Capítulo 22
Muito distante da Rodovia SS 291, o interior do comboio aéreo permanecia tomado pelo ruído incessante das hélices e pelo fluxo contínuo de informações que chegavam da linha de frente. Rarenzzy mantinha-se de pé diante de um painel de comunicação, observando a sequência de relatórios enquanto os operadores alternavam imagens de satélite e transmissões da brigada terrestre. — Atualizem a situação. — ordenou, sem desviar os olhos do monitor. — Qual é o estado do campo de batalha?
Rarenzzy era um homem de estatura imponente, medindo cerca de 1,97 metro de altura, dono de uma presença que naturalmente impunha respeito antes mesmo que dissesse qualquer palavra. De pele parda e cabelos castanhos curtos, vestia um traje tático pertencente à elite militar italiana, confeccionado para operações de alto risco e marcado pelos sinais discretos de incontáveis missões. Sua postura permanecia ereta e firme, transmitindo a impressão de alguém acostumado a carregar o peso de decisões que definiam o rumo de batalhas inteiras.
Entretanto, o traço mais marcante de sua aparência não era sua altura nem o uniforme que vestia, mas a bandana escura que cobria parte de seu rosto. O tecido envolvia a região entre a base do nariz e um pouco abaixo do queixo, ocultando parcialmente suas feições e deixando visíveis apenas os olhos, sempre atentos e difíceis de interpretar. A peça conferia à sua figura uma identidade quase enigmática, tornando impossível ignorá-lo e alimentando o mistério que cercava um dos principais líderes das forças militares italianas.
Já Rache representava o completo oposto. Era um senhor de idade avançada, de cabelos totalmente grisalhos e rosto marcado pelo tempo, onde uma cicatriz horizontal atravessava seu nariz, conferindo-lhe uma expressão naturalmente severa. Apesar da idade, seu físico destoava completamente do esperado; o corpo permanecia robusto, a postura ereta e os ombros firmes, revelando uma vitalidade incomum que fazia qualquer um reconsiderar antes de subestimá-lo.
Enquanto todos ao redor vestiam equipamentos táticos preparados para um eventual combate, Rache mantinha a elegância de um homem que jamais precisara adaptar sua imagem ao ambiente. Trajava um blazer cinza impecavelmente alinhado sobre uma camisa branca e gravata discreta, acompanhado por uma calça social e sapatos da mesma tonalidade, formando um contraste quase absurdo com o interior militarizado da aeronave.
Ainda assim, era justamente essa discrepância que tornava sua presença ainda mais intimidadora.
Ele permanecia imóvel no centro da cabine, completamente inerte, sem demonstrar ansiedade ou curiosidade diante dos relatórios que chegavam a todo instante. Limitava-se a observar em silêncio, acompanhando cada informação com um olhar experiente e calculista, como alguém que já havia presenciado guerras suficientes para compreender que, muitas vezes, o momento mais perigoso não era durante o combate, mas logo depois dele.
— Atualizem a situação. — ordenou Rarenzzy, mantendo o olhar fixo no monitor principal da cabine. — Qual é o estado do campo de batalha?
Um dos operadores levou imediatamente a mão ao fone preso à cabeça, alternando entre diferentes frequências antes de responder.
— Senhor, o agente francês Rover não foi localizado após a última detonação registrada. Consideramos seu paradeiro desconhecido até segunda confirmação. A agente Eleonor permanece utilizando sua Arte Esotérica sobre o safira recém-desperto, enquanto o perímetro foi totalmente isolado pelas forças terrestres. Equipes médicas, bombeiros e policiais já iniciaram os protocolos de contenção e resgate dos civis atingidos.
Outro operador interrompeu a leitura ao receber novas imagens transmitidas por um drone militar.
— A imprensa também chegou ao local, senhor. Helicópteros de emissoras nacionais e internacionais já sobrevoam a área, e diversas equipes estão tentando romper o bloqueio policial para registrar imagens do epicentro.
— As imagens do feixe azul foram registradas?
— Sim, senhor. Há registros de múltiplos ângulos. Mesmo que consigamos retirar os jornalistas da área, o material provavelmente já foi transmitido para as centrais de imprensa.
O silêncio que tomou conta da cabine durou apenas alguns segundos.
— Então não existe mais contenção de informação. — concluiu Rarenzzy em um tom seco. — A partir deste momento, todas as nações envolvidas no conflito saberão que um novo safira despertou em território italiano.
Ao centro da aeronave, Rache permaneceu completamente imóvel, observando o painel tático sem alterar a expressão.
— E isso significa que o confronto na Rodovia SS 291 deixou de ser uma simples tentativa de sabotagem francesa. — disse pela primeira vez, sua voz grave rompendo o silêncio da cabine. — Agora é uma questão de interesse internacional.
Em meio ao caos que dominava o que restava da rodovia, a imagem que mais chamava atenção não era a dos blindados, dos helicópteros ou das equipes de resgate que se espalhavam entre crateras e destroços, mas a de duas figuras completamente imóveis no centro da devastação. Enquanto sirenes ecoavam sem cessar, rotores rasgavam o céu e ordens eram gritadas de todos os lados, Bruno e Eleonor permaneciam paralisados, como se estivessem desconectados do restante do mundo.
Apenas seus olhos permaneciam abertos, irradiando um brilho alaranjado intenso que atravessava a poeira suspensa e contrastava com a coloração azul de seus corpos. O cenário ao redor parecia continuar avançando no tempo, mas, ao redor daquela díade silenciosa, havia a estranha sensação de que os segundos haviam sido interrompidos. Mesmo os soldados mais experientes evitavam aproximar-se além do necessário, limitando-se a manter o perímetro enquanto lançavam olhares constantes para os dois, incapazes de compreender o que realmente estava acontecendo.
Eleonor continuava avançando pela vastidão branca da Casa das Memórias, enquanto as lembranças de Bruno deslizavam diante dela em uma sequência ininterrupta, como uma fita antiga sendo reproduzida sem pausas. Bastava um discreto movimento de sua mão para que uma memória fosse substituída pela seguinte, conduzindo-a por diferentes etapas da vida do rapaz. A infância dava lugar à adolescência, que lentamente cedia espaço aos primeiros anos da vida adulta; amizades, dias comuns de escola, pequenas conquistas, desentendimentos familiares, empregos temporários e incontáveis momentos banais surgiam e desapareciam sem revelar qualquer anormalidade.
O tempo parecia não existir naquele lugar. Eleonor assistia às lembranças com a mesma paciência de quem desmonta um quebra-cabeça peça por peça, procurando um detalhe fora do lugar, uma fissura na narrativa, qualquer evento capaz de explicar a origem daquele poder que havia despertado de maneira tão abrupta. Entretanto, quanto mais avançava, mais evidente se tornava que Bruno havia levado uma vida extraordinariamente comum. Havia tristeza, frustrações e perdas, mas todas pertenciam ao repertório humano, incapazes de justificar, por si só, o nascimento de um safira.
Eleonor manteve o mesmo ritmo de investigação, conduzindo as lembranças de Bruno através do vasto vazio branco enquanto as cenas continuavam avançando diante de seus olhos. A infância cedeu lugar à adolescência, que, por sua vez, deu espaço aos primeiros anos da vida adulta. As memórias prosseguiam em uma sequência lógica, retratando pequenos acontecimentos cotidianos, conversas, perdas e momentos marcantes, mas nada que justificasse a existência de um safira adormecido.
Foi então que algo mudou.
Sem qualquer comando de Eleonor, a sequência interrompeu seu fluxo natural e uma mesma lembrança voltou a surgir diante dela. Era uma cena simples, quase insignificante, que se repetiu exatamente como antes, reproduzindo cada palavra, cada gesto e cada expressão com uma precisão absoluta. Assim que chegou ao fim, a memória desapareceu… apenas para começar novamente.
A Casa das Memórias percorria a trajetória de uma vida de maneira contínua e linear; não havia motivo para uma lembrança retornar espontaneamente, muito menos para insistir em se repetir daquela forma. Ainda assim, a cena recomeçou pela terceira vez, sem apresentar qualquer alteração, como se a própria mente de Bruno estivesse presa naquele fragmento específico.
Mas por um detalhe que permanecia escondido em algum lugar daquela cena, algo pequeno o suficiente para passar despercebido em uma primeira observação, mas importante o bastante para impedir que a mente de Bruno seguisse em frente. A memória repetia-se mais uma vez, silenciosa e implacável, como uma fita cassete presa em um único trecho, aguardando que alguém finalmente percebesse aquilo que ela se recusava a deixar para trás.

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