185. Desespero
Suprimindo seus medos, Quixotina começou a falar.
— Silvana — ela ordenou, sua voz recuperando um fio de autoridade —, pegue a mão de Silvestre. Não solte por nada.
— Com os três de mãos dadas, não nos separaremos — ela explicou, mais para se convencer do que para eles. — Agora eu vou tentar abrir um caminho para fora da clareira.
Ela os levou até a borda onde a mata começava — ou onde deveria começar. Com uma mão ainda segurando Silvana, ela ergueu o facão com a outra e cortou.
A lâmina encontrou resistência. As plantas não eram apenas densas — pareciam quase intencionais em sua obstrução. E pior: conforme ela cortava, as plantas atrás dela começavam a crescer. Não rapidamente, mas com uma velocidade antinatural, fechando o caminho quase tão rápido quanto ela o abria.
“Merda!”, pensou Quixotina, o suor escorrendo por suas costas. “Tem algum adepto da grama aqui perto? Controlar plantas assim… não, isso não é controle. É como se a própria mata estivesse viva. Como se estivesse nos mantendo aqui.”
Desesperada, ela olhou para trás. Os rostos pálidos e assustados dos adolescentes a encaravam. E então ela notou algo que a fez gelar.
Ainda deveria ser manhã, ou no máximo meio-dia. Mas a luz na clareira estava mudando — ficando mais dourada, mais fraca, como a luz do fim da tarde. E os pilares… os pilares pareciam mais altos. O altar parecia mais distante. E eles estavam mais próximos do centro do que estavam momentos antes.
“A clareira está diminuindo”, o pensamento explodiu em sua mente. “Mas isso é impossível! Nada disso é possível!”
Silvana e Silvestre seguiram seu olhar. Seus rostos, já pálidos, ficaram ainda mais brancos quando perceberam a mesma coisa.
— Professora… — Silvestre começou, mas nunca terminou a frase.
Ele começou a se contorcer, seus pés arrastando-se na terra como se algo invisível os estivesse puxando em direção ao altar.
— Não… — ele gemeu, seus dedos se apertando nos de Quixotina.
No início, Quixotina pensou que fosse pânico, uma reação histérica. Mas então ela sentiu a pressão em sua própria mão — uma força constante, implacável, puxando-os para o centro da clareira.
Silvestre gritou — um som agudo de terror puro. Sua irmã reagiu instantaneamente. Seus braços contorceram-se, transformando-se parcialmente em garras peludas que se enterraram no braço do irmão, segurando-o com força desesperada. Sangue começou a escorrer onde suas garras perfuraram a pele, mas ela não soltou.
A força agora puxava todos eles. Quixotina ativou sua gema da força — o colar em seu pescoço brilhando com uma luz âmbar fraca, como se também estivesse lutando contra algo na clareira. Ela plantou os pés no chão, mas a terra sob ela começou a ceder, a deslizar, como areia movediça.
Ela largou o facão — a arma caiu no chão com um baque surdo, completamente ignorada pela força invisível. Com a mão livre, ela agarrou um galho baixo de uma árvore na borda da clareira. O galho rachou sob seu peso, mas não quebrou completamente.
Usando a força aprimorada por sua gema, Quixotina puxou-se mais perto da árvore, abraçando o tronco fino com um braço. Com o outro, ela puxou Silvana, que por sua vez puxava Silvestre. As garras da menina estavam tão enterradas na carne do irmão que Quixotina podia sentir o sangue quente escorrendo sobre seus próprios dedos.
Mas a força era muito grande. Mesmo com sua força aumentada, mesmo com Silvana transformada parcialmente, eles estavam perdendo terreno centímetro por centímetro.
Foi então que ouviram o som.
Vinha do outro lado da clareira — um estilhaçar de madeira, um rugido profundo e raivoso. Árvores estavam sendo dobradas até o chão por algo enorme.
A cada árvore que caia, o chão tremia. Até que, com um estrondo final, uma criatura irrompeu na borda oposta da clareira.
Um Boitatá. Mas não como os relatos descreviam — não uma serpente de fogo, mas uma besta colossal do tamanho de uma casa, seu corpo coberto por escamas negras que refletiam a luz fraca com tons de vermelho-sangue. Seus olhos eram duas brasas ardentes, entre eles havia uma gema na testa da fera.
A besta rugiu, um som que fez o ar tremer. Mas não era um rugido de ataque — era um rugido de pânico. O Boitatá estava lutando contra a mesma força que puxava os humanos, tentando deslizar para fora da clareira.
Ele resistiu com uma força que arrancou árvores adultas pela raiz, que fez a terra tremer. Mas não foi suficiente.
A força invisível o levantou do chão. A besta colossal flutuou até o centro do altar, entre os quatro pilares, suspensa no ar como uma marionete. E então começou a se contorcer.
Os ossos quebraram com estalidos altos e úmidos que ecoaram na clareira. O corpo poderoso se dobrou sobre si mesmo, contraindo-se em uma massa de carne e escamas que diminuía, encolhia, sendo compactada. A besta rugia em agonia, mas os sons foram se tornando mais fracos, mais abafados, até silenciarem completamente.
O que restou foi uma esfera compacta do tamanho de uma cabeça humana, que então começou a se desfazer — não em pedaços, mas em nada, desaparecendo no ar como fumaça. Por último, o sangue que pingava do que restara da criatura foi sugado para o altar, desaparecendo nas inscrições como água em areia seca.
Os três humanos ficaram paralisados, horrorizados. Tanto que nem notaram quando a força que os puxava cessou subitamente.
Foi um raio que os despertou — não um raio de tempestade, mas um relâmpago de luz violeta escura que atingiu o centro do altar onde o Boitatá desaparecera. A luz não veio do céu — surgiu do próprio altar, um pulso de energia que fez os pilares vibrarem e emitirem um zumbido baixo e perturbador.
Silvana reagiu primeiro. Sem pensar, ela se transformou completamente — não o processo gradual de antes, mas uma mudança instantânea que fez seus ossos estalarem em protesto. Em segundos, uma loba negra gigantesca estava no lugar da menina.
Ela mordeu a camisa de Silvestre, jogando-o em suas costas com um movimento de cabeça. Fez o mesmo com Quixotina, que mal teve tempo de reagir antes de se encontrar montada no lombo peludo da besta.
Então a loba saltou.
Não em direção à mata impenetrável ao redor, mas para cima, em direção às copas das árvores. Seus músculos poderosos a impulsionaram sobre a borda da clareira, sobre a parede viva de vegetação, até as alturas da floresta.
Lá em cima, um mundo diferente os esperava. Árvores antigas e gigantescas formavam uma plataforma irregular acima do dossel normal. Silvana correu sobre os galhos grossos como pontes naturais, saltando de uma árvore para outra com uma agilidade que desafiava a lógica, cada salto os levando mais longe da clareira, mais longe do altar, mais longe do inexplicável.
Ela não parou até que tivessem percorrido pelo menos um quilômetro, até que os sons da floresta normal — pássaros, insetos, o vento — tivessem retornado, até que o sol no céu estivesse novamente em sua posição correta para a manhã.
Só então ela desceu, transformando-se de volta em humana e caindo de joelhos, ofegante, o suor escorrendo por seu rosto pálido.
Enquanto isso, na clareira que agora parecia muito menor do que antes, algo se materializou sobre o altar. Uma forma humanóide, mas não completamente humana. E ao seu redor, os quatro pilares violeta agora brilhavam com uma luz interna fraca, como se satisfeitos, como se alimentados.
Mas os três fugitivos não viram isso. Estavam muito ocupados tentando recuperar o fôlego, tentando processar o que tinham visto, tentando entender como voltariam para casa depois de testemunharem algo que desafiava tudo o que conheciam sobre seu mundo.
E em suas mentes, uma certeza começava a se formar: a mata guardava segredos muito mais antigos e muito mais perigosos do que qualquer monstro ou qualquer exército colonial. E alguns desses segredos eram melhores deixados intocados.
