Depois de analisar o tronco de árvore que foi alvejado por balas, Espectro voltou para falar com Carlos.

    — A chefe Aqua me contou que você consegue fazer mais armas dessas, é verdade?

    — É sim senhor, mas nem se comparam com essas armas atuais, porém elas ainda podem ser úteis. Só não garanto se vou conseguir fazer a pólvora que as armas precisam, pois não sei se vamos conseguir os materiais por aqui.

    — Se sua arma for melhor que um arco, já será bem útil para nós. Quais materiais seriam necessários para fabricar as armas e essa tal pólvora?

    — Para a arma precisamos de ferro, madeira e pederneira, nada muito raro. Já para a pólvora nós vamos precisar de enxofre, salitre e carvão. Posso mostrar imagens de como são esses materiais, mas deixa perguntar, vocês comercializam com pessoas fora do quilombo?

    — Realmente não conheço o nome desses materiais e infelizmente só comercializamos com pequenos agricultores da região, nem usamos dinheiros apenas trocamos alimentos e cachaça por ferro e ferramentas. Seria possível encontrar alguns desses materiais na região?

    — Segundo um dos livros que possuo é possível sim. Salitre pode ser encontrado em cavernas com guano, basicamente cavernas com morcegos ou que já tiveram morcegos. Já enxofre pode ser extraído da pirita que muitos usam como pederneiras.

    Nia que observou todo o teste das armas ficou tão boquiaberta que nem disse uma palavra a todo momento que estava lá. Porém agora que o assunto era sobre poder fazer suas preciosas armas, então a história era outra.

    — Pego pederneiras na caverna do fogo, já sobre uma caverna com morcegos, talvez a Quixotina sabe onde fica uma não é mesmo Aqua?

    — Bem lembrado Nia, ela deve saber alguma coisa. Apesar dela ser extremamente excêntrica, é uma boa pessoa que está sempre disposta a ajudar.

    “Quixotina, que nome diferente, mas o importante é que essa pessoa pode me ajudar.”

    — Isso é bom, mas devo dizer que o processo para obter os materiais será lento e trabalhoso. Entretanto vai valer a pena pois a pólvora é muito útil por si só.

    Ouvindo isso, o Espectro não pode deixar de ficar animado pensando: “Isso quer dizer que sabe fazer mais armas além dessas que usamos? Isso é excelente, não importa quanto tempo leve nem quantos materiais precise, desde que consiga nós dar mais armas para lutar contra os portugueses”

    Espectro olhou para Aqua que confirmou com a cabeça e começou a falar:

    — Eu como chefe do Mocambo do Tatu vou apoiar totalmente vocês para a produção dessas armas e da pólvora. E vocês também terão o direito de ir e vir por qualquer lugar deste mocambo e fora dele também. Assim como não precisarão se preocupar com comida, vocês podem pegar comida direto de nossos armazéns, claro, são livres para continuar trabalhando na roça de vocês. Entretanto não estarei apoiando incondicionalmente, preciso saber do progresso de vocês. Assim como quero ver os produtos finais, para decidir se devemos investir mais nisso ou não.

    Essa notícia deixou Carlos muito animado.

    “Excelente, consegui tudo que queria e até mais”

    — Obrigado pela gentileza Chefe Aqua.

    Espectro tossiu interrompendo a conversa.

    — Só tem um pequeno detalhe essas armas vão ter que voltar a ficar conosco, ainda não podemos confiar totalmente em vocês ainda mais depois de ver o poder dessas armas.

    — Pode ficar com elas, não sou guerreiro e não tenho utilidade para elas, mas gostaria de ficar com apenas uma por precaução, e claro vou precisar das balas da arma.

    “Que bom que Carlos é uma pessoa generosa, essas armas serão muito úteis para nós.”

    — Obrigado, tomara que você consiga fazer estas armas, Ganga Zala ficará muito feliz se você conseguir fazer elas.

    Carlos pegou o revólver e as balas dele, pois era a arma que mais tinha balas.

    “É estranho viver sob um rei ou ganga como falam. Além disso, não vou fazer isso por rei nenhum e sim para garantir a liberdade de quem mora aqui, e minha liberdade também, mas sei que não devo me demonstrar oposto a esse tal ganga.”

    — Sim senhor, irei começar a trabalhar agora mesmo.

