189. Morte
O corpo da Papisa Paula repousava sobre uma mesa simples na cripta da catedral, envolto em lençóis de linho branco que já estavam começando a amarelar nos cantos. O ar ali embaixo era frio, úmido, carregando o cheiro antigo de terra, cera de vela derretida e o início do dulçor inconfundível da decomposição. Velas acesas em candelabros de ferro projetavam sombras dançantes nas paredes de pedra, dando ao morto uma aparência de movimento que era ilusória e perturbadora.
Dom Orsini estava de pé diante do corpo, suas mãos cruzadas diante de si, seus dedos entrelaçados com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ele passara a noite em claro, tentando convencer-se de que tudo não passara de um pesadelo terrível. Mas hoje, ao amanhecer, ele viera verificar com seus próprios olhos. E lá estava ela. Pálida. Imóvel. Morta.
Dom Orsini ficou ali, imóvel, por um longo momento, o peso das revelações e das dúvidas comprimindo seus ombros. Seu olhar, por fim, voltou-se para a figura silenciosa sobre a mesa de pedra. A luz trêmula das velas acentuava a palidez cerosa do rosto da Papisa, uma máscara de paz absoluta que agora parecia um último e perfeito ato de teatro.
Ele forçou a mente a retomar o fio da investigação pura, dos fatos objetivos, afastando as teorias conspiratórias e as profecias. Fechou os olhos, concentrando-se. A cripta era um lugar de silêncio espiritual, um vácuo onde pouco eco das gemas do mundo de cima conseguia penetrar. Mas ali, em volta do corpo…
“Preciso verificar o óbvio”, pensou, sua disciplina interna impondo ordem ao caos.
Ajoelhou-se ao lado da mesa, o frio úmido da pedra subindo por suas pernas. Tomou o pulso de Paula mais uma vez, com uma pressão firme e profissional. A pele estava fria e ligeiramente rígida, a textura de cera velha. Não havia pulsação, nenhum traço do calor vital. Ele inclinou-se, observando as pálpebras, a linha dos lábios, as unhas. Nenhum sinal de contorção por dor.
Suspirou, mas não se levantou. Em vez disso, pegou um óculos feito com a gema da visão de seu bolso e o colocou. Assim vendo as correntes sutis de energia que sempre fluíam pelo mundo. Na catedral acima, ele via a assinatura difusa de dezenas de gemas menores – defesa, iluminação, cura. Aqui, na cripta, havia um vazio. Exceto por um ponto.
Como um ímã em um campo vazio, o corpo emanava uma presença mágica singular, densa e familiar. Ele olhou o espaço acima do torso de linho.
“Não tem nenhum sinal de uso de gema mágica na catedral”, pensou, corrigindo sua avaliação anterior. “Nenhum feitiço externo foi lançado aqui, nenhuma energia estranha foi invocada para causar isso. Eu chequei o pulso, chequei tudo. É ela. É real e não é alucinação.”
Sua atenção se voltou para aquela aura persistente, que parecia grudar no corpo como um perfume caro e tenaz. Era uma sensação de possibilidade congelada, de terra pronta para ser arada, de argila úmida esperando as mãos do oleiro. O cheiro mental era de ozônio e cobre, com um fundo doce-âmbar, exclusivo daquela escola de magia.
“Ele… o corpo… apenas exala uma forte aura da Gema da Alteração”, concluiu, o pensamento soando claro em sua mente. A escolha da palavra “exala” pareceu-lhe perfeita; não era um feitiço ativo, era um resíduo, uma exsudação mágica. “Mas o que é normal”, lembrou a si mesmo, a racionalidade lutando contra o instinto de suspeita, “considerando que ela sempre usava essa gema em seu próprio corpo. Durante anos. Moldando-a, afinando-a, retardando o tempo. É natural que a carne dela esteja saturada desse poder, como um pano embebido em incenso.”
Era uma explicação lógica, limpa. A morte física havia cessado os processos, mas a marca da magia que ela tão intimamente tecera em seu próprio ser ainda não se dissipara. Como o sorriso em seu rosto, era um eco de suas ações em vida.
Mas então, uma ponta de gelo tocou sua espinha. Ele se lembrou dos olhos dela, vivos e astutos, brilhando com a luz de mil planos. Lembrou-se de como ela sorriu ao saber do veneno. A aura ali não parecia um mero resíduo passivo. Parecia… intencional. Como se estivesse em pausa, e não em dissipação.
Orsini ergueu-se, afastando-se da mesa. A explicação lógica não era suficiente. Tudo sobre Paula era de certa forma lógico, tudo menos isso.
Ele fechou os olhos por um momento, tentando ordenar os fatos. “Mas mesmo assim ela permitiu que entrassem na cozinha quando estava sem guarda nenhum. Nem mesmo a cozinheira estava lá. E ela mesma comeu a comida que sabia que podia estar envenenada… isso é muito estúpido. E a Papisa não é estúpida. Nunca foi.”
Ele abriu os olhos, observando o corpo com uma mistura de frustração, confusão e uma ponta de admiração profissional. “O que você estava planejando, mulher? Qual foi seu último movimento neste jogo perigoso que você jogava?”
Sua voz, quando finalmente saiu, era um sussurro rouco que ecoou nas paredes da cripta:
— Não sei qual foi seu plano em vida — ele murmurou, como se conversasse com um colega em vez de um cadáver —, mas agora você está morta. E no fim, vou ter que voltar minhas forças para Henrique. Apesar de que… — ele fez uma pausa, seus olhos estreitando-se —, apesar de já ter conseguido muitos frutos aqui. O acordo com a República sobre o aço, as conexões, o conhecimento sobre suas operações…
Ele suspirou, o som ecoando no espaço frio.
— Agora não vou dividir os créditos por ter conseguido o acordo — continuou ele, um toque de amargura em sua voz. — Vou levar tudo para Alba. Apenas… — ele hesitou —, nem sei se aquela receita do aço que me passaram é verdadeira…
Foi então que ouviu — primeiro como um murmúrio distante, depois crescendo em volume e intensidade. Uma comoção vinda de fora da catedral. Vozes se levantando em uníssono, não de luto, mas de agitação. De excitação.
Orsini virou-se, suas vestes pesadas de lã roçando no chão de pedra. Subiu as escadas da cripta, seus passos apressados ecoando na escadaria espiral. Quando emergiu na nave principal, o som era claro e inconfundível:
— EXTRA! EXTRA!
A voz era jovem, aguda, carregada da empolgação de quem carrega notícias que mudarão o mundo.
— A IGREJA DISSE QUE A SANTA PAULA MORREU POR CONTA DE ASSASSINOS DA REPÚBLICA, MAS NO JORNAL PUBLICARAM UMA CARTA DA PRÓPRIA PAPISA!
Orsini congelou por um instante. “Uma carta? Que carta?”
A voz do menino continuou, ainda mais alta:
— ELA FALAVA QUE TEMIA PELA PRÓPRIA VIDA! OS ASSASSINOS SÃO OS PRÓPRIOS MEMBROS DA IGREJA QUE SE DIZEM SEGUIDORES DE DEUS!
Dom Orsini não pensou. Apenas reagiu. Ele correu — algo que fazia raramente, seu corpo não mais adequado para movimentos bruscos — em direção aos portões principais da catedral. Empurrou as pesadas portas de madeira, e a cena que se revelou na praça fez seu estômago se contrair.
O menino — um garoto mulato de não mais que doze anos, descalço, vestindo roupas remendadas mas limpas — balançava um exemplar do Jornal da Jabuticaba sobre a cabeça como uma bandeira. Em volta dele, uma multidão crescente se aglomerava, mãos estendidas, rostos ávidos por notícias.
— Eu sabia! — um homem mais velho gritava, seu rosto marcado pelo sol e pelo trabalho. — Desde que esses gananciosos da igreja chegaram de Alba, as coisas só pioraram! Eles sempre eram contra a Papisa! Uma hora daria nisso!
Uma mulher chorava silenciosamente, segurando um rosário. — Ela era uma santa de verdade… tentaram calar sua voz, mas não conseguiram…
Orsini forçou seu caminho através da multidão, sua batina preta abrindo passagem mais por respeito automático do que por força física.
— Garoto! — sua voz saiu mais ofegante do que pretendera. — Me vê um jornal desses!
O menino olhou para ele, seus olhos inteligentes avaliando o padre gordo e ansioso.
— Claro, senhor — disse ele, seu tom profissional, de comerciante experiente. — São 2 mil réis.
Orsini estacou. — O que? Mas toda semana eles custavam 200 réis!
O menino encolheu os ombros, um gesto que dizia “o mercado é o mercado”.
— O senhor quer o jornal ou não quer? — ele perguntou, sem hostilidade, apenas pragmatismo. — Essa edição todo mundo quer. O preço é o preço.
Na indecisão de Orsini — sua mente calculando, avaliando, tentando entender o que justificaria um aumento de preço de dez vezes —, outro morador, um sapateiro que Orsini reconhecia da missa dominical, estendeu uma bolsa de moeda.
— Toma, garoto. Eu quero.
O homem pegou o jornal, seus olhos já devorando as manchetes. Orsini viu sua expressão mudar — primeiro confusão, depois surpresa, depois uma espécie de temor reverencial.
Isso decidiu. Orsini pescou sua bolsa de couro, contou rapidamente as moedas — uma fortuna para um simples jornal — e as colocou na mão estendida do menino.
— Me dê um!
Ele quase arrancou o jornal das mãos da criança, suas mãos trêmulas abrindo as páginas antes mesmo de se afastar da multidão. Seus olhos escanearam a primeira página, depois a segunda, até encontrar. Lá, ocupando quase toda a terceira página, estava a carta.
Com um título em letras grandes e negras:
“ÚLTIMA PROFECIA DA SANTA PAULA: MINHA MORTE E MEU RENASCIMENTO”
E abaixo, em da letra da Papisa — uma caligrafia elegante, fluida, que Orsini reconhecia imediatamente —, o texto:
“Irmãos e irmãs,
Deus me enviou uma mensagem clara nestes últimos dias. Ele me disse que a Igreja deixou de pregar Sua palavra. Que agora eles pregam a morte, a escravidão, a guerra e a ganância.”
Orsini engoliu seco. “Ela está chamando a Igreja de Alba de… isso?”
“Apesar de Deus me ter dito isso, eu já tinha minhas suspeitas. Mas quem acreditaria em mim, uma simples mulher, se eu falasse? Por isso Deus me mandou outra mensagem, mais urgente: os monges — não, os capangas — de Alba viriam envenenar minha comida. E eu morreria.”
O ar saiu dos pulmões de Orsini. Ele olhou em volta, para as pessoas que agora também liam, que sussurravam entre si, que apontavam para a catedral com expressões que iam da fúria à devoção.
“Eles tomariam minha cidade. E com isso, poderiam livremente taxar a todos, tirando todo dinheiro de cada trabalhador, de cada mercador, de cada família que só busca viver em paz sob o olhar de Deus.”
Um homem próximo de Orsini ergueu o punho. — É verdade! Eles já estão aumentando as taxas! E a Papisa tentava nos proteger!
“Mas Deus me disse para não temer. Porque três dias depois de minha morte, eu renasceria. E Ele mandaria homens de Deus — verdadeiros homens de Deus — para me devolver a Cidade Sagrada. E com isso, eu serei a nova santa de uma nova Igreja. Uma Igreja que não estará nas garras de Alba, mas nas mãos do povo, guiada por Deus.”
O silêncio que caiu sobre a praça foi diferente de qualquer coisa que Orsini já experimentara. Não era o silêncio do choque ou da tristeza. Era o silêncio da revelação. Da profecia que encontra seu cumprimento.
— Se a Santa disse… — uma mulher idosa murmurou, suas mãos tremendo ao segurar o jornal —, então é verdade. Glória a Deus! Ela previu sua própria morte!
Um homem mais jovem, um ferreiro que Orsini conhecia por seu trabalho na nova fundição da República, olhou para a catedral, seus olhos calculando.
— “Três dias depois de sua morte” — ele repetiu, sua voz carregada de uma convicção que assustou Orsini. — Então amanhã? Amanhã a Santa renascerá e tomará de volta a Cidade Sagrada!
Ele nem esperou por resposta — sua própria pergunta era sua própria resposta. Na cabeça dele, e na cabeça de tantos outros na praça, nenhum milagre era impossível para a Santa Papisa. Ela já aprendeu a recuperar membros perdidos, a lutar contra a praga, e por último descobriu uma forma de acabar com a fome no mundo. Por que não poderia renascer?
Orsini afastou-se da multidão, seu coração batendo forte contra as costelas. Ele relera a carta, cada palavra, cada frase. “São baboseiras de uma louca”, tentou convencer-se. “Teologia de mercado, profecia barata, esperança desesperada de uma mulher que sabia que ia morrer e quis deixar um legado…”
Mas em seu coração — no coração do homem que vira a Papisa sorrir quando soubera que tentariam envenená-la, no coração do estrategista que reconhecia um movimento de jogo mestre quando via um —, ele tinha receio. Um receio profundo, frio, que dizia que talvez, apenas talvez, o que ela dissera fosse verdade.
Ou pior: que fosse parte de um plano tão bem arquitetado que a verdade era irrelevante.
Sem perder tempo, ele procurou Frei Mateus, encontrando-o nos aposentos traseiros da catedral, organizando documentos com uma eficiência que era quase mecânica.
— Como os membros da igreja favoráveis à Papisa estão reagindo? — Orsini perguntou, fechando a porta atrás de si.
Frei Mateus olhou para ele, seus olhos sérios.
— Uns estão tristes, senhor. Confusos. Em dúvida sobre o que fazer agora que ela se foi. — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras. — Mas outros… os mais fiéis, os que estavam com ela desde o início… parecem estar se movendo. Esperando algo.
— Esperando o quê?
— Não sei ao certo. Mas há… uma calma estranha neles. Não o luto que se esperaria. Mais como… expectativa.
Orsini sentiu o frio aumentar.
— E as docas? — ele perguntou, lembrando-se das carroças cobertas, dos “tubos de ferro”.
— Movimentações estranhas, senhor — Frei Mateus confirmou, abaixando a voz. — Todos aqueles tubos de ferro que vinham entrando nas últimas semanas… estão sendo carregados em navios mercantis. Alguns até em navios da própria igreja — os que são leais a ela, não a Alba.
“Tubos de ferro?”, pensou Orsini, sua mente acelerando. “O que ela fará com eles? Serão armas? Mas não têm gemas mágicas… a não ser que… ouvi dizer que as armas da República não precisam de gemas. Matam por outros meios. Meios que não entendemos.”
Uma conexão se formou em sua mente — terrível, implausível, mas que se encaixava perfeitamente.
— Como ela fará para ‘renascer’ com armas? — ele murmurou, mais para si mesmo.
Frei Mateus ouviu. — Senhor?
— Nada. E os homens de Henrique? Os que estão aqui?
— Muitos estão rindo, celebrando em segredo. Outros — os mais diretamente responsáveis pelo… incidente — estão com medo. Temem a reação do povo. E temem… — ele hesitou —, temem que a carta seja verdade.
Orsini suspirou fundo, um som que carregava o peso de semanas, de meses, de anos de jogos dentro de jogos. “Quando vim para cá”, pensou, “não esperava me meter em uma situação tão complicada. Em minha visão, neste fim do mundo havia apenas bárbaros — de ambos os lados. Agora há bárbaros e… profetisas. E profetisas com tubos de ferro.”
Ele tomou sua decisão. Não a decisão do homem de fé, mas a decisão do sobrevivente, do estrategista, do jogador que reconhece quando a mesa está inclinada contra ele.
— Prepare um barco — ele ordenou, sua voz baixa mas clara. — Nosso barco mais rápido, não o da Igreja. Alugue um mercante se necessário. Amanhã, ao primeiro sinal de qualquer movimentação estranha — seja o que for que ‘renascer’ signifique —, vamos fugir daqui.
Frei Mateus assentiu, sem surpresa.
— E a cidade, senhor?
Orsini olhou pela janela, para a praça onde a multidão ainda se aglomerava, onde o menino agora vendia sua última cópia por três mil réis.
— O que a Papisa disse é claramente sacrilégio — ele murmurou, mas sua voz carecia de convicção. — Se ela ‘renascer’ — seja o que isso signifique —, vai tomar a Cidade Sagrada. E não duvido que consiga. Ela tem o povo. E tem a República, com seus tubos de ferro e seu jornal.
Ele fez uma pausa, seus dedos tamborilando no parapeito da janela.
— Se continuar morta… bem, não faz mal. Já conseguimos a receita do aço — ou o que ela disse ser a receita do aço. Se for falsa, voltaremos com o exército sagrado e tomaremos a cidade à força. Se for verdade… bem, então teremos o que viemos buscar de qualquer maneira.
Ele virou-se para Frei Mateus, seus olhos sérios.
— Vamos deixar a cidade nas mãos dos monges de Henrique — ele decidiu. — Apesar de que… não sei se as coisas vão continuar nas mãos deles por muito tempo. As pessoas estão bravas. E agora têm uma profecia. E uma esperança de que sua santa voltará amanhã.
Lá fora, na praça, alguém começou a orar para a santa da cidade, a Santa Maria e muitos começaram a se juntar à oração, cada vez mais e mais pessoas começaram a se juntar, formando um coro.
E Dom Orsini, ouvindo aquela oração que crescia em volume e convicção, sentiu que estava testemunhando não apenas a morte de uma mulher, mas o nascimento de algo novo. Algo perigoso. Algo que, independentemente de milagres ou tramas, mudaria para sempre o equilíbrio de poder neste fim de mundo.
Ele apenas esperava estar longe o suficiente quando a mudança finalmente chegasse. Porque alguns nascimentos, ele sabia, eram violentos. E alguns renascimentos… bem, alguns renascimentos podiam ser ainda mais violentos que os nascimentos originais.

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