Capítulo 3 - Vida de Escravo
Os escravos fugitivos, Carlos entre eles, permaneciam amarrados de pé, expostos ao sol inclemente. A luz do meio-dia queimava suas peles e refletia no chão de terra batida, criando um calor que distorcia o ar. Todos haviam sido arrastados para a frente da senzala, forçados a servir de exemplo para os outros cativos que se reuniam aos poucos, sob o olhar vigilante dos capatazes. O senhor do engenho, Jorge, queria marcar aquele dia na memória de todos. Até alguns homens livres da redondeza se aglomeravam à distância, atraídos pela morbidade do espetáculo.
Quando a multidão finalmente se aquietou, o senhor do engenho adiantou-se, seu rosto crispado de ódio.
— Seu bando de animais fujões! — rugiu, a voz carregada de desprezo. — Formem uma fila! Eu mesmo vou ensinar, na chibata, o que acontece com quem me desafia!
Um capataz entregou-lhe o chicote de couro trançado. Outro começou a cortar as cordas e as videiras que prendiam os homens. Movimentos lentos, pesados pela resignação, formaram uma fila silenciosa. À frente, Tassi mantinha uma postura ereta. Seu rosto não transmitia medo ou ódio, mas uma serenidade profunda e perturbadora, que parecia irritar o senhor ainda mais. Carlos, posicionado no meio da fila, sentia o coração bater forte no peito, mas surpreendeu-se com uma certa calma interior, um entorpecimento diante do horror.
— Então quer ser a primeira, é? — cuspiu Jorge, parando diante de Tassi. — Pois saiba que um dos seus companheiros ‘leais’ me contou tudo. Vocês planejavam escapar em um pequeno grupo e pedir ajuda ao Quilombo da Jabuticaba. Que ideia mais estúpida! Acha que um bando de pretos preguiçosos, escondidos no meio do mato, viria salvar uns inúteis como vocês? Agora que o governador expulsou os holandeses, pode focar em exterminar essas pragas. Em breve, aquele quilombo será varrido do mapa, e cada um daqueles fujões será morto!
Ao ouvir a menção aos holandeses, os pensamentos de Carlos se aceleraram. “Holandeses? Então isso confirma que estamos no Brasil colonial. Se a linha do tempo for a mesma do meu mundo, deve ser por volta de 1654-1655, logo após a expulsão deles.”
— Agora venha pra cá, sua imunda! — ordenou o senhor. — Você vai receber duzentas chibatadas! O resto leva cem!
Tassi caminhou com dignidade até o pelourinho — uma coluna de madeira escura, erguida bem em frente à senzala, coroada por uma cruz que parecia zombar da fé daquela gente. O poste servia como um lembrete sombrio e constante do preço da desobediência.
Ao chegar, ela se virou de costas e retirou a blusa simples que vestia, expondo as costas ao carrasco. Não fez nenhum movimento para cobrir os seios, nem demonstrou vergonha ou arrependimento. Apenas um silêncio desafiador, que inflamou ainda mais a fúria do senhor.
O processo foi longo e brutal. O som seco do couro contra a pele ecoava no pátio, intercalado pelo ruído ofegante do próprio Jorge, que logo se cansou. Um capataz mais jovem assumiu a tarefa, mas Tassi mal emitia um gemido. A dor parecia ser absorvida por sua quietude, e Carlos sentiu uma admiração profunda e dolorosa brotar em seu peito.
Quando a última chicotada soou, outro capataz aproximou-se carregando um ferro que brilhava com um vermelho incandescente na forja portátil. Na ponta, a letra “F” gravada parecia sangrar luz. Jorge pegou o cabo de madeira, sentindo o calor radiante.
— Acha que acabou? — rosnou. — Vire-se pra cá, sua puta!
Ela se virou, o olhar fixo no senhor, enquanto dois capatazes a seguravam pelos braços. Jorge aproximou o ferro com uma lentidão cruel. O contato do metal incandescente com a testa de Tassi produziu um som horrível, e um gemido sufocado finalmente escapou de seus lábios, para deleite do algoz. Ao retirar o ferro, a marca fumegante da letra “F” havia sido cravada para sempre em sua pele.
— Um ‘F’ de fujona! Para ninguém nunca esquecer quem você é e o que acontece com quem me desafia! Agora, tragam a máscara!
