaz fechou os olhos por um momento, focando nas gemas embutidas em seu óculos.

    — Nenhuma armadilha — Marcos sussurrou. — Só metal. Muito metal.

    Só então Espectro fez um gesto. Dois soldados se aproximaram, levantando as pesadas tampas dos baús.

    A luz da tarde refletiu-se no conteúdo. O primeiro baú estava cheio até a borda com moedas de ouro e prata — algumas portuguesas, outras espanholas, algumas até holandesas. O segundo transbordava de joias: colares de diamantes, brincos de esmeraldas, anéis com rubis do tamanho de unhas. O terceiro continha barras de ouro puro, empilhadas como tijolos.

    — Creio que isso seja suficiente para pagar minhas dívidas — disse Peixoto, um sorriso tênue tocando seus lábios. — Devo lembrar também que ordenei a todos os meus funcionários e capatazes em minhas terras que se rendessem aos senhores sem resistência. Agora que paguei — ele enfatizou a palavra —, gostaria de retornar às minhas propriedades e viver sob as novas leis da República.

    Espectro observou o tesouro, depois olhou para o castelo fumegante, depois de volta para Peixoto.

    — Você estava no castelo — afirmou, não perguntou. — Meus homens me informaram que a sala do tesouro estava vazia. Tão vazia que até as aranhas não tinham onde tecer teias. Você pegou tudo de lá.

    Peixoto manteve o rosto impassível, mas seus olhos piscaram rapidamente.

    — O tesouro estava abandonado — ele respondeu, escolhendo as palavras. — Com o castelo caindo, seria irracional deixá-lo para ser destruído ou saqueado.

    — Se você não tivesse pego — Espectro interrompeu, sua voz agora uma lâmina de gelo —, nós teríamos conquistado o castelo e tomado tudo de qualquer maneira. Como direito de conquista.

    Peixoto sentiu a espinha gelar. Ele respirou fundo antes de responder.

    — Mas vocês não pegaram. Eu peguei. Portanto, conforme estabelecido nos jornais que seu próprio governo publica, desejo que aceitem este pagamento e me devolvam minhas terras e minha liberdade.

    Por um longo momento, Espectro apenas olhou para ele. O silêncio foi preenchido pelo som distante de um soldado dando ordens, pelo grasnar de corvos já se reunindo nas árvores próximas, pelo vento soprando através do vale.

    — Você é mesmo um rato — disse Espectro finalmente, sem raiva aparente, apenas como uma constatação. — Abandonou seus companheiros e os deixou morrerem. Fugiu com o tesouro enquanto Inês chorava sobre o corpo do filho e Garcia lutava até o último suspiro.

    Ele se aproximou, seus passos lentos e medidos na terra batida.

    — Porém, você está com sorte — continuou Espectro. — Ao contrário de Inês, que era cruel por prazer. Ao contrário de Garcia, que sentia êxtase em quebrar ossos. Você… você apenas calculava. Não batia, não torturava, pelo menos não no mesmo tanto que aqueles dois — apenas anotava os números e lucrava com o sofrimento dos outros.

    Peixoto começou a relaxar, um erro.

    — Se fossem eles fazendo essa oferta — Espectro concluiu, parando a meio metro do homem —, eu teria tomado esses baús e os jogado para apodrecer na pior prisão que pudéssemos construir. Mas você… você é diferente.

    — Exatamente — Peixoto concordou, um fio de superioridade voltando à sua voz. — Não me chame de rato, animal. Eu apenas tomei a decisão mais lógica em cada situação. A emoção é para os fracos.

    Espectro inclinou a cabeça, como se estudando uma criatura curiosa.

    — Animal? — repetiu ele, sua voz tão suave que era quase um sussurro. — Eu sou o comandante-geral do Exército da República. Você é um homem que lucrou com a escravidão e agora tenta comprar sua saída. Há uma diferença.

    Ele fez um gesto para Almeida.

    — Mas não se preocupe. Vou garantir que você volte inteiro para suas terras. Aliás… — Espectro olhou em volta, como se procurando algo. — Só preciso chamar um médico primeiro. Para o senhor.

    Peixoto franziu a testa, confuso.

    — Médico? Não preciso de médico, estou perfeitamente bem, apenas um pouco cansado da…

    O estampido do revólver de Espectro cortou a tarde como um trovão.

    Peixoto não entendeu imediatamente. Primeiro veio o som — ensurdecedor, próximo. Depois, uma sensação de impacto no pé direito, como se um martelo gigante o tivesse atingido. Só então a dor chegou — uma onda branca e quente que subiu por sua perna e explodiu em seu cérebro.

