Índice de Capítulo

    O dia na Cidade Sagrada de Santa Maria começou como qualquer outro para a Papisa Paula. O sol matinal filtrou-se pelos vitrais de seus aposentos, iluminando os ricos tapetes e a mesa de carvalho onde um café da manhã suntuoso aguardava: pães frescos, queijos, frutas cristalizadas. Ela comeu com a calma ritualística de quem valoriza o silêncio antes da tempestade do dia.

    Seguindo seu costume, dispensou a carruagem papal e seus guardas. Caminhar sozinha entre o povo, sentir o pulso da cidade, era um de seus pequenos prazeres e uma forma de humildade que seus predecessores nunca haviam cogitado. O ar fresco da manhã carregava o cheiro de pão acabado de sair do forno. Hoje, porém, a caminhada até a Santa Casa da Misericórdia não seria tranquila.

    Mal havia percorrido algumas ruas, quando seu ouvido captou fragmentos de uma conversa entre duas mulheres diante de uma banca de legumes, suas vozes carregadas de um tom sombrio.

    — …e você ficou sabendo do que aconteceu lá no Quilombo da Jabuticaba? — perguntou uma, segurando um maço de couve com nervosismo.

    A outra fez uma expressão aflita e se aproximou, baixando a voz. — Fiquei, um horror, né? Nem quis acreditar…

    Paula sentiu um frio na espinha. Seu passo vacilou. Normalmente, notícias de conflitos distantes a entristeciam com uma impotência resignada. Mas agora… agora aquelas palavras tinham um rosto. A lembrança das cartas, do conhecimento prometido, do acordo secreto, fez com que uma ansiedade aguda se instalasse em seu peito.

    “Um horror… Será que o quilombo foi destruído? Meus investimentos… o conhecimento…”

    Ela acelerou o passo, seus saltos finos fazendo um ruído seco contra as pedras irregulares da calçada. Outros pedaços de conversa a alcançavam, como fragmentos de um pesadelo.

    — …o filho da Maria voltou todo quebrado! Diz que o povo do quilombo usou magia negra, só pode! Como senão para acabar com todo aquele exército?

    “Magia negra?” O pensamento cortou como uma lâmina. “Armas do diavo! Foram as armas do diabo que Carlos comprou de Francisco! Apesar de que… Só aquelas armas seria suficiente para vencer um exército de dois mil homens?”

    A aflição inicial começou a se misturar com um alívio cauteloso, seguido por uma urgência renovada. Se estavam falando dos soldados que voltaram, era para a Santa Casa da Misericórdia que eles teriam sido levados. E por que ninguém a havia informado?

    Ao chegar ao grande edifício da Santa Casa da Misericórdia, a cena que se apresentou confirmou seus temores. O ar, normalmente impregnado pelo cheiro calmante de ervas medicinais, estava pesado com o odor metálico do sangue, o suor do medo e o fedor de pus. O grande salão estava abarrotado. Padres e freiras moviam-se entre macas e palhas espalhadas pelo chão, seus hábitos manchados de vermelho enquanto atendiam a uma multidão de homens gemendo. A visão a enfureceu.

    — Irmã Célia! — sua voz, normalmente um sussurro sereno, cortou o burburinho do salão como um chicote.

    Todos os olhos se voltaram para ela. Uma freira de meia-idade, com o rosto marcado pelo cansaço, largou rapidamente um pano ensanguentado e correu até a Papisa, curvar-se levemente, evitando seu olhar.

    — Sim, Vossa Santidade?

    — Por que não fui informada da chegada de todos esses feridos? — a voz de Paula era gelada, controlada, mas a fúria era palpável.

    A Irmã Célia estremeceu, seu olhar fixo no crucifixo que pendia do pescoço de Paula. — Eles… eles chegaram no meio da noite, Vossa Santidade. Informei os senhores cardeais, e… foi decidido que era melhor deixá-la descansar. Que você já viria após o café, como de costume…

    — Decidido? — Paula repetiu, a palavra saindo como um veneno. — Quem decide sobre o meu sono sou eu! A partir de hoje, qualquer incidente como este me é reportado diretamente, seja de dia ou de noite! E depois quero os nomes dos cardeais que tomaram essa decisão pelas minhas costas! Quantas almas poderiam ter sido poupadas desse sofrimento se eu estivesse aqui mais cedo?

    A freira ficou pálida, mas finalmente levantou os olhos para encarar a ira de sua líder. — Sim, Vossa Santidade. Perdoe-nos.

    Num instante, a fúria na face de Paula se dissolveu, substituída por sua expressão habitual e compassiva. Era uma transição assustadora.

    — Agora — disse ela, com voz suave novamente —, me mostre quem mais precisa de ajuda.

    A Irmã Célia, ainda tremula, apenas apontou para um jovem em um canto. Ele estava deitado em uma cama, a cabeça envolta em ataduras sujas, um coto no lugar de uma mão e outro no lugar de uma perna, ambos enfaixados de forma grosseira. O cheiro de carne necrosada já começava a pairar around dele.

    Paula se aproximou. “Meu Deus,” ela pensou, seu estômago embrulhando. “O que fizeram com você? Entendo uma ferida de batalha, mas isso… isso é mutilação pura. Será que o povo do quilombo é tão bárbaro assim?”

    Ela cumpriu meticulosamente o novo ritual de limpeza: lavou as mãos com água e sabão, amarrou um pano limpo sobre o nariz e a boca. As luvas, sugeridas por Carlos, eram impossíveis — a gema da alteração exigia contato pele a pele.

    — Bom dia, jovem. Como você se chama? — sua voz era um bálsamo no ar pesado.

    O homem virou a cabeça com dificuldade. Seus olhos, antes opacos pela dor, arregalaram-se ao reconhecer a figura que estava ao seu lado.

    — Vossa… Vossa Santidade? — sua voz saiu rouca e quebrada. — A senhora… vai me tratar?

    — Sim — ela respondeu, começando a desenfaixar cuidadosamente o coto do pulso. — Mas preciso do seu nome. E me conte o que aconteceu. Ajuda a guiar o tratamento.

    “Mentir é um pecado, Senhor,” ela pensou, “mas a verdade que busco pode salvar mais vidas do que apenas a dele.”

    — Me chamo André — ele disse, ofegando quando o pão grudado na ferida foi puxado. — Estava… estava no ataque ao quilombo, a mando do governador. Pelo dinheiro, sabe? Para ajudar minha família… — Ele fechou os olhos, tentando suportar a dor. — Eu manjo a gema do gelo… tinha um arco que lançava flechas de gelo… Ai!

    Paula havia exposto o ferimento. A carne estava esfacelada, com fragmentos de ferro e terra incrustados, e queimaduras ao redor. Ela pegou uma pinça e começou a limpar meticulosamente, extraindo cada fragmento de sujeira. André gritou, seus dedos da outra mão se enterrando no colchão de palha.

    — Sinto muito — disse Paula, sua voz firme, mas não cruel. — Concentre-se na sua história. Conte-me sobre as ‘laranjas’. Isso ajuda a distrair da dor.

    Ele gemeu, suor escorrendo por sua testa, mas obedeceu.

    — Eles… eles jogaram umas coisas redondas, como laranjas… O capitão gritou para os adeptos da água agirem, mas nem deu tempo… a coisa explodiu no ar! Pedaços de carne voando pra todo lado… — Ele choramingou enquanto Paula desinfetava a ferida crua com álcool, o líquido ardendo na carne exposta. Ele gritou novamente, um som agônico que ecoou pelo salão. — Depois… veio outra… e mais outra… Era um inferno…

    Quando o álcool evaporou, Paula colocou sua mão direita diretamente sobre o coto e segurou o crucifixo de prata em seu pescoço com a esquerda. A gema azul-escura embutida na cruz começou a pulsar com uma luz suave. Um formigamento percorreu o braço de André, uma sensação estranha de coceira e calor profundo, mas era infinitamente melhor que a dor anterior.

    — Havia alguma gema mágica nessas ‘laranjas’? — ela perguntou, sua concentração dividida entre a pergunta e o tecido que lentamente se regenerava sob seus dedos.

    — Tinha… uma gema laranja, acho. Mas gemas de fogo não fazem aquilo… — ele sussurrou, maravilhado ao ver os dedos começarem a se formar a partir do nada. — O capitão ordenou o ataque. Corri… uma caiu bem na minha frente. Tentei pular, protegi o rosto… Acho que tive sorte.

    Paula não respondeu imediatamente, focando na perna agora. A mesma limpeza dolorosa, o mesmo ritual.

