Índice de Capítulo

    O sol escaldante do meio-dia refletia nas águas tranquilas do porto, cegando o Tenente Álvaro por um instante enquanto ele desembarcava. A Cidade Sagrada de Santa Maria fervilhava à sua frente, um formigueiro humano em ritmo acelerado. O ar salgado dava lugar a um cheiro complexo de peixe fresco, madeira molhada e o suor de dezenas de carregadores. Assim que seu barco atracou, outro já se aproximava, ansioso por ocupar o espaço no cais de pedra. Os estivadores, com os músculos tensionados sob a pele bronzeada, gritavam em uníssono enquanto carregavam fardos e mais fardos nos porões, suas vozes roucas se perdendo no ruído constante do porto.

    “Por todos os santos,” pensou Álvaro, ajustando a espada no cinto sob sua capa simples, “a cidade sagrada está mesmo viva. Nem se compara a Areia Branca, cujo cais parece um velho adormecido, quase fantasmagórico…”

    Deixando o cais para trás, ele se misturou à multidão que fluía em direção à praça do mercado. O burburinho se transformou em um cacofonia vibrante. O cheiro doce de frutas maduras misturava-se ao aroma pesado de couro cru, ao fumacê das barracas de comida e ao odor adocicado do mel escorrendo de um balcão. Suas botas afundavam levemente na terra batida, agora um tapete de restos de vegetais e palha.

    As pessoas à sua volta vestiam roupas de algodão colorido, limpas e bem cuidadas, um claro sinal de prosperidade. Cruzes de madeira ou prata brilhavavam em seus pescoços, e todos os caminhos pareciam convergir para a imponente catedral ao fundo, sua pedra clara erguendo-se contra o céu azul. Álvaro sabia que ela não se equiparava às grandiosas catedrais do Velho Mundo, mas não podia negar sua beleza rude e solene. “Sem dúvida,” refletiu, “é a mais bela deste Brasil.”

    Os gritos dos vendedores cortavam o ar, cada um mais alto que o outro, tentando atrair a atenção da massa de clientes.

    — Ó, dona de casa! — berrava um homem suado, batendo com uma colher de pau numa panela preta. — Cansou de esperar horas pelo seu feijão? Esta panela de pressão aqui resolve sua vida! Cozinha na metade do tempo!

    De uma barraca vizinha, uma voz esganiçada se impunha:

    — Roupas baratinhas e de qualidade! Venham ver! Camisas, saias, tudo para a família!

    Um pouco mais adiante, um vendedor mais prático anunciava:

    — Botas reforçadas para quem trabalha na roça! Capas de chuva para não chegar em casa molhado que nem pinto!

    O tenente sentiu a boca encher de água ao passar por um comerciante que brandia uma pequena caixa de madeira.

    — Sorvetes! — gritava o homem. — Resfriados com a gema do gelo, ainda geladinhos! E chocolates, senhor? Os melhores da colônia!

    Mas foi a última barraca que prendeu sua atenção.

    — Ferramentas! — anunciava um homem robusto, com avental de couro. — Ferramentas do aço da maior qualidade! Não se encontra igual em todo o litoral!

    Álvaro, disfarçado de homem livre, aproximou-se. As ferramentas reluziam, promissoras.

    — Elas são de aço mesmo? — perguntou, fingindo desinteresse.

    — Mas é claro, meu bom senhor! — respondeu o comerciante, esfregando as mãos em um pano. — Dê uma olhada com seus próprios olhos.

    Ele pegou um machado e entregou ao tenente. O cabo de madeira era áspero e firme na mão, mas a lâmina… a lâmina era fria, lisa e tinha um brilho cinza-azulado sob a luz do sol, diferente do fosco do ferro comum.

    — Este machado aqui — continuou o vendedor, baixando a voz como se compartilhasse um segredo — corta qualquer pau como se fosse manteiga. Melhor que qualquer um de ferro.

    O tenente virou a lâmina, sentindo seu peso perfeito e balanceado. “É de aço mesmo… de excelente qualidade. Será que veio direto do quilombo?”

    — Quanto custa? — indagou, mantendo o tom casual.

    — Mil réis! — anunciou o comerciante, com um sorriso largo.

    “Mil réis?” pensou Álvaro, surpreso. “Por um machado dessa qualidade, está barato demais. Algo não cheira bem.”

    — E… quanto custaria um de ferro? — perguntou, tentando entender a lógica.

    O comerciante soltou uma risada curta, quase um cuspe.

    — Senhor, um machado de ferro sairia por mais caro do que isso, se é que você encontra! Está todo mundo comprando qualquer ferramenta de ferro velha e vendendo para os ambulantes

    A confusão se estampou no rosto do tenente.

    — E para que os ambulantes estão comprando tanto ferro?

    O sorriso do homem desapareceu. Seu rosto fechou.

    — Olhe, meu senhor — disse, a voz perdendo a cordialidade —, se não vai comprar nada, faça o favor de sair daqui. Não atrapalhe meu ganha-pão.

