193. União e Expansão
Dentro da sala de reuniões da Prefeitura de Liberdade, o ar estava gelado — um luxo calculado que a jovem República já podia bancar. Alguns Adeptos do Gelo, contratados por turnos, mantinham uma brisa fresca e constante circulando pelo ambiente, afastando o calor do nordeste que mesmo no inverno persistia. O contraste era tão brusco que alguns ministros, ao entrarem, esfregavam os braços, ainda com a pele marcada pelo calor úmido da rua.
A sala, um símbolo da nova era, era construída em concreto armado, com linhas sóbrias e funcionais. Em uma das paredes largas, um grande mapa da região, impresso em pergaminho encerado e protegido por uma fina lâmina de vidro, dominava o espaço, um farol para as decisões tomadas ali. Naquele momento, a sala estava repleta, as cadeiras de madeira escura ocupadas, o som abafado das conversas preliminares ecoando contra as superfícies duras.
Todos os ministros estavam presentes, inclusive a mais nova integrante: a Ministra da Ciência, Paula, que também agora era a Papisa da Igreja da Santidade e Prefeita da Cidade Sagrada de Santa Maria.
Carlos, à frente da longa mesa, usava uma camisa de algodão claro. No entanto, no colarinho, brilhava o broche que agora nunca abandonava: uma rosa metálica de pétalas vermelhas, com um pequeno rubi —, lapidada com precisão — incrustado no centro, presente de Quixotina. A luz que entrava pelas janelas fazia a peça cintilar.
— Agora que nos consolidamos em Ouro Branco e na Cidade Sagrada de Santa Maria, o trabalho de verdade começa. Não podemos ser uma administração só para Liberdade. Nossa República é essas três cidades, e vai crescer mais. Como ministros da República, e não só desta cidade, vocês vão ter que atuar em todas as frentes.
Ele fez uma pausa, deixando o peso da responsabilidade pairar no ar pesado. Viu alguns ministros trocarem olhares, outros anotarem algo.
— Claro — continuou, num tom mais prático —, ninguém espera que vocês morem em três lugares ao mesmo tempo. A ideia é treinar e enviar equipes, pessoas de confiança que implementem nossas políticas no local. Mas… — ergueu um dedo, enfático —, visitem. Conheçam o terreno, sintam os problemas, falem com as pessoas. Um ministro que só governa por relatório está construindo sobre areia.
Carlos se levantou e foi até o grande mapa na parede. A superfície de pergaminho encerado mostrava o contorno do rio, com Liberdade, Ouro Branco e a Cidade de Santa Maria marcadas com círculos em tinta vermelha. Ele apontou para o jovem de origem indígena sentado à mesa.
— Guaíra. A Estrada da Prosperidade, ligando Liberdade a Santa Maria, foi nosso primeiro grande passo. Agora, quero que você comece a planejar a próxima. — Seu dedo traçou uma linha no ar, entre Liberdade e Ouro Branco. — Precisamos de uma ligação sólida, de blocos de concreto, entre essas duas cidades. E depois, estender até Areia Branca, assim que a tomarmos de vez. Mas não espere a estrada ficar pronta para agir.
Guaíra assentiu, seus olhos escuros seguindo o gesto do presidente com atenção total.
— Envie equipes para Ouro Branco agora — Carlos prosseguiu. — Comecem a construir escolas, saneamento básico, o que for possível com os recursos locais. E fale com a administração da Cidade de Santa Maria. A Papisa já começou um programa de pavimentação interna, mas agora fazemos parte do mesmo projeto. Dê a ela o suporte técnico, os moldes para os blocos, a mão de obra especializada que precisar. Quero que as três cidades sejam entrelaçadas por estradas e por uma administração eficiente.
— Sim, senhor presidente! — respondeu Guaíra, sua voz firme, já rabiscando notas em uma prancheta de madeira.
Carlos então voltou seu olhar para Quixotina. A Ministra da Educação ainda carregava no rosto as marcas sutis da provação na mata, um olhar um pouco mais distante. Mas quando seus olhos encontraram os de Carlos, ela parecia se ancorar, uma centelha de determinação voltando a acender.
— Quixotina — disse Carlos, suavizando levemente o tom. — Escolas de verdade vão levar tempo para serem erguidas. Mas educação não pode esperar. Temos uma oportunidade. Muitas das grandes mansões no centro da cidade, que pertenciam a senhores de escravos… estão vazias.
Ele fez uma pausa, deixando a implicação ficar clara. Alguns ministros se entreolharam. O processo de indenização e reparação havia sido… vigoroso.
— Alguns venderam seus imóveis para pagar as indenizações devidas aos seus ex-escravos. Outros… bem, o Exército e o novo sistema judicial deram um jeito. O ponto é: temos espaços grandes e prontos. Quero que você os transforme em escolas provisórias. Comece já. Além disso, há muita gente letrada nesta cidade — ex-funcionários da igreja, comerciantes, filhos da elite que estudaram. Faça um processo seletivo, uma prova. Quem passar, vira professor. Pague bem. Precisamos de corpos docentes.
Ele se aproximou da mesa, apoiando as mãos na madeira polida.
— O mesmo vale para a Cidade de Santa Maria. A Papisa já mantém algumas escolas dominicais. Quero que você as expanda, transforme em escolas de verdade, abertas a todos, de graça. Alfabetização, matemática básica, história da nossa terra. O alicerce.
— Sim, senhor presidente! — disse Quixotina, e pela primeira vez desde que retornara, um leve sorriso de propósito tocou seus lábios. Ela começou a anotar furiosamente.
— Tassi — Carlos chamou, virando-se para a Ministra da Agricultura. — A prioridade máxima é comida. Ninguém nesta República pode passar fome. Quero que você mobilize todos os Adeptos da Grama que temos, todos os agrônomos, e os envie para onde for necessário. Maximizem a produção em Ouro Branco, em Santa Maria, aqui nos arredores de Liberdade. Use as novas técnicas de adubação, agroflores e polinização natural.
Tassi assentiu, seus olhos já calculando logística.
— E planeje com a Ministra Fernanda — Carlos continuou, indicando a Ministra do Trabalho — a expansão dos restaurantes populares. Comida barata e nutritiva em cada bairro, em cada cidade. É uma rede de segurança e um sinal concreto de que o Estado cuida.
— Sim, senhor presidente! — respondeu Tassi Hanbé, sua voz um sopro de determinação.
— Fernanda — disse Carlos, agora para a mulher de expressão incansavelmente prática. — Com o aumento da produção agrícola, muita gente vai ser liberada do campo. E com as obras públicas, as fábricas… vamos precisar de braços. Muitos. Sua tarefa é conectar as pessoas ao trabalho. Oriente, treine, direcione.
Fernanda concordou com a cabeça, mas sua expressão era de preocupação contida.
— Além disso — Carlos prosseguiu —, o Jornal da República precisa se tornar o Jornal da República. De verdade. Expanda a rede de correspondentes. Quero notícias de Ouro Branco, de Santa Maria, dos distritos rurais. Coletem dados, histórias, problemas. A comunicação é o sangue do corpo político.
Foi quando Fernanda ergueu a mão, educada mas firme.
— Senhor presidente… com todo respeito, o Ministério do Trabalho já está sobrecarregado. Além da realocação de mão de obra, ainda lidamos com toda a imigração nova, o censo nas cidades anexadas — perguntando cor, gênero, aptidão com gemas… — e agora essa expansão do jornal… — Ela esboçou um sorriso cansado. — Não quero reclamar do serviço, mas temo pela qualidade se tentarmos abraçar tudo.
Carlos suspirou, esfregando a nuca. O som de uma mosca zumbindo perto da janela parecia ecoar sua frustração.
“Ela está certa”, pensou. “No mundo de onde vim, isso seria dividido em três ministérios diferentes. Mas criar uma burocracia inchada agora… ainda assim, não podemos estrangular os que já estão na linha de frente.”
— Você tem razão, Fernanda — concedeu ele, olhando para a mulher. — Não é justo nem eficiente. Vou falar com a Matilda. A parte do jornal, da coleta de notícias e da comunicação oficial vai sair do seu ministério. Vamos criar um novo: o Ministério da Comunicação. A Matilda vai comandar.
Um suspiro de alívio perceptível saiu de Fernanda. — Obrigada, presidente.
Foi então que Aqua, a Ministra da Economia, sempre meticulosa e de semblante calculista, ergueu levemente a caneta-tinteiro, sinalizando que queria falar. Carlos acenou com a cabeça.
— Carlos — começou Aqua, ajustando os óculos. — Entendo o impulso expansionista, contratar mais, produzir mais. Mas temos um problema de fluxo. Quando anexamos a Cidade de Santa Maria, cortamos os laços com a Igreja de Alba. Eles eram, de longe, nosso maior comprador de tecidos e manufaturas. Agora, nossos armazéns no porto de Santa Maria estão começando a acumular tecido. Aumentar a produção sem um mercado para escoar… é receita para prejuízo.
O ponto era sólido e gelou um pouco o ânimo da sala. Carlos franziu a testa, seu olhar viajando para Paula, que até então observara tudo com um ar de divertida superioridade. Ao ouvir a questão de Aqua, um sorriso irônico começou a se desenhar em seu rosto.
Carlos, confuso, virou-se para ela.
— Qual é a graça, Paula?
A Papisa soltou uma risada baixa, melodiosa.
— Apenas… a ironia de como as notícias viajam. Demoram, mas chegam. — Ela ergueu-se, caminhando até o mapa. Seu vestido simples de roçava suavemente no chão. — O mundo, senhores ministros, já sabe que aqui, neste canto do rio, se produz aço de qualidade e em quantidade a um preço que faz os mercadores salivarem. E tecidos que não dependem das guildas europeias.
Ela apontou para o litoral, no mapa.
— A Igreja tem muitos aliados como a Espanha e Portugal, é claro. Mas também tem inimigos… os Holandeses. Eles já rondavam a Cidade Sagrada como tubarões, subornando bispos e diáconos por uma chance de comprar nosso aço. Sabem por quê? — Ela fez uma pausa dramática, olhando para os rostos atentos. — Os metais que mais sinergizam com gemas mágicas são ouro e prata, todos sabem. Mas isso não os torna armas ideais. Uma espada de ouro é um pedaço de metal macio e caro. Já o aço… ah, o aço. Sinergiza muito bem, é durável, resistente, mantém o fio. É o material perfeito para armas magísticas de alto nível. E quanto aos tecidos… bem, a Europa sempre tem apetite por novidades.
Seu olhar encontrou o de Aqua.
— Agora que o porto de Santa Maria está livre do controle direto de Alba, os representantes das Companhias das Índias Ocidentais já estão batendo à nossa porta. E estão brigando entre si pela exclusividade. O mercado, ministra Aqua, não só existe como está faminto.
Um sorriso largo se abriu no rosto de Carlos. “Finalmente! Boas notícias! O velho ditado é verdade: o inimigo do meu inimigo é meu amigo… pelo menos enquanto for conveniente.”
— Isso é excelente! — ele disse, a energia retornando à sua voz. — Paula, por favor, repasse todos os contatos e propostas para a ministra Aqua. Ela vai analisar e negociar os melhores termos. — Ele se virou para a ministra da Economia. — Aqua, não se limite aos holandeses. Busque a Inglaterra, a França. E tente fechar acordos que nos garantam matéria-prima. Minério de ferro, enxofre o que precisarmos para manter a fornalha acesa.
Foi então que Paula o olhou com uma expressão de genuína perplexidade.
— Carlos… — ela começou, hesitante. — A coroa da França e a da Inglaterra… pertencem ao Rei da Espanha.
A declaração caiu como uma bomba na sala. O ar pareceu sair de todos de uma vez. Carlos ficou paralisado, processando.
— Espera… a Espanha não perdeu a guerra contra esses dois? Como eles mantiveram Portugal e os Países Baixos, então? E como vamos negociar com eles se a Espanha domina os mares?
Paula arqueou uma sobrancelha, surpresa.
— No seu mundo isso não aconteceu? — perguntou, genuinamente curiosa. — Sim, o monarca espanhol reivindica essas coroas, entre muitas outras. Mas é um império tenso, uma colcha de retalhos em constante rebelião. Ele passa mais tempo sufocando revoltas em Flandres ou na Catalunha do que administrando um império coeso. E quando tomei a Cidade Sagrada, tomei também algumas das galés e navios de suprimentos da frota eclesiástica que estavam atracados ali. Não são a Armada Invencível, mas não são cascas de noz.
Carlos deixou escapar um longo suspiro, uma mistura de alívio e nova ansiedade.
