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    O ar na sala de reuniões da prefeitura estava pesado por conta das notícias que se acumulavam como nuvens de tempestade antes do dilúvio. A luz do final da tarde entrava pelas altas janelas, projetando retângulos pálidos no chão de madeira polida, iluminando os rostos tensos ao redor da mesa oval.

    Carlos ocupava a cabeceira, seus dedos entrelaçados sobre a superfície da mesa, os nós brancos de pressão. À sua direita, Aqua, a Ministra da Economia, estava pálida como giz, seus olhos fixos em um ponto na parede, como se estivesse vendo algo que os outros não podiam ver. À esquerda, Quixotina, ainda com a mão enfaixada, tremia levemente a cada lembrança da clareira violeta.

    Todos os ministros estavam presentes — o conselho completo da República — e entre eles, em um assento que até recentemente estivera vazio, estava a Papisa Paula, vestindo não suas vestes cerimoniais, mas um traje simples de viajem, seus cabelos castanhos escuros presos em um coque prático. E usando um óculos da gema da visão.

    Na frente da sala, diante de todos, Daniel — filho da ex-Chefe de Mocambo Maria — contava sua história. Sua voz, inicialmente firme, quebrava ocasionalmente quando chegava aos detalhes mais terríveis. As palavras ecoavam na sala silenciosa, cada sílaba uma martelada no caixão da inocência que alguns ainda tentavam preservar.

    “—…e quando viram que eu assumira a culpa, que disse que apenas minha mãe e eu éramos responsáveis…”, Daniel continuou, seus olhos saltando de rosto em rosto ao redor da mesa, “acharam que isso salvaria os outros. Mas assim que saímos, os gritos começaram. E a fumaça.”

    Ele fechou os olhos por um momento, engolindo seco.

    — Eles nunca quiseram justiça por Zala. Queriam uma desculpa. E a morte dele, seja como foi, lhes deu exatamente isso.

    Carlos apenas suspirou — um som profundo, cansado, que carregava o peso de ter previsto exatamente isso, mas nenhuma satisfação por ter tido razão. Seus olhos encontraram os de Aqua por um instante, e algo passou entre eles — um entendimento doloroso, uma solidariedade silenciosa.

    — VERMES!

    O grito rasgou o ar. Davi, o jovem Ministro da Química — geralmente o mais contido dos presentes, o normalmente preferia experimentos a emoções — estava de pé, seus punhos cerrados sobre a mesa, seus olhos injetados de uma fúria que parecia consumi-lo por dentro.

    — Vermes covardes! — ele continuou, sua voz tremendo não de medo, mas de ódio puro. — Usam a morte de um homem como desculpa para… para isso? Para escravizar uma vila inteira? 

    Aqua nem sequer piscou. Ela continuava olhando para o vazio, seu rosto uma máscara de mármore. Mas Carlos, sentado ao seu lado, podia ver as veias pulsando em suas têmporas, as mãos — mãos que manuseavam contas e orçamentos com precisão cirúrgica — tremendo levemente sob a mesa.

    “Mais um filho perdido”, pensou Carlos, lembrando-se da conversa privada que tivera com ela horas antes. “Seu filho Zala. O último membro de sua família que restava. Apesar de estarem em lados opostos, apesar da separação dolorosa… ainda era seu filho. A última ligação com seu passado, com seu falecido marido, com a vida que construíra antes da República.”

    Os demais ao redor da mesa demonstravam semblantes igualmente pesados. Fernanda, a Ministra do Trabalho — branca, de uma família de pequenos comerciantes que se juntara à República não por sangue, mas buscando um avida melhor — tinha os olhos marejados. Tassi, a Ministra da Agricultura, apertava os lábios.

    Quando Daniel terminou e se sentou — exausto, esvaziado —, foi a vez de Sombra. O guarda-costas de Carlos, não fazia somente isso, com Espectro na linha de frente, ele que cuidava de todas questões do exército e segurança interna. Ele emergiu de uma sombra no canto da sala, materializando-se como se surgisse do próprio ar. Vários ministros estremeceram; mesmo após anos, o poder dele ainda perturbava.

    — Pelo que nossos espiões em Areia Branca descobriram — começou Sombra, sua voz monótona, profissional, tornando os horrores que descrevia ainda mais terríveis —, todos os membros da vila foram capturados. Transformados em escravos. Todos vivos… por enquanto.

