Índice de Capítulo

    O ar na mata densa parecia ficar mais pesado após as palavras de Silvestre. Quixotina baixou o facão, a lâmina ainda refletindo a luz filtrada que atravessava a copa das árvores.

    — Uma clareira? — ela repetiu, sua voz mais baixa, como se temesse perturbar algo antigo que dormia na floresta.

    — Sim — Silvestre confirmou, seus olhos ainda arregalados da descoberta. — Mas não só isso. Havia… estruturas. Pilares de um roxo escuro, quase preto. E no centro, um altar do mesmo material.

    Ele fez uma pausa, engolindo seco.

    — E estava tudo quieto. Estranhamente quieto.

    Quixotina sentiu um frio percorrer sua espinha que nada tinha a ver com a temperatura da mata. Seus dedos apertaram o cabo do facão.

    — Havia algum monstro por perto? Algum sinal de vida?

    — Nenhum — Silvestre balançou a cabeça. — Nem pássaros, nem insetos. Até o vento parecia parar naquela clareira. O que faremos, professora? Vamos investigar?

    Quixotina manteve-se imóvel, sua mente acelerando. “Não se conhece nenhuma tribo que viva nessas matas”, pensou, seus olhos escaneando a vegetação ao redor como se esperasse ver respostas escondidas entre as folhas. “Nem se avistou ninguém em todas as nossas expedições. Como pode haver um altar aqui, no meio do nada? Pilares trabalhados, um altar… isso não é natural. É construído.”

    Ela lembrou-se das histórias que ouvira no quilombo — lendas de lugares antigos, mais velhos que a colonização, onde os espíritos da terra ainda mantinham poder. Lugares que não gostavam de ser perturbados.

    “E se for perigoso?”, continuou seu pensamento. “Se eu tivesse um adepto da visão agora… alguém que pudesse ver energias, armadilhas, presenças ocultas…”

    Quixotina suspirou, o som carregado de resignação.

    — Vamos voltar — ela decidiu, sua voz firme apesar da dúvida que sentia. — Vamos relatar o ocorrido. Da próxima vez, voltaremos com uma equipe maior. E apenas eu — ela olhou para as duas crianças —, vocês ficarão em casa.

    Silvana soltou um suspiro quase imperceptível de alívio, suas orelhas de loba tremendo levemente. Mas Silvestre ficou com os lábios apertados, uma expressão de decepção profunda em seu rosto.

    — Mas por quê? — protestou ele, seus punhos se fechando. — Agora que estou começando a ser útil para a República! Além disso, eu faço parte da equipe de exploração!

    Quixotina balançou a cabeça, um gesto final.

    — Nada disso — ela disse, sua voz assumindo o tom de professora que não admitia discussão. — Vocês fazem parte da equipe de exploração, não de combate. E Silvestre — ela acrescentou, aproveitando a oportunidade —, se não me engano, suas notas em matemática andam caindo. Quando ficar no orfanato, aproveite e estude!

    O menino pareceu encolher-se. Toda sua animação anterior desapareceu como fumaça ao vento.

    — Tudo bem… — ele murmurou, baixando os olhos para o chão coberto de folhas secas. — Mas já que estamos aqui, podemos pelo menos coletar algumas pedras para o presidente? Ele sempre fala que precisa de mais amostras de minerais.

    Quixotina sentiu uma pontada de culpa ao ver sua expressão, mas manteve-se firme.

    — Claro — ela concordou, seu tom mais suave. — É para isso que viemos, afinal. Apesar de que até agora não encontrei nenhuma pedra que se pareça com os minérios que Carlos descreve.

    Os próximos vinte minutos foram passados em relativo silêncio, apenas quebrado pelo som de pedras sendo viradas e examinadas. Quixotina ensinava enquanto trabalhavam:

    — Vejam esta, com essas listras — ela disse, mostrando uma pedra listrada de branco e cinza. — Pode ser algum tipo de quartzo. E esta mais pesada, com brilho metálico… talvez tenha algum mineral de ferro, mas não é o minério puro que Carlos precisa.

    Eles encheram uma pequena bolsa com amostras, cada pedra cuidadosamente embrulhada em folhas largas para evitar que se arranhassem umas às outras.

    — Agora vamos — Quixotina ordenou, guardando a bolsa em sua mochila.

    Logo os três aproveitaram e pegaram algumas pedras antes de começarem a voltar. Quixotina e Silvana começaram a caminhar de volta pelo caminho marcado, enquanto Silvestre, após guardar suas amostras, se transformou novamente em pássaro e levantou voo, desaparecendo entre as copas das árvores.

    — Mantenha-se próximo! — Quixotina chamou para o céu, mas não teve resposta além do farfalhar das asas que rapidamente se distanciou.

    Ela suspirou. “Ele sempre faz isso”, pensou. “A emoção de voar o faz esquecer as instruções.”

    Quixotina começou a voltar pelo caminho que viera, seus olhos buscando as marcações familiares nas árvores. O som de Silvestre voando acima logo se perdeu no canto dos pássaros e no farfalhar das folhas.

    Até que em um momento, ela notou algo de errado.

    “Ué”, pensou, parando abruptamente. “A árvore que marquei com três cortes… era por aqui.”

    Sua frente, onde deveria estar uma árvore marcada, havia apenas uma árvore sem cortes, com uma casca diferente da que ela lembrava.

    Na mesma hora, um frio percorreu sua espinha. Quixotina pegou sua bússola do cinto e abriu o estojo. Para seu desespero, a agulha não apontava para norte — girava loucamente, balançando de um lado para o outro como se tivesse vida própria.

    Ela se aproximou de Silvana, que observava com olhos arregalados. Suas mãos encontraram as da menina — estavam frias e úmidas.

    — Não saia de perto de mim — Quixotina ordenou, seu aperto quase doloroso. — Não solte minha mão por nada.

    Silvana apenas assentiu, seus dedos se fechando como garras ao redor da mão da professora.

    “Tudo bem”, pensou Quixotina, tentando acalmar a respiração que começava a acelerar. “Ainda temos Silvestre. Ele está voando acima, deve estar nos acompanhando. Se algo estiver errado, ele verá.”

    Ela ergueu os olhos para o céu, buscando a forma familiar do falcão entre as copas.

    Mas não viu Silvestre.

    Não viu pássaro nenhum.

    Aliás, a mata estava… silenciosa. O canto constante dos pássaros que acompanhara sua jornada cessara. O farfalhar das folhas ao vento parara. Até os insetos pareciam ter silenciado.

    “Calma, Quixotina”, ela murmurou para si mesma. “Às vezes ele se distrai, vai mais adiante, explora. Perdeu-nos por um minuto. Vamos refazer nossos passos, ele nos encontrará.”

    Ela se virou, tentando encontrar o caminho de volta pelas marcações. Mas onde deveria haver a trilha que abrira com seu facão, havia apenas vegetação densa e intocada. Não havia sinais de passagem recente — as plantas não estavam cortadas, as folhas não estavam pisadas.

    Nesse momento, o medo tomou conta completamente — não o medo racional do perigo conhecido, mas o pavor profundo do inexplicável.

    Quixotina ergueu o facão. Não porque fosse a decisão certa — sua mente de exploradora sabia que vagar perdida era pior que ficar parada — mas porque fazer algo era melhor que ficar imóvel enquanto o mundo ao redor deixava de fazer sentido.

    — Vamos — ela disse, sua voz soando estranhamente alta no silêncio opressivo.

    Ela começou a abrir caminho novamente, mas algo estava profundamente errado. As plantas que cortava pareciam… resistir. E pior: conforme avançava, a mata à frente ficava mais densa, as árvores mais próximas, os galhos mais baixos e emaranhados. Era como se a floresta estivesse se contraindo ao seu redor, fechando-se como um punho.

    A mão de Silvana escorregava da sua, ambas suando tanto que o aperto começava a falhar. Quixotina parou, limpou as mãos em suas calpas, e agarrou a mão da menina novamente com força renovada.

    — Não solte — ela ordenou, mais para si mesma do que para Silvana.

    E então, após cortar um emaranhado particularmente denso de cipós que pareciam quase intencionais em sua obstrução, ela viu.

    A clareira.

    A transição foi abrupta — da mata quase impenetrável para um círculo perfeito de terra nua. E no centro…

    Quixotina engoliu seco. Quatro pilares de uma pedra violeta tão escura que quase parecia preta à primeira vista, mas que, quando a luz fraca do dia a atingia em determinado ângulo, revelava tons profundos de púrpura e índigo. Eles estavam dispostos em um quadrado perfeito, cada um coberto de inscrições que não se pareciam com nenhuma escrita que Quixotina já vira — eram formas geométricas angulares, espirais que pareciam mover-se quando se olhava fixamente, padrões que doíam nos olhos.

    No centro dos pilares, uma série de degraus do mesmo material levava a um altar baixo e largo, também coberto pelas mesmas inscrições perturbadoras.

    — Professora… — Silvana sussurrou, sua voz tão baixa que quase se perdeu. — Como viemos parar aqui?

    Quixotina também queria saber. Ela olhou para trás, para o caminho que supostamente tinham vindo, mas havia apenas a parede de vegetação. Olhou para o céu — nem sinal de Silvestre, nem de pássaros, nem de nada.

    Até que ouviram o som.

    Vinha de trás do pilar mais próximo — um arrastar suave na terra seca. Quixotina reagiu por instinto. Sua mão voou ao coldre, puxando o revólver. Ela apontou para o pilar, seus dedos no gatilho.

    — Saia! Mostre-se!

    Para seu alívio agonizante, foi Silvestre quem emergiu de trás do pilar, mas não como pássaro — em forma humana, pálido, tremendo, com um hematoma na testa.

    — Calma! Sou eu! — ele gritou, suas mãos levantadas.

    Quixotina baixou a arma, mas não a guardou. Ela se aproximou do menino, seus olhos escaneando-o rapidamente em busca de ferimentos ou… qualquer coisa fora do normal.

    — Por que você está aqui? — ela perguntou, sua voz mais áspera do que pretendera. — Era para ficar perto de nós!

    — Eu não sei — Silvestre respondeu, seus olhos arregalados e confusos. — Eu estava voando, seguindo vocês de cima, quando… passei por uma espécie de névoa. Não era nuvem, era… diferente. E do nada me vi aqui, perto da clareira.

    Ele passou uma mão na testa, onde um hematoma vermelho e roxo começava a se formar.

    — E senti meus poderes se esvaindo — continuou ele, sua voz quebrada. — Como se a gema estivesse dormindo. Tive que pousar, mas sem me preparar… acabei batendo a cabeça neste pilar. Acordei agora, ouvindo suas vozes.

    “Isso… é assustador”, pensou Quixotina, seu olhar percorrendo os pilares, o altar, a mata impenetrável ao redor. Tudo aqui desafiava a lógica. Tudo aqui era errado.

    — O que vamos fazer agora? — Silvestre perguntou, e pela primeira vez desde que o conhecia, Quixotina ouviu medo genuíno em sua voz — não o medo excitado da aventura, mas o medo profundo e primitivo do desconhecido.

    Quixotina respirou fundo. Ela estava tão perdida quanto eles, mas era a adulta. Tinha que fazer algo.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota