79. O preço da Aliança II
O som da tosse deliberada de Francisco ecoou na sala, quebrando o clima de concentração que pairava sobre a reunião. Todos os olhos se voltaram para o comerciante, que se ajustou em sua cadeira antes de falar.
— Carlos, fico feliz em anunciar que meus contatos conseguiram um fornecedor de enxofre para o Quilombo — disse ele, com um sorriso satisfeito que fazia suas bochechas arredondadas se elevarem. — Porém, saiba desde já que o custo será… considerável. Mas há uma vantagem: eles poderão aumentar a produção ao longo do tempo, conforme nossa necessidade.
Carlos pegou a folha de papel que Francisco deslizou sobre a mesa polida. Seus olhos percorreram rapidamente os números, e um suspiro de alívio quase imperceptível escapou de seus lábios.
“É caro, sim,” pensou ele, “mas com a receita do aço, podemos bancar isso. E o melhor: vou poder realocar os trabalhadores da mineração e refinamento da pirita para áreas mais produtivas.” Sua mente já viajava para as possibilidades: a expansão das indústrias existentes, o início tão sonhado de uma indústria química para produção de ácidos em massa, essenciais para a nitrocelulose…
O comerciante observou Carlos analisar os valores, seus dedos gorduchosos tamborilando levemente na mesa.
— Há outra coisa — continuou Francisco, baixando a voz num tom mais confidencial. — Eu gostaria de propor que o pagamento pelo enxofre fosse feito diretamente a mim. Eu me encarregaria de todo o transporte até o Quilombo através de meus funcionários. Simplificaria bastante a logística.
Carlos não pôde evitar um sorriso interno. “Quem diria que aquele comerciante com seu burrinho, que apareceu no engenho meses atrás, revelaria ter uma mente empreendedora tão afiada? A própria Papisa me escreveu nas cartas que foi ele quem encontrou comerciantes dispostos a vender meus produtos para fora do Brasil, usando navios próprios. Até fundou uma sociedade mercantil dedicada especificamente aos nossos produtos.”
— Sem problemas, Francisco — respondeu Carlos, acenando positivamente. — Acho que isso realmente vai diminuir a burocracia. Até sugiro que façamos o mesmo com os minérios que chegarão do sul do Brasil. Eles descarregarão no porto, mas o transporte até aqui ficará sob sua responsabilidade.
O rosto de Francisco iluminou-se com um sorriso amplo e genuíno.
— Excelente ideia, Carlos! — exclamou, esfregando as mãos. — E com isso, todos os seus pedidos foram atendidos: sementes, enxofre, minério bruto… Tem mais algo em mente?
Carlos hesitou por um momento, olhando para as mãos sobre a mesa antes de levantar os olhos.
— Há uma coisa… — começou ele, com um tom um pouco relutante. — Não é algo que aumentará diretamente a produtividade do Quilombo, pelo menos não no curto prazo. É mais… um desejo pessoal. Café.
Francisco inclinou a cabeça, confuso.
— Café? O que seria isso?
— É uma planta — explicou Carlos — que creio ser nativa da região da Etiópia. De suas sementes torradas se faz uma bebida escura e energética. Deve ser o produto mais difícil de conseguir em nossa lista. — Ele fez uma pausa dramática. — Estou disposto a pagar um milhão de réis por mudas viáveis.
“Reza a lenda,” pensou Carlos, “que um espião português seduziu a esposa do governador da Guiana Francesa apenas para roubar mudas de café e trazê-las para o Brasil. O monopólio era tão guardado que outros países europeus também tiveram que recorrer a métodos criativos. Esse preço alto se justifica. E no futuro, poderemos exportar café – um produto que se pagaria facilmente.”
O valor mencionado fez Francisco engasgar com sua própria saliva.
— Um milhão de réis? — ele conseguiu dizer, entre tosses. “Será que essa tal planta dá frutos de ouro?” Mas logo descartou o pensamento. “Não, não dá ouro… mas o produto final que Carlos fará com ela certamente valerá seu peso em ouro.”
— Vou… falar com meus contatos — disse Francisco, recuperando o fôlego. — Veremos se conseguimos encontrar esse tal café. Se houver, precisaremos de um desenho da planta para referência.
Carlos acenou positivamente.
— Claro. Vou providenciar os desenhos para você depois.