    Ele caiu, não graciosamente, mas como um saco de batatas, um grito rouco e animal saindo de sua garganta. Seus olhos arregalados viram o sangue escarlate jorrando de seu pé, manchando a poeira, suas calças caras, tudo.

    — AAAAAI! MEU DEUS! — ele urrou, suas mãos agarrando a perna como se pudesse conter a vida que escapava.

    Atrás dele, seus seis mercenários puxaram as espadas num reflexo. O som foi respondido por vinte rifles sendo armados em uníssono pelos soldados republicanos que os cercavam. O clique-claque dos ferrolhos sendo puxados foi mais assustador que qualquer grito.

    — Baixem as armas! — Almeida ordenou, sua voz carregando uma autoridade que fez até os mercenários hesitarem. — Ou o próximo tiro não será no pé!

    Os homens olharam para Peixoto, contorcendo-se no chão, depois para os rifles apontados para eles. As espadas baixaram, uma a uma.

    Espectro agachou-se ao lado de Peixoto, seu revólver ainda fumegando. O cheiro da pólvora fresca misturava-se ao cheiro do sangue e ao odor amargo do medo que emanava do homem ferido.

    — Como… como você pode fazer isso? — Peixoto gaguejou entre gemidos, suas lágrimas misturando-se à poeira de seu rosto. — Você é preto… não passa de um preguiçoso imundo… se não fosse por Carlos, você não seria nada!

    Espectro não se alterou. Apenas inclinou-se mais, até que seu rosto estivesse a poucos centímetros do de Peixoto.

    — O médico já vem — disse ele, sua voz tão calma que era quase íntima. — Ele usa a gema da cura, vai, tratar o ferimento. Você sobreviverá. E então, como prometi, poderá ir para suas terras. Continuará rico. Continuará vivendo.

    Ele levantou lentamente o revólver, até que o cano frio tocasse a testa suada de Peixoto.

    — Mas se você disser mais uma palavra — Espectro continuou, seus olhos cinzentos fixos nos olhos aterrorizados do homem —, se insultar meu povo, meu presidente, ou qualquer outra pessoa neste campo novamente… você nunca mais falará nada. Entendido?

    Peixoto ficou imóvel, a dor em seu pé quase esquecida diante do cano contra sua pele. Ele assentiu, rapidamente, seus olhos suplicando.

    Espectro se levantou, guardando o revólver. — Tragam o médico.

    Enquanto o cirurgião de campo se aproximava correndo com seu kit, Espectro virou-se para Almeida. — Os baús vão para o tesouro da República. Ele mantém as terras, sob as novas leis. Mas coloque dois homens observando-o. Se ele tentar fugir, ou se envolver em qualquer atividade ilegal…

    — Entendido, senhor — Almeida completou, um entendimento passando entre eles.

    O médico trabalhou rapidamente — com um cálice de aço imbutido com a gema da cura, derramou água sobre o ferimento o curando. Peixoto suportou a dor em silêncio, seus olhos nunca deixando Espectro, que agora observava o castelo novamente, como se o homem no chão fosse apenas um detalhe insignificante.

    Quando terminado, Peixoto foi ajudado a se levantar. Ele mancou até seu cavalo, cada passo um martírio, e montou com dificuldade. Sem uma palavra, sem olhar para trás, ele partiu na direção sul, seguido por seus mercenários — agora mais guardas do que escolta.

    Almeida aproximou-se de Espectro. — Deveríamos tê-lo executado. Ele merecia.

    — Merecia — concordou Espectro, observando a figura que desaparecia na estrada. — Mas matá-lo faria de nós juízes e carrascos. E estamos construindo uma nação de leis, não de vingança.

    Ele respirou fundo, o cheiro da batalha ainda pesado no ar.

    — Além disso — Espectro acrescentou, um raro lampejo de algo quase como satisfação em seus olhos —, ele vai servir de exemplos, de como a República é bondosa com até mesmo senhores de engenho. Quanto mais deles se renderem sem lutar, mais dos nossos poderemos preservar.

    O sol começava a se pôr atrás das montanhas, tingindo de laranja as fumaças que ainda subiam do Castelo Garcia. Uma era terminava. Outra, com suas leis complicadas e moralidade difícil, continuava.

    Espectro voltou sua atenção para o castelo, para os mortos que precisavam ser enterrados, para os feridos que precisavam ser cuidados, para a República que precisava ser construída — um dia, uma batalha, uma escolha difícil de cada vez.

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