Índice de Capítulo

    O sol da manhã filtrado pelas folhas da varanda tingia de dourado o interior do pequeno apartamento que Quixotina e Dulcinéia agora chamavam de lar. O ar carregava o cheiro de chá e de bolo Carlos trouxera na noite anterior.

    Quixotina ajoelhou-se no chão da sala, seus dedos verificando metodicamente cada item em sua mochila de exploração. O couro estava macio pelo uso, mas bem cuidado. O interior exalava o aroma familiar de óleo para armas, ervas medicinais secas e a cera que usava para impermeabilizar seus cadernos.

    — Corda de cânhamo, vinte metros… pederneira… ração para três dias… kit de primeiros socorros com ataduras, unguento de babosa e os novos “anti-sépticos” que Carlos ensinou a fazer… — ela murmurou para si mesma, tocando cada item como um ritual. — Caderno à prova d’água, lápis de carvão, bússola… acho que está tudo aqui.

    — Mãeeeeee!

    O grito veio do quarto, seguido pelo som de pés descalços correndo pelo piso de madeira. Dulcinéia irrompeu na sala, seus cabelos loiros desalinhados da noite de sono, seus olhos vermelhos brilhando com determinação.

    — Quero ir junto! Quero participar do Grupo de Exploração Lua Crescente!

    Quixotina suspirou, um som que carregava anos de preocupações maternas. Ela se levantou, sentindo os joelhos estalarem levemente.

    — Não, doce— disse ela, usando o apelido carinhoso que raramente empregava. — Você ainda é muito nova. É perigoso. Comporte-se e fique com o tio Carlos.

    Ela se inclinou, beijando a testa suave da filha. O cheiro de Dulcinéia era sempre o mesmo desde bebê — sabão caseiro, sol e uma doçura indefinível que era puramente dela.

    A menina fez uma cara de emburrada que transformou seus traços delicados em uma máscara de frustração infantil. Carlos, que observava a cena da cozinha enquanto terminava seu chá, aproximou-se e colocou uma mão nos cabelos desgrenhados da menina.

    — Não se preocupe — disse ele, sua voz calma como sempre. — Vamos fazer tudo que você quiser hoje. Talvez visitemos as novas máquinas de tear, ou a biblioteca…

    — Mas quero explorar a mata com a mãe! — Dulcinéia insistiu, seus olhos enchendo-se de lágrimas de frustração. — Além disso, Silvestre e Silvana são quase da mesma idade que eu e vão para a mata!

    Quixotina sentou-se no sofá, seus dedos massageando a testa. Explicações lógicas raramente funcionavam com Dulcinéia quando ela estava neste estado, mas ela tentaria.

    — Eles usam a gema Mboae — ela começou, escolhendo as palavras com cuidado. — Silvestre pode se transformar em pássaro e voar para longe do perigo. Já Silvana vira uma loba poderosa e consegue fugir para qualquer lugar!

    Dulcinéia tocou o colar que usava — um presente de aniversário de sua mãe — onde uma pequena gema da força estava embutida. Sob seus dedos, a pedra acendeu-se com um brilho vermelho suave.

    — Mas eu já sei usar a gema da força! — protestou ela, a luz em seu colar pulsando em sintonia com sua emoção. — Posso levantar coisas pesadas, correr mais rápido, me defender! Posso me cuidar sozinha!

    Quixotina respirou fundo.

    — Você ainda não dominou completamente a gema — mentiu, o gosto da mentira amargo em sua boca. — Iria apenas correr perigo! Agora fique em casa e se comporte!

    Quixotina olhou para a filha, e algo se partiu um pouco dentro dela. “Apesar de que isso é mentira”, pensou, observando o controle que a menina já tinha sobre a gema. “Ela já domina a gema da força melhor do que eu na sua idade. Aprendeu até mais rápido. Mas eu, Silvestre e Silvana temos experiência em combate. Sabemos quando atacar, quando recuar, quando fugir. Isso vale mais que qualquer poder.”

    Dulcinéia ficou imóvel por um momento, seus olhos fixos na mãe como se tentando decifrar a verdade por trás das palavras. Então, com um movimento brusco, ela virou-se e correu para seu quarto. A porta fechou-se com um baque que fez as janelas tremerem — e sim, Quixotina percebeu o leve brilho da gema no momento do impacto.

    Carlos assobiou baixinho.

    — Se já está assim agora — comentou ele, um sorriso meio preocupado, meio divertido tocando seus lábios —, quero ver quando for adolescente e estiver naquela fase. Boa sorte para você.

    Quixotina olhou para ele, uma expressão de exaustão maternal em seu rosto.

    — Boa sorte para nós! — corrigiu ela. — Você vai cuidar dela também, lembra?

    Carlos riu — um som genuíno e quente que sempre fazia algo estranho acontecer no peito de Quixotina.

    — Por que “boa sorte para nós”? — ele perguntou, seus olhos brilhando com uma luz que ela não conseguia decifrar completamente. — Já sei lidar com você muito bem. E sei lidar com a mini você também.

    Quixotina arqueou uma sobrancelha, um sorriso sarcástico tocando seus lábios.

    — Sabe lidar comigo? — repetiu ela, cruzando os braços. — Só em seus sonhos! Me diga então, ó grande estrategista, como planeja lidar com ela agora?

    Carlos encolheu os ombros, um gesto despretensioso.

    — Apenas vou ali na esquina comprar um belo sorvete de chocolate com calda de morango — ele começou, contando nos dedos. — Trago para ela. Depois desafio-a para uma partida de futebol. Ou, se ela não quiser sair, desafio-a para uma partida de xadrez. To ensinado ela a jogar.

    Quixotina ficou sem palavras. Observou-o por um longo momento, sua mente processando a simplicidade quase ofensiva do plano — e sua provável eficácia.

    — Esse… — ela admitiu finalmente, em tom de derrota — é um bom plano.

    Ela levantou-se, vestindo a mochila. O peso familiar em seus ombros era quase reconfortante.

    — Vou ir agora — disse ela, ajustando as alças. — Vamos explorar mais longe do que nunca. O mapa da região está quase completo, mas quero ver se encontro alguma fonte de ferro.

    Ela fez uma pausa, seus olhos encontrando os dele.

    — Já que este não é o seu mundo — continuou, um tom mais suave entrando em sua voz —, talvez tenhamos metais diferentes aqui. Talvez até… ferro.

    Carlos assentiu, seu rosto agora sério.

    — Tudo bem — disse ele. — Mas se cuide. E… — ele hesitou, algo incomum para ele —, não se afaste muito além das marcações anteriores, certo?

    — Certo.

    Ela saiu, a porta fechando-se suavemente atrás dela. O som da cidade a envolveu — martelos batendo nas novas construções, como hoje era dia de folga, havia menos pessoas nas ruas, mas mais pessoas em bares, restaurantes e lanchonetes

    No orfanato, Silvestre e Silvana já estavam esperando.

    Silvestre, de doze anos, mexia nervosamente com as tiras de sua mochila, seus olhos escaneando o céu como se já estivesse voando. Silvana, de doze também, estava sentada no degrau da entrada, seus olhos — de um amarelo estranho que não era totalmente humano — fixos em algo distante que só ela podia ver. Em sua cabeça, mesmo em forma humana, um par de orelhas pontudas de loba negra tremiam ocasionalmente, captando sons que os ouvidos humanos perdiam.

    — Prontos? — Quixotina perguntou, sua voz assumindo o tom profissional de professora-exploradora.

    Ambos assentiam. Sem mais cerimônias, eles entraram na Mata da Onça pelo caminho já aberto. Assim que as árvores os envolveram, o mundo mudou. O som da cidade desapareceu, substituído pelo canto dos pássaros, pelo farfalhar das folhas, pelo cheiro profundo e úmido da terra e da vegetação em decomposição.

    Silvestre não perdeu tempo. Seu corpo contraiu-se, seus ossos estalando em uma transformação que ainda fazia Quixotia estremecer interiormente. Em segundos, onde estivera um menino, agora havia um falcão de penas marrons e bege — não um pássaro comum, mas uma criatura com olhos muito inteligentes e um brilho estranho em suas penas.

    Ele levantou voo, desaparecendo entre as copas das árvores.

    Silvana seguiu um processo diferente — mais lento, mais doloroso aparentemente. Seus ossos estalavam alto, sua pele parecia vibrar, e então ela estava em quatro patas, uma loba negra do tamanho de um pequeno cavalo, com olhos amarelos que agora olhavam para Quixotina com uma inteligência reconhecível.

    Quixotina montou, enterrando os dedos na pelagem espessa e quente. Era estranho — a textura era de pelo de lobo, mas o calor era humano. Eles partiram, a loba movendo-se pela mata com uma graça silenciosa que nenhum cavalo conseguiria igualar.

    Por horas, seguiram as marcações familiares — marcas de facão em árvores, pilhas de pedras, fitas coloridas que Quixotina deixara em expedições anteriores. Mas então chegaram ao limite do mapa. Eles ainda não haviam explorado esta a região porque a mata aqui, a mata era muito mais fechada, as árvores mais velhas, o ar mais pesado e úmido.

    Quixotina desmontou. Silvana se transformou de volta — um processo que parecia menos doloroso que a transformação em loba — por sorte suas roupas e itens se transformaval com ela.

    — Vamos abrir caminho — Quixotina disse, desembainhando seu facão.

    A lâmina cortou a vegetação com um som satisfatório. Enquanto trabalhava, ela fazia novas marcações no tronco das árvores — um “X” para indicar o caminho, uma seta para a direção de retorno.

    Foi então que Silvestre desceu, transformando-se de volta em menino. Ele estava suado, respirando pesadamente.

