Índice de Capítulo

    O gabinete presidencial cheirava a tinta fresca, papel e chá— uma mistura que se tornara familiar para Carlos nos últimos meses. A luz da tarde entrava pelas altas janelas, iluminando as pilhas de relatórios que cobriam sua mesa de carvalho maciço. Em uma dessas pilhas, mais espessa que as outras, estava o relatório completo da Batalha do Castelo Garcia.

    Carlos leu pela terceira vez o trecho sobre a morte de Inês, Baronesa de Sangue. Seus dedos traçaram as palavras, como se tateando por uma falha na lógica que ele sabia não existir.

    “…ação final da Baronesa consistiu em ordenar ao filho Fábio, 12 anos, que fugisse sozinho, enquanto utilizava seus poderes para controlar servos e criados restantes, direcionando-os em ataque suicida contra as tropas republicanas…”

    Ele suspirou — um som pesado, profundo, que carregava consigo o cansaço de semanas de planejamento militar e a frustração de não compreender.

    Do outro lado da sala, Quixotina levantou os olhos de seus próprios documentos. Ela estivera ali por quase duas horas, discutindo inicialmente a construção de novas escolas — incluindo a primeira escola de ensino médio da República, onde se ensinariam matemática avançada, princípios de química e até rudimentos do método científico. A conversa técnica terminara há meia hora, mas ela permanecera, fingindo necessidade de revisar alguns cálculos de orçamento.

    A verdade era mais simples: o escritório de Carlos era um dos poucos lugares onde o mundo exterior, com suas exigências e urgências, parecia recuar. O ritmo calmo de sua respiração enquanto lia, o som suave da pena raspando no papel, até mesmo o modo como ele às vezes murmurava para si mesmo em palavras que são apenas do século XXI que só ela reconhecia como peculiar — tudo isso tinha um efeito tranquilizante.

    — O que foi? — sua voz quebrou o silêncio, mais suave do que pretendera. — Muitas mortes?

    Carlos balançou a cabeça, não imediatamente, como se estivesse se desprendendo de um pensamento profundo.

    — Não — respondeu ele, passando a mão pelo rosto. — Os números estão dentro do esperado. Menos até. Foi uma vitória, tecnicamente falando.

    Ele fez uma pausa, seus olhos voltando ao relatório.

    — São as decisões. As escolhas que não fazem sentido.

    Quixotina fechou lentamente seu caderno de anotações, dando-lhe toda a atenção. O movimento fez suas tranças — hoje presas de maneira mais elaborada, ela notara-se pensando mais em sua aparência ultimamente — balançarem levemente.

    — A Baronesa de Sangue — continuou Carlos, erguendo o relatório. — Por mais cruel que fosse, era mãe. Tinha um filho ainda vivo, Fábio. Mesmo assim, escolheu a morte em vez da rendição. Mandou o menino fugir sozinho, em vez de se renderem juntos.

    Ele olhou para Quixotina, genuinamente perplexo.

    — Sob as nossas leis, ambos teriam sobrevivido. Ela teria julgamento, sim, mas o filho… ele teria chance de viver. Em vez disso, ela sacrificou servos, criados, sua própria vida… tudo por nada. O menino nunca chegará a Areia Branca sozinho. É… irracional.

    Carlos ergueu a mão antes que Quixotina respondesse.

    — E Garcia, então. Luta até a morte por um castelo já destruído. Por pedras. Quando a rendição lhe daria pelo menos a vida. Não entendo.

    Ele inclinou-se para frente, seus cotovelos apoiados na mesa.

    — Luíza, como mãe… consegue me explicar o que passou pela cabeça dela? Alguma lógica que me escape?

    Quixotina ficou em silêncio por um longo momento. Seus dedos brincaram com a pena sobre a mesa.

