187. Esquemas
A praça diante da catedral da Cidade Sagrada respirava uma beleza quase sobrenatural nesta época do ano. O ar carregava o perfume doce e delicado dos ipês brancos em plena floração — milhares de flores como flocos de neve presos aos galhos retorcidos, contrastando com o azul profundo do céu sem nuvens. O sol da tarde banhava tudo em uma luz dourada que fazia as pedras antigas da catedral parecerem quentes ao toque.
Dom Orsini estava sentado em um banco de pedra gasto pelo tempo e pelos fiéis, sua figura robusta encaixada confortavelmente no assento como se fizesse parte da paisagem. Em suas mãos, segurava não uma bíblia ou um missal, mas uma edição do Jornal da Jabuticaba.
“Ouvi dizer que foi Tassi, da República, que fez esses ipês crescerem tão rápido”, pensou ele, seus olhos percorrendo as árvores que transformavam a praça em um sonho. “Ela é uma figurona por lá. Adepta da grama e terra de nível excepcional. A Papisa nem esconde mais seus laços com a República… mas, para ser justo, até que a entendo.”
Ele suspirou, um som que se perdeu no canto dos pássaros que disputavam espaço nos galhos floridos. Seus dedos viraram a página do jornal.
Seus olhos percorreram as manchetes:
“CASTELO GARCIA CAI: O FIM DE UMA ERA DE TERROR”
“ESPECTRO POUPA PEIXOTO EM ATO DE GENEROSIDADE REPUBLICANA”
“BARONESA DE SANGUE: OS HORRORES REVELADOS”
Orsini leu com uma atenção que era metade pastoral, metade política. Sua mente, treinada para ler entrelinhas em disputas eclesiásticas, encontrava significados ocultos em cada frase.
“O Castelo Garcia, em cima de uma colina, era para ser uma fortaleza impenetrável”, lia ele, seus lábios movendo-se silenciosamente. “Mas diante das novas armas da República, caiu como um castelo de cartas.”
Ele fez uma pausa, seus olhos levantando-se para observar a catedral. “Como sempre, capitães do mato e bandeirantes lutaram lado a lado com os senhores de engenho. E no fim, muitas vidas inimigas foram tomadas. Mas não devem sentir pena deles…”
Orsini leu os detalhes sobre a Baronesa de Sangue — os dentes arrancados das escravas, as torturas que terminavam em morte, os ossos de crianças encontrados atrás de suas propriedades. Sobre Garcia e suas “pinturas” que registravam sessões de tortura com formigas, facas, fogo.
“Porém a República sempre é generosa com aqueles que escolhem o caminho certo”, continuou o texto. “Por exemplo, Peixoto, apesar de ser um senhor de engenho, teve sua vida e terras poupadas graças à generosidade do Comandante-Geral Espectro. Mas não se preocupe: cada um de seus ex-escravos recebeu o devido pagamento pelos anos trabalhados, assim como compensação pelas torturas sofridas. Qualquer senhor de engenho que queira se render será bem-vindo à República, que não discrimina a cor de nenhum — todos são iguais perante a lei.”
O jornal então passou a detalhar relatos pessoais — escravos que trabalharam sob a Baronesa, homens que sobreviveram às torturas de Garcia, famílias que receberam indenizações de Peixoto. Histórias de horror, seguidas por histórias de reparação.
Orsini fechou o jornal lentamente, seus dedos alisando a página como se tentando sentir a verdade através do papel.
“Realmente bárbaras, as coisas que eles faziam”, pensou ele, um peso antigo se instalando em seu peito. “Tantos os negros quanto brancos são bárbaros neste fim de mundo. Agora até entendo porque a Papisa pressionava os senhores de engenho menores para serem mais brandos… embora ela fosse impotente contra poderosos como a Baronesa de Sangue, que tinha laços até com o próprio governador.”
Ele olhou para a catedral novamente, para suas torres que pareciam alcançar o céu. “No fim, isso só demonstra que a Papisa está mais do lado deles do que do nosso. E cada vez mais ela se alia abertamente com a República, contrapondo-se a mim. Mas por quê? Ela é inteligente. Ela acha mesmo que a República passou a receita correta do aço? Ou vê algo mais neles? Algo que eu não vejo?”
Seus dedos, quase por vontade própria, viraram mais páginas do Jornal da Jabuticaba. Seus olhos pousaram em uma manchete menor, mas que chamou sua atenção imediatamente:
“A IGREJA PLANEJA AUMENTAR AS TAXAS NA CIDADE SAGRADA; A PAPISA PAULA DIZ SER CONTRA”
Orsini leu rapidamente, seus olhos escaneando as linhas. O artigo detalhava propostas de aumentos de taxas vindas da Cidade Sagrada de Alba — propostas que ele conhecia bem, tendo votado contra algumas no último concílio. Contrastava isso com a posição da Papisa Paula, que negociara cimento da República para melhorar estradas e calçadas, reduzindo encargos para os comerciantes.
