181. Vila Palma III
O silêncio que seguiu à morte de Zala era espesso como lama, pesado como uma lápide, carregado de uma tensão que Daniel podia sentir nos ossos. Por um momento que se esticou em uma eternidade de horror, ninguém se moveu. A única coisa que quebrava a quietude era o som baixo e arrítmico do choro abafado das concubinas — um gemido gutural que parecia vir de outro mundo.
Daniel forçou-se a sair do choque. Seus movimentos eram lentos, mecânicos, como se estivesse observando seu próprio corpo de longe. Ele ajoelhou-se ao lado do corpo de Zala, seus dedos encontrando o pescoço do homem — a pele ainda quente, mas sem pulsação. O cheiro agora era diferente: além da comida simples, havia um odor metálico sutil, o cheiro do corpo liberando seus últimos fluidos, misturado ao aroma adocicado da morte.
— Ele está morto — Daniel confirmou, sua voz soando estranha e distante em seus próprios ouvidos, como se pertencesse a outra pessoa.
Ele levantou os olhos, percorrendo o barracão. As duas concubinas estavam paralisadas, uma segurando a outra como náufragas em um mar de terror, seus rostos pálidos de choque. Sua mãe, Maria, estava de pé, uma mão pressionada contra a boca, seus olhos saltando entre o corpo de Zala e o rosto do filho — um movimento frenético de alguém tentando entender o incompreensível.
A mente de Daniel acelerou, suas engrenagens de repórter entrando em ação mesmo em meio ao horror. “Morte súbita. Sintomas agudos: dor no peito, dificuldade respiratória, espuma na boca. Envenenamento? Ataque cardíaco? Em qualquer caso, não é natural.”
— Chame um guarda! — sua voz cortou o ar, mais firme do que se sentia. — E capturem a cozinheira! Talvez isso seja trabalho de alguém de dentro… ou de fora. Chamem também os adeptos da visão que ficam do lado de fora do muro!
Iara, a concubina mais nova, assentiu rapidamente, seus olhos ainda arregalados de terror. Ela saiu correndo, suas sandálias de couro fazendo um som surdo no chão de terra — um ritmo de fuga que ecoou no silêncio do barracão.
Maria pareceu sacudir-se de seu torpor. Seus anos como chefe de mocambo — tomando decisões sob pressão, lidando com crises de fome, doença e violência — retornaram como um manto familiar. Sua postura endireitou-se, seus olhos perderam o vidrado do choque.
— Vou chamar os guardas e os outros chefes — disse ela, sua voz recuperando uma centelha da autoridade que Daniel lembrava de sua infância. — Fique aqui, Daniel. Não toque em nada. Não mexa no corpo.
Ela saiu, deixando Daniel sozinho com o cadáver, a concubina mais velha — que agora soluçava silenciosamente, seu corpo tremendo como uma folha ao vento — e o fantasma do que acabara de acontecer.
Os minutos seguintes foram um pesadelo de espera. Daniel podia ouvir seu próprio coração batendo em seus ouvidos. O cheiro da comida fria agora era nauseante. A luz da tarde entrava pelas frestas do barracão, criando listras de poeira dançante que pareciam zombar da morte no centro da sala.
Não demorou muito. Primeiro chegaram Tau, Kaion e Fernando — os ex-chefes de mocambo que agora dividiam a liderança da vila sob a supervisão de Zala. Seus rostos, quando viram o corpo caído sobre a comida, mostraram uma sucessão rápida de emoções: choque genuíno, medo visceral e, por fim, algo mais sutil — uma avaliação calculista do que aquela morte significaria para seus próprios futuros, para suas famílias, para o frágil equilíbrio da vila.
— Por todos os santos — murmurou Fernando, o mais velho dos três, fazendo o sinal da cruz com mãos que tremiam. — O que aconteceu aqui? Quem…?
Antes que Daniel pudesse responder — antes que pudesse sequer abrir a boca —, um guarda entrou arrastando Dona Marta, a cozinheira. A mulher idosa — seus cabelos grisalhos desalinhados, seu avental ainda manchado de gordura e sangue animal — lutava contra o aperto no seu braço, seus pés arrastando na terra batida.
— Eu não sei de nada! — ela chorava, seus olhos saltando desesperadamente de rosto em rosto, buscando um aliado, uma centelha de compaixão. — Juro pela alma da minha mãe, não fiz nada! A carne veio do depósito comum, eu só temperei e cozinhei como sempre faço! Perguntem a qualquer um!
— Cala a boca, mulher! — o guarda a sacudiu, sua voz áspera como pedra lascada. — Seu julgamento vem aí.
Foi então que o barracão encheu — não gradualmente, mas de uma vez, como se todos tivessem estado esperando do lado de fora pelo sinal perfeito. Primeiro entraram dois guardas com os óculos especiais — aqueles com gemas da visão embutidas nas armações que lhes permitiam ver energias mágicas, ilusões, armadilhas. Atrás deles, Iara reapareceu, seu rosto agora ainda mais pálido, seus olhos evitando encontrar os de Daniel.
E atrás dela…
Daniel sentiu seu estômago se contrair como um punho fechado. Os três capitães do mato que ele vira na encruzilhada entraram, suas expressões neutras, profissionais, seus olhos escaneando a sala como carniceiros avaliando uma carcaça. E finalmente, entrando com uma calma que contrastava grotescamente com o caos, veio o coronel.
Ele não era como Daniel esperava. Não um homem velho e gordo vivendo de privilégios, mas um português na casa dos quarenta anos, esguio como uma lâmina, com um bigode cuidadosamente aparado e um uniforme militar azul-esverdeado surrado mas limpo. Suas botas de couro rangiam no chão de terra com um som autoritário. Seus olhos — claros, de um azul quase cinza, como o céu antes de uma tempestade — percorreram a cena rapidamente, parando no corpo de Zala, depois em Daniel, depois nas faces molhadas das mulheres, como um contador avaliando um inventário.
— Tem razão — disse o coronel, sua voz um tom suave, quase conversacional, que fez o silêncio parecer ainda mais profundo. — Não foi ela.
Ele nem sequer olhou para Dona Marta. Em vez disso, seus olhos fixaram-se em Daniel como os de um falcão avistando sua presa — uma fixação intensa, pessoal, que fez a pele de Daniel arrepiar-se.
— Coronel — o adepto da visão mais próximo disse, ajustando seus óculos com dedos que não tremiam. — O estranho aqui chegou há menos de duas horas. Veio sozinho
— E trouxe uma mochila — completou o coronel, como se continuando o pensamento do outro, seus lábios finos curvando-se em algo que não era um sorriso. — Curioso, não? Um homem que foge da República… mas traz pertences.
Ele fez um gesto quase imperceptível com a cabeça. Um dos guardas se aproximou de Daniel, sua mão estendida, a palma para cima como a de um mendigo — mas os olhos diziam que era uma ordem, não um pedido.
— Sua mochila — o homem disse, sua voz plana, sem emoção.
Daniel hesitou por uma fração de segundo. Sua mente acelerou, calculando probabilidades como uma máquina. “O revólver está no coldre, não na mochila. Está escondido sob minha camisa. Mas o caderno… as anotações…”
— Dê a mochila — a voz do coronel não deixava espaço para discussão. Era um tom que Daniel reconhecia — o tom dos homens acostumados a serem obedecidos, o tom dos donos de escravos, dos senhores de engenho.
Daniel entregou-a. O guarda a abriu no chão com um movimento brusco, derramando seu conteúdo como entranhas de um animal abatido: roupas limpas, o pacote de açúcar refinado raro, a faca nova que trouxera para a mãe, os pequenos presentes — tudo espalhado na terra como lixo. E então, caindo com um baque suave que pareceu alto demais, o caderno.
O coronel abaixou-se, pegando-o com movimentos deliberados, como um cirurgião pegando um bisturi. Abriu-o, suas páginas raspando enquanto ele folheava — um som seco, áspero, que cortou o ar. Seus olhos escaneavam as anotações — observações sobre os muros, sobre as hortas comunitárias, sobre os guardas, seus pensamentos soltos sobre a vida na vila comparada à República.
— Vejam só — o coronel disse finalmente, erguendo o caderno para que todos vissem, como um padre erguendo uma escritura sagrada. — Anotações. Muitas anotações. Observações detalhadas sobre nossas defesas, nossa organização, nossos pontos fracos. Os horários dos guardas. A localização dos depósitos. As rotas de fuga.
Ele olhou para Daniel, seus olhos claros agora frios como gelo de inverno.
— É claramente um espião da República. Que veio não apenas para observar… mas para assassinar Zala. Para eliminar um líder que mantinha a paz aqui, para criar o caos que sua revolução sanguinária tanto deseja.
O ar pareceu sair do barracão. Daniel sentiu o peso das acusações, a armadilha se fechando ao seu redor — não gradualmente, mas de uma vez, como uma gaiola caindo do céu.
— Não! — sua voz explodiu no silêncio, mais alta do que pretendera, mais aguda do que gostaria. — Podem falar com Joana! Falei com ela assim que cheguei! Ou com o cocheiro que me trouxe! Ele dirá as horas, confirmará quando cheguei! Aliás — ele apontou para o adepto da visão, seu dedo tremendo —, você mesmo me viu chegando! Deve ter observado tudo que fiz desde que entrei! Vi alguma magia? Algum veneno? Alguma arma?
O guarda com os óculos ajustou-os novamente, um gesto nervoso que contradizia sua postura profissional.
— Tem razão — ele admitiu, sua voz um pouco vacilante. — Eu vi você indo ao depósito de alimentos quando chegou. Aposto que foi para envenenar a carne que só Zala iria comer! Colocou algo na carne antes que fosse preparada!
Foi então que algo estalou na mente de Daniel. “Como ele sabe que foi carne que Zala comeu?”
Seus olhos percorreram rapidamente a cena. O corpo ainda caído sobre o prato, o bife parcialmente escondido sob o peso de Zala — era impossível ver o que era de onde estavam. Ninguém examinara o corpo. Ninguém se aproximara. Ninguém mencionara especificamente a carne — até agora.
“Eles nem examinaram o corpo”, o pensamento martelou em sua mente, frio e claro como água de nascente. “Parece que sabiam de antemão. Isso é coincidência demais. Mesmo se a concubina falou tudo enquanto foi chamá-los… para que tantos? Capitães do mato, guardas, o próprio coronel… para uma morte súbita que poderia ser natural? E chegando todos juntos, como um grupo organizado?”
Ele não foi o único a perceber. Daniel viu nos olhos de Tau, o mais jovem dos ex-chefes, um lampejo de compreensão seguido por um medo ainda maior — o medo de quem percebe que está numa armadilha que não foi armada para ele, mas da qual não poderá escapar. Fernando baixou os olhos para o chão, suas mãos idosas se apertando. Kaion apertou os punhos, seus músculos se tensionando, mas permaneceu em silêncio — o silêncio prudente de quem sabe que qualquer palavra pode ser a última.
Apenas Maria, cega pela emoção e pelo instinto maternal que transcendia a lógica, protestou.
— Não foi meu filho! — sua voz era um misto de súplica e autoridade antiga. — E dá para provar isso facilmente! Aposto que o pessoal da vila deve ter visto quando ele chegou, deve ter ouvido nossas conversas! Joana o acompanhou até aqui! Ela dirá que ele veio em paz, que veio para me ver!
O coronel sorriu ao ouvir isso — um sorriso estreito, sem calor, que não alcançou seus olhos, transformando seu rosto em uma máscara de cordialidade falsa.
— Ora, ora — ele disse, sua voz ainda suave, quase amável, como um professor corrigindo um aluno favorito. — Parece que temos mais alguém defendendo um assassino da República. Uma mãe, naturalmente. O amor maternal é tão… comovente. E tão cego.
Ele fez uma pausa teatral, deixando as palavras pairaram no ar pesado como fumaça de incêndio.
— E talvez — continuou, seus olhos percorrendo agora os outros líderes, avaliando suas reações —, quem sabe, possam até haver mais rebeldes da República aqui. Mais espiões. Mais traidores que auxiliaram esse homem. Talvez toda essa vila — ele fez um gesto amplo com a mão — esteja infectada. Talvez o acordo de paz tenha sido apenas uma fachada para que a infiltração ocorresse sob nossos narizes.
Ele endireitou as costas, sua postura agora completamente militar, seus ombros para trás, seu queixo erguido.
— Guardas! Capitães do mato! — sua voz cortou como uma lâmina, perdendo toda a falsa suavidade anterior. — Prendam todos eles! O espião, sua cúmplice, e esses três — ele apontou para Tau, Kaion e Fernando — para interrogatório! O resto da vila será revistada casa por casa! Qualquer resistência será tratada como confissão de culpa!
“Por isso que vieram os capitães do mato”, pensou Daniel em um acesso de clareza desesperada. “Não era coincidência estarem na estrada. Não era coincidência chegarem tão rápido. Era uma armadilha desde o início. E Zala… Zala era apenas a desculpa perfeita. Uma morte conveniente. Eles queriam um pretexto para acabar com a vila, para capturar ou matar todos, para acabar com esse ‘experimento’ que não estava dando os resultados que queriam.”
Seus olhos percorreram o barracão. Onze homens armados — sete capitães do mato, quatro guardas — contra ele, sua mãe e três líderes. “E aqui ninguém mais tem armas mágicas”, lembrou, um sabor amargo enchendo sua boca. “Todas foram confiscadas quando aceitaram o acordo de paz. Mas eu… eu ainda tenho o revólver.”
Sem pensar — agindo apenas por instinto de sobrevivência e por um amor que era mais forte que o medo —, Daniel deu um passo à frente, colocando-se entre sua mãe e o guarda que se aproximava. Sua mão direita voou ao coldre escondido sob sua camisa, encontrando o cabo frio e familiar do revólver que Sombra lhe dera.
Ele o puxou, o som do metal raspando contra o couro ecoando no barracão silencioso como um grito.
— Para trás! — sua voz soou estranha, distorcida pela adrenalina que corria em suas veias como fogo. — Se afastem, ou eu atiro! Mãe, fique atrás de mim! Não se aproxime de ninguém!
O coronel riu — um som curto, desdenhoso, que fez seus homens rirem também, um coro de desprezo.
— O que você pode fazer com esse brinquedo? — ele perguntou, erguendo uma sobrancelha em um gesto de genuína curiosidade misturada com desdém. — Um pedaço de metal sem gema? Sem magia? — Então, virando-se para um dos guardas com óculos, ordenou: — Prenda-o! Mas vivo. Quero interrogá-lo depois.

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