Capítulo 51 - Carta
O sol da manhã ainda mal aquecia a terra batida do Mocambo do Tatu, mas uma fila já serpenteava diante da casa de alvenaria de Carlos. O ar fresco carregava o murmúrio baixo de dezenas de trabalhadores, suas roupas simples ainda impregnadas com o cheiro de fumaça das forjas, serragem das oficinas ou a terra úmida dos campos. Era dia de pagamento.
Dentro de casa, Aqua, agora Ministra da Economia com uma postura renovada, comandava a operação. Conhecendo a maioria das pessoas do mocambo, ela reconhecia cada rosto que se aproximava, cruzando-o com os nomes de uma longa lista de pergaminho.
— João, assistente de ferreiro! — anunciava ela, em voz alta e clara, para que Carlos, sentado atrás de uma mesa com várias pilhas de saquinhos de tecido, pudesse ouvir.
Carlos, por sua vez, pegava um saquinho que tilintava com o som metálico das moedas. Cada trabalhador se aproximava, e ele estendia o pagamento.
— Faça um rabisco aqui, seu João — pedia Carlos, apontando para uma coluna ao lado do nome do homem em um grande livro. Para muitos, aquele risco era a única “assinatura” que conseguiam produzir. Em seguida, ele guiava a mão do trabalhador para um pequeno pote de tinta e depois para um carimbo no livro, marcando o recebimento com uma impressão digital. Era um processo lento, mas meticuloso.
Aproveitando que tinha a atenção de todos, Carlos fazia um anúncio.
— Atenção, pessoal! A partir deste mês, o salário de todos será duplicado!
Um onda de exclamações e sorrisos lavou a fila. O ar, antes carregado de paciência, encheu-se de alívio e euforia.
— Duzentos réis para a maioria! — alguém gritou, e o burburinho cresceu.
Carlos ergueu a mão, pedindo silêncio, seu rosto sério.
— No entanto, com este novo salário, vem uma nova responsabilidade. A partir de hoje, todos os alimentos serão vendidos nos mercados e terão um custo. Ninguém mais comerá de graça.
O choque foi visível. Os sorrisos se congelaram, substituídos por expressões de preocupação e confusão. O silêncio que se seguiu era pesado.
— Não se preocupem — Carlos explicou, sua voz firme, mas calmante. — O aumento foi calculado para cobrir esses custos. E o dinheiro que vocês gastarem com comida será usado para pagar os agricultores do nosso próprio mocambo! O ciclo beneficia a todos.
A explicação não dissipou totalmente a apreensão, mas a confiança que Carlos havia construído manteve a fila em movimento, ainda que com um clima mais contido.
Enquanto isso, nos mercados e restaurantes que começavam a funcionar, uma energia diferente reinava. Os agricultores, antes invisíveis, agora recebiam pagamento por suas colheitas. O cheiro de legumes frescos misturava-se ao das frutas da estação. Havia um brilho de orgulho e satisfação em seus olhos; pela primeira vez, seu trabalho tinha um valor mensurável em moeda sonante.
Carlos observava a cena de longe, satisfeito. Aqua, ao seu lado, ainda parecia um pouco perplexa.
— Chefe, com todo respeito… o preço que cobramos pelo almoço não cobre o custo dos alimentos. Estamos tendo prejuízo.
Carlos sorriu.
— Isso se chama subsídio, Ministra. É um investimento. Estamos investindo na estabilidade do nosso povo. Um homem bem alimentado e sem dívidas é um homem produtivo e leal. O ‘prejuízo’ de hoje será o lucro de amanhã, em forma de paz social e trabalho duro.
Após o último saquinho de moedas ser entregue, Carlos se dirigiu à oficina do carpinteiro. O local estava irreconhecível, expandido, com o som constante de serras e martelos ecoando sob o teto de palha. O ar era pesado com o cheiro doce de madeira serrada. Vicente, agora um supervisor, andava entre os bancados, corrigindo detalhes aqui e ali, mas seu rosto estava marcado por um cansaço profundo.
— Mais trabalho, Carlos? — ele resmungou, sem nem olhar para o chefe. — A prensa de… Gutenberg, era? E ainda tenho que manter a produção das suas jennys e teares sem parar. Minhas mãos já nem lembram o que é descanso.
Carlos bateu amigavelmente no ombro do carpinteiro.
— Sei que é muito, Vicente. Mas suas mãos estão moldando o futuro. E a prensa é prioridade. Precisamos de livros.
Deixando o carpinteiro com seus resmungos produtivos, Carlos atravessou a rua em direção à oficina de Nia. O local havia triplicado de tamanho para acomodar a enxurrada de ferreiros de outros mocambos. O ar aqui era quente e pesado, cheirando a carvão, metal incandescente e suor. O som ritmado de martelos contra a bigorna era uma sinfonia de produtividade.
No centro do caos organizado, Nia finalizava uma nova máquina de costura, suas mãos ágeis ajustando parafusos minúsculos com uma precisão que deixava os ferreiros mais velhos boquiabertos. Ao ver Carlos, seus olhos se iluminaram e ela pulou em sua direção, deixando a ferramenta de lado.
— Carlos! Finalmente! — ela exclamou, limpando as mãos sujas de graxa em um trapo. — Já dominei essa máquina de costura completamente! Cadê o próximo desafio? Preciso de algo novo!
A energia contagiante dela fez Carlos rir.
— Como é bom ter você na equipe, Nia. E sim, tenho não um, mas três novos projetos para você. — Ele desenrolou os pergaminhos que trazia. — As peças de metal para a prensa de Gutenberg, uma máquina a vapor para fornecer força motriz, e… isto — ele apontou para o diagrama mais complexo — um conversor Bessemer.
Nia praticamente arrancou os papéis de suas mãos, seus olhos percorrendo os esquemas com avidez. A prensa a interessou pouco, mas a máquina a vapor a fez suspirar de admiração.
— Uma máquina… para mover outra máquina? — ela sussurrou, tocando o desenho com reverência. — E esse conversor… é gigantesco! Como algo pode gerar força suficiente para girar isso? Preciso começar agora!
— A máquina a vapor — Carlos explicou, apontando para os componentes no diagrama — usa a pressão do vapor de água fervente para criar movimento. Essa força será usada para girar o conversor, que é basicamente um forno gigantesco onde transformaremos ferro comum em aço. Aço, Nia! Imagine: armas mais resistentes, canhões como o que você mesma idealizou, máquinas que não quebram com o uso…
Os olhos de Nia brilharam com uma chama quase fanática.
— Deixe comigo! — ela disse, já agarrando um pedaço de metal e avaliando-o com um olhar crítico. — Vou fazer a melhor máquina a vapor que este mundo já viu!
Sabendo que seria mais um estorvo do que uma ajuda dali em diante, Carlos saiu e se dirigiu aos campos experimentais. O cenário era bem diferente: fileiras de pés de algodão murchos e marrons, um testemunho silencioso de fracasso. O cheiro era de terra seca e vegetação morta.
Tassi estava no meio do desastre, ditando observações em um tom monocórdico para um jovem assistente que anotava tudo com uma expressão sombria. Carlos se aproximou com cuidado.
— Pelo visto, os resultados não foram os esperados — comentou ele, suavemente.
Tassi se virou, surpresa. Seu rosto, normalmente impassível, estava marcado pela frustração.
— Não — ela admitiu, com um suspiro pesado. — Apenas a gema da grama, mesmo com os adubos que usamos, não é suficiente. As plantas crescem rápido e aparentemente saudáveis por um curto período de tempo, mas logo se tornam fracas e quebradiças… não servem para nada. Deve ser por isso que essa gema é vista mais como uma arma do que como uma ferramenta de agricultura.
Carlos coçou o queixo, pensativo.
— E se tentássemos um adubo diferente? — ele sugeriu. — No meu mundo, usávamos algo chamado guano. Fezes de morcego, basicamente. Era um fertilizante excelente. Deve haver em abundância na caverna do salitre.
Tassi estremeceu visivelmente, seu nariz se enrugando de repulsa.
— Aquele lugar… — ela murmurou, relutante. — Está bem. Vou… tentar.
Vendo seu desânimo, Carlos mudou de tática.
— Por ora, deixe isso de lado. Tenho uma nova tarefa para você. Consegue fazer trigo crescer aqui? Usando ambas as gemas, é claro.
Desta vez, a resposta de Tassi foi imediata e cheia de orgulho ofendido.
— Claro que consigo! Acha que este clima é um problema para mim? Com o cajado do crescimento, posso fazer qualquer planta florescer, independente da estação ou do solo! O velho do engenho para quem eu era escrava me fazia cultivar todo tipo de extravagância para seu jardim.
A resposta encheu Carlos de um entusiasmo quase infantil.