“Isso…”, ele pensou, um frio percorrendo sua espinha, “certamente tem a mão da Papisa. ‘Fontes dentro da Catedral’? Quase certamente alguém que ela instruiu. Toda semana tem uma notícia falando mal da Igreja e de suas taxas, mas nunca da Papisa. Nunca vi nada parecido com esse tal jornal, mas agora entendo seu valor: é para informar, mas não só isso.”
Ele ergueu os olhos do papel, sua mente acelerando. “Todas as informações daqui estão corretas — os números, as propostas, os acordos — mas estão sendo apresentadas de uma maneira específica. Antagonizando a Igreja como instituição. Apresentando a Papisa como a salvadora. E a República sempre como o parceiro progressista.”
Um pensamento estratégico nasceu em sua mente. “Quando eu for Papa Supremo, acima dos papas das cidades sagradas, farei a Igreja fazer o próprio jornal. Não para mentir, mas para contar nossa versão. Para mostrar as obras de caridade, as escolas e claro, para falar bem de mim…”
Seus pensamentos foram interrompidos por um rangido pesado de eixos. Orsini ergueu os olhos. Uma carroça coberta por uma lona grossa passava pela praça, puxada por dois cavalos suados que pareciam lutar contra o peso. Esta não era a primeira carroça assim que ele via nas últimas semanas — já pedira para investigar.
Segundo os relatórios de seus homens, sob aquelas lonas havia tubos de aço enormes, bem trabalhados, presos a carroças com suportes especiais. “Mais um esquema entre a Papisa e a República”, ponderou Orsini, observando a carroça desaparecer atrás da catedral, na direção do novo armazém perto das muralhas orientais.
Ele não tinha como saber que se tratavam dos canhões — um dos maiores segredos da República. Para ele, eram apenas “tubos de aço”, parte de algum projeto de construção ou mineração. Mas o sigilo, a escolta armada, o fato de a Papisa permitir sua entrada na Cidade Sagrada… tudo isso falava de uma aliança mais profunda do que ele imaginara.
Seus pensamentos foram interrompidos por passos cuidadosos se aproximando. Dom Orsini não precisou virar-se para saber quem era — reconhecia o andar.
— Excelência — a voz era baixa, respeitosa, mas carregada de urgência.
Era Frei Mateus, um dos guardas mais próximos de Orsini — não um soldado, mas um homem da Igreja que entendia que, nestas terras, fé e proteção andavam de mãos dadas.
— Os homens do Papa Henrique — o frei começou, seus olhos escaneando a praça rapidamente antes de se abaixar como se ajustando o sapato —, estão planejando envenenar a Papisa. A mando dele, diretamente.
Orsini não se moveu, mas seus dedos se apertaram ao redor do jornal.
— Continue — ele disse, sua voz tão baixa quanto a do frei.
— Parece que ele não gostou da última descoberta da Papisa sobre a gema da grama — Frei Mateus continuou, seus olhos ainda baixos. — Em toda a Europa, eles estão clamando pela santa que está ajudando a acabar com a fome. O preço dos alimentos está despencando, os campos dando frutos como nunca… e o crédito vai para ela. Para uma mulher. No Novo Mundo.
Orsini fechou os olhos por um momento. “Enquanto a Papisa é idealista e quer mudar o mundo para o bem de todos”, pensou, “Henrique é invejoso e ganancioso. E eu aqui, entre os dois, tendo que navegar estas águas perigosas… talvez eu devesse ter ficado no Velho Mundo.”
Ele abriu os olhos.
— Obrigado pela informação, frei — disse, sua voz recuperando sua cadência habitual, mas mais fria. — Continue vigilante. E… prepare nossas próprias precauções.
Frei Mateus assentiu e se afastou, desaparecendo entre os ipês como um fantasma.
Orsini permaneceu sentado por mais alguns minutos, observando as flores balançando suavemente na brisa da tarde. O perfume doce agora parecia enjoativo. A beleza da praça, artificialmente acelerada pela magia republicana, parecia uma ilusão frágil.
Finalmente, com um esforço que fez suas articulações reclamarem, ele se levantou. Sua barriga — maior do que quando chegara ao Brasil, produto de jantares deliciosos nos restaurantes da região o fazia comer mais do que devia — protuberou sob sua batina. Ele ajustou o tecido, um gesto automático de vaidade que sobrevivera mesmo à sua devoção.