    — Sorte? — ela finalmente disse, sua voz suave. — Foi Deus quem lhe deu uma segunda chance, André. Não a desperdice com violência e pecado. Encontre um trabalho honesto.

    — Sim, Vossa Santidade… — ele murmurou, seus olhos marejados de gratidão e culpa.

    Ela passou o dia todo na Santa Casa, tratando um ferido após o outro. As histórias eram variações de um mesmo pesadelo: explosões ensurdecedoras, fogo, uma barreira de chumbo invisível que ceifou vidas à distância. A cada relato, um frio se instalava mais profundamente em seu coração.

    “Foi um massacre,” ela pensou, exausta, enquanto finalmente se retirava para seus aposentos ao anoitecer. “Metódico, eficiente… brutal. Estou fazendo o certo, ajudando esses homens? Eles estavam se defendendo, é verdade… mas com uma ferocidade que não compreendo. Preciso de mais informações. Preciso deixar minha posição muito clara.”

    Sentando-se em sua escrivaninha, ela pegou uma pena, mergulhou-a na tinta e começou a escrever uma carta destinada ao Quilombo da Jabuticaba.

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    Na capital da capitania, Areia Branca, a atmosfera no gabinete do governador era de puro veneno. O ar estava carregado com o cheiro adocicado e enjoativo da cachaça derramada e a fumaça pesada de charutos.

    — Saia da minha frente, seu inútil! E Márcia! Traga mais cachaça, e rápido! — o governador berrou, seu rosto rubro de raiva.

    Um jovem oficial, o portador das más notícias, saiu da sala quase correndo. Uma escrava, de olhos baixos, entrou silenciosamente com uma nova garrafa e um copo. O governador a pegou das mãos dela sem um olhar, encheu o copo e o esvaziou de um só gole, o líquido ardendo em sua garganta.

    “Como? COMO um bando de negros fugidos no meio do mato consegue aniquilar um exército?” seus pensamentos rugiam, sincronizados com a dor latejante em suas têmporas. “Apenas mil voltaram! E metade está aleijada! Vou ter que pagar uma fortuna em ‘doações’ para a Igreja para tratar aqueles miseráveis! Seria melhor se todos tivessem morrido! E os escravos… os senhores de engenho vão me crucificar pela perda da propriedade deles. MERDA!”

    Com um rugido de fúria impotente, ele chutou sua pesada cadeira de espaldar alto, que tombou com um baque surdo contra o assoalho de madeira nobre.

    — Acham que ganharam, seus vermes? Acham que podem me humilhar assim? Investi uma fortuna nessa expedição!

    Ele respirava como um touro acuado. Após alguns momentos, a fúria cedeu lugar a um cálculo gelado. Ele pegou a cadeira e a colocou de volta no lugar, sentando-se pesadamente.

    — Meu capitão-mor… — ele murmurou para o vazio. — Lutamos juntos contra os holandeses. Era um lobo. Se ele morreu… não foi por sorte. Foi por poder.

    Ele encheu outro copo, a garrafa tilintando contra o cristal.

    “Não posso agir por impulso. Se os senhores de engenho reclamarem, lembrarei a eles de quem os ajudou a expulsar os holandeses e de quem garante que seus escravos continuem no lugar deles. Prometerei devolver sua ‘propriedade’.”

    Um plano começou a se formar em sua mente, nebuloso e cruel.

    “Farei outro ataque. Mas desta vez, não mandarei soldados. Mandarei um carniceiro. Alguém que entenda a linguagem desses animais. Alguém de fora… Sim. Escreverei uma carta. Direi que a eliminação do quilombo é vital para acalmar os ânimos dos senhores de engenho, que assim ficarão mais dispostos a pagar suas dívidas à Coroa Holandesa. Eles gostam disso, em Lisboa. Gostam de ouvir sobre dívidas sendo pagas.”

    Um sorriso feio se estampou em seu rosto. Ele não precisava entender as novas armas. Ele só precisava contratar alguém suficientemente cruel para lidar com o problema.

    — Márcia! — ele gritou, e a escrava reapareceu instantaneamente na porta. — Traga meu papel de carta e a pena. Agora.

    Ele bebeu mais um gole enquanto esperava. Quando o material foi colocado diante dele, ele começou a escrever, sua caligrafia firme e cheia de veneno.

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