Índice de Capítulo

    As gotas que caem como orvalho são frutos da umidade anormal dessa floresta. Cada pingo é grande como uma rocha e os impactos delas contra a grama, enfim, produzem um som contínuo tal qual uma chuva intensa, mas falsa pelas proporções dessa flora.

    Entre os galhos maiores até os comuns, Raisel se afasta rapidamente do local onde batalhou. Conforme se aproxima em alta velocidade através dos seus saltos sucessivos, consegue avistar no horizonte do céu, a ilha do campanário a dezenas de quilômetros.

    “Eles estão depois de completar a rotação, ou vieram por conta de todo esse caos? Foi uma surpresa quando o senhor Azlam disse que estava acontecendo uma guerra.” 一 ajeitando a espada na cintura, o rapaz enxerga Jeanice, Kimich e Tejin agrupados mais adiante.

    No momento em que os vê, um sorriso com os cantos dos lábios sobe até as bochechas.

    一 Pessoal, está tudo bem?! Eu consegui ajudar aqueles dois que estavam sendo atacados e o velhote vai cuidar do resto 一 pousando por perto, caminha até eles com as mãos cruzadas na nuca.

    A resposta deles? Nunca veio.

    À medida em que ele se aproxima a situação fica ainda mais clara. O rosto contente se fecha aos poucos como uma nuvem que tapa o sol. Os olhos dourados deslizam até a meia-elfa ao lado, mas ela está recolhida em seus próprios braços e evitando encarar os dois mais adiante ou qualquer um.

    As sobrancelhas quase unidas deixam o semblante dele mais estreito. Não por raiva, mas por receio.

    Os pés parecem pesados.

    Raisel segue até parar ao lado de Kimich. Mais alguns metros à frente, Tejin está ajoelhado e inerte com o rosto apontando para o chão.

    一 Ele quebrou. Não sei se vai continuar a viajar com a gente… 一 sem mudar a atenção dos olhos castanhos, o loiro observa firmemente a situação do seu amigo.

    一 Mas… o que aconteceu?

    一 Você viu. Os Cavaleiros de Balmund conseguiram chegar até aqui com a ajuda de Berith 一 apertando as mãos por dentro dos bolsos do sobretudo branco, a voz dele falhou um pouco 一 Aquela mancha de sangue… foi o que sobrou da Ema.

    Não há ninguém que não sentiu a presença de Raisel emergindo como uma erupção naquele momento. Ainda que não emane a sua energia para fora, o peso das emoções do garoto e suas intenções saem de maneira tão intensa quanto uma tempestade; um furacão onde a tristeza são as gotas do ambiente, as nuvens a sua razão e, o vento o seu ódio.

    As manoplas negras cerram-se com tanta força que o metal começa a esquentar. O semblante neutro, confuso, transforma-se em uma expressão enrugada por sua fúria.

    一 R-Raisel, se acalme…! 一 Kimich tenta esticar a mão para agarrá-lo no ombro, mas a pressão frenética deixa o ar denso, quase sólido.

    一 Não bastou fazer aquilo com as pessoas no Centro Comercial… Não bastou escravizar as pessoas de Kromslaing… Não bastou se corromper com um demônio… Não bastou matarem o vovô… 一 os ombros do garoto tremem com a intensidade do aperto nas mãos 一 Eles vão pagar. 

    O rosto, de repente, não expressa mais nada. Mas de sua silhueta, a energia dourada expande vastamente como um clarão. A luminescência não machuca e não repele nada, nem ninguém. Essa luz os envolve gentilmente junto de tudo como as brasas de uma fogueira. As lágrimas escorrendo através dos olhos sobem, desfazendo-se em partículas de pura luz.

    Do lado de fora, esse abraço não é apenas uma brasa. Por quem vê de fora, essa é uma chama intensa, grande e esticada como um pilar, alcançando os céus e ultrapassando as nuvens.

    Tocado pela energia, Tejin se move um pouco enquanto olha para trás. O brilho apagado de seu olhar reaparece pela luz externa do rapaz. Entretanto, por conta do cansaço acumulado, das feridas e do estresse, o mestiço desaba desmaiando.

    A colossal pilastra de Gewissen emanada por Raisel encolhe pouco a pouco.

    Diferente dos demais humanos, curiosamente, a floresta não reage. Pelo contrário, os ventos agradecem à euforia demonstrada. As gramas pintadas por dourado voltam à sua cor verdejante conforme a luz se retraí.

    一 GAROTO! 一 o velho surge despencando dos céus, mas ao observar direito, não havia acontecido nada.

    Fechando o rosto, Azlam para a poucos centímetros de tocar o chão, mas pisa nele pouco depois. O ancião entra naquela coluna brilhante, onde cada pelo de seu corpo arrepia com a sensação acolhedora. Uma energia pura, isenta de qualquer maldade ou pecado, repleta de virtudes e bondade.

    A densidade grande não permite que o som se propague, ou muito menos que a vista enxergue alguma coisa. Somente na sua intuição, Azlam caminha dentro da infinidade áurea.

    一 Já chega. 一 a palma pequena do ancião toca as costas do garoto.

    Nesse momento, ele recolhe tudo o que está emitindo; o som retorna e o vácuo residual desaparece.

    一 Desculpa… Eu só queria confortar eles. 一 cabisbaixo, Raisel encara a si mesmo.

    一 Eu entendo, mas até mesmo um abraço forte demais pode acabar matando. Uma hora, você cansaria e a dor iria retornar… É assim que as coisas são.

    Os olhos de Kimich se abrem repentinamente após ter sido envolvido naquilo. Por outro lado, Jeanice desaba com as pernas esparramadas pela grama.

    O alquimista direciona o olhar até o menino. As palavras não saem da sua boca, mas sim do seu rosto distorcido entre a confusão e a admiração do que acabara de presenciar.

    一 Raisel, você… 一 mas os olhos castanhos percebem alguém se aproximando diante as árvores comuns espaçadas.

    A claridade do pôr do sol está encoberto, não por uma nuvem, mas sim por uma ilha flutuante. Acima deles, o Terceiro Campanário ressoa e dele os Elfos de Sangue Puro descem lentamente.

    Entre as quatro figuras, uma mulher no centro é quem se aproxima mais. Seu cabelo comprido dourado e com pontas curtas como alecrim, a tiara de ouro com a jóia azul no centro e olhos grandes com cor de marfim. Uma respiração pesada, mas sua voz harmônica sai com uma gentileza surreal, tal qual algodões quentes nas orelhas.

    一 Eu dou meus cumprimentos à você, Sábio Honorário. Quem são esses? Ou melhor… o que aconteceu aqui? 一 as evidências contidas no vento da região demonstram a destruição e a alteração da floresta.

    Ela e Raisel trocam olhares e, por um momento, as sobrancelhas dela saltam brevemente.

    “A energia daquele humano é… mais pura do que a nossa…”

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota