180. Vila da Palma II
O balde de água que Daniel carregava agora era pesado — não pelo peso da água em si, mas pela memória que ele despertava. A sensação da alça de madeira cortando a palma de sua mão, o líquido gelado balançando e derramando um pouco em suas calças a cada passo, o som do contentamento ao ser colocado no chão. Era um trabalho que ele não fazia há meses, desde que as primeiras cisternas de Carlos começaram a funcionar no quilombo.
Joana caminhava ao seu lado, seu passo mais leve apesar da idade.
— Eu ainda não decidi se vou morar aqui — disse Daniel, sua voz soando mais hesitante do que pretendera. — Primeiro preciso que você me diga como é a vida por aqui. De verdade.
Joana olhou para ele, seus olhos estreitando-se levemente como se avaliando suas intenções.
— É dura — ela admitiu, sem rodeios. — Acordamos antes do sol, trabalhamos até ele se pôr. A terra é generosa, mas exige suor. Mas é boa também. Sempre temos comida na mesa, o teto não vaza na época das chuvas, e os capitães do mato ficam do lado de fora do muro.
Ela fez uma pausa, olhando para uma horta comunitária onde duas mulheres mais jovens arrancavam ervas daninhas.
— Claro que não temos muitos luxos como vocês lá na República — continuou, um tom mais áspero entrando em sua voz. — Mas devo dizer que é melhor trabalhar na terra e comer o que vem dela do que ficar numa fábrica fechada sem ver a luz só para ganhar um salário e depois ter que ir comprar comida. Aqui o que plantamos é nosso. O que colhemos nos alimenta.
Daniel seguiu seu olhar. As mulheres na horta tinham as costas curvadas, as mãos sujas de terra, mas conversavam rindo baixo sobre algo. “Elas parecem… satisfeitas”, pensou ele. “Mas será que é satisfação ou resignação?”
Enquanto caminhavam, seus olhos registraram detalhes. Muitas pessoas mais velhas — mais do que ele lembrava no quilombo Jabuticaba. Rostos marcados por décadas de trabalho sob o sol, mãos calejadas que manuseavam enxadas com uma familiaridade triste.
“Eu nunca parei para pensar”, refletiu Daniel, seu treino de repórter começando a analisar o que via. “Nem todos que vieram com Zala queriam apenas paz com os brancos. Alguns devem ter vindo porque não gostavam da industrialização que Carlos trazia. Das fábricas, dos horários, do dinheiro como medida de tudo. Aqui a vida é mais… orgânica. Mais conectada à terra que seus antepassados trabalharam como escravos.”
Eles chegaram a um barracão maior, construído com a mesma técnica de taipa que as casas, mas com uma estrutura mais robusta. A porta estava aberta, deixando entrar a luz da tarde e revelando o interior escuro e fresco.
— No momento sua mãe está atendendo diretamente o Zala — Joana disse, baixando a voz. — Aqui ele não é Ganga, nem rei. Apenas o líder de uma pequena vila… dos portugueses.
O peso nas últimas palavras não escapou a Daniel.
— E eles te tratam bem? — perguntou ele, também em voz mais baixa.
Joana soltou um riso seco, curto. — Tratam do mesmo jeito que tratam todo mundo que não é deles. Mas pelo menos não somos escravizados. E não somos atacados. É uma paz, mesmo que seja uma paz vigiada.
Ela pegou o balde de volta das mãos de Daniel e colocou novamente na cabeça. — Vou deixar você com sua família. Depois passa em casa, sim? Meu neto adoraria ouvir suas histórias.
Daniel acenou com a cabeça, seu coração batendo mais rápido. “Família”, pensou. A palavra tinha um peso diferente aqui, fora dos muros da República.
Ele entrou no barracão. O ar dentro era mais frio, cheirando a terra úmida, suor seco e um leve aroma de alguma erva medicinal queimando em um canto. Seus olhos levaram um momento para se ajustarem à penumbra.
E então viu.
Sua mãe, Maria, estava sentada em um banco baixo de madeira, inclinada para frente enquanto falava com Zala, que ocupava a única cadeira com encosto da sala — um símbolo de autoridade pequeno, mas significativo. Ao redor deles, duas mulheres mais jovens estavam sentadas no chão, em esteiras de palha. Daniel as reconheceu — eram as concubinas de Zala, mulheres que o seguiam desde os tempos do quilombo.
“Depois que ele foi batizado”, lembrou Daniel, um sabor amargo subindo à sua boca, “era para ficar apenas com uma mulher, segundo os costumes cristãos. Pelo visto algumas coisas não mudam…”
Foi então que Maria levantou os olhos para a entrada. O reconhecimento foi imediato —
— Daniel!
A palavra explodiu no silêncio do barracão como um trovão de felicidade pura. Ela se levantou tão rápido que o banco caiu para trás com um baque, mas ela não notou. Em três passos estava diante dele, suas mãos — mãos que Daniel lembrava serem fortes o suficiente para partir lenha, mas suaves o suficiente para acariciar sua testa febril — agarrando seu rosto.
— Meu Deus, meu filho, meu filho — ela sussurrou, suas lágrimas já escorrendo, quentes e salgadas, sobre seus dedos.
Daniel a abraçou, enterrando o rosto em seu cabelo curto e áspero que cheirava a fumaça e ao sabão caseiro que ela sempre fazia. Por um momento, ele não foi Daniel, o repórter. Não foi Daniel, o pedreiro que aprendera a ler. Foi apenas Daniel, o menino que tinha saudades da mãe.
— Senti saudades, mãe — ele disse, sua voz quebrada pela emoção que não esperava sentir com tanta força.
Zala observava a cena, seus olhos escuros inexpressivos. Quando Daniel finalmente se soltou do abraço, o líder da vila inclinou a cabeça em uma saudação formal.
— Há quanto tempo, menino — disse Zala, sua voz grave e controlada como sempre. — Finalmente decidiu escolher o caminho da paz?
Maria também olhou para o filho, seus olhos ainda marejados, mas agora cheios de uma ansiedade que Daniel reconhecia — a mesma ansiedade de quando ele era criança e ela esperava que ele fizesse a escolha certa.
— Eu ainda estou pensando — Daniel respondeu, sentindo a decepção que suas palavras causaram em ambos.
Mas por dentro, algo mudara. O abraço da mãe, o cheiro dela, a sensação de seus braços ao seu redor — tudo isso despertou uma saudade que ele não sabia carregar. “Sinto mais falta dela do que imaginava”, admitiu para si mesmo. “Muito mais.”
Maria pareceu sacudir a decepção, voltando ao papel de anfitriã.
— Sente-se! — ela ordenou, pegando o banco caído e arrumando-o. — Já está na hora do almoço! A viagem deve ter sido longa, não é mesmo? Venha comer conosco!
Ela olhou para Zala, buscando permissão. O líder da vila observou Daniel por um momento longo, seus dedos tamborilando no braço da cadeira. Finalmente, fez um aceno quase imperceptível de concordância.
Daniel sentou-se em uma esteira ao lado das concubinas, que lhe deram sorrisos tímidos. Uma delas — a mais jovem, que ele lembrava se chamar Iara — esticou o pescoço como se tentando ouvir melhor as notícias do mundo exterior.
— Então me conta tudo, meu filho! — Maria exclamou, sentando-se ao seu lado. Suas mãos, agora inquietas, começaram a descascar uma mandioca que estava em uma cesta no chão. — Como está a vida lá? Já arranjou alguma mulher? Está na hora de casar, você não é mais um menino!
Daniel sentiu um calor subir por seu pescoço. — Ainda não arranjei nenhuma mulher — admitiu, evitando os olhos das concubinas que agora sorriam abertamente. — Apesar de que todo dia chegam mais mulheres dos engenhos que o exército liberta. A vida está muito boa, na verdade. Acabei de ser contratado no jornal da República!
O orgulho em sua voz era genuíno. — O salário é tão bom que dei entrada em um apartamento que tem até água encanada! Imagina, mãe — você abre uma torneira e a água sai limpa, sem precisar ir até o rio ou o poço!
Iara, a concubina mais jovem, não conseguiu se conter.
— Eu fiquei sabendo desses apartamentos! — ela interrompeu, seus olhos brilhando com curiosidade. — E o jornal! Dizem que todo mundo em Areia Branca está furioso lendo o jornal de vocês falando de como tomaram Ouro Branco! Meu primo, que é servo na casa do coronel, disse que o próprio governador rasgou uma edição na frente de todos!
Maria colocou uma mão no braço de Daniel, seu sorriso orgulhoso iluminando seu rosto enrugado.
— Que bom que conseguiu esse trabalho, meu filho — ela disse, sua voz carregada de emoção. — Sempre soube que você era especial. Que Deus te abençoou com uma mente que não se contenta apenas com o que os olhos veem.
Zala, que permanecera em silêncio durante a troca, finalmente falou. Sua voz era mais baixa agora, mais contida, mas cada palavra carregava peso.
— Eu pedi para um dos mercadores trazer um desses jornais — ele disse, seus olhos fixos em Daniel. — A primeira coisa que me chamou a atenção não foram as vitórias. Nem os discursos de Carlos. Foi o número de “heróis” dessas batalhas.
Ele fez uma pausa, deixando a palavra “heróis” pairar no ar como um mau cheiro.
— Ou melhor dizendo — Zala continuou, seus dedos agora apertando os braços da cadeira —, o número de defuntos. Porque a maioria desses heróis de que vocês tanto se orgulham… está morta. Enterrada. Nomes em uma lista que vocês chamam de “honra”, mas que eu chamo de desperdício.
O clima no barracão pesou instantaneamente. As concubinas baixaram os olhos. Maria parou de descascar a mandioca, suas mãos imóveis. Daniel sentiu a raiva subir em sua garganta, quente e familiar.
Ele estava prestes a responder — estava prestes a falar sobre liberdade, sobre escolha, sobre morrer de pé em vez de viver de joelhos — quando, para alívio de todos, a comida chegou.
Uma mulher mais velha — Daniel a reconheceu como Dona Marta, que costumava fazer as refeições comunitárias no seu mocambo— entrou carregando uma bandeja de madeira. O cheiro que a precedia era simples, básico: feijão cozido, arroz, e um aroma mais forte e carnudo.
— Olha só, meu filho, chegou a comida! — Maria exclamou, demasiado animada, tentando dissipar a tensão. — Imagino que esteja morto de fome! Pode comer à vontade!
Daniel olhou para a bandeja enquanto Dona Marta a depositava no centro da sala. Havia uma tigela grande de feijão, outra de arroz branco e simples, e… um único bife, mal passado, colocado diretamente na frente de Zala. Nada mais.
Por um momento, Daniel apenas olhou. Sua mente, traiçoeiramente, começou a fazer comparações.
“Para mim, antigamente, isso seria um jantar luxuoso”, pensou ele, lembrando-se das noites no quilombo quando um pedaço de carne — qualquer carne — era dividido entre dez pessoas. “Mas agora… para todo mundo na República, isso seria um jantar comum. Muito comum.”
Seus olhos procuraram inconscientemente o que faltava. “Uma salada de alface e tomate. Batatas para acompanhar a carne. Pão fresco. E pimenta. Carlos trouxe essas comidas para nós de todos os cantos do globo, e nos deu trabalho e dinheiro para comprá-las.”
Seu olhar então voltou-se para Zala, que observava o bife em seu prato com uma expressão que Daniel conhecia bem. Era uma expressão de decepção. De alguém que lembrava de tempos melhores, de banquetes melhores, de um status melhor.
“Isso me lembra”, pensou Daniel, um sentimento de satisfação amarga subindo nele. “Você usava o dinheiro que Carlos ganhava — dinheiro que o povo dele conseguia fazendo roupas — para comprar vinhos caros. Para trazer iguarias que ninguém mais no quilombo podia provar. Aqui não tem nada disso. Bem feito.”
Zala pegou sua faca e garfo — os únicos talheres de metal na sala, Daniel notou — e começou a cortar seu bife. O som da lâmina raspando no prato de madeira era agudo, desagradável.
— Sabe, Daniel — Zala disse, sem levantar os olhos de sua refeição. — Você fez a escolha errada. Aqui vivemos em paz. Uma vida tranquila. Humilde.
Ele enfiou um pedaço de carne na boca, mastigando lentamente, como se saboreando cada palavra junto com a comida.
— Mas tem pessoas como eu e Carlos — Daniel respondeu, sua voz mais firme do que se sentia —, que preferem ser capazes de libertar todos nossos irmãos e irmãs, em vez de viver em paz sabendo que outros ainda estão acorrentados.
Zala parou de mastigar. Seu rosto, antes impassível, começou a se contorcer. Primeiro em raiva — Daniel viu os músculos da mandíbula se contraírem, os olhos estreitarem-se. Mas então algo mudou.
A raiva deu lugar a algo diferente. Algo físico. Os olhos de Zala se arregalaram. Sua mão direita voou ao peito, seus dedos se contorcendo contra o tecido grosso de sua roupa. Um som escapou de seus lábios — não uma palavra, mas um gemido baixo, gutural.
— Senhor? — Iara perguntou, alarmada.
Zala tentou falar. Sua boca se abriu, mas apenas ar saiu, seguido por um pouco de espuma branca e fina que escorreu de seu canto. Seus olhos, agora vidrados, encontraram os de Daniel por um último instante. Havia surpresa neles. Confusão. E talvez, Daniel pensaria mais tarde, um último lampejo do orgulho que sempre o definira.
Então, com um movimento lento e pesado como uma árvore caindo, a cabeça de Zala caiu para frente, batendo com um baque surdo em seu prato. O bife, mal tocado, foi esmagado sob seu peso. A faca caiu de sua mão aberta, batendo no chão de terra com um tilintar metálico que pareceu absurdamente alto no silêncio súbito que encheu o barracão.
Por um momento, ninguém se moveu. Ninguém respirou.
Foi Maria quem quebrou o feitiço.
— Meu Deus — ela sussurrou, sua mão voando à boca. — Meu Deus, ele… ele…
Iara se levantou, seus olhos arregalados de horror. A outra concubina começou a chorar baixinho, um som abafado e animalesco.
Daniel ficou paralisado, observando o corpo inerte do homem que fora seu líder, seu Ganga, seu rei. O cheiro da comida — antes simples, mas apetitosa — agora parecia nauseante. O bife esmagado, misturado com a espuma branca nos lábios de Zala, criava uma imagem que ele sabia que jamais esqueceria.
E em algum lugar, no fundo de sua mente de repórter, uma parte fria e observadora começou a fazer anotações. “Morte súbita. Sintomas: dor no peito, dificuldade respiratória, espuma na boca. Possíveis causas: ataque cardíaco? Envenenamento?”
Mas a maior parte dele era apenas um homem olhando para outro homem morto, em um barracão de taipa, em uma vila cercada por muros, enquanto sua mãe começava a chorar silenciosamente ao seu lado.

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