— Excelente! Isso é maravilhoso! Porque seu trabalho vai aumentar, Ministra. Preciso de você para cultivar araucárias, para fazermos nosso próprio papel. Seringueiras, para termos borracha. E o trigo… — ele fez uma pausa dramática, vendo os olhos de Tassi se arregalarem. — Com trigo, faremos farinha. E com farinha, teremos pão fresco, macarrão, pastéis… pizza.
O som que saiu da boca de Tassi foi algo entre um suspiro e um gemido de fome. Ela se controlou rapidamente, endireitando os ombros. Apesar da carga de trabalho iminente, havia um brilho de satisfação em seus olhos. Ela adorava ser desafiada, adorava ser indispensável.
— Farei o meu melhor, chefe.
“Que sorte ter uma Ministra da Agricultura tão dedicada,” pensou Carlos, satisfeito.
Seu almoço foi rápido e solitário. Mal havia terminado quando um guarda apareceu à sua porta, o rosto sério.
— Chefe Carlos. Você é solicitado no Mocambo da Serra. Uma reunião de emergência.
— O que aconteceu? — perguntou Carlos, seu coração acelerando. — É outro ataque?
— Não fui informado, senhor. Apenas que é urgente.
A caminhada até a Serra foi feita em silêncio, a apreensão de Carlos crescendo a cada passo. Ao entrar na sala de reuniões, a atmosfera carregada confirmou seus temores. Todos os chefes estavam presentes, incluindo Ganga Zala, que ostentava um novo e pesado colar de ouro que reluzia à luz das velas — um detalhe que não passou despercebido por Carlos. No centro da mesa de madeira maciça, repousava uma única carta.
Assim que Carlos se sentou, Zala falou, sua voz ecoando na sala quieta.
— Convoquei todos porque Espectro recebeu uma carta da Papisa Paula. Ela deseja construir uma igreja aqui, dentro do Mocambo do Tatu. E virá pessoalmente negociar os termos.
A declaração caiu como uma bomba. Um murmúrio de choque e incredulidade varreu a sala. Uma igreja? Dentro de um quilombo? Era uma abertura sem precedentes, um risco enorme para a papisa e uma benção potencial para o povo do quilombo, que teria acesso direto às curas milagrosas. Era bom demais para ser verdade.
Espectro, por ter tido mais tempo para digerir a notícia, foi o primeiro a se posicionar.
— É uma jogada arriscada — ele começou, seus olhos escaneando os rostos ao redor da mesa. — Ela claramente quer um ponto de observação dentro de nossas defesas, um par de olhos e ouvidos leais à Igreja. No entanto… os benefícios são inegáveis. Após as batalhas, poderíamos salvar incontáveis vidas. A logística das nossas curas seria transformada.
Carlos viu sua abertura e entrou na discussão.
— Concordo com os benefícios — ele disse, escolhendo suas palavras com cuidado. — E estou disposto a abrigar a igreja no meu mocambo, afinal imagino que essas curas do exército do quilombo terão cobrança em milhares de réis. Em troca, quero que o quilombo me forneça adeptos treinados no uso de gemas de gelo e de ferro.
Espectro arqueou uma sobrancelha, um sorriso quase imperceptível tocando seus lábios.
— Justo. Embora eu saiba muito bem que você provavelmente usará o gelo não para armas, mas para… expandir sua linha de sorvetes e picolés.
Vários chefes abafaram risos. Carlos sentiu seu rosto ficar quente, mas manteve a compostura.
— Sorvetes que se transformam em dinheiro, Espectro. Dinheiro que, por sua vez, paga os impostos que sustentam este quilombo e que, no fim, bancarão os custos que essa igreja trará. Tudo está conectado.
Foi então que Mohammed, um chefe normalmente silencioso, falou, sua voz grave carregada de desconfiança.
— Acho que estão sendo ingênuos. Sei que muitos a veem como uma santa, mas ela ainda serve à mesma Igreja que prega amor em seus púlpitos e mas passa a mão na cabeça de senhores de engenho que cometem atos atrozes contra nosso povo. Esta papisa pode parecer diferente, mas e quando ela morrer? E se for substituída por outro fanático como o último Papa? Estamos convidando a raposa para dentro do galinheiro.
Vários chefes, incluindo Fernando e Malik, concordaram com murmúrios de assentimento. No entanto, a voz que se seguiu veio de um canto inesperado. Maria, a única mulher chefe, sempre quieta e observadora, falou com uma intensidade que silenciou a sala. Seus olhos, cheios de uma dor antiga, cravaram-se em Mohammed.