Francisco sorriu ao ouvir isso e deu outra mordida decidida em seu chocolate. “Por exemplo,” pensou, “este cacau que ele me vendeu está vendendo extraordinariamente bem. Acabamos de enviar os primeiros navios para a Europa, e tenho certeza que será um sucesso entre a nobreza. Aquela árvore amazônica também… os produtos de borracha, embora ainda não tenham caído totalmente no gosto do público, estão vendendo consistentemente…”
Foi então que Paula entrou na conversa, sua voz suave, mas firme, preenchendo a sala.
— E sobre seus pedidos de ferramentas mágicas — disse ela —, consegui lunetas com a Gema da Visão de altíssima qualidade. Já ordenei ao artesão mágico da Cidade Sagrada que produza mais unidades.
Espectro, que havia permanecido imóvel e silencioso como uma sombra até aquele momento, inclinou-se levemente.
— Fico muito feliz em ouvir isso, Vossa Santidade — respondeu ele, sua voz grave e medida. — Seu apoio é fundamental para o Quilombo, especialmente considerando os recentes ataques de monstros que temos sofrido… Falando nisso, sei que não é exatamente sua área de expertise, mas…
Espectro colocou cuidadosamente uma gema de cor âmbar sobre a mesa. A pedra parecia capturar a luz das gemas nas paredes, emitindo um brilho suave e inquietante.
— Sabe que gema é esta? — perguntou ele. — Um dos monstros que atacaram o Quilombo a usava, depois o monstro se revelou humano. Inicialmente, considerei a possibilidade de estarem usando a sua Gema da Alteração para se transformarem, mas ao encontrar esta gema, descartei essa hipótese.
A Papisa inclinou-se para frente, seus olhos azul-escuros examinando a gema com intensa curiosidade.
— Não a reconheço — ela admitiu, balançando a cabeça lentamente. — Mas… ouvi relatos de um jesuíta que catequizava uma tribo que usava uma gema mágica com descrição semelhante. Uma gema âmbar que permitia ao portador se transformar em qualquer criatura cujo sangue houvesse consumido. A pessoa poderia transformar completamente seu corpo, mantendo, no entanto, a consciência humana.
Um silêncio pesado pairou sobre a sala. Espectro esperou que ela terminasse antes de prosseguir.
— Isso seria inestimável para nós — disse ele. — No entanto, embora tenhamos encontrado adeptos dessa gema aqui no Quilombo, nenhum deles conseguiu ativá-la. Além disso, no corpo do homem de onde a recuperamos, ela estava… incrustada em seu peito.
Paula balançou a cabeça novamente, uma sombra de tristeza em seus olhos.
— Infelizmente, não sei mais nada sobre o assunto — confessou. — O jesuíta abandonou a tribo depois que todos os seus membros foram exterminados… pelo atual Capitão-mor.
O ar na sala pareceu ficar mais pesado com a revelação. Espectro, impassível como sempre, simplesmente assentiu.
— Entendo — disse ele, sua voz inexpressiva. — Isso explicaria por que o adepto que usava essa gema era um homem branco.
O grupo continuou a conversar por algum tempo, discutindo logística, segurança e planos futuros. Finalmente, decidiu-se que a Papisa ficaria hospedada no Mocambo de Carlos até que os preparativos para o batismo de Ganga Zala estivessem completos. Ela não precisava fazer isso pessoalmente – poderia muito bem deixar a tarefa para o Padre Antônio – mas uma curiosidade profunda a consumia. Ela queria ver o Mocambo de Carlos com seus próprios olhos, não apenas ler sobre ele em relatórios.
Saindo do ponto de comércio e adentrando a mata, Paula caminhava acompanhada por seus guardas e por Francisco, que não tinha razão particular para ir junto além de pura curiosidade. Carlos liderava o grupo, apontando aspectos do caminho.
— Esta estrada pela qual estamos andando ainda está em construção — explicou ele, indicando a frente com um gesto. — Mais adiante, poderemos ver os trabalhadores em ação.
A Papisa observava, maravilhada, a superfície lisa e cinza sob seus pés. Até Francisco, normalmente mais interessado em números do que em construções, parecia impressionado.
— Tenho certeza de que, na chuva, uma estrada dessas não se transforma num lamaçal — comentou o comerciante, batendo o pé levemente no concreto.
Carlos, sem se virar, respondeu:
— Exatamente. Projetamos essas ruas para que a água da chuva escoe para o solo. Além disso, no meu Mocambo, as calçadas são ladeadas por árvores para fornecer sombra.
