Capítulo 162 - Captura de Ouro Branco
O cheiro predominante agora era o da poeira fina e seca levantada pelo avanço, misturado ao odor adocicado e pesado do medo que emanava das casas fechadas de Ouro Branco. Sussurro estava imóvel, a bochecha colada à coronha de madeira polida de seu rifle, a pele sentindo cada grão da superfície. Seus olhos, que já ardiam pela concentração prolongada, percorriam o campo de batalha através da lente de aumento, um mundo reduzido a formas, sombras e movimentos suspeitos.
O som era uma cacofonia distante e mais próxima: o tropel das botas da infantaria da República avançando em formação, os gritos curtos dos sargentos, o choro abafado de uma criança em alguma janela fechada da cidade e, ocasionalmente, o estampido solitário de um mosquete vindo de uma rua lateral.
Sua missão era clara: ser os olhos de longo alcance, a sentinela silenciosa. Ela varria os telhados, as janelas entreabertas, os becos. A infantaria avançava, vulnerável em campo aberto. Qualquer adepto com um poder ofensivo a distância poderia causar estragos.
Foi então que o viu. No alto de uma torre sineira da igreja matriz, uma figura masculina se debruçava sobre o parapeito. A luz do fim da tarde brilhava em uma lâmina desembainhada que ele segurava – e não era apenas aço. Na base da espada, incrustada na guarda, uma gema de um laranja vivo e pulsante cintilava. A Gema do Fogo.
“Alvo identificado. Adepto do Fogo, potencial de ataque em área”, o pensamento foi rápido, automático. Ele parecia estar murmurando algo, talvez rezando para Ogum, Orixá do ferro, tecnologia e guerra, enquanto observava um pelotão que se aproximava da praça principal.
Sussurro não perdeu um milésimo de segundo. Expirou pela metade, prendendo o ar. Seu dedo índice, já envolvendo o gatilho com uma pressão constante e familiar, completou o movimento. O crack do disparo foi um som seco e autoritário, quase abafado pelo protetor auricular. O recuo, um empurrão firme e bem-vindo no ombro.
Através da lente, ela viu a cabeça do homem se jogar para trás num movimento brusco e não natural. A espada caiu de seus dedos, girando no ar, a gema riscando um arco vermelho fugaz antes de desaparecer atrás do parapeito. O corpo cedeu e sumiu de vista.
Ela nem teve tempo de reposicionar a arma. Um movimento rápido no canto inferior esquerdo de seu campo de visão a fez deslocar ligeiramente o cano. De uma varanda de sobrado, um homem vestindo túnica leve – um Adepto do Vento – saltou, impulsionado por uma rajada sob seus pés. Seu plano era claro e desesperado: cair no meio da formação compacta da infantaria e causar o caos.
Mas ele não chegou ao chão. Antes que seus pés tocassem a terra dura da rua, uma chuva de projéteis partiu de diferentes pontos. Não era apenas o fogo concentrado de uma unidade, mas tiros vindos de telhados, de janelas de edifícios já tomados, de trás de barricadas improvisadas. A coordenação era tácita, instantânea. O adepto foi sacudido no ar, seu corpo girando antes de cair pesadamente sobre as pedras, imóvel.
Sussurro permitiu-se um pequeno suspiro, baixando a arma por um instante para limpar o suor dos olhos. Ela não era a única. Outros atiradores de elite, outros Adeptos da Visão espalhados pelas alturas, formavam uma rede de alerta e eliminação. Informações eram sussurradas em pequenos rádios de campo ou transmitidas por sinais manuais. “Adepto do Gelo, rua das Flores, segundo andar.”
Essa sinergia silenciosa foi implacável. A resistência organizada em Ouro Branco, já abalada pela queda do forte, desintegrou-se rapidamente. O que restou foram bolsões de resistência desesperada, facilmente contidos, e muitos, muitos que simplesmente se renderam ou se esconderam.
Não demorou muito – algumas horas tensas, mas sem grandes combates – para que Ouro Branco fosse considerada tomada. O exército da República, com disciplina notável, ocupou os pontos estratégicos: a prefeitura, o quartel da guarda municipal (vazio), os depósitos de grãos, as saídas da cidade. Havia ainda adeptos escondidos entre a população, é claro. O brilho ocasional de uma gema escondida sob roupas civis, o olhar muito intenso de alguém numa esquina. Mas eram poucos, e ainda menos estavam dispostos a enfrentar, sozinhos, a máquina de guerra bem-oleada que agora ocupava suas ruas. O preço era a aniquilação certa, e muitos preferiram se fundir à multidão aterrorizada, guardando seus poderes para outro dia.