— Bom, que o Império Espanhol continue sangrando nessas revoltas, então. A última coisa que precisamos é de uma Espanha reunificada com vontade de recolonizar. Quanto às frotas… confio no que você diz, mas precaução nunca é demais. Tivemos que improvisar uma marinha às pressas para o ataque a Areia Branca, juntando mercadores, alguns navios da igreja que aderiram a nós e nossa artilharia de campanha. — Ele virou-se para Nia, a Ministra da Indústria. — Nia, quando essa frota improvisada retornar, quero que sua prioridade absoluta seja a expansão naval. Mais canhões, começando por escoltas e corvetas. Precisamos proteger nossas rotas comerciais até o Velho Mundo.
— Sim, Senhor Presidente! — respondeu Nia, seus olhos já brilhando com o desafio técnico.
— E Davi — Carlos continuou, olhando para o Ministro da Indústria Química, um homem quieto e metódico. — Mais canhões significam mais consumo de pólvora sem fumaça. Esteja preparado para escalar sua produção. Não podemos parar por falta do propelente.
— Sim, senhor presidente — respondeu Davi, anotando em seu caderno de capa dura.
Carlos então voltou sua atenção para a figura mais complexa à mesa.
— E por último, mas não menos importante… Ministra da Ciência, Paula. Quero construir um laboratório de pesquisa avançada na Cidade de Santa Maria. Um lugar onde você possa continuar seus… estudos com as gemas, em colaboração com nossos próprios pesquisadores. E também dar um impulso à pesquisa dos antibióticos, da penicilina. — Ele fez uma pausa. — Lembro que você mencionou um artesão mágico especializado em ferramentas de cura na Cidade Sagrada. Quero contratá-lo, ou ao menos comprar sua produção. Um hospital em Ouro Branco é o próximo projeto, e precisaremos do melhor equipamento médico mágico que pudermos ter.
Paula ajustou seus óculos de aros finos, que abrigavam lentes da Visão. Uma sombra passou por seu rosto.
— Lamento, Carlos — disse ela, e sua voz perdeu um pouco da altivez anterior. — Isso não será possível. O artesão… está morto.
Um murmúrio de surpresa percorreu a mesa.
— Morto? Como? — perguntou Carlos, seu plano encontrando um obstáculo inesperado.
— Não sei ao certo. Foi encontrado sem vida em sua oficina, sem sinais de violência. — Paula falou com uma calma sinistra. — Veja, mesmo sendo a Papisa, havia segredos da Igreja que não me eram revelados. Um deles é o método de fabricação das ferramentas que usam as Gemas da Cura e da Alteração de forma estável. Parece que todo artesão mágico vinculado à hierarquia eclesiástica… não pode revelar esses segredos. Se tentam, ou se são forçados a trabalhar para fora da estrutura da Igreja… algo acontece. Um feitiço de segurança, um veneno de ação lenta, ninguém sabe ao certo. É assim que a Igreja, e muitas casas reais na Europa, mantêm seus monopólios há séculos. O conhecimento morre com o portador.
Carlos ficou em silêncio por um momento, absorvendo a informação. “Nada é simples neste mundo. Tudo tem um preço, um segredo, uma maldição de sangue amarrando o progresso.”
— Tudo bem — ele disse finalmente, sua voz resignada. — Temos nosso próprio artesão mágico aqui em Liberdade. Ele não trabalha com Cura ou Alteração, sua especialidade é com a Terra, mas já está produzindo coisas úteis para nós, como as balas especiais para a linha de frente. Se você precisar de algo no seu laboratório que envolva lapidação ou estabilização de gemas em dispositivos, fale com ele. Podemos desenvolver nossas próprias soluções.
— Sim, senhor Presidente! — respondeu Paula, e desta vez seu tom imitou leve e ironicamente o dos outros ministros, quebrando um pouco a tensão.
Carlos quase sorriu, mas reteve-se.
— A última questão de hoje é o festival de amanhã — ele anunciou, olhando para todos. — O “Festival da União”. Mais do que uma celebração, será um símbolo. E nele… — ele fez uma pausa significativa —, anunciaremos oficialmente a mudança do nome da nossa capital. Liberdade!. Amanhã, esta cidade ganhará seu nome definitivo.
O anúncio gerou um burburinho de expectativa. Carregado agora pela energia dos planos em movimento e do futuro que se desenhava, complicado, perigoso, mas inegavelmente deles.

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