    — Lamento, Carlos — ela disse finalmente, sua voz mais grave. — Não consigo entrar na mente desse monstro. Mesmo aqui no quilombo, antes de tudo isso, ela já era uma lenda de terror. As histórias que chegavam… não eram apenas sobre crueldade. Eram sobre algo mais profundo, como se o mal fosse um artesanato para ela.

    Ela fez uma pausa, escolhendo as palavras.

    — Quanto a Garcia… esse, pelo menos, entendo um pouco. Não que defenda — acrescentou rapidamente, vendo a expressão de Carlos. — Sei muito bem que era outro monstro. Mas lutar até a morte por suas terras… isso tem uma lógica que até um cavaleiro das antigas histórias entenderia. É sobre honra. Identidade. Ser derrotado, mas não se render.

    Carlos observou-a, seus olhos escuros refletindo a luz da janela.

    — E você? — a pergunta saiu mais direta do que planejara. — Lutaria até a morte pela República?

    Quixotina não respondeu imediatamente. Seus olhos percorreram a sala — os mapas nas paredes, os projetos de máquinas, os livros que Carlos trouxera de seu mundo e adaptara para ensinar. Tudo o que representava não apenas uma nação, mas uma ideia.

    — Certamente seria uma morte honrosa — ela disse, medindo cada palavra. — Digna dos cavaleiros sobre os quais lia nas velhas histórias que meu tio contava. Mas… não.

    Ela olhou diretamente para ele.

    — Não lutaria até a morte. Porque tenho Dulcinéia. Não a deixaria sozinha neste mundo. Por isso as ações de Inês me confundem tanto quanto a você. Que mãe escolhe uma morte dramática em vez de viver pelo filho?

    Carlos soltou um suspiro que parecia carregar semanas de tensão. Um sorriso pequeno, genuíno, tocou seus lábios.

    — Isso é bom — disse ele, sua voz mais leve. — Se algum dia — e espero que nunca aconteça —, se algum exército vier tomar nossa cidade, e você souber que é uma luta em vão… pegue Dulcinéia e fuja. Vá para a mata, para onde for seguro.

    Ele inclinou-se para frente, seus olhos sérios.

    — Jamais te culparei. Prometo.

    Quixotina sentiu algo quente e apertado em seu peito. “Ele realmente quer que eu sobreviva”, pensou. “Não como uma heroína, mas como uma mãe.”

    Mas em sua mente, outra resposta se formava, uma que ela jamais diria em voz alta. Se fosse para salvar Carlos — não a República, não a ideia, mas o homem que agora olhava para ela com uma preocupação genuína —, então sim. Então ela lutaria até a última gota de sangue. Sabia, com uma certeza que a assustava um pouco, que ele cuidaria de Dulcinéia. Que faria da menina sua prioridade, sua protegida.

    E havia algo mais: em sua mente romântica, formada por livros antigos e ideais cavalheirescos que seu tio lhe contara em segredo, Carlos representava esses ideais mais do que qualquer nobre ou rei sobre quem lera. Não por títulos ou sangue, mas por ações. Por construir escolas em vez de fortalezas. Por libertar em vez de escravizar.

    “Ele jamais aceitaria que eu morresse por ele”, pensou, seus dedos apertando a pena com mais força. “Seria contrário a tudo em que acredita. Mas isso não mudaria minha escolha.”

    — Por conta das ações irracionais da Inês — a voz de Carlos a trouxe de volta ao presente —, agora temos mais uma criança órfã. Um menino branco de sete anos que, segundo os relatos, participava das ‘brincadeiras’ da mãe. Que provavelmente acha normal torturar crianças negras.

    Ele passou a mão pelos cabelos, um gesto de cansaço.

    — Já vejo os problemas que ele vai dar. O trauma, o ódio internalizado, a educação que terá que ser desfeita e refeita…

    Quixotina suspirou, um som de resignação profissional.

    — Realmente — concordou. — Vai dar trabalho na escola. Muito trabalho. Se ele sequer aceitar ser ensinado.

    Ela começou a juntar seus papéis, movimentos deliberados que adiavam o inevitável.