    A ferreira Nia ao ouvir isso não pode deixar de ir correndo na frente de Carlos e pegando nas mãos dele, o que lhe assustou.

    — Isso mesmo, vamos começar agora mesmo! Agora vamos para a minha oficina para você me mostrar de novo como se faz aquele tal mosquete de pederneira!

    Os olhos de Nia brilhavam enquanto falava isso, o que o deixou sem jeito.

    Tassi vendo isso se incomodou um pouco: — Calma mulher, nós ainda temos que planejar nossos passos e conversar bem. — Nia apenas ignorou as falas de Tassi.

    — Não se preocupe Tassi, podemos deixar-la fazendo a arma enquanto procuramos os materiais da pólvora, só tenho que voltar para minha casa para pegar o livro que fala desta arma.

    — Então vamos lá agora mesmo! — Nia começou a correr em direção a casa de Carlos enquanto segurava a sua mão. O queo  forçou a correr também para não ser derrubado.

    Vendo tal cena Tassi ficou mais irritada ainda, mas não demonstrou: “Nem precisamos de tanta pressa assim, mas esse Carlos, não consegui dizer não.”

    Enquanto corria jogou seu revólver para Tassi junto com um saco de balas do mesmo e gritou: — Tassi, pega o revólver e as munições dele para você, treina um pouco antes de você voltar! — Ao ouvir isso, toda a irritação sumiu do corpo de Tassi e foi substituída por uma animação quase infantil. 

    Não só ela ficou animada, como Aqua também: — Ha ha ha! Essa Nia como sempre, quando se anima em um projeto não para nunca! Não é mesmo Espectro?

    — Eu estou mais preocupado com o Carlos, logo vai ter que enfrentar a irá dos maridos da Nia.

    ───────◇───────◇───────

    Carlos estava suando e recuperando fôlego em frente a sua casa, afinal foi forçado a ir correndo até lá. Como já havia mostrado o livro “Guns and History” para Nia, ela mesmo o deixou na entrada de sua casa e foi pegar o livro enquanto ele se recuperava. Não demorou muito e voltou com o livro em suas mãos.

    — Então qual arma mesmo que você quer que eu faça? — Perguntou enquanto folheava o livro.

    Ficou recuperando o fôlego mais um pouco antes de pegar o livro e para na página que falava detalhadamente sobre o Mosquete Brown Bess.

    “Vou fazer este mosquete, porque não é tão complicado de se fazer e já foi mostrado pela história que este mosquete era muito efetivo, afinal era o mosquete que foi utilizado pelos britânicos durante o século XVIII, mas não adianta fazer apenas um deles, teríamos que ter um batalhão, para só então esse mosquete mostrar seu poder em disparos em massa com um alcance de 50 a 100 metros.”

    Foi lendo e explicando o que o livro dizia. O livro era muito detalhado e até falava como os ferreiros conseguiam fazer o mosquete na época.

     — Nossa esse livro tem desenhos tão realistas, até parece uma cópia da realidade, nenhuma pessoa conseguiria desenhar isso. Graças a isso ficou bem fácil para mim entender, e ainda tem a explicação de cada peça, mas pelo que estou vendo aqui vai ser um processo demorado, principalmente esse tambor, mas isso é tão excitante, estava tão cansada de ficar fazendo a mesma coisa sempre. Agora está na hora de mostrar que ferreiros não perdem para artesões mágicos!

    — Então quanto tempo você acha que vai demorar para fazer essa arma?

    — Como é a primeira vez que to fazendo não dá para eu estimar muito quanto tempo, mas ainda não entendi o processo por trás dessas armas de fogo. Vi você usando elas porém não entendi, como funcionam.

    “Tomara que não demore muito. Apesar de que acho que no momento estou seguro aqui, tomara que quilombo dure tanto quanto o Quilombo de Palmares.”

    — Vou te falar como o mosquete que tu vai fazer funciona, é mais simples que as armas que eu usei, mas o princípio é o mesmo. Basicamente, é colocado pólvora no cano, então se coloca a bala. Então você aperta o gatilho que faz com que a pederneira bata gerando uma faísca que incendeia a pólvora que explode, forçando a bala a sair a uma velocidade muito alta. Já nas armas modernas que usei, a pólvora e a bala ficam dentro da munição, e existe todo um mecanismo para que tudo isso vá automaticamente no cano da bala. O que faz com que a velocidade de tiros seja muito mais rápida que uma arma de pederneira.

    — Você é realmente muito inteligente, devo dizer que ainda não entendi completamente tudo que você disse, nem tudo que você me explicou do livro. Por isso, vou ter que vir aqui mais vezes para você me explicar as partes que não entendo. Então é melhor se acostumar com minha presença. 

    — Claro qualquer dúvida, só perguntar.

    — Com isso minha parte tá resolvida, só que essa arma tem várias peças de madeira então seria bom você falar com o carpinteiro da do mocambo.

    — Tem razão, é melhor resolver isso logo, mas não sei onde fica.

    — Não se preocupe, te levo lá, e também mostro onde fica minha oficina, que também é onde moro.

    Nia começou andar até o centro do mocambo até chegarem numa casa de barro com telhado de palha, a casa era maior que as vizinhas, mas ainda não se comparava ao barraco em que dormiram quando chegaram no mocambo.

    — Essa daqui é a minha oficina, e atravessando a rua fica a carpintaria. Agora já vou indo, quero começar a fazer logo essa belezinha de arma.

    — Tudo bem, obrigado.

    Nia entrou em sua oficina e se virou para fechar a porta, mas antes de fechá-la disse:

    — Sabe, se você virar meu quinto marido vai me poupar tanto tempo, aí poderemos morar juntos e não vou ter que vir até a sua casa toda hora para você me explicar melhor sobre essas armas.

    Deu uma piscadela e fechou a porta.

    “Realmente é linda, mas ser o quinto marido é foda viu. Enfim com isso, a parte fácil já foi, agora vem a parte difícil, procurar os materiais para a pólvora. Aliás, me esqueci de perguntar da caverna das pederneiras. Apesar de que está tarde hoje e os materiais mais importantes ficam em cavernas, e não to a fim de meter em uma caverna a noite.”

    Atravessou a rua até chegar na oficina do carpinteiro para explicar como fazer as peças de madeira do mosquete que necessitava. A oficina do Mocambo do Tatu não era muito grande, era uma casa feita de barro, assim como as demais estruturas no local. Ao entrar deu para ver que havia várias ferramentas na parede, como martelos e serras, havia várias pessoas trabalhando, cortando e polindo madeira, mas havia algo surpreendente, um homem bem alto, pardo que estava empurrando uma tábua num disco de serra que estava girando muito rápido. Se fosse no mundo atual isso não seria estranho, mas nesse mundo não havia eletricidade.

    “Não acredito, como será que essa máquina funciona?”

    Ficou tão surpreso,  que acabou esquecendo de falar. O carpinteiro, um senhor negro com barba curta e de quase dois metro de altura estava serrando as tábuas no disco de serra parou seu trabalo ao notar a presença de Carlos, e parou seu trabalho para vir falar com ele.

    — Boa tarde, sou o Vicente. Nunca te vi por aqui, você faz parte do grupo de recém chegados não é mesmo. Quem é você?

    Carlos logo se recuperou e disse: — Boa tarde, me chamo Carlos e preciso de sua ajuda, Aqua não deve ter falado com você ainda. Mas me disse que posso pedir ajuda para os artesãos do mocambo para fazer uma certa arma, pode confirmar com ela depois. 

    — Vou confirmar mesmo, mas se for ordens dela mesmo, vou começar a fazer agora mesmo. A não ser que seja para fazer um banco ou uma mesa, se for isso nem fale nada, tem tanto novato preguiçoso que nem tem um mês que entrou e já quer uma casa maior que a do senhor do engenho, e que esteja mobiliada ainda! Só de ter uma terra para plantar já deveriam estar felizes, sabia que quando cheguei aqui era tudo mato? A gente teve que desmatar tudo, cavar poço para pegar água, achar algum lugar para tomar banho. Vocês têm tudo de mão beijada!

    — Tá bom pai, acho que o moço já entendeu. — Quem disso isso, era menino de aparentemente uns 15,16 anos que estava perto da máquina com uma serra que o Vicente estava usando.

    — Bentinho, deixa os adultos conversarem.