    Sem alterar a expressão, Álvaro pegou um pequeno saco de moedas de dentro de sua túnica e colocou-o sobre o balcão, com um baque surdo. O som metálico fez os olhos do vendedor se iluminarem.

    — Por favor — disse o tenente, suave, porém firme —, responda minhas perguntas.

    O comerciante pegou o saco, avaliou seu peso com a mão e afundou os dedos para examinar as moedas. Um novo sorriso, agora muito mais sincero, surgiu em seu rosto.

    — Mas é claro, meu bom senhor! Como não? — disse, sua voz tornando-se um sussurro conspiratório. — O que se ouve por aí é que o ferro é vendido para os quilombolas. E dizem as más línguas que eles têm um jeito… um jeito próprio de transformar esse ferro velho em aço de primeira.

    Álvaro conteve a respiração. Não esperava descobrir a verdade tão facilmente, e tão abertamente.

    “Como é que o governador não ficou sabendo disso? Para o comércio estar nesse volume, eles devem operar há anos… ou teríamos descoberto. A não ser que…” Um palpite gelou sua espinha. “A não ser que isso seja muito recente.”

    — Faz quanto tempo que o senhor vende essas ferramentas de aço? — perguntou, mantendo a calma.

    — Ah, nem fez um mês direito! — respondeu o homem, guardando o saco de moedas. — Como eu vivo na cidade, comecei a comprar dos comerciantes ambulantes e revender aqui. Mas veja só, já estou pensando em comprar uma carroça e ir direto na fonte buscar os produtos. Deve sair bem mais em conta, entende?

    “Apenas semanas,” pensou Álvaro, aliviado e ainda mais intrigado. “Isso explica a lentidão da informação. Aqui na cidade sagrada, os ofícios são mais tolerados. Para evitar taxas e perguntas, os vendedores escondem a origem dos produtos para escaparem das taxas. E a notícia leva tempo para chegar à Areia Branca.”

    — Entendo… — murmurou. — E basta uma carroça para conseguir comprar esses produtos?

    — Antigamente, precisava de uma permissão da Igreja, um salvo-conduto. Mas agora… agora está uma festa! Qualquer um com uma carroça e capital pode fazer comércio com eles.

    “Esta é minha chance,” pensou o tenente. “Talvez eu deva ir diretamente à fonte.”

    — Obrigado pela informação — disse ele, com um aceno de cabeça, antes de se virar e se perder novamente na multidão, seu rumo agora traçado em direção aos estábulos.

    Não foi difícil achar um comerciante disposto a levá-lo ao ponto de comércio. Um homem mais velho, de olhos cansados e roupas empoeiradas, chamado Seu Bastos, aceitou algumas moedas para dar carona em sua carroça.

    Assim que deixaram os arredores da cidade, a estrada revelou sua verdadeira natureza: um caminho esburacado e empoeirado, ladeado por uma fila contínua de carroças. Era como uma veia pulsante de comércio, com veículos indo e vindo sem parar. A carroça de Seu Bastos trepidava e sacudia a cada buraco, fazendo Álvaro segurar-se com força nas laterais de madeira.

    Ele observou atentamente o tráfego. As carroças que iam para o interior estavam abarrotadas de barras de ferro enferrujadas, fardos de papel. Outras transportavam barris de cachaça, que tilintavam a cada solavanco, e sacas de açúcar.

    Já as que vinham na direção oposta, vindas do quilombo, estavam carregadas de tecidos coloridos, ferramentas de aço que reluziam ao sol, panelas brilhantes, e mais barras de aço, limpas e retas. Algumas carroças menores traziam jarros de cerâmica e caixas de madeira bem fechadas. De uma delas, um cheiro doce e intenso de chocolate chegou até o nariz de Álvaro, fazendo seu estômago roncar.

    “Por Deus,” pensou ele, calculando mentalmente, “quanto dinheiro esses quilombolas devem ter para movimentar tudo isso…”

    Enquanto a carroça sacudia, ele notou algo diferente em alguns veículos: suas rodas não eram de madeira clara, mas sim revestidas por um material preto e flexível, que parecia amortecer as irregularidades do caminho.

    — Seu Bastos — chamou ele, apontando —, o senhor sabe o que é aquilo nas rodas daquela carroça?

    O velho comerciante olhou de relance e bufou, com uma ponta de inveja.

    — Isso é borracha, meu jovem. Ou ‘pneu’, como alguns chamam. Os quilombolas que vendem. Dizem que deixa a viagem menos dolorida nas costas. Tem uns mais ricos até que puseram molas de aço sob a carroça. Coisa fina. Eu queria uma dessas, não aguento mais sentir cada pedra desse caminho.

    — Os quilombolas… conseguem fazer isso? — perguntou Álvaro, impressionado.

    Seu Bastos deu uma risada.

    — Conseguem? Vou te falar, moço, todo mês é uma novidade! No começo, eram só as roupas, bem bonitas. Depois, surgiram essas coisas de borracha. No fim do mês passado, foi o aço. E agora, o chocolate. Já fico ansioso para ver o que vão inventar no próximo mês. É uma pena… — ele acrescentou, e seu tom se tornou um pouco amargo — é uma pena que eu tenha sido teimoso e chegando tarde à festa.