A catedral o recebeu com seu frescor habitual — o ar mais frio, o cheiro de incenso antigo, de cera derretida, de pedra úmida. O som de seus passos ecoou nas naves vazias, um som solitário que sempre o fazia sentir-se pequeno, insignificante perante a grandiosidade da Casa de Deus.
Ele caminhou até o escritório da Papisa, uma sala adjacente à sacristia. A porta estava entreaberta. Ele bateu levemente.
— Entre — a voz dela veio, clara e calma.
Orsini empurrou a porta. O escritório era simples para uma Papisa — uma mesa de madeira maciça coberta de papéis, mapas e algumas gemas brilhando suavemente em pequenos estojo de veludo. Estantes cheias de livros cobriam as paredes, não apenas obras teológicas, mas tratados de agricultura, de metalurgia, de história natural.
A Papisa estava sentada à mesa, uma carta aberta diante dela. Seus dedos — finos, delicados, mas com unhas curtas e levemente sujas de terra, como se ela tivesse estado no jardim antes da reunião — traçavam as palavras. Quando Orsini entrou, ela não se assustou, nem tentou esconder a carta. Apenas a levantou, acendeu uma vela próxima com um gesto fluido, e a queimou.
O papel pegou fogo rapidamente, as chamas lamberam as bordas antes de consumirem o texto. A fumaça subiu em espirais azuis e cinzas, carregando o cheiro doce de papel queimado e tinta.
Só então ela ergueu os olhos para encontrá-lo.
Seus olhos eram o que sempre impressionavam Orsini — de um azul lápis-lazúli tão profundo que pareciam conter oceanos inteiros dentro deles. Não eram olhos suaves, não eram olhos de santa de vitral. Eram olhos que viam, que analisavam, que sabiam.
Ela não sorriu imediatamente. Apenas observou-o, esperando.
— Santidade — Orsini começou, fazendo uma leve inclinação de cabeça. — Precisamos falar.
— Sempre precisamos falar, Dom Orsini — ela respondeu, sua voz melodiosa, mas com uma borda de cansaço que apenas quem a conhecia bem percebia. — O que traz você até meu humilde escritório? Mais relatórios sobre as “atividades suspeitas” da República ou as minhas “atividades suspeitas”?
Orsini ignorou o tom ligeiramente irônico.
— Não exatamente — ele disse, fechando a porta atrás de si. — É sobre… sua segurança.
A Papisa inclinou a cabeça, uma franja de cabelos castanhos escapando do véu simples que usava.
— Minha segurança está nas mãos de Deus, Dom Orsini. E, em termos mais terrenos, nas mãos dos homens bons que nos protegem.
— Nem todos os homens são bons — Orsini contra-atacou, aproximando-se da mesa. — E nem todos que professam servir a Deus o servem de verdade.
Ela observou-o, seus olhos azuis agora estreitando-se levemente.
— Você está se referindo a alguém em específico?
Orsini respirou fundo. Esta era a parte perigosa. Falar abertamente sobre o Papa Henrique era traiçoeiro. Mas ele havia feito sua escolha há muito tempo — a Papisa Paula era mais útil viva.
— Os homens do Papa Henrique — ele começou, suas palavras medidas como grãos em uma balança — estão planejando envenená-la. A mando dele. Ele não gosta de sua popularidade. Não gosta das descobertas com as gemas da grama. Não gosta que uma mulher no Novo Mundo esteja alcançando o que ele não consegue no Velho.
Ele fez uma pausa, observando-a. Esperava ver medo. Talvez raiva. Talvez aquela determinação fria que ela mostrava em momentos de crise. Esperava que ela se levantasse, que chamasse guardas, que começasse a planejar contra-ataques, defesas, estratégias.
Mas não foi isso que aconteceu.
A Papisa não se moveu. Seus olhos não se arregalaram. Sua respiração não acelerou. Em vez disso, algo estranho aconteceu em seus lábios.
Eles começaram a se curvar.
Lentamente, quase imperceptivelmente no início. Depois mais. E mais. Até que se tornou um sorriso amplo, largo, que revelou dentes perfeitos e brancos. Não era o sorriso sereno das pinturas sagradas, não era o sorriso bondoso de uma santa abençoando os pobres.
Era um sorriso de algo muito mais humano. Muito mais perigoso.
Era um sorriso de satisfação profunda. De alguém que recebera uma confirmação há muito esperada. De alguém cujos planos estavam se encaixando perfeitamente.
Orsini sentiu um frio percorrer sua espinha que nada tinha a ver com a temperatura fresca do escritório.
— Santidade? — sua voz soou mais insegura do que gostaria.
O sorriso da Papisa não diminuiu. Seus olhos azuis brilharam com uma luz que Orsini nunca vira antes — uma luz de inteligência afiada como uma lâmina, de conhecimento perigoso, de jogos dentro de jogos.

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