    — Não se preocupe Vicente, não é nada disso. É uma arma mesmo, mas antes de mostrar o que preciso que você faça. Primeiro gostaria de saber como aquela serra circular está girando nessa velocidade.

    — Ah aquilo, é uma boa engenhoca né, me ajuda demais. Usa uma gema do ferro, meu filho Bentinho usa a magia dele na gema que está conectada no disco e isso faz com que o disco de ferro gire a uma grande velocidade, sendo capaz de cortar qualquer madeira com facilidade. Apesar da gema se chamar de gema do ferro, nós carpinteiros chamamos de gema do carpinteiro pois é apenas útil para nós.

    “Que droga, já pensei que tinha alguma forma de energia para fazer a serra girar, mas se todo mundo pudesse usar essas gemas de ferro daria para fazer liquidificadores, nesse calor até talvez desse para fazer um sorvete com a gema de gelo e leite. Infelizmente nem todos são adeptos a gema, e pior ainda, pelo o que o carpinteiro disse essa gema não tem tanta utilidade, Tassi disse algo semelhante, seria tão legal se a gema permitisse controlar o ferro como Magneto.”

    — Entendo vai ser bem útil então para você, preciso que você me faça várias peças de madeira para diversas máquinas. — Carlos começou a explicar em detalhes sobre a arma e as peças que precisaria, foi mostrando tudo com a ajuda do livro. 

    Mesmo com as explicações não daria para se lembrar de tudo de uma vez só, Carlos até pensou em deixar o livro com, mas seria muito perigoso mesmo se Vicente não tivesse más intenções. Ali era uma oficina e pra acontecer um acidente seria muito fácil, e não poderia se dar ao luxo de perder nenhum livro seu, ainda mais um livro importante desses. 

    “Queria ser que nem os protagonistas gênios das novels e mangás que lia, conseguiam reconstruir todas as máquinas do mundo moderno só de cabeça. Infelizmente não sou um gênio e não seria nada sem esses livros.”

    — Qualquer dúvida, apenas venha falar comigo, a Nia sabe onde moro.

    Logo voltou para sua casa e no caminho se encontrou com Tassi que estava indo para lá também. Estava com o revólver em mãos, parecia uma criança que ganhou um presente.

    — Esse revólver é uma arma sensacional! Se tivesse isso antes nunca teria sido capturada como escrava. Obrigado, mas então o que vamos fazer agora?

    “Está totalmente diferente de quando a conheci. Antigamente emanava um ar sereno e sério, agora parece uma criança.”

    — Hoje? Nada, amanhã quero falar com a pessoa que Aqua disse que sabia das cavernas na região. Nós precisamos achar uma caverna que tenha ou tenha tido muitos morcegos.

    — Ugh, porque morcegos? Não vai me dizer que para fazer essa tal de pólvora precisará fazer alguma bruxaria com morcegos?

    — Que? Claro que não, também não gosto de morcegos mas a razão pela qual eu preciso de uma caverna com morcegos é porque onde tem ou tinha morcegos tem fezes de morcegos, também conhecida como guano e onde tem guano pode ter salitre nas paredes da caverna, o que seria bom, pois poderíamos facilmente minerar o salitre das paredes das cavernas e precisamos de salitre para fazer pólvora. Mesmo se não tiver salitre na caverna, posso extrair do guano. Se nenhuma caverna tiver guano, até poderemos fazer de alguma forma.

    — Prefiro fazer do que entrar em uma caverna cheia de morcego e bosta de morcego, como se faz?

    — Se usa bosta humana e animal para fazê-lo.

    — Ugh, vamos para a caverna de morcegos mesmo.

    — Pensei que fosse uma guerreira destemida e corajosa.

    — E que tipo de guerreira vai ficar mexendo com bosta? Sem contar que faço de tudo se for para derrotar meus inimigos, mas isso não quer dizer que gosto do que estou fazendo.

    — Nisso você tem um ponto. De qualquer forma, hoje não vai dar para fazer muita coisa, amanhã falaremos com a pessoa que Aqua disse que sabia das cavernas da região.

    “Se não me engano a pessoa que pode saber de uma caverna assim se chama Quixotina, mas devo dizer que nome feio, que pais dão um nome desses para uma criança? Deixando isso de lado, Aqua ainda disse que é uma pessoa excêntrica, será que é mais maluca que a Nia?”

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