— Isso é incrível, Carlos! — exclamou Paula, genuinamente entusiasmada. — Com os pneus de borracha, as molas nas carroças e uma estrada como esta, tenho certeza de que as viagens seriam muito mais tranquilas. Minhas costas certamente agradeceriam. — Ela deu uma risadinha. — Como seria bom se a estrada daqui até a Cidade Sagrada fosse feita desse material…
Carlos parou e virou-se, colocando a mão no queixo em um gesto pensativo.
— Essa… não seria uma má ideia — ele admitiu. — Tenho certeza de que melhoraria muito o transporte de materiais. Mas o custo… e a quantidade de trabalhadores necessária…
A Papisa não hesitou.
— Estou disposta a bancar os custos — declarou ela, sua voz firme. — Com uma condição: que me passe o segredo da produção desse material e como são feitas suas estradas. Acho que as ruas da minha Cidade Sagrada ficariam magníficas com isso. Além do mais, sei que você também usa esse material para construir casas.
Carlos não via razão para recusar. Vender cimento não era exatamente um negócio de alto lucro, e uma aliança mais forte com a Igreja sempre era benéfica.
— Combinado — ele concordou. — Mas não a deixarei fazer tudo sozinha. Quando os trabalhadores terminarem a Estrada da Prosperidade aqui, enviarei uma equipe para começar a construção da estrada até a Cidade Sagrada.
Francisco, cuja mente já calculava os benefícios logísticos e o aumento no volume de comércio, não pôde conter sua excitação.
— Já imagino centenas de carroças indo e vindo por essa estrada! — ele exclamou, seus olhos brilhando com visões de lucro. — E muitas delas estarão transportando produtos em meu nome!
A Papisa não pôde evitar de revirar os olhos diante das ilusões gananciosas de seu companheiro.
— Mas isso será apenas temporário — interveio Carlos, enquanto o grupo desviava de um grupo de trabalhadores que compactava o solo. — Pois no futuro, planejo uma estrada de aço ligando nossas duas cidades.
Paula franziu a testa, confusa.
— Por que de aço? — perguntou ela. — Parece um desperdício de um material tão valioso.
Carlos sorriu, mas como estava à frente, ninguém pôde ver sua expressão.
— Tem que ser de aço para suportar o trem que irá passar sobre ela — explicou ele. — Um trem é uma máquina movida a vapor que pode transportar centenas de toneladas de produtos e pessoas, a velocidades muito maiores que as carroças.
Os olhos tanto da Papisa quanto de Francisco se arregalaram ao ouvir sobre o “trem”. O brilho de excitação, no entanto, permaneceu apenas nos olhos de Paula. Francisco parecia cético.
— Isso é mesmo possível? — questionou o comerciante, duvidoso.
Foi a Papisa quem respondeu, sua voz carregada de admiração.
— Carlos já usa máquinas a vapor para produzir aço! — ela explicou, animada. — O Padre Antônio me contou que a máquina a vapor dele consegue mover um forno de metal do tamanho de uma casa!
Ao ouvir isso, uma pontada de preocupação atravessou Carlos. “Meu Deus, ela sabe de tantos detalhes do meu Mocambo,” pensou ele, alarmado. “Espectro me garantiu que seus agentes monitoravam todas as cartas enviadas à Papisa, mas mesmo assim… Embora a produção de aço em si não precise ser um segredo de estado, é desconcertante saber o quanto eles conhecem sobre nossa operação. Só espero que nossos ‘amigos’ portugueses não tenham informações tão detalhadas. Pelo menos os segredos mais importantes – as ligas exatas de aço, a pólvora, as armas de fogo – estão bem guardados, com vigilância constante contra espiões.”
— Sim — confirmou Carlos, mantendo a voz calma. — E amanhã de manhã, posso mostrar a única máquina de vapor que temos em operação para vocês. No momento, é apenas uma, mas no futuro, planejo tê-las em todas as indústrias do Mocambo!
A Papisa, que havia removido seu véu, revelando um rosto de traços finos e olhos brilhantes, ficou visivelmente animada.
— Quanto custa uma máquina dessas? — ela perguntou, seus dedos tocando o colar de gemas quase inconscientemente. — Quero comprar uma!
Carlos balançou a cabeça com um sorriso apologético.
— Elas não estão à venda — recusou gentilmente. — Não no momento.
A expressão de Paula ficou visivelmente desapontada. Ela parecia estar mentalmente revirando um catálogo de possíveis ofertas de barganha, mas aparentemente não encontrou nada que parecesse adequado.
O grupo continuou sua caminhada até chegar aos limites do Mocambo do Tatu.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.