Um dos homens trouxe um objeto de metal estranho. Carlos nunca tinha visto nada igual. Era a máscara de flandres, que cobria a boca e era travada por um cadeado na nuca, impedindo a fala e a alimentação.
— Vai usar isso por uma semana. Não vai comer, não vai falar. Já que seu plano falhou, deve estar querendo comer terra para se matar, mas não se preocupe… Vai viver muito ainda. Vou sugar cada gota de poder mágico do seu corpo. Só vai morrer quando se tornar inútil para mim.
Suas palavras pareciam esbarrar e cair diante da serenidade imóvel da escrava. A fúria cega tomou conta de Jorge, suas veias saltando na testa. Num acesso de raiva, ele deu um soco no rosto de Tassi.
— Sua puta imunda! Levem ela para a senzala! E continuem com os outros!
Após a ordem, ele se virou e marchou em direção à casa-grande. Dois capatazes arrastaram Tassi para longe, enquanto os demais retomavam a punição.
Um por um, os escravos foram chicoteados. Carlos, ainda atordoado, preparava-se para o pior. Pelo menos, apenas Tassi fora marcada com o ferro e condenada à máscara; os outros “apenas” sofriam as chibatadas, um alívio macabro e relativo.
“Que vida horrível. Que mundo desumano”, pensou Carlos, o estômago embrulhado. “Não é à toa que fugiram. Aquele velho é a personificação do mal, mas, no fim, qualquer um que possua outro ser humano é.”
“Mas não vou aceitar isso. Deve haver algo que eu possa fazer. Um jeito de fugir, de levar todos comigo. Meus conhecimentos, a magia que ele mencionou… qualquer coisa! Não vou descansar até conseguir. Custe o que custar!”
Enquanto seus pensamentos fervilhavam, chegou a sua vez. Ao se aproximar do pelourinho, um capataz adolescente, não devendo ter mais de quinze anos, olhou para suas roupas incomuns e cochichou com o colega:
— Jairo, a gente devia bater nesse também? Ele nem fugiu com os outros…
Jairo, um homem alto de quase dois metros, com uma camisa de algodão cru suja, barba por fazer e olheiras profundas, lançou um olhar cansado para o jovem.
— E daí? — respondeu, a voz rouca. — É um preto. Por essas bandas, preto é escravo. Deve ter fugido de algum outro lugar. Tem que aprender a não criar o háxico.
O rapaz ainda pareceu relutante.
— Mas ele não fugiu daqui…
Por um breve instante, uma centelha de esperança iluminou Carlos, mas ela se apagou rapidamente.
Jairo, irritado, arrancou a chibata da mão do jovem.
— Ah, dá pra cá! Se o senhor reclamar, a culpa é minha. Mas duvido que ele fale algo — resmungou, cuspindo no chão. — Só tiveram coragem de fugir porque eu fui pra cidade ver o casamento da minha filha. Vocês são uns inúteis sem mim!
Os capatazes arrancaram a camisa de Carlos. Tentando imitar a coragem de Tassi, ele fixou o olhar no horizonte, buscando uma calma que não sentia. A primeira chicotada, porém, cortou-lhe a pele e a pose. Um gemido escapou de seus lábios, uma dor aguda e alienígena que ele nunca imaginara possível. Em vez de quebrá-lo, porém, a dor solidificou seu ódio e sua determinação.
Depois que todos foram punidos, Jairo se aproximou de Carlos, segurando o chicote e um montes de trapos velhos.
— Anda comigo.
Caminharam até a sombra de uma árvore solitária perto de um lago. O capataz jogou os trapos no chão.
— Tira essas roupas de mentira e veste essas daqui. Agora!
Carlos, dolorido e com medo de mais violência, obedeceu em silêncio. Enquanto ele se trocava, Jairo vasculhou seus pertences. Pegou a camisa de algodão moderno, estranhando o tecido. Examinou a calça jeans, confuso com a textura áspera e os botões de metal. “Devem ser roupas da África”, ponderou, tentando racionalizar. Rumores diziam que os pretos usavam trajes estranhos naquelas terras.
Ao revirar os bolsos, encontrou alguns papéis envoltos em um material liso e frio — plástico — que nunca tinha visto. Em um deles, havia um retrato hiper-realista de Carlos. Jairo só tinha visto ilustrações tão perfeitas nos livros do diabo que o patrão colecionava.
— Que coisas mais esquisitas… — murmurou. — Mas o patrão pode gostar.