E, na mente de quase todos – do soldado comum encharcado de suor ao cabo aliviado –, uma pergunta começou a ecoar, primeiro como um sussurro incrédulo, depois como uma certeza desconcertante: “Foi tão fácil assim?”]
Entre essas pessoas, em seu posto de comando agora estabelecido no antigo escritório do prefeito, Espectro pensava exatamente a mesma coisa. Ele observava através da janela quebrada a movimentação ordenada de suas tropas na praça, o sol poente pintando os uniformes verdes de tons alaranjados.
“Foi tão fácil assim?”, o pensamento reverberou, não com euforia, mas com uma análise crítica e fria. Suas mãos, apoiadas na borda da janela, sentiam o frio da pedra.
Ele sabia do poder das novas armas, da tática combinada de artilharia de longo alcance, supressão de elite e avanço coordenado. Teorizara, calculara, planejara. Mas ver a teoria se materializar com tamanha eficiência quase assustadora… era outra coisa.
“Esperava resistência feroz, combates de rua prolongados, baixas significativas”, ele refletiu, observando um grupo de prisioneiros sendo conduzido sem lutar. “Em vez disso, foi… simples. Um problema de engenharia militar resolvido com as ferramentas corretas. O forte, o ponto mais duro, caiu com nossa artilharia. A cidade, sem suas defesas principais, rendeu-se psicologicamente antes mesmo de nossa infantaria cruzar seus portões.”
Seu olhar, porém, não estava preso à cena de vitória à sua frente. Ele olhava para o leste, na direção do mapa mental que carregava na cabeça. O plano original, meticuloso e cauteloso, era consolidar Ouro Branco, fortificá-la, usá-la como base para pressionar a Cidade Sagrada, o coração religioso e político da região. De lá, conseguiriam mais acordos, mais recursos, talvez mais ferro das minas controladas pela Igreja. Mas era um plano que consumia tempo. Muito tempo.
Um novo raciocínio, ágil e ousado, começou a se formar, alimentado pela facilidade da vitória de hoje.
“Talvez tenhamos subestimado nosso próprio momentum”, pensou, virando-se da janela e caminhando até a grande mesa onde mapas estavam espalhados. Seu dedo percorreu a distância entre Ouro Branco e a costa. “Capturar a Cidade Sagrada talvez seja simples, mas demoraria meses a dar resultados, a conseguir mais ferro para a indústria militar. Enquanto nosso estoque mais crítico, minguaria.”
Seu dedo parou em um ponto na costa: Areia Branca. O principal porto da região, e claro onde estavam as principais forças do governador.
“A Maria, da inteligência, foi categórica em seu último relatório”, ele lembrou, quase conseguindo ouvir a voz urgente da espiã. “Areia Branca está transbordando. Os armazéns do porto estão cheios de minério de ferro de alta qualidade, ferro que era nosso mais foi confiscado. Navios carregados até a borda com o mesmo minério estão ancorados na baía, esperando por ventos favoráveis ou por compradores, alguns voltavam, mas isso significa perder tempo e dinheiro.”
O cálculo era claro e urgente. Ele se sentou, pegando uma caneta.
“Nós estamos lutando contra o tempo de duas maneiras”, sua mente traçava os números. “Primeiro: a cada dia que passa, o governador-geral reúne suas forças dispersas. Recruta, treina, contra-ataca. Segundo, e mais imediato: a cada dia que passa, nossas munições – as balas, as cartuchas, as granadas, as cargas de canhão – se esgotam. A fábrica na República trabalha no limite, mas a matéria-prima é o gargalo.”
Ele olhou para o mapa de Areia Branca, um alvo suculento e estratégico.
“Se, em vez de nós focarmos em Cidade Sagrada… seguimos reto para Areia Branca com essa mesma velocidade e força…”, a ideia ganhava forma, tentadora e perigosa. “Capturamos o porto. Apropriamo-nos não apenas do minério nos navios – que poderíamos usar imediatamente –, mas também controlamos o principal ponto de entrada e saída da região. Estrangularíamos o comércio do governador. Alimentaríamos nossa própria máquina de guerra.”
Era um risco. Alongaria suas linhas de suprimento. Dividiria a atenção. Mas a recompensa… a recompensa poderia ser o ponto de virada que garantiria não apenas uma vitória, mas a sustentação da guerra.
Ele ergueu a cabeça, chamando seu oficial de ligação.
– Mande um comunicado prioritário para o comando no mocambo. E chame os comandantes de batalhão para uma reunião. Agora. Temos uma nova rota a considerar.
A facilidade da vitória em Ouro Branco não era apenas um triunfo; era uma mensagem. Uma mensagem de que, talvez, a velocidade e a audácia eram suas maiores aliadas.

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