— Meu filho — ela disse, e cada palavra era uma facada — perdeu um braço defendendo este quilombo em uma batalha a anos atrás. Ele definha, inútil, enquanto vocês, em sua sabedoria infinita, querem negar a única chance que ele tem de recuperar sua vida? A única mão que pode costurá-lo de volta?
Mohammed recuou como se tivesse sido golpeado. Seu rosto, antes duro, suavizou-se com culpa e constrangimento.
— Maria, eu… não era essa a minha intenção. Jamais desejaria isso para seu filho. — Ele passou uma mão pelo rosto, cansado. — Mas você tem que entender a minha preocupação…
Os dois mergulharam em uma discussão acalorada, mas respeitosa. Carlos observava, impressionado. “Todos aqui são tão… intensos,” ele pensou. “Pensei que fossem apenas figurantes, mas cada um tem suas próprias feridas, suas próprias batalhas.” Sua atenção foi desviada para um dos outros quatro chefes, sempre silenciosos. ]
Enquanto todos olhavam para a discussão, este homem, um negro alto e de olhar penetrante, não tirava os olhos do colar de ouro de Ganga Zala. Seu rosto era uma máscara, mas Carlos pôde sentir a desaprovação emanando dele. “Eu não sou o único a notar a nova joia do ‘rei’, aparentemente,” pensou Carlos. “Preciso de aliados aqui. Talvez Espectro, mas sua lealdade final é para com Zala…”
Quando a discussão entre Maria e Mohammed chegou a um impasse, Carlos interveio.
— E se — ele propôs, sua voz clara cortando o ar — separarmos a igreja da cura?
Todos os olhos se voltaram para ele. Mohammed olhou, intrigado.
— E como você propõe fazer isso? Reis e Imperadores na Europa tentaram domar o poder da Igreja por séculos, sem sucesso.
“Nenhum deles? E a Reforma Protestante?” Carlos pensou, mas guardou o comentário para si. Em vez disso, ele pegou a carta do centro da mesa.
— Minha proposta é simples — ele explicou. — Vou sugerir à Papisa que as curas não sejam realizadas dentro da igreja, mas em um prédio separado: um hospital. Já trocamos cartas extensas sobre os princípios de limpeza, antissepsia e esterilização. Ela mesma implementou esses métodos na Santa Casa. Um hospital seguiria os mesmos princípios, mas com uma diferença crucial: seria laico. Aberto a todos, independente de fé. E seria nosso. Quem iria operá-lo, geri-lo, trabalhar nele, seria gente do quilombo. A igreja seria apenas… a igreja. Um local de oração e a fonte dos artefatos de cura.
Mohammed considerou a ideia, seu ceticismo ainda visível.
— Meu problema não é com a cura, Carlos. É com a presença da Igreja em si. Eles terão um espião vivendo entre nós.
— Quanto menos membros da igreja mlehor — Espectro interveio —, e se ficaram confinados à igreja. Posso facilmente designar alguém para… acompanhar suas atividades. Além disso, recusar a Papisa seria um insulto grave. Precisamos de aliados externos. Vivemos isolados por décadas. Todo o nosso comércio atual, todo o fluxo de tecidos e ferragens, depende da boa vontade dela e da rede das Cidades Sagradas.
Foi então que Ganga Zala, que havia permanecido em silêncio até então, bateu o punho na mesa, fazendo os copos tremerem.
— Chega! — sua voz era um rugido. — Já ouvimos o suficiente. Aceito a proposta de Carlos. Ele negociará com a Papisa em nome do quilombo. Mas o acordo deve seguir essa linha do tal hospital. E Espectro o acompanhará para garantir que tudo transcorra sem surpresas. — Seus olhos se fixaram em Carlos. — Não me decepcione.
Maria suspirou, um som profundo de alívio. Ela se virou para Carlos, e seu olhar, antes carregado de dor, agora transbordava uma esperança frágil.
— Conseguirei este acordo, Dona Maria — Carlos prometeu, sentindo o peso da expectativa dela.
— Saiba — ela respondeu, sua voz baixa, mas firme — que o povo do Mocambo da Lagoa estará ao seu lado… se você conseguir.
Carlos entendeu a mensagem perfeitamente. O apoio dela, e provavelmente de outros, não era um presente. Era um pagamento futuro, contingente ao seu sucesso. Ele tinha acabado de ganhar sua primeira missão diplomática de verdade, e as apostas não poderiam ser mais altas.

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