190. Renascimento
O ar dentro da catedral era pesado, uma mistura sufocante de incenso espesso, cera derretida e o cheiro adocicado e enjoativo de lírios brancos, já murchando ao calor dos corpos. Dom Orsini, espremido entre dois bispos de Alba cujos perfumes caros não conseguiam disfarçar o suor do nervosismo, questionava por milésima vez sua própria sanidade.
“Eu não deveria estar aqui”, pensou, os dedos apertando o breviário até as juntas ficarem brancas. “O plano era estar no mar agora, no barco mais rápido que o dinheiro de Henrique pudesse alugar. Deveria estar indo embora daqui, mas…”
Seus olhos, por trás das lentes lapidadas da Gema da Visão encaixadas em seus óculos de aros finos, vasculhavam o corpo da Papisa Paula, exposto no alto altar. A luz dos círios tremulava sobre o veludo bordado de seu vestido cerimonial, dando uma ilusão de movimento ao peito imóvel.
“Mas eu gostaria de ver. Preciso ver com meus próprios olhos se essa tal profecia é real ou apenas o delírio final de uma mulher astuta.”
Ele ajustou os óculos, sintonizando a visão. Não havia calor vital, nenhuma aura de saúde, apenas o frio azulado da morte e… aquela persistente, densa névoa da Alteração, ainda grudada no corpo como uma segunda pele espiritual. Nada indicava um milagre em gestação.
Quem conduzia a missa de corpo presente era um dos monges de Henrique, o Irmão Anselmo, um homem magro com um sorriso permanentemente desdenhoso que hoje não conseguia disfarçar. Sua voz ecoava nas abóbadas, lendo os salmos com uma pressa burocrática.
“Outra coisa estranha”, observou Orsini, seu olhar percorrendo as fileiras do clero. “Na igreja há pessoas muito mais próximas da Paula, ou de cargo maior. O Deão, o Vigário-Geral… todos eles estão aqui, entre os fiéis. Por que colocaram justo este energúmeno para conduzir o ritual? Para provocar? Para mostrar quem manda?”
A nave estava abarrotada. À esquerda, todos os membros do clero local, mais alguns monges de Henrique. Alguns choravam baixinho, lenços pressionados contra o rosto – lágrimas de verdade ou de conveniência, Orsini não sabia dizer. Outros, porém, não tiravam os olhos do caixão com uma expressão não de luto, mas de expectativa aguda, quase febril.
À direita, em posição de destaque, estava a delegação da República. Carlos, vestido com um sobretudo escuro e sério, seus ministros de expressão calculista e, ao seu lado, o Padre da República, um homem jovem de olhar gentil. Nenhum deles chorava. Todos, como os clérigos mais expectantes, observavam o corpo com uma atenção de analistas, como se esperassem um sinal do mercado, não do céu.
E do lado de fora, vindo amortecido pelos vitrais coloridos, o som constante era um murmúrio profundo, como o mar batendo contra rochas. Milhares de fiéis aguardavam, não por um enterro, mas pelo “retorno” prometido. A tensão era palpável, um terceiro cheiro no ar além do incenso e das flores: o cheiro metálico da expectativa coletiva.
Logo após o início da missa, um burburinho na porta principal interrompeu o monotônico latim do Irmão Anselmo. Um homem irrompeu na nave, ofegante, o rosto rubro de esforço e angústia, as roupas de comerciante rico empoeiradas da estrada. Orsini o reconheceu imediatamente: Francisco, o magnata do comércio, talvez o único amigo verdadeiro e desinteressado que Paula tinha.
— Me perdoe! — a voz de Francisco ecoou, quebrada, dirigindo-se ao caixão como se os presentes não existissem. — Por não estar contigo em seus momentos finais! Prometo… prometo que vou te vingar!
O grito se transformou em um choro convulsivo e desesperado. O homem gordinho caiu de joelhos no meio do corredor central, seus soluços preenchendo o espaço que a liturgia havia aberto. O Irmão Anselmo ficou parado, com uma expressão de profundo incômodo e impaciência. Demorou vários minutos, com alguns clérigos saindo de seus lugares para consolar Francisco, até que ele se acalmasse o suficiente para ser levado a um banco da primeira fila, o corpo ainda tremendo.
O monge, claramente irritado, pigarreou e retomou a missa com voz ainda mais áspera.
Orsini observava tudo, sua mente acelerada. O desespero de Francisco parecia genuíno demais para ser parte de um plano. Ou era uma prova da farsa, ou era a reação de um homem que realmente acreditava ter perdido sua amiga.
No momento em que o Irmão Anselmo proferiu o amém final e a assembleia começou a se levantar, um som cortou o ar, seco e violento como a ruptura de uma enorme tábua.
Bang!
O estampido, vindo de algum ponto atrás do altar-mor, fez todos se encolherem. Pombos assustados bateram asas nos altares laterais. Orsini, por instinto, ajustou seus óculos, ativando a Visão ao máximo. Seus olhos escanearam a penumbra atrás das colunas, procurando a fonte.
Por uma fração de segundo, menos que um piscar de olhos, ele viu uma figura envolta em sombras tão densas que pareciam sugar a luz ao redor — um Adepto da Escuridão de poder considerável. Mas antes que pudesse processar, um segundo bang!, ainda mais alto, estourou.
E então, não foi som, foi sensação. Uma luz branca, pura e absoluta, explodiu do ponto onde o corpo estava, expandindo-se como uma bolha de cristal líquido. Ela não iluminou; consumiu. Engoliu todas as cores, todos os contornos, todos os sentidos. Para Orsini, cuja visão era superagudizada pela gema, foi uma agonia cega e desorientadora. Um ruído branco encheu seus ouvidos, uma dor lancinante atravessou seus olhos. Ele gritou, mas não ouviu seu próprio som.
Lá fora, a multidão viu as imensas portas de madeira da catedral brilharem por dentro, como se abrigassem um sol minúsculo, antes que raios de luz branca jorrassem por cada fresta, cada vitral, banhando a praça em uma claridade fantasmagórica e silenciosa.
Assim como começou, a luz se dissipou, sugada de volta para um ponto central. Orsini, ainda atordoado, com os olhos ardendo e cheios de manchas coloridas, lutou para recuperar a visão. Seu instinto o fez olhar primeiro para o altar.
O caixão ainda estava lá. Mas a tampa estava aberta. E em pé, ao lado dele, com uma mão apoiada levemente na madeira polida, estava a Papisa Paula.
Não era uma visão espectral. Ela estava sólida, real. As cores haviam voltado ao seu rosto, um rosa suave nas bochechas. Seus olhos, vivos e inteligentes, percorriam a assembleia com uma expressão de solenidade tranquila. Um sorriso sutil, quase imperceptível, tocava seus lábios.
O silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor que os bangs. Francisco emitiu um ruído entre um suspiro e um gemido. Alguns dos fiéis mais devotos caíram de joelhos, chorando de alegria silenciosa. Outros, os monges de Alba, recuaram, o terror desenhado em seus rostos. Na frente, Carlos e seus ministros trocaram um olhar rápido, carregado não de surpresa, mas de confirmação.
Irmão Anselmo, que estava no degrau mais baixo do altar, caiu de traseiro no chão de mármore, seu rosto uma máscara de puro pavor. Paula desceu os poucos degraus com graça e parou diante dele. Sem dizer uma palavra, apontou um dedo longo e elegante em sua direção.
As sombras ao redor do monge, que já eram profundas na luz tremulante dos círios, pareciam ganhar vida própria. Elas se espessaram, envolveram seus braços, suas pernas, como tentáculos de tinta. Com um grito abafado, Anselmo foi puxado para baixo, não para o chão, mas para dentro de sua própria sombra, que depois se dissolveu na penumbra normal do altar.
Orsini, com seus óculos ainda sintonizados, viu. Não foi magia das sombras. No instante em que Paula apontou, o Adepto da Escuridão que ele vislumbrara antes materializou-se por um milésimo de segundo atrás do monge, envolveu-o com um manto de trevas e desapareceu novamente, arrastando o homem consigo. Foi rápido, profissional, um sequestro teatral.
A voz de Paula ergueu-se então, clara, melodiosa e cheia de uma autoridade inquestionável que ecoou por cada canto da catedral.
— Eu retornei — ela declarou, seus olhos brilhando. — Como disse que retornaria. Como Deus me disse que eu retornaria. E agora está na hora de tomar o que é meu de volta.
A afirmação quebrou o feitiço de silêncio. Um dos monges de Henrique, mais corajoso ou mais tolo, apoiado na parede, gritou com voz estridente:
— Soldados Divinos! Prendam essa herege! Prendam-na!
Os soldados, cerca de vinte espalhados pela nave e entradas, vestidos na armadura prateada com o símbolo do sol de Alba, hesitararam. Uns olhavam para o monge, outros para a figura incontestavelmente viva da sua soberana eclesiástica, outros para os companheiros, buscando uma direção.
Paula não lhes deu tempo. Ela se voltou para eles, sua postura ereta, imponente.
— Eu sou a Papisa desta Cidade Sagrada! É a mim que vocês juram servir, não aos capatazes de Alba! — sua voz tinha a firmeza de um comando militar. — Prendam esses gananciosos que sujam o nome da Igreja com suas intrigas e venenos!
A dúvida ainda pairava no ar, visível nos olhos dos homens. Então, cinco soldados que estavam mais próximos do altar agiram. Sem trocar uma palavra, viraram-se e prenderam os braços dos dois monges mais próximos, incluindo o que tinha gritado.
— O que estão fazendo?! — guinchou um dos monges, lutando inutilmente. — Nós representamos Alba! O Papa Henrique não permitirá isso!
Um grupo de outros cinco soldados, indecisos, moveu-se para formar uma barreira protetora na frente dos clérigos.
Paula observou a cena, e seu sorriso desapareceu. Uma frieza glacial tomou seu rosto.
— Então é assim? — perguntou, e sua voz soou como o toque de um sino de bronze. — O julgamento divino cairá sobre os que escolhem os homens em vez de Deus!
No mesmo instante, um rugido abafado surgiu do piso de pedra da catedral, à direita dos soldados indecisos. Um bloco maciço de terra e granito, do tamanho de uma bola de futebol, arrancou-se do chão com violência incrível. Não flutuou — foi arremessado. Passou como um míssil rente à perna de um soldado, rasgando sua armadura como papel e fazendo-o gritar de dor, e acertou em cheio a barriga do monge que falara em nome de Alba.
O impacto foi horrendo. Um som úmido e ossos esmagados. O monge foi literalmente cortado ao meio pelo projétil de pedra, que continuou sua trajetória sem perder velocidade, atravessando um painel de madeira entalhada e abrindo um buraco limpo na parede da catedral, por onde a luz do dia irrompeu.
O terror, agora absoluto e incontestável, congelou todos no lugar. O cheiro de sangue e entranhas misturou-se ao incenso. Alguns soldados caíram de joelhos, seus equipamentos rangendo.
— Me perdoe, Vossa Santidade! — choramingou um deles, enterrando o rosto no chão.
— Perdão! — outros seguiram, um coro de vozes quebradas. Os monges restantes, molhados do sangue do colega, também se ajoelharam, balbuciando preces de misericórdia.
Orsini, ainda paralisado, olhou para o buraco na parede e depois para o chão. Com seus óculos, ele viu, a vários metros de profundidade sob as fundações da catedral, uma figura feminina agachada em uma caverna natural — uma Adepta da Terra. Mas seu intelecto lutava contra o que vira. “Eu nunca vi uma Adepta, nunca ouvi falar de uma, capaz de lançar um bloco de pedra a essa velocidade. Mal consegui ver o que era… a força foi desumana.”
Paula deixou que o silêncio carregado de horror fizesse seu trabalho por alguns segundos. Então, sua expressão se suavizou novamente, voltando à solenidade compassiva.
— Bom — disse, sua voz novamente melodiosa. — Deus é misericordioso. E perdoará vocês… desde que verdadeiramente se arrependam e jurem lealdade à verdadeira Igreja.
Ela então se voltou para a massa de clérigos aterrorizados, seu olhar percorrendo fileira por fileira como uma espada.
— Muitos de vocês, no entanto, são mais leais ao dinheiro e ao poder de Alba do que a Deus e a mim! — Ela fez uma pausa dramática. — Por exemplo…
E então, ela começou a recitar nomes. Um a um. O Deão, que empalideceu. O Tesoureiro-Mor, que começou a tremer. O Vigário da Disciplina, que suou copiosamente. Cada nome era um golpe preciso. Alguns dos nomeados caíram de joelhos no corredor, suplicando perdão, inventando desculpas. Outros, poucos, permaneceram de pé, trêmulos mas desafiadores, clamando inocência.
— Inocentes? — Paula ergueu uma sobrancelha, cética. — Então me digam, agora, diante de Deus e desta assembleia. Preferem ficar aqui, comigo, e ajudar a criar uma nova Igreja, pura e justa? Ou pretendem manter sua lealdade a Alba e a seus corruptos?
A hesitação nos olhos de alguns foi a resposta que ela precisava.
— Soldados Divinos — ordenou, com voz clara. — Prendam esses infiéis que ainda duvidam. Mas não os machuquem. Eles apenas serão… repatriados. Enviados de volta para a Igreja que tanto amam, em Alba. Que lidem com eles.
Os soldados, agora totalmente submissos, moveram-se com eficiência brutal, fazendo se ajoelhar os clérigos nomeados que não haviam se ajoelhado.
Com a cena sob controle, Paula simplesmente virou-se e começou a descer a nave central, seus passos firmes ecoando na pedra. Carlos deixou seu lugar e se juntou a ela, caminhando ao seu lado direito, um passo atrás, em sinal de respeito e aliança.
Juntos, chegaram à grande entrada. As portas foram abertas de par em par por soldados que agora a serviam. A luz do dia inundou o interior, iluminando Paula como um foco.
A multidão do lado de fora, que aguardava há horas em silêncio ansioso, viu a figura que emergia. Por um segundo, houve um silêncio de incredulidade. Então, uma onda começou.
— É ELA! É A SANTA PAULA!
— SABIA! SABIA QUE ELA ESTAVA VIVA!
— UM MILAGRE! GLÓRIA A DEUS!
O alvoroço foi instantâneo, um rugido de milhares de vozes que encheu a praça. Então, o chão de pedra da escadaria da catedral começou a tremer e a se elevar. Não era um tremor violento, mas uma ascensão suave e poderosa. Um pódio natural de terra e granito ergueu-se, elevando Paula e Carlos a mais de três metros de altura, acima das cabeças da multidão.
De seu palanque improvisado, Paula ergueu os braços. Aos poucos, o rugido da multidão diminuiu para um sussurro expectante.
— Como prometi — sua voz, amplificada pela acústica da praça ou por algum artifício, chegou a todos —, eu voltei à vida! E foi pela graça de Deus! Porém, nossa luta apenas começou. Devemos expulsar os gananciosos, os falsos profetas que infectam nossa cidade sagrada! E, juntos, vamos fundar uma nova igreja. A Igreja da Santidade!
A resposta foi um trovão.
— VIVA A SANTA PAULA! VIVA A IGREJA DA SANTIDADE!
— Mas eu não farei isso sozinha! — ela prosseguiu, o fervor crescendo em seu tom. — Vocês, o povo, me ajudarão! E não apenas vocês… — Ela fez uma pausa, olhando para Carlos ao seu lado. — A partir de hoje, seremos parte da grande família da República do Brasil!
Essa declaração causou um baque visível. O entusiasmo diminuiu. Rostos antes eufóricos ficaram confusos. A República do Brasil era na visão delesum república de negros que acabou de se converter a mesma fé, mas mesmo assim muitos pregravam outros deuses. Murmúrios de preocupação começaram a surgir.
Paula percebeu. Rapidamente, pegou a mão de Carlos e a ergueu bem alto, entrelaçando seus dedos com os dele em um gesto de união forçada.
— A Igreja de Alba tentará nos destruir! — gritou ela. — E Deus, meus filhos, não dá milagres livremente. Ele nos dá força para lutar! Precisamos nos defender, e para isso, precisamos de aliados fortes! Carlos e a República nos ajudarão! Eles preservarão nossa fé, lutarão por nós, e nós lutaremos por eles! Somos todos irmãos do mesmo sangue, sob o mesmo céu!
Ela fez outra pausa, deixando a ideia de fraternidade ecoar.
— E como prova desta nova aliança de irmãos… — sua voz baixou um tom, tornando-se íntima e poderosa —, a partir de agora, declaro abolida a escravidão dentro dos domínios da Cidade Sagrada!
Dessa vez, o silêncio que precedeu a explosão foi diferente. Foi o silêncio daqueles que não acreditam no que ouvem. Então, de um canto da praça, um grito solitário e cheio de emoção cortou o ar, vindo de um grupo de negros alforriados e escravos que acompanhavam seus senhores.
— LONGA VIDA À SANTA PAULA!
Outro se juntou, depois outro. O grito, inicialmente apenas deles, foi contagiante. A moralidade do gesto, o simbolismo poderoso, a imagem da libertadora religiosa unida ao poder secular… lentamente, começou a conquistar até os mais céticos. Um homem livre gritou, depois uma mulher, depois um comerciante.
O coro, hesitante no início, foi crescendo em volume e convicção, até se tornar um uníssono ensurdecedor que parecia fazer a própria catedral tremer:
— LONGA VIDA À SANTA PAULA! LONGA VIDA À REPÚBLICA!
Em cima do pódio de pedra, Paula e Carlos mantinham as mãos erguidas, sorrindo para a multidão. Sob seus pés, sustentando a plataforma, a Adepta da Terra descansava, sua tarefa cumprida. E dentro da catedral, entre o cheiro de incenso, sangue e medo, Dom Orsini finalmente entendia. Não era um milagre. Era um golpe de Estado. Perfeitamente orquestrado, com atores humanos e poderes terrivelmente reais. E ele estava, muito perigosamente, no centro dele.

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