“Imaginei que iam pegar minhas coisas”, pensou Carlos, amargamente. “De que adianta um celular num lugar sem energia, sem sinal? Minha carteira, meus documentos… tudo inútil. Nessa hora, eu queria ter vindo com uma arma. Mas pelo visto, só trouxe o que estava no bolso…”
Jairo pegou o celular, a caixa preta e lisa. Virou-o nas mãos, curioso, até que, por acidente, pressionou um botão e a tela acendeu.
— Nossa! — exclamou, surpreso. — Olha só esse treco. Acendeu sem uma gema mágica nenhuma… O Seu Jorge vai adorar uma coisa dessas.
Deixando os objetos no chão, ele olhou para Carlos, que agora vestia apenas uma calça de algodão cru, furada e suja, descalço e sem camisa.
— Mas como um escravo conseguiu uma coisa dessas, hein? Roubou de qual senhor?
A mente de Carlos disparou. “O que eu digo? Minhas costas estão em carne viva, não quero mais apanhar… Devo dizer que vim de outro mundo? Que achei? Que roubei?”
Jairo interpretou seu silêncio como desafio. Seu rosto se contraiu de raiva e ele pegou o chicote.
— Responde quando te perguntam! Não sabe falar, não? — gritou. — Uns bons golpes devem soltar a sua língua!
Carlos, em pânico, atirou-se à primeira desculpa.
— Eu… eu achei. Perto de uma árvore, na estrada.
Chicote! O couro cortou sua perna direita. Carlos cerrou os dentes, transformando o grito em um rosnado de puro ódio.
— Seu mentiroso! Fala a verdade!
“Que ódio! Por que tenho que passar por isso?”
— É verdade! — insistiu, a voz trêmula. — Achei as roupas e essas coisas. Pensei em vendê-las na cidade.
A resposta pareceu irritar Jairo ainda mais, mas ele não o bateu de novo.
— Acha que eu nasci ontem? — esbravejou, pegando a carteira de Carlos e apontando para a foto da identidade. — Esse desenho tem a sua cara! Não vai me dizer que foi você que fez! Não sou idiota, sei que está mentindo! Tudo bem, o Seu Jorge vai decidir o que fazer com você!
Após a explosão, Jairo respirou fundo, tentando se acalmar. Virou-se e começou a andar em direção aos canaviais.
— Olha, a partir de agora você vai trabalhar no canavial. Vai cortar cana e carregar as carroças. Quando uma enche, puxam outra. E assim o dia todo. Com a Tassi de volta, as canas não param de crescer.
Enquanto seguia o capataz, o dedão do pé de Carlos esbarrou em uma pedra pontiaguda. Uma pontada de dor percorreu seu corpo. “Não me diga que vou ter que andar descalço?” Mas ele não ousou perguntar. Sua perna latejava e suas costas queimavam.
Ao chegarem ao canavial, não houve descanso. Carlos foi obrigado a mergulhar no trabalho sob o sol abrasador e os olhos vigilantes dos capatazes. A vida sedentária que levara como motorista de aplicativo não o preparara para o esforço brutal de cortar cana com um facão pesado e carregar feixes até as carroças. Seus músculos ardiam em protesto, uma dor que se somava à fome latejante, pois não comera nada o dia todo.
“Ninguém merece isso… Trabalhar o dia todo, com fome, neste calor… É desumano.” A saudade de sua vida anterior era um peso físico. “Eu daria qualquer coisa para estar no meu carro agora. Nunca mais reclamaria de um passageiro chato. Limparia vômito de bêbado com um sorriso no rosto.”
Mas suas preces não foram atendidas. Ele continuou trabalhando por horas, até que o sol finalmente começou a descer, tingindo o céu de laranja e roxo — o sinal de que a jornada infernal chegava ao fim.
Lentamente, os escravos foram terminando suas tarefas e se aglomerando para a marcha de volta à senzala. Os capatazes observavam cada movimento, seus rostos mais tensos e irritados do que o normal. A fuga anterior lhes custara parte do salário, e a vigilância agora era dobrada.
Carlos simplesmente se deixou levar pela massa de pessoas exaustas. Seguiu o fluxo, seus pés descalços arrastando-se na terra. Assim, seu primeiro dia de trabalho forçado chegava ao fim, deixando para trás nada além de dor, fome e a semente da revolta.

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