    Ele fez uma pausa, seus olhos escuros percorrendo a sala.

    — Mas muitos estão machucados. E as mulheres… — ele hesitou, algo raro para ele —, as mulheres sofreram nas mãos dos homens. Os relatórios são… explícitos. Não repetirei os detalhes aqui, a menos que o presidente ordene.

    Quixotina levou uma mão à boca, seu rosto esverdeando. Nia, a Ministra da Justiça, não fez nenhum movimento, mas seus olhos — os olhos da mulher cuja mãe fora estuprada repetidamente pelo seu “dono” — brilharam com um ódio tão puro e antigo que parecia gelar o ar ao seu redor.

    — O governador — continuou Sombra — está espalhando que quem matou Zala foi Daniel, e que Maria foi sua cúmplice. Mas também diz que toda a vila estava insatisfeita e planejava atacar os engenhos da região em parceria conosco.

    — MENTIRAS!

    Desta vez foi Nia quem gritou, levantando-se com tal violência que sua cadeira caiu para trás com um baque.

    — Mentiras covardes! Eles sabem que não temos nenhum contato com a Vila da Palma! Zala nos rejeitou explicitamente! Isso é apenas desculpa para justificar o que fizeram!

    Carlos ergueu uma mão, um gesto calmante.

    — Nia, por favor. Sente-se.

    Ele esperou até que ela recolhesse a cadeira e se sentasse novamente, sua respiração ainda ofegante.

    — Obrigado, Sombra — Carlos disse, então se levantou. Sua postura era ereta, seus ombros quadrados, mas nos cantos de seus olhos, nos sulcos ao redor de sua boca, podia-se ver o cansaço de carregar o peso de tantas decisões, de tantas vidas.

    Ele caminhou até a frente da mesa, seus passos ecoando no silêncio.

    — Não se preocupem — sua voz era firme, clara, projetando-se para preencher a sala. — Logo faremos eles pagarem por tudo que fizeram. E por tudo que continuam fazendo contra nosso povo. A conta está crescendo. E vamos cobrá-la. Integralmente.

    Seus olhos encontraram os de Aqua novamente. Ele se lembrava da conversa mais cedo, quando a levara para seu escritório privado para dar a notícia sobre Zala antes da reunião.

    — Você pode descansar hoje — dissera ele, sua voz suave. — Pode faltar à reunião. Ninguém vai pensar menos de você.

    Aqua olhara para ele, e naquele momento, não era a Ministra da Economia que ele vira — não a mulher que equilibrava orçamentos, que negociava com mercadores, que transformara a economia frágil da República em algo estável. Era alguém mais antigo. Alguém mais profundo.

    Seus olhos — geralmente cálculos vivos, sempre avaliando números e probabilidades — estavam agora cheios de uma dor ancestral. Mas também de uma determinação de ferro.

    — Mate — ela dissera, sua voz tão baixa que Carlos quase não ouvira. — Mate todos eles.

    Ele tentara protestar, mas ela continuara, sua voz ganhando força:

    — Eu não vou parar de trabalhar até a cabeça do governador estar em uma estaca. Posso não estar na linha de frente, mas meu trabalho aqui — ela apontara para as pilhas de documentos em sua mesa — permite que Espectro continue avançando. Permite que nossos soldados tenham armas, comida, suprimentos. Cada número que eu calculo, cada recurso que eu aloco… é uma bala. É um passo mais perto de Areia Branca.

    Ela respirara fundo, seus olhos secos, seu rosto duro como a pedra da mesa entre eles.

    — Então não me ofereça descanso, Carlos. Ofereça-me mais trabalho. Mais contas para equilibrar. Mais recursos para direcionar. É assim que eu luto agora. É assim que eu enterro meu filho.

    Na sala de reuniões, Carlos deu um leve aceno de cabeça para Aqua — um gesto de respeito, de entendimento. Ela correspondeu com um aceno igualmente leve, seus olhos agora secos, profissionais, voltando a ser os da Ministra.

    — Agora — Carlos continuou, voltando-se para a mesa —, a próxima pauta. O altar na Mata da Onça.

    A tensão na sala mudou — do calor da raiva para o frio do desconhecido. Todos os olhos se voltaram para Quixotina, que se encolheu levemente em sua cadeira.

    — Pela descrição que a Ministra da Educação deu — Sombra retomou, sua voz ainda neutra —, o altar e os pilares são feitos do que pode ser a gema do sacrifício, ou da invocação. São nomes diferentes para a mesma gema de tradições antigas.

    Ele caminhou até um mapa da região preso na parede, apontando para uma área marcada com um círculo vermelho.

    — Provavelmente o altar estava consumindo o Boitatá para invocar algo. Ou talvez nem seja isso — ele admitiu, um raro tom de incerteza em sua voz. — A verdade é que não entendemos quase nada sobre a gema da invocação. São raras. E perigosas.

    Ele virou-se para enfrentar a sala.

    — E não conseguimos nem chegar perto do altar. Enviamos batedores para o local apontado por Quixotina no mapa, mas não encontraram nada lá. Nenhuma clareira. Nenhum pilar. Apenas mata normal.

    Vários olhares duvidosos voltaram-se para Quixotina, mas Carlos interveio antes que qualquer um pudesse falar.

    — Talvez o altar só apareça quando precise de um sacrifício — ele especulou, seus olhos perdidos em pensamento. — Ou talvez não se possa entrar na clareira por meios normais. Talvez exija… uma certa predisposição. Um certo estado de espírito.

    Sombra concordou com a cabeça.

    — O presidente talvez tenha um ponto — ele admitiu. — Apesar de não encontrarmos a clareira, houve um incidente. Um adepto da visão — ele fez uma pausa, escolhendo as palavras —, enquanto os outros descansavam, disse: “Eu acho que estou vendo a clareira”.

    Todos na sala se inclinaram para frente.

    — Ele apontou para o oeste — Sombra continuou, seu próprio dedo apontando na direção no mapa. — “Quatro pilares, um altar, mata densa. Bate com a descrição da ministra”, ele disse.

    Sombra fez uma pausa, deixando o silêncio crescer.

    — Todos os adeptos e soldados que estavam no local olharam para onde ele apontava. Não viram nada. Mesmo os outros adeptos da visão, com suas lunetas, não viram nada. Mas quando voltaram seus olhos para o adepto que vira a clareira…

    Ele fez outra pausa, mais longa desta vez.

    — Ele não estava mais lá. Simplesmente sumiu. No ar. Fizemos buscas por três dias. Nenhum sinal. Nenhum corpo. Nenhum vestígio.

    Nesse momento, todos na sala engoliram em seco. O som coletivo foi audível. Como se não bastassem as ameaças conhecidas — o governador, os capitães do mato, os senhores de engenho —, agora tinham algo que nem entendiam, algo que tomava pessoas no ar, algo que talvez se alimentasse de criaturas poderosas como Boitatás.

    Foi a Papisa Paula quem quebrou o silêncio. Sua voz, melodiosa mas firme, preencheu a sala.

    — Quando Francisco voltar — ela disse, referindo-se ao mercador que não esqueceu seus laços ancestrais com uma tribo do interior —, vou falar com ele para ver como é o altar que usam em seus rituais. Talvez tenham algumas semelhanças com esse altar da clareira. Algumas tribos antigas ainda guardam conhecimento sobre as gemas que nós perdemos.

    Carlos acenou, mas então uma nova dúvida surgiu em sua mente — uma dúvida que talvez devesse ter ocorrido a ele antes.

    — Por acaso… — ele começou, sua voz mais baixa agora —, era comum pessoas desaparecerem na floresta antes de eu chegar? Não monstros atacando, não capturas por capitães do mato… apenas desaparecimentos. Silenciosos.

    No mesmo instante, o coração de todos os membros antigos do quilombo pareceu desabar. Olhares foram trocados — olhares de compreensão tardia, de memórias reprimidas que agora faziam um novo e terrível sentido.

    — Sim… — Guaíra, o Ministro da Construção Civil, falou primeiro, sua voz rouca. — Minha irmã mais nova. Dez anos atrás. Foi buscar água no riacho mais profundo… nunca voltou. Procuramos por dias. Nenhum sinal.

    — Meu tio — Davi acrescentou, seus dedos apertando o braço de sua cadeira. — Um caçador experiente. Sumiu na mata norte. Encontramos sua faca, sua bolsa… mas não ele. Nunca.

    Aqua respirou fundo, sua voz sainde como um sussurro áspero.

    — Infelizmente não temos registros — ela admitiu, seu olhar agora distante, voltando no tempo. — Mas sim. Nós… achávamos que as pessoas tivessem sido pegas por monstros, ou talvez tivessem simplesmente fugido, desistido da vida no quilombo. Mas talvez…

    Ela não precisou terminar. Todos entenderam. Cada desaparecimento inexplicado ao longo dos anos — atribuído a acidentes, a deserções, a ataques de animais — agora ganhava uma nova e sinistra possibilidade.

    Carlos olhou para Sombra, seus olhos sérios.

    — A partir de hoje — ele ordenou, sua voz recuperando sua firmeza de comando —, quero que criem postos de observação dentro da floresta a oeste. Observem. Anotem qualquer anomalia — silêncio incomum, comportamento estranho de animais, névoas que não deveriam estar lá. E a mata a oeste também estará fora dos limites para a população geral.

    Ele percorreu a sala com o olhar.

    — Sempre andem em grupos de três ou mais se precisarem entrar na floresta. Mas não se afundem muito. Não devemos perder mais pessoas. E se for mesmo a gema da invocação… — ele fez uma pausa, a implicação clara para todos —, cada pessoa perdida pode estar alimentando algo. Invocando algo que nem sabemos o que é.

    Ele respirou fundo, um raro lampejo de sua origem aparecendo em seus olhos.

    — Só espero que sejam coisas do meu mundo — ele murmurou, quase para si mesmo. — Pelo menos assim eu teria alguma referência.

    Então ele olhou para Fernanda.

    — Fale com Matilda — ele instruiu. — Faça um artigo no jornal falando dos perigos da floresta. Mas fale de monstros — javalis gigantes, cobras, predadores. Nada de altar. Nada de desaparecimentos misteriosos. Esta informação é confidencial.

    Seu olhar percorreu a sala, parando em cada ministro.

    — Nenhuma informação sobre a clareira e o altar sai daqui — ele disse, sua voz deixando claro que isso era uma ordem, não um pedido. — Não devemos criar pânico desnecessário. As pessoas já têm preocupações demais — comida, segurança, o futuro. Não vamos acrescentar medo do desconhecido a isso.

    Todos ao redor da mesa assentiam — alguns com convicção, outros com relutância, mas todos compreendendo a lógica.

    — Agora — Carlos disse, sua voz mudando de tom, preparando-se para encerrar a reunião —, vamos para o último ponto. Ministra da Ciência, Paula. Pode nos dar as honras.

    A Papisa ergueu-se, um pequeno sorriso tocando seus lábios. Ela caminhou até a frente da sala, ajustando o colar simples que usava — uma cruz, com uma gema azul-escura que brilhava suavemente.

    — Irmãos e irmãs da República — ela começou, sua voz preenchendo a sala com uma calma que contrastava com a tensão dos minutos anteriores —, agora está na hora de finalmente nos unirmos…

    Foi então que a porta da sala de reuniões se abriu com violência.

    Um mensageiro — jovem, talvez dezesseis anos, seu uniforme de correio sujo de poeira da estrada — irrompeu na sala, seu rosto pálido de terror, sua respiração ofegante como se tivesse corrido quilômetros.

    — A PAPISA! — ele gritou, sua voz quebrando no meio da palavra. — A PAPISA PAULA MORREU! ENVENENADA! EM SUA CATEDRAL!

    O silêncio que se seguiu foi absoluto. O menino, ofegante, seus olhos arregalados, finalmente percebeu a figura em pé na frente da sala — a mesma mulher cuja morte ele acabara de anunciar.

    A Papisa Paula virou-se lentamente para encará-lo. Seus olhos azuis — geralmente cheios de compaixão, de sabedoria, de serenidade — agora brilhavam com algo diferente. Seus lábios se curvaram em um sorriso.

    Não era o sorriso de uma santa. Não era o sorriso beatífico das pinturas nas igrejas. Era um sorriso estreito, inteligente, perigoso. Um sorriso de alguém que jogava um jogo muito perigoso.

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