    — Foi bom passar esse tempo com você — disse, levantando-se. — Mas preciso buscar uns documentos na minha sala. Além disso, as professoras vão sentir minha falta daqui a pouco.

    Carlos também se levantou, um movimento quase reflexo.

    — Tudo bem — disse ele, e a tristeza em sua voz era tão sutil que apenas alguém que o conhecesse bem notaria. — Aliás… quer vir jantar em minha casa hoje à noite? Acho que você ainda não provou meu pudim.

    O sorriso de Quixotina se alargou, genuíno.

    — Eu aceito — respondeu, segurando os papéis contra o peito. — Levo Dulcinéia também?

    — Claro! Tem mais histórias em quadrinhos para ela.

    — Então está combinado.

    Ela saiu, fechando a porta suavemente atrás de si. O escritório pareceu repentinamente maior, mais vazio, mais silencioso.

    No escritório adjacente, Tassi Hangbé — Tassi para todos que importavam — estava enterrada até o pescoço em relatórios agrícolas. Quanto mais a República expandia, mais bocas para alimentar, mais terras para cultivar, mais logística para gerenciar. Ela requisitara todos os adeptos da grama do exército para seu ministério, transformando soldados em agricultores de elite que podiam fazer uma plantação crescer em dias.

    Seu cabelo, geralmente cuidadosamente preso, estava solto e desalinhado de tantas vezes que ela passara as mãos por ele em frustração. A caneca de chá ao seu lado já estava fria, mas ela bebeu de qualquer maneira, fazendo uma careta ao.

    Foi então que, pelo vidro translúcido da porta divisória, ela viu Quixotina passar pelo corredor. A ministra da educação tinha um passo leve, quase dançante, e um sorriso pequeno e privado que Tassi reconheceu muito bem.

    “Deve ter ficado umas três horas no escritório dele”, pensou Tassi, sua caneta parando no meio de uma coluna de números. “E não foi só hoje. Ultimamente eles têm passado muito tempo juntos.”

    Ela observou Quixotina desaparecer na curva do corredor, aquela postura sempre ereta, aquela dignidade que parecia natural como respirar.

    “Quixotina é uma dama”, continuou seu pensamento, um pouco mais amargo do que gostaria. “Daquelas que querem ser cortejadas. Que esperam poesia, gestos grandiosos, joelhos no chão. Carlos teria que clamar seu amor em sonetos para sequer ser considerado.”

    Ela olhou para seu próprio reflexo borrado no vidro da janela — cabelos rebeldes, olhos com olheiras profundas, unhas curtas e sujas de terra.

    “Diferente de mim”, pensou, com uma mistura de autodepreciação e pragmatismo. “Só descubro meus sentimentos agora, no meio do caos, quando mal tenho tempo de respirar.”

    Sua mente voltou para a noite anterior, quando Carlos viera ao seu escritório para discutir os números da safra. Ele trouxera chá, notara que ela estava cansada, insistira para que fosse descansar. Pequenas coisas. Coisas que talvez não significassem nada. Ou talvez significassem tudo.

    “Tudo bem”, ela pensou, forçando-se a voltar aos relatórios. “Ainda tenho tempo para organizar esses sentimentos. Além disso, não tenho como me aproximar dele agora — não com tanto trabalho.”

    Mas mesmo enquanto pensava isso, seus dedos traçaram distraidamente as letras do nome “Carlos” na margem do relatório, antes que ela percebesse o que fazia e riscasse rapidamente, como se fosse um segredo perigoso.

    “Dito isso”, murmurou para si mesma, pegando a caneta com determinação renovada, “hora de voltar ao trabalho.”

    Fora, o sol começava a se pôr sobre a República, iluminando com tons dourados as primeiras construções da nova cidade que crescia onde antes havia apenas a floresta e o medo. Dentro dos escritórios, outras construções — mais frágeis, mais humanas — também tentavam nascer, entre suspiros, relatórios e xícaras de chá frio.

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