Índice de Capítulo

    O ar na sala de reuniões estava carregado, pesado como antes de uma tempestade. A poeira dançava nos raios de sol que entravam pelas janelas, iluminando as expressões tensas ao redor da grande mesa. Carlos percebeu o olhar dos chefes – Malik, Mohammed, Jabari – e sabia que as próximas palavras seriam difíceis de engolir.

    — E há outra questão, chefes — continuou Carlos, suas mãos pousadas sobre a mesa. — Vocês continuarão liderando seus mocambos, mas isso será temporário. Durante esse período, trabalharão aqui na prefeitura, supervisionados pela Aqua. — Ele fez uma pausa, deixando as palavras ecoarem. — Precisamos provar que essa nova república é feita de eficiência, não apenas de boas intenções. Aqui, o mérito será nossa única moeda. Não há espaço para incompetência.

    Ele viu os maxilares se apertarem, os olhares que se cruzaram rapidamente. A raiva era visível, mas também uma dúvida profunda. “Será que trocamos um líder por um tirano?”, pareciam pensar. “Será que Ganga Zala estava certo?”

    Carlos então se virou para Tassi, que observava tudo com sua calma habitual.

    — Tassi, precisamos de mais comida. Muito mais. Não apenas para este mocambo, mas para toda a república. A segurança começa pelo estômago.

    Em seguida, seu olhar pousou sobre Guaíra Mirim. O jovem ministro parecia carregar o peso de seu novo cargo nos ombros.

    — E com mais gente vindo para cá, os apartamentos de concreto não serão suficientes. Guaíra, você deve priorizar a construção de casas de terra, usando os adeptos da gema da terra. São rápidas, baratas e funcionais.

    Guaíra mirim hesitou por um segundo, seus olhos buscando confiança antes de erguer o queixo e bater no peito de forma um tanto desajeitada.

    — Sim, presidente! Se… se eu tiver os adeptos, posso fazer isso!

    Carlos acenou com a cabeça e se dirigiu a Espectro.

    — Espectro, cede seus adeptos da terra ao Ministro da Construção. Isso é uma prioridade.

    — Será feito — respondeu Espectro, sua voz era um baixo constante e confiável, sem necessidade de confirmações extravagantes.

    — E tenho uma missão mais urgente para você — Carlos prosseguiu, sua voz baixando um tom. — Quero que comece ataques coordenados aos engenhos da região. Libertem todos os escravos que conseguirem. Digam-lhes que têm um lugar aqui, mas não os forcem a vir. A liberdade inclui a escolha.

    Ele fez uma pausa estratégica, olhando para cada rosto antes de soltar a bomba.

    — Continuem esses ataques de precisão até que as novas armas de repetição estejam prontas. Então… então atacaremos a cidade mais próxima. E ela se tornará o primeiro território oficial da República do Brasil.

    O choque foi palpável. Mohammed abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu. Jabari recuou em sua cadeira como se tivesse levado um golpe. Até a sempre serena Tassi arregalou os olhos.

    Carlos ergueu-se então, suas mãos firmes na mesa, seu olhar incendiário.

    — Ouçam-me bem! — sua voz ecoou na sala, carregada de uma convicção feroz. — Os dias de passividade terminaram! Esperar pelo próximo ataque é assinar nossa própria sentença de morte. Temos o poder, temos a justiça do nosso lado! Enquanto a Capitania de Pernambuco existir, seremos caçados. Não… — ele corrigiu, erguendo um dedo, — enquanto a colônia do Brasil existir, seremos vistos como gado fujão! A hora de retaliar é agora! Não estamos apenas defendendo um quilombo. Estamos fundando uma nação!

    Ele respirou fundo, o silêncio na sala era absoluto.

    — Lembrem-se — continuou, sua voz mais suave, mas não menos intensa —, vocês não são mais apenas líderes de um mocambo de alguns milhares. São os ministros e comandantes de uma república nascente. As responsabilidades serão imensas, os desafios, maiores ainda. Mas ninguém será obrigado a carregar esse fardo. — Ele varreu o recinto com o olhar. — A porta está aberta. Quem quiser seguir Ganga Zala em busca de uma paz negociada, pode fazê-lo. Mas quem ficar… quem ficar ajudará a escrever a primeira página de uma nova história.

    Carlos olhou para todo mundo que estava ali, mas ninguém decidiu sair, todos ficaram.

    ***

    O sol da tarde banhava a praça principal com uma luz dourada quando Carlos subiu no palanque erguido em frente à prefeitura. Centenas de rostos olhavam para ele – homens e mulheres, crianças nos ombros dos pais, velhos cujos olhos tinham visto demasiado.

    Ele respirou fundo, sentindo o peso dos olhares.

    — Irmãos e irmãs! — sua voz ecoou, forte e clara. — Durante toda a nossa vida, nos disseram o que éramos. Propriedade. Números. Ferramentas. Durante toda a nossa vida, nos ensinaram a temer. A correr. A nos esconder.

    Ele fez uma pausa, deixando as palavras se assentarem.

    — Mas hoje… hoje não estamos mais escondidos! Estamos de pé, em nossa terra, sob nosso céu! E a partir de hoje, não seremos mais um quilombo. Seremos uma República! A República do Brasil!

    Um murmúrio percorreu a multidão, misturando incredulidade e esperança.

    — O que é uma república? — ele perguntou, retórico. — É um lugar onde nenhum homem é dono de outro! Onde o poder não vem de um rei distante, mas do povo! Do suor de seu rosto, da força de seus braços, da coragem de seu coração!

    Ele estendeu as mãos, como se pudesse abraçar a todos.

    — Mas essa liberdade… essa liberdade não será dada. Será conquistada! Não esperaremos mais pelos ataques deles. Não nos contentaremos com migalhas de paz! Nossos irmãos ainda acorrentados nos engenhos clamam por liberdade! E nós lhes responderemos!

    O clima começou a esquentar. Puns se cerraram, cabeças começaram a acenar.

    — Sim, atacaremos! Atacaremos não por ódio, mas por justiça! Não para destruir, mas para libertar! Cada engenho que cair, cada corrente que se quebrar, será um passo em direção ao Brasil que merecemos! Um Brasil onde uma criança negra, branca ou indígena possa crescer sem conhecer o som de uma chibata! Onde o fruto do trabalho de um homem pertença a ele mesmo!

    Seus olhos brilhavam com uma luz intensa.

    — O caminho será longo. Haverá sacrifícios. Haverá perdas. Mas eu lhes pergunto: o que vale mais? Uma vida de medo e submissão? Ou uma luta, por mais dura que seja, por um futuro livre?

    A resposta veio não em palavras, mas num rugido que surgiu da multidão. Um grito primal de liberdade há muito reprimido.

    — Não prometo uma vida fácil! — Carlos gritou sobre o clamor. — Prometo uma vida digna! Prometo que nossos filhos herdarão não as cicatrizes de nossa escravidão, mas a terra de nossa liberdade! E que ninguém, ninguém, voltará a chamar um ser humano de escravo!

    A praça explodiu em aplausos, gritos e lágrimas. Carlos permaneceu no palanque, observando aquele mar de rostos transformados pela esperança. A semente havia sido plantada. Agora, cabia a todos regá-la com suor, com coragem, e, se necessário, com sangue. A República do Brasil nascia ali, não num tratado ou num documento, mas no coração de seu povo.

    ***

    A manhã seguinte trouxe um clima de divisão tangível para o quilombo. O ar, outrora unificado, agora carregava o som abafado de vozes ansiosas e o arrastar de pertences sendo empacotados. Ganga Zala e seus seguidores movimentavam-se como uma colmeia perturbada, reunindo seus pertences sob um céu que parecia mais cinzento do que o habitual.

    Maria observava a cena com os braços cruzados, seu rosto uma máscara de preocupação. Seus próprios pertences já estavam empacotados e sendo carregados por um subordinado, mas um detalhe crucial faltava.

    “Onde esse menino se meteu? Eu disse que sairíamos ao amanhecer…”

    Seu olhar percorreu o grupo em movimento, buscando em vão o rosto do filho entre as centenas que se preparavam para a partida. Um frio na espinha a alertou – ela conhecia a teimosia do filho.

    Vendo que ainda teriam tempo antes da partida definitiva – Ganga Zala decidira que só seguiriam viagem após o café da manhã -, Maria decidiu procurá-lo. Seus passos eram rápidos e determinados enquanto percorria o caminho familiar até sua antiga cabana.

    “Vazio”, constatou ao espiar pelo vão da porta. O coração acelerou. “Será que ele…?”

    Uma inquietação crescente a levou até as obras da Estrada da Prosperidade. E lá, no meio do trecho mais íngreme, entre dezenas de homens suados e encardidos, ela o viu. Daniel, com os músculos tensionados, cavava a terra vermelha com uma determinação feroz.

    — Daniel! — sua voz cortou o ar como uma faca. — O que você está fazendo aqui? Já é hora de ir!

    O rapaz limpou o suor da testa com o antebraço, deixando um rastro de terra no rosto. Seus olhos, quando se encontraram com os dela, não tinham mais a brandura de outrora.

    — Já disse que não vou, mãe. Agora me deixe trabalhar. — A voz era áspera, mas carregada de uma convicção que a alarmou.

    Ele voltou a cavar, ignorando-a deliberadamente. Maria não se moveu, seus pés pareciam fincados no chão como raízes.

    — O que você está dizendo? — a voz dela se elevou, misturando incredulidade e desespero. — Você ouviu o discurso do Carlos ontem! Logo este lugar vai virar um campo de batalha! Quer perder o braço de novo também? A Papisa talvez nem nos apoie mais depois daquilo! Pode não haver volta!

    Daniel jogou a pá no chão com violência, o metal ecoando contra as pedras.

    — Não! — sua voz era um rugido. — Com Zala, éramos nós o campo de batalha! Agora, levaremos a guerra até eles!

    Os outros trabalhadores – todos homens do próprio mocambo de Maria – pararam seu trabalho, formando um círculo silencioso ao redor da discussão. A tensão era palpável.

    Agora verdadeiramente irritada, Maria avançou um passo.

    — Você não entende nada! — gritou, os olhos marejando. — São só palavras bonitas! Você, mais do que ninguém, deveria saber que não é simples assim! Quer acabar morto, igual seu pai?

    A menção do pai foi um golpe baixo, e ambos sabiam. Daniel empalideceu, depois corou de raiva.

    — Meu pai morreu como herói! — ele gritou, a voz quebrando. — Morreu me protegendo, salvando você! Ele lutava pela nossa liberdade… a mesma liberdade que você está jogando no lixo para viver de migalhas da Coroa Portuguesa! Qual a diferença entre isso e a escravidão?

    — Não compare isso com escravidão! — a voz de Maria saiu como um sussurro ferido. — Você não sabe, não sentiu na pele o que é a escravidão de verdade! Eu lutei também! Quando me tornei chefe, lutei para proteger sua vida, não ideais suicidas!

    Ela respirou fundo, tentando controlar a tremulação em suas mãos.

    — Tudo bem — disse, a voz agora cansada e resignada. — Você é adulto. Faça suas escolhas. Mas saiba que sempre serei sua mãe. E nossa porta… onde quer que estejamos… sempre estará aberta para você.

    Daniel abriu a boca para replicar, mas as palavras morreram em sua garganta. Ele viu as lágrimas que ela teimosamente segurava, a dor genuína em seu olhar. Em vez do veneno que fervia em sua língua, ele simplesmente se virou e pegou a pá novamente.

    As pás contra a terra tornaram-se o único som. Uma gota escorreu pelo rosto de Daniel e caiu na terra vermelha à seus pés – era impossível dizer se era suor ou lágrima. Maria observou por um momento mais, seu coração pesado como pedra, antes de se virar e caminhar de volta em direção ao seu novo, e incerto, futuro.

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