    Álvaro, farejando uma história, incentivou:

    — Por que chegou tarde, seu Bastos?

    O velho não tirou os olhos da estrada, mas sua voz carregava o peso do arrependimento.

    — Fui um idiota. Fiquei insistindo em vender sal para os senhores de engenho da região. Mas o açúcar… o açúcar não vale mais o que valia. Os coronéis estão endividados, a terra está cansada. Eles mal tinham para comprar comida, quem dirá sal. E eu, cabeça dura, fiquei esperando as coisas melhorarem. Até que, de tanto ouvir os rumores sobre o comércio com o quilombo, resolvi levar meu sal para lá. Na primeira viagem, vendi tudo! Tudo que eu tinha! — Ele fez uma pausa, e um sorriso de satisfação suavizou suas feições. 

    — Apesar de chegar atrasado, dei sorte. Tenho meus contatos para comprar sal barato, e não tinha muita gente vendendo sal para eles. Hoje em dia, só trabalho para o quilombo. Não compensa mais sair andando por todo o sertão, com o perigo de ser assaltado por homens ou… por outras coisas, apenas por uns trocados. — Ele arfou, pensativo. — Mas confesso… não sei como eles compram tanta coisa. O quilombo deve ter minas de ouro escondidas, só pode. Como dizem as lendas.

    — E não tem bandidos por essa rota? — indagou Álvaro, olhando para os matos fechados à beira da estrada.

    Seu Bastos balançou a cabeça com convicção.

    — E se tiver, com tanta gente junta, o que vão fazer? — ele deu uma gargalhada. — Sempre tem um ou outro comerciante com uma daquelas armas mágicas. Um grupo de ladrões não teria chance contra uma caravana inteira. Além do mais, no começo, só os comerciantes exclusivos da Igreja andavam por aqui. Que bandido é tão louco para irritar a Santa Madre Igreja e atrair a fúria dos Soldados Divinos para cima de si mesmos?

    Os dois continuaram a viagem, conversando sobre a terra, o preço das mercadorias e os rumores da colônia, até que a floresta começou a abrir e eles chegaram ao seu destino.

    O ponto de comércio não era uma vila, mas um arraial temporário e barulhento. Dezenas de barracas e pequenas lojas de taipa se espalhavam por uma clareira, formando ruas improvisadas. O ar estava denso com a fumaça de churrasco, o cheiro de comida frita e o ruído de dezenas de negociações acontecendo ao mesmo tempo. Algumas lojas, mais permanentes, eram claramente mantidas por quilombolas, que atendiam com um ar sereno e conhecedor. Outras eram de ambulantes que montaram bares toscos para vender cachaça e comida para os outros comerciantes. Placas de madeira ofereciam hospedaria para quem quisesse pernoitar. Aquele pequeno núcleo de comércio era, aos olhos de Álvaro, mais vibrante e cheio de vida do que a própria capital de sua capitania, Areia Branca.

    Enquanto observava o movimento, sua atenção foi capturada por uma cena de organização impressionante que contrastava com a aparente desordem do mercado. Atrás das últimas barracas, onde a floresta começava a ceder, uma ampla faixa de terra estava sendo radicalmente transformada. Dezenas, talvez centenas de quilombolas trabalhavam em uníssono, movendo-se com uma eficiência que parecia coreografada. O ar, já carregado de cheiros do mercado, ganhava ali um novo componente: o odor terroso da terra revolvida misturado ao pó cinzento e seco que subia do material que manipulavam. O som era uma sinfonia constante de ferramentas: o toc-toc ritmado de martelos quebrando pedra, o rangido metálico das pás contra a areia e o arrastar surdo dos blocos sendo assentados. 

    Alguns homens, suados e com músculos tensionados, derrubavam árvores com machados que reluziam ao sol. Outros, logo atrás, preparavam o leito da futura estrada, espalhando uma camada uniforme de areia e pedra britada. E os últimos, os mais especializados, ajoelhavam-se para colocar no lugar os grandes e pesados blocos de uma pedra artificial lisa e cinzenta — o concreto —, alinhando-os com uma precisão milimétrica. Era uma operação de escala avassaladora, que se estendia rumo ao coração do território quilombola, e que seguia acontecendo paralelamente ao vai e vem incessante de carroças sendo carregadas e descarregadas.

    Ele passou horas examinando tudo, fingindo ser um comprador interessado. Observou a qualidade do aço, a resistência dos tecidos, o sabor amargo e puro do chocolate. Era tudo de uma qualidade impressionante.

    No final do dia, Seu Bastos encontrou-o novamente, com um sorriso de orelha a orelha — havia vendido todo o seu sal por um preço excelente. A viagem de volta foi mais silenciosa, com o tenente absorvendo tudo o que vira.

    De volta à Cidade Sagrada, Álvaro não perdeu um minuto. Ele nem sequer trocou de roupas. Dirigiu-se direto ao cais e embarcou no primeiro barco disponível que partia para Areia Branca. 

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