Mesmo longe da clareira, mesmo com a mata parecendo ter voltado ao normal — os pássaros cantando, o vento soprando, os insetos zumbindo —, os três continuavam tremendo. Não era apenas o tremor físico do esforço, mas uma tremedeira profunda, interna, que vinha dos ossos e se espalhava por cada músculo.
Sentados no tronco caído de uma árvore antiga, a cerca de três quilômetros do local do horror, eles respiravam ofegantemente. O cheiro de medo ainda impregnava suas roupas — um odor ácido de suor e adrenalina que se misturava ao aroma úmido da floresta.
Quixotina olhou para suas mãos primeiro. A direita estava ensanguentada, com arranhões profundos das garras de Silvana durante o momento de desespero. A pele estava rasgada em vários lugares, e o sangue ainda escorria, quente e pegajoso. Ela então olhou para Silvestre — a mão esquerda do menino estava muito pior. As perfurações onde as garras da irmã se enterraram eram profundas, e o sangue fluía em fios finos e constantes.
— Vamos cuidar disso — ela disse, sua voz ainda trêmula mas recuperando um fio de autoridade profissional.
Abrindo sua mochila com mãos que tremiam, Quixotina retirou o kit de primeiros socorros. Dentro, havia ataduras limpas, um frasco do anti-séptico e uma pomada feita com ajuda da gema da cura.
— Isso vai arder — ela avisou a Silvestre antes de aplicar o anti-séptico no ferimento do menino.
Ele apertou os dentes, um silvo escapando entre eles, mas não chorou. Sua irmã, ainda em forma humana, observava com olhos cheios de culpa.
— Foi para salvá-lo — Quixotina disse suavemente a Silvana, enquanto enfaixava a mão de Silvestre com movimentos firmes e precisos. — Se não fosse por você, ele teria sido levado. Essas marcas são um preço pequeno.
Ela então tratou suas próprias feridas, limpando o sangue e aplicando o ungüento que esfriava a pele ardida. Silvana se ofereceu para ajudar, suas mãos — agora humanas novamente — tremendo levemente enquanto aplicava a atadura na mão da professora.
Por quase vinte minutos, eles permaneceram em silêncio. O único som era o da respiração ainda ofegante, o farfalhar das folhas, e ocasionalmente o choro abafado de Silvestre, que agora, na segurança relativa da distância, deixava as lágrimas finalmente caírem.
Quixotina observou a mata ao redor. Tudo parecia normal. Demasiadamente normal. Como se os últimos acontecimentos fossem um pesadelo coletivo. Mas as mãos enfaixadas, o medo ainda presente em seus olhos, e o cansaço profundo que sentia eram prova suficiente de que não fora um sonho.
— Precisamos voltar — ela disse finalmente, levantando-se. Suas pernas tremiam, mas se sustentaram. — Quanto mais longe daquele lugar, melhor.
Ninguém discutiu. Silvana se transformou novamente em loba — desta vez, o processo pareceu mais lento, mais doloroso, como se seu corpo também estivesse traumatizado pela experiência. Silvestre transformou-se em pássaro, mas desta vez voava baixo, quase rente ao solo, como se temesse subir muito alto.
A jornada de volta foi feita em um silêncio tenso. Quixotina, com sua gema da força ativada, corria ao lado da loba, seus passos impulsionados não apenas pela magia, mas pelo puro instinto de fuga. Silvana corria com uma velocidade sobrenatural, seus pulmões expandindo e contraindo como foles, sua pelagem negra emaranhada de galhos e folhas. Silvestre voava como uma flecha, mas frequentemente olhava para trás, como se esperasse ver algo os perseguindo.
Eles não pararam uma única vez. Não para descansar, não para beber água, não para verificar o caminho. Correram em linha quase reta em direção à República, essa região da mata eles já conheciam como a palma da mão, guiados por um instinto primal de retornar à civilização, às pessoas, à segurança do conhecido.

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