    — Ficar em forma de pássaro por muito tempo cansa — explicou ele, sentando-se em uma pedra. — A mente… começa a se confundir. Começo a pensar como pássaro, a querer ficar voando, a esquecer…

    Seu peito subia e descia rapidamente. Através da camisa molhada de suor, Quixotina podia ver o leve brilho da gema Mboae embutida em seu esterno — uma pedra irregular e feia, cirurgicamente implantada quando ele tinha talvez seis anos.

    “Que coisa horrível”, pensou Quixotina, como fazia toda vez que via as gemas. “Como puderam abrir o peito de crianças e colocar essas pedras ali? Que tipo de monstro faz isso?”

    — Professora — Silvestre disse, quebrando seus pensamentos. — Posso fazer uma pergunta?

    — Claro que pode — Quixotina respondeu, continuando a abrir caminho.

    — Por que não usam adeptos da visão para nos ajudar a explorar a mata? Seria mais fácil, não? Eles poderiam ver através das árvores, encontrar clareiras…

    Quixotina parou, limpando o suor da testa com o braço.

    — Essa é uma boa pergunta — ela admitiu. — E a resposta é que adeptos da visão são bons para ver coisas vivas, para ver energias mágicas ativas, ferramentas com gemas carregadas… mas têm dificuldade para ver através do solo em busca de minérios.

    Ela apontou para a terra com o facão.

    — Mesmo para jazidas de gemas mágicas naturais — continuou —, eles não conseguem vê-las se as pedras nunca foram ativadas. Algumas gemas são completamente invisíveis aos seus olhos até que alguém as toque com mana pela primeira vez. Além disso, eles não são tão comuns e são mais úteis no exército, ainda mais com as armas de Carlos.

    Silvestre pareceu processar a informação.

    — Hmm… entendo — disse ele, antes de se transformar novamente e levantar voo.

    Foi então a vez de Silvana, que raramente iniciava conversas.

    — Professora — sua voz era mais suave que a de Silvestre, quase um sussurro. — O presidente Carlos… ele é uma boa pessoa?

    A pergunta pegou Quixotina de surpresa. Ela baixou o facão, virando-se para encarar a menina. Os olhos amarelos de Silvana estavam sérios, avaliadores.

    — Sim — Quixotina respondeu, a sinceridade em sua voz surpreendendo até ela mesma. — Ele é uma pessoa muito boa. Fez mais por todos na República do que qualquer um antes dele.

    Ela percebeu que estava começando a falar rápido, as palavras saindo quase por vontade própria.

    — Ele é inteligente, gentil, trabalhador, pensa sempre nos outros antes de si mesmo, e mesmo vindo de outro mundo ele se importa mais com as pessoas daqui do que muitos que nasceram…

    Ela tossiu, interrompendo-se. “Ainda bem que ele não está aqui para me ouvir”, pensou, seu rosto esquentando. “Será que ele ficaria feliz? Ou ficaria constrangido? Ou pior, tentaria implicar comigo sobre isso depois? Provavelmente as três opções.”

    Silvana observou-a, suas orelhas de loba tremendo levemente.

    — Hmm — foi tudo que ela disse por um momento. Então: — Por que o interesse súbito nele?

    Quixotina voltou a cortar a vegetação, tentando parecer despreocupada.

    — É que outro dia, no aniversário de Dulcinéia — Silvana começou, sua voz ainda baixa —, ele disse que queria fazer carinho em minhas orelhas. Ficou olhando para elas. Será que ele faria isso mesmo?

    Quixotina olhou para as orelhas em questão — negras, peludas, pontudas, tremendo ocasionalmente com sons imperceptíveis. Como professora, ela sempre tentara não mostrar sua repulsa inicial, mas a primeira vez que as vira… bem, pareciam algo saído de um pesadelo. Mas Carlos era diferente.

    — Ele faria sim — Quixotina confirmou, sua voz mais suave. — Já me comentou que acha suas orelhas e seu rabo muito… fofos. Até me perguntou se eu já toquei neles.

    Nesse momento, algo mudou no rosto de Silvana. Uma expressão de profunda vulnerabilidade cruzou seus traços, seguida por uma encabulamento que era completamente humana.

    — Então ele é diferente de todo mundo — ela sussurrou, quase para si mesma. — Você pode dizer para ele… que pode sim tocar neles. Na próxima vez que nos virmos.

    Quixotina sentiu uma dor aguda no peito — não física, mas emocional. Porque ela também fazia parte desse “todo mundo” que via Silvana e Silvestre como aberrações, como experimentos falhos, como lembretes viventes da crueldade humana.

    — Avisarei a ele — prometeu Quixotina, sua voz um pouco mais grossa do que pretendia.

    Foi então que Silvestre desceu do céu em uma descida quase vertical, transformando-se em humano a meio metro do chão — um truque que ele adorava mostrar.

    — Professora! — sua voz estava cheia de excitação. — Encontrei algo! A sudeste, há uma clareira estranha! As árvores… elas formam um círculo perfeito! E no centro